A Complexa Existência do ser Anômalo escrita por Line


Capítulo 3
Complicações Emocionais


Notas iniciais do capítulo

Atualizando o capítulo só para dá umas explicações: esta história terá sim romance, mas isto não significa que a protagonista se apaixonará perdidamente já nos primeiros capítulos. Este capítulo mostra um pouco da confusão que reina na mente da Anise, porque o Petrus representa tudo que ela tem dificuldade de lidar, e por isso, ela não sabe como reagir a isso. Ah, prestem bastante atenção nas pontas soltas que eu deixei em alguns diálogos!
De mais,a mais, boa leitura!



    Os primeiros sinais de que eu não era igual às outras meninas da minha idade, se deram logo na fase da infância. Só que naquela época, eu acreditava que era apenas um detalhe específico da minha personalidade, afinal, como dizem: “ninguém é igual a ninguém” e “ser diferente é normal”. Mas, na adolescência as coisas ficaram um pouco complicadas, porque eu não conseguia entender “certas” coisas, e tão pouco conseguia explicar o que se passava comigo às outras pessoas. Assim, passei por essa fase de forma um tanto quanto cambaleante. Vivi altos e baixos, sobretudo no ambiente escolar; pode-se dizer que sobrevivi à adolescência, literalmente!

    Eu só descobri o que havia de errado comigo quando, à beira de um colapso nervoso, resolvi procurar ajuda profissional. Iniciei então, uma jornada em busca de um profissional que compreendesse os meus questionamentos. Acabei por encontrar o meu anjo salvador num momento em que a esperança quase se exauria em meu ser. Seu nome é Samuel, e ele foi o único dos que procurei que se preocupou realmente em descobrir a origem de minha dor. Os outros a quem havia recorrido anteriormente, trataram-me como apenas mais uma jovem com tendências depressivas. E a solução para isso, segundo eles, seria tomar antidepressivos, e procurar atividades que distraíssem a mente. Nenhuma dessas opções, contudo, conseguiam preencher o vazio da minha alma.

      O doutor Samuel é um psicoterapeuta com um currículo cheio de especializações e um doutorado em múltiplos transtornos comportamentais. Recorro a ele continuamente, uma vez que a minha síndrome é incurável.  E o fato dela ter sido diagnosticada tardiamente, só piora as coisas. Às vezes sinto como se todo o mundo ao meu redor fosse se dissolver, é como se eu vivesse em uma realidade paralela que a qualquer momento pode se autodestruir.

   Na primeira visita que fiz ao Samuel, de imediato simpatizei com sua figura, ele é um homem de face agradável e receptiva, que aparenta ter bem menos idade do que realmente possui (apesar dos cabelos já grisalhos).  O consultório dele também te faz ficar a vontade, a decoração é harmônica, em tons ‘cleans’, e o espaço é visualmente límpido.

  —Então, senhorita Anise, o que me conta desta vez?” — pergunta-me, em tom descontraído, logo que adentro o ambiente. 

—Ora, senhor Samuel. Pensei que já tivéssemos passado desta fase de formalidades!—devolvo no mesmo tom usado por ele.

—Direta como sempre, pequena Ani. É bom tê-la aqui de novo, embora saiba que não por motivos muito prazerosos. A nossa próxima consulta seria apenas daqui a quinze dias, para você estar aqui de volta, tão cedo, deve ter acontecido algo que a incomodou profundamente. Estou certo?

 —Certíssimo! — respiro profundamente antes de continuar, preciso organizar meus pensamentos para conseguir formular uma boa resposta.  Só então recomeço...

— Há um professor novo na escola, “aquele de quem eu havia lhe falado anteriormente”, só que agora, teremos que trabalhar juntos em um projeto de inclusão...

—Ok. Foram vocês mesmos que escolheram os parceiros, ou foi imposição da direção da escola?

—Foi um sorteio por turmas, cada professor titular formou uma dupla com os de outras disciplinas, como artes, educação física, etc. Ele é de inglês, como você sabe, o currículo  deles é amplo, há pelo menos três idiomas inclusos na grade, além é claro, do português.

—Sim, prossiga então....

—Samuel, você sabe que não me sinto muito a vontade quando conheço pessoas novas, principalmente se elas forem muito diferentes do meu meio social. E que, por isso, às vezes eu travo e não consigo saber como agir.

—Sim, esse é um dos lados de sua personalidade asperge. Você não lida bem com novidades, e tampouco com pessoas que fujam da sua zona de conforto. Sendo assim, diga-me: o quanto o seu novo colega diverge de seu meio social comum?

—Bastante, diria que de numa escala de zero a dez, ele está em 11. Ele é extremamente sério, focado e bem resolvido. Eu quase nunca o noto sorri, exceto quando ele dá alguns breves sorrisos de canto, que são quase imperceptíveis. A obrigação de trabalhar com ele tem sido totalmente desconfortável para mim, uma vez que, quando em sua presença, eu tenho dificuldade de encontrar o tom certo para agir. Assim, nossos encontros para discutir o projeto resumem-se em momentos constrangedores onde eu, hora me atrapalho toda tentando formular frases coerentes, hora dou risadas aleatórias ao buscar amenizar o constrangimento.

—De fato, pelo que você descreveu, seus traços asperge estão em evidência, coisa que já não acontecia há algum tempo. Mas, é só no ambiente escolar que você anda sentindo-se incomodada, ou  isso também está te afetando  fora dele?

—Samuel... como posso explicar, as coisas andam bem esquisitas. Às vezes ajo como a antiga Anise, aquela de antes do diagnóstico, totalmente insegura; um ser anômalo escondido sob uma falsa casca. Estou cada vez mais fechada em volta de mim mesma. Tenho passado a maior parte do meu tempo trancada em casa com meus “filhos” de quatro patas, somente lá, na presença deles me sinto segura. Isso sem falar da minha ansiedade que voltou com tudo também, os sintomas são cada vez mais intensos.

—Ani, minha querida, seja sincera comigo, qual foi o gatilho que serviu para você perder o controle da situação; foi realmente a presença deste novo professor? Aliás, como ele se chama mesmo? Até agora você não citou o nome dele em nenhum de nossos encontros...

   A pergunta me faz gelar a espinha, a verdade é que não disse o nome dele de propósito. Pessoas sem nome para mim são mais fáceis de serem esquecidas.

—Samuel, você sabe que não gravo nomes, por isso não disse o dele, eu esqueci qual é...— meu terapeuta levanta a sobrancelha e retruca de forma enfática:

—Senhorita Anise, ao que me consta, você tinha limitações apenas relacionadas à *prosopagnosia, quanto aos nomes, no entanto; sua memória é excelente.

Argh!—exclamo. —É Petrus. Satisfeito, o nome dele é Petrus!

—Entendi, mais um Petrus em sua vida. Então foi este o seu gatilho, minha querida?

 —Também. Mas a verdade é que ficar perto dele é torturante. Ele não cai na minha personagem, aliás, tenho a leve impressão de que ele me julga um ser irritante até. Quando estamos a sós, preciso estar sempre atenta e agir como uma ‘mulher adulta’, de fato. — Suspiro profundamente  antes de continuar:

—Ah, Samuel, é complicado!  Eu não entendo, com os outros é tão mais fácil... Olha para você ver, a Verônica que é mestra em desvendar pessoas, nunca nem sequer desconfiou de nada. Com ela, a ‘Nise’ funciona bem, de forma natural, e eu me sinto confortável atuando perto dela. No entanto, com ‘esta’ pessoa é tudo tão, tão... estranho, e quase insustentável !”

—Oras , minha querida, é estranho porque você tem dificuldade em decifrá-lo, por isso. Petrus te instiga, num sentido subjetivo cujo qual a senhorita tem limitações crônicas para compreender.

—O senhor fala dos sentimentos humanos, é isso?!

—Sim, Anise, trata-se dos sentimentos comuns como afeto, atração, raiva, frustação, interesses amorosos, ou amigáveis. Como você não os entende direito, o seu filtro para esses assuntos é deturpado em comparação com o das demais pessoas.

—Eu sei disso Samuel, as relações humanas são complicadas para mim. Isso não é um fato novo.

—Ani, a questão nova aqui, são os sentimentos conflitantes despertados pelo seu colega de trabalho. São emoções com as quais você ainda não havia tido contato, e elas continuarão a lhe incomodar enquanto você não aprender a decifrá-los. Além disso, há o agravante do nome dele ser um gatilho perigoso para os seus traumas. É mais um desafio com o qual você precisa lidar.

 —Samuel, mas isso não faz sentido. Eu já tive outros colegas com personalidades iguais as dele antes, e consegui conviver sem problemas. E quanto ao nome, bem, admito que me incomode profundamente, mas este Petrus é muito diferente do outro que eu conheci, então, mesmo com essa coincidência infeliz, as coisas dentro de mim estão por demais esquisitas!— profiro as últimas palavras já em tom de desespero, Samuel é a minha única esperança para entender o que se passa comigo. Só me sinto à vontade com ele, nem mesmo Verônica, a quem considero quase uma irmã, é capaz de fazer este papel para mim.  Samuel tornou-se meu porto seguro, nossa relação ultrapassou a de somente psiquiatra e paciente, há muito tempo.

—Ani, minha pequena, não posso te dar as respostas prontas, você precisa chegar a elas sozinha. Meu papel aqui é apenas te orientar no meio do processo, e minimizar qualquer percalço que venha a surgir pelo caminho. E é por isso, que vou lhe sugerir que volte às reuniões do grupo de apoio, sei que é difícil, mas você precisa exteriorizar esses sentimentos conflitantes, senão, um colapso mental será inevitável. E, antes que me pergunte, eu não vou lhe receitar nenhum calmante forte, pelo menos não agora. Contente-se com os chás de camomila, e afins...

— Ai, Samuel...está bem !—respondo conformada com a situação.

   Com toda a minha resiliência, saio do consultório de Samuel com a promessa de retornar, futuramente, ao grupo de apoio, além de novas sugestões de chás e calmantes naturais. De todo jeito, o simples fato de ter conversado com ele, já me trouxe certo alívio. A vida para alguém com a minha condição, parece sempre muito mais complicada do que realmente ela é. É como se eu vivesse dentro de uma frágil, e bela, bolha de sabão, que pode estourar a qualquer momento. Ao mesmo tempo, há um encanto pela natureza efêmera desta bolha, que me instiga a tentar decifrá-la.



Notas finais do capítulo

*Quem tem prosopagnosia não é capaz de reconhecer parcial ou totalmente o rosto de conhecidos, mas mantém preservada a capacidade de memorizar seus nomes e demais características individuais. *



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