Amor em Pigmentos escrita por Kaline Bogard


Capítulo 2
Tudo retorna ao cinza


Notas iniciais do capítulo

Olá!! Acordei cedo e já tinha alerta me cobrando a att

Huashaushasha aqui está ♥ boa leitura!



Um desses mesmos Alphas se destacou. Avançou costurando entre as carteiras até parar em frente a Kiba, cujos olhos começaram a lacrimejar de medo e raiva. Era real, estava presentes a acontecer: seria tomado ali, não apenas por um, mas por todos os Alphas sem que pudesse se defender! O professor parecia mais perdido do que tudo, e era apenas um Beta. Nunca conseguiria impedir os Alphas.

Mirou o rapaz parado a sua frente, sequer registrando os lindos tons do tecido que compunham as vestes daquele jovem Alpha, ou analisando a postura sinistra e face séria parcialmente escondida pelo par de óculos escuros.

A única coisa que passou pela mente enevoada foi o pior de todos os fatos: o rapaz começou a desabotoar o longo casaco que trajava.

Aquele Alpha queria ser o primeiro. E nada parecia capaz de impedi-lo.

—--

Lançou um breve olhar na direção das grandes janelas. Talvez… talvez se conseguisse se jogar e quebrar o vidro pudesse cair na grama vibrante em um tom que nunca tinha visto antes, que não sabia o nome. Uma cor que lembrava algo vistoso. Cor que só enxergava graças à presença de sua “alma gêmea”. Pois apenas quando companheiros perfeitos se encontravam a maldição shifter caia por terra: as cores se descortinavam e o mundo era visto em suas verdadeiras tonalidades.

Kiba ofegou.

Sua alma gêmea estava ali. Entre aqueles Alphas prestes a perder o controle e lhe impor uma provação desumana, uma humilhação sem precedentes diante de testemunhas paralisadas. Mesmo o professor, um adulto formado e preparado para casos assim, parecia incapaz de se mover. Qualquer gesto impeditivo contra o grupo de Alphas instigados pelo cio repentino de um Ômega poderia descortinar o pior dos desfechos.

Kiba estava em vias de sofrer um estupro. Mas aqueles Betas corriam um grande risco de perder a própria vida.

E então aquele jovem Alpha avançou, sem hesitar. Os olhos escondidos por trás dos óculos de lentes escuras, o casaco já desabotoado deslizando pelos ombros largos, cortou com a imponente presença qualquer rota de fuga que Kiba poderia ter traçado, ignorando o fato que o garoto estava tão abalado pelas sensações que não poderia dar um passo sequer que o tirasse do lugar, nem mesmo para pôr em ação o débil plano de se jogar pela janela. Com o corpo enfraquecido, Kiba só pode erguer o rosto, as lágrimas que se juntavam nos cantinhos dos olhos finalmente transbordaram e deslizaram pelas faces pálidas, traçando riscos gêmeos sobre os triângulos que eram marca registrada do Clã Inuzuka.

Tentou implorar um pouco de piedade, porém os lábios começaram a tremer anunciando o pranto silencioso.

Mamãe, foi o derradeiro pensamento antevendo o pior.

Em seguida o movimento que Kiba nunca iria prever. O grande casaco não foi jogado ao chão ou colocado em alguma carteira. O Alpha usou a peça para envolver o corpo menor e proteger o Ômega com ele.

— Não tenha medo — ele sussurrou numa voz grave e preocupada — Não vão machucar você.

Algum Alpha rosnou mais a frente da sala. A resposta do desconhecido foi imediata: ele projetou a própria presença de um jeito tão agressivo que os demais shifters se recolheram, incapazes de ir contra a essência tão forte. Nem parecia possível que alguém tão jovem reagisse daquela forma! Até o professor ficou chocado.

— O senhor deveria levá-lo para enfermaria — falou para o sensei. Suor juntava na fronte de expressão séria, provando que mesmo para ele era árduo resistir ao cheiro. Leve cheiro de...

O homem deixou de perder tempo. Era um Beta e não se afetava com o cio de um Ômega. Seria perfeitamente seguro se aproximar do garoto. E foi o que fez.

— Apenas respire — falou para Kiba, enquanto o pegava nos braços — Tsunade-sama está no Conselho. Ela vai te ajudar.

Kiba sentiu uma onda de gratidão e alívio tão grande que deve ter fluído por toda a sala, dada a incapacidade momentânea de esconder os próprios sentimentos. Queria agradecer o Alpha que o ajudou, porém ainda não tinha voz ou capacidade de manter a consciência por mais tempo, o florescer do cio e a explosão de cores foram demais para que suportasse.

O sensei o carregava para fora da sala quando perdeu os sentidos.

—--

Kiba abriu os olhos e fitou o teto acinzentado do quarto. Por alguns segundos percebeu-se confuso no limiar da realidade, como se despertasse de um sonho ruim. Logo os acontecimentos recentes vieram a mente e ele acordou de uma vez.

Sentou-se na cama com dificuldade, o corpo parecia ter levado uma surra pior do que as que levava da mãe depois de aprontar. Sentiu um pouco de falta de ar, talvez um princípio de pânico. Logo uma mão firme o tocou no ombro e ele se deu conta de que Tsume estava sentada ao lado da cabeceira, uma expressão preocupada que nunca tinha visto na face daquela mulher.

— Não tive culpa… — Kiba se explicou com medo de piorar a situação em que estava.

Tsume respirou fundo. Em momentos assim sentia o peso de ser uma mãe linha dura. Fazia isso pelo bem dos filhos, mas pagava o preço.

— Eu sei, moleque. Ninguém tem controle sobre o cio e o seu se antecipou pelo menos dois anos.

Kiba relaxou e voltou a deitar-se. Mal podia acreditar em tudo o que aconteceu, no medo que sentiu ao estar a um passo de sofrer uma violência da qual só ouviu falar em noticiários na TV ou em manchetes de jornal.

Estupro coletivo contra Ômegas era uma infelicidade que nos dias atuais aconteciam raramente. A lei era muito rígida com Alphas que quebrassem as regras, fosse qual fosse a justificativa. Haviam evoluído o bastante para que a parte racional do shifter tivesse mais influência sob o comportamento do que a parte irracional. Criou-se políticas de prevenção, aumentou-se a interação entre as castas. Certos pontos de socialização, que antes eram divididos por casta, passaram a ser mistos. Tudo em prol do bem comum e da proteção dos Ômegas, que eram mais fracos, vítimas que não conseguiam se defender.

Os resultados vieram no decorrer dos anos. A geração de Kiba herdou uma sociedade muito mais justa, ainda que episódios medonhos ainda existissem, pois mau caráter também era fator gatilho em uma agressão.

— Que medo eu senti — Kiba sussurrou sem poder se segurar.

— Filho…

— Agora não to sentindo nada… passou…? O… hum… cio? — foi impossível não corar ao falar sobre tal assunto com a mãe.

Se fosse com a irmã mais velha, Hana, acabaria conversando com mais facilidade.

— Não — Tsume respondeu com paciência. Era uma Beta, assim como a primogênita. Criar um Ômega era tarefa complicada — Tsunade lhe deu uma infusão concentrada de inibidor. Você ficou inconsciente por algumas horas, por sorte o Conselho está preparado para isso desde que abriu espaço pra que Ômegas assumissem cargos aqui. Nos cederam um dos quartos de descanso dos funcionários pra você se recuperar.

— Ah… — Kiba ajeitou-se na cama.

Tinha estudado muito o assunto obrigatório. O cio referia-se ao início do período fértil da vida de um Ômega ou de um Alpha. Mas acontecia de modos diferentes para as castas. No caso de Ômegas costumava acontecer por volta dos dezenove anos, salvo raras exceções. Durava em média sete dias em ciclos de seis meses. Nessa época a taxa de fertilidade batia os cem por cento, além de outras mudanças pontuais sendo a propagação da essência o mais importante, pois o cheiro do Ômega se espalhava pelo ar em busca de Alphas que estivessem por perto, herança dos primeiros antepassados que trazia forte carga animal: a necessidade de reprodução para a perpetuação da espécie.

Remédios inibidores cortavam sobretudo o cheiro de ser projetado e isso garantia a segurança dos Ômegas para interação em qualquer época, ainda que licenças médicas fossem obrigatórias nessa semana em especial. Todos os Ômegas, de ambos os sexos, eram dispensados do serviço ou da escola para ficar em casa e se cuidar. Era a única vantagem que Kiba via na coisa toda, apesar de que, no amadurecimento normal, só poderia usar essa semana de folga quando já estivesse fora da escola…

— O que causou isso? — Tsume perguntou com suavidade.

— Hum? — Kiba virou-se na cama e deitou-se de lado, para poder observar a mãe.

— Tsunade disse que um estresse muito grande pode forçar um Ômega a antecipar o cio. Alguém fez algo contra você naquela sala? — a voz ela era calma, mas os olhos eram um poço de fúria. Se um Alpha tivesse tentado encostar no seu bebê e despertado o cio antes do tempo, não deixaria pedra sobre pedra até que ele fosse punido.

Kiba hesitou por alguns segundos. Não era de seu costume mentir ou usar de rodeios, porém ele também estava confuso.

— Vi cores, mamãe — ele revelou com um aperto na garganta — Meu companheiro estava na sala… minha alma gêmea — os olhos marejaram — Mas ao invés de tentar falar comigo, ele também ia me atacar, seja lá quem for.

Quão mau deveria ser seu companheiro? Ele também passou a ver as cores, não? O Alpha sabia que a alma gêmea, sua contrapartida Ômega estava ali. E ao invés de tentar investigar a situação, apenas se rendeu aos instintos.

O único Alpha que foi forte o bastante para se opor ao comportamento animal não podia ser seu companheiro destinado, podia? Se fosse ele, não estaria por ali, para falar com Kiba? Ele não pareceu afetado pela explosão de lindas cores que cobriam o mundo. Não agiu como se algo estivesse diferente, a não ser para impedir a violência contra Kiba.

— Nunca mais quero encontrar meu companheiro — ele decretou desanimado.

Tsume não disse nada, se permitiu apenas fazer carinho nos fios de cabelo castanhos bagunçados, tentando enviar algum conforto. Estava espantada, claro. Encontrar o companheiro já era difícil. Mas encontrar a alma gêmea, aquele chamado de “companheiro perfeito” era algo além da imaginação. A única forma de quebrar a maldição shifter e passar a ver o mundo em suas verdadeiras cores.

Poucos shifters… pouquíssimos na verdade tinham tanta sorte.

Compreendeu perfeitamente o despertar tão antecipado. E lamentou pelo filho, cujo destino parecia estar brincando com ele ao ofertar a chance de ver o mundo colorido, mas apenas aceitando um Alpha que cedia fácil à própria animalidade.



Notas finais do capítulo

Meu amor pelo ship não permite que eu escreva Shino sendo mal com o Mozinho. Mas permite outras maldades. Pensaram que eu ia dar um arco-íris pra Baby-Kiba assim tão fácil?

Ja-Mas

Até quarta!!



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