O Inverno Sem Fim escrita por ThayLOliveira


Capítulo 1
Waking Up


Notas iniciais do capítulo

Depois de um longo tempo, resolvi reescrever essa história.
Agora os capítulos ficaram beeem maiores xD
Já tinha postado aqui a primeira versão, mas decidi apagar e repostar do zero.
Bem vindos à nova versão de O Inverno Sem Fim.



As pessoas mais religiosas costumam dizer que Deus planeja tudo na vida de alguém, já as que acreditam na astrologia e/ou nos horóscopos dizem que é tudo destinado. Que está escrito nas estrelas. Porém, nunca esperam algo ruim. Então ao lembrar que Deus e/ou Astros fazem isso, pode ser um tanto cruel para alguém que está passando por alguma enfermidade.

E quando se trata de uma pessoa, que por algum motivo está sofrendo e causa danos a si próprio, na tentativa de amenizar a dor – ou simplesmente colocar um ponto final naquilo – acaba recebendo julgamentos – os piores possíveis – e com isso a dor duplica, podendo dar um impulso maior para se jogar em direção à morte.

Era o que, basicamente, podia se encontrar no quarto 221 do hospital central da cidade chamada Glenn, na Califórnia.

— E-eu morri...? – a garota recém desperta perguntou, ao abrir os olhos, tentando acostumar-se com o excesso de claridade daquele cômodo. Tudo extremamente branco. Podia sentir com facilidade o aroma de lavanda e álcool. Ao fundo, podia ouvir os lamentos de uma mulher que chorava copiosamente. A voz era familiar para a garota.

— Minha filha! – disse a mulher, se aproximando um pouco mais do corpo da garota, que repousava naquela cama de hospital. – Achei que te perderia para sempre! – a mãe da garota Chorou mais ainda enquanto acariciava o rosto da filha.

— Mãe... – a garota falava com dificuldade. – O que aconteceu?

— Oh, minha querida... – a mãe tentava amenizar a voz embargada. Em vão. – Vamos deixar isso para outro dia, tudo bem? – a garota mexeu a cabeça, dizendo que sim. – Vou chamar uma enfermeira, ou o médico para informar que você já acordou. – continuou. Ao mesmo tempo em que enxugava as lágrimas que tinham molhado seu rosto. – Daqui a pouco eu volto, tá bom? – começou a levantar-se da cadeira, que estava ao lado da cama da garota. Deu um pequeno beijo na testa da filha e saiu do quarto. A deixando só por um instante.

A garota engoliu em seco e percorreu o olhar pelo cômodo em que se encontrava. Era tudo muito simples. Havia o básico para alguém que estava em um hospital. Tentou ajeitar-se na cama, mas cada músculo de seu corpo doía, como se tivesse dormido em uma posição extremamente ruim.

Na parede em sua frente, havia uma televisão que estava pregada à parede. Estava desligada. Podia ver seu reflexo desfocado. Tirando fato de que sua visão não era uma das melhores. Desde pequena tinha problema na visão, impedindo-a de enxergar as coisas com clareza. Soltou um pequeno suspiro, na curiosidade de ver como estava sua aparência. Ao mesmo tempo que tentava se lembrar do que havia acontecido para ter chegado ali. Mexeu a cabeça para o lado esquerdo, onde tinha uma grande janela, e um armário que ocupava a extensão da parede, logo abaixo da janela. No lado de fora, podia ver a neve caindo. O inverno chegara na Califórnia e a garota estranhou. Não lembrava de estar nevando em sua última lembrança. Balançou um pouco a cabeça tentando afastar pensamentos ruins, amaldiçoando-se logo em seguida, ao sentir uma leve tontura.

Em cima do armário, conseguiu ver três porta-retratos, alguns vasos com flores e pequenos balões, com mensagens otimistas. Odiava o pequeno fato de que não conseguia enxergar com clareza quais fotos estavam nos porta-retratos. Desistiu de forçar os olhos e olhou para seu lado direito. Onde encontrava-se um pequeno armário, e viu seu celular em cima. Uma luz verde piscava lentamente, querendo informar que havia notificações não vistas. Tentou mexer-se mais uma vez, para pegar o celular, mas não conseguiu nem levantar o braço. Seu corpo estava doendo demais. Soltou uma grande quantidade de ar do pulmão.

Na mesma direção que estava o pequeno armário, um pouco mais longe, viu um sofá encostado na parede e logo acima uma janela de vidro, que estava coberta com uma cortina meio transparente e ao lado uma porta, que estava fechada. A mesma porta que por onde sua mãe saíra a procura do médico.

Olhou um pouco mais ao redor do quarto, aproveitando para gravar na memória cada canto daquele cômodo que era tão quieto, que a deixava um pouco desconfortável.

— Rias Katherine Galbraith. É ótimo ver que você acordou. – o médico começou a dizer assim que entrou no quarto 221. Rias estreitou um pouco os olhos e conseguiu ler o nome do médico no crachá dele. Daniel Lynch, era seu nome. Logo atrás, estava sua mãe, inquieta. – Vamos por partes. – pegou uma prancheta onde estava as informações de Rias desde o dia em que chegou ao hospital. – Preciso que você fique calma e não entre em desespero. Tudo bem?

— Sim, senhor. – disse Rias, tentando sorrir.

— Bom... Você ficou em coma por 71 dias e – olhou rapidamente para seu relógio de pulso. – 15 Horas. Ou, dois meses e 10 dias. – nesse mesmo momento, Rias, sem perceber, prendeu a respiração e começou a pensar em várias coisas. Em seus amigos, no garoto que estava gostando “secretamente” na escola, em alguns parentes, em algumas datas onde sabia que tinha alguns compromissos.

— Que dia é hoje? – perguntou com os olhos arregalados. Sentindo seu coração bater mais rápido, a máquina que media seus batimentos cardíacos apitava num ritmo irritante para ela.

— Rias, preciso que você mantenha a calma. – disse o médico, deixando a prancheta em cima do pequeno armário ao seu lado. Pousou sua mão esquerda no ombro de Rias. – Respire fundo. Pegue a maior quantidade de ar que conseguir, pelo nariz e solte lentamente pela boca. Repita esse processo mais duas vezes. – instruiu o médico a Rias. E ela assim o fez, conseguindo se acalmar a cada vez que soltava o ar. Conseguia respirar com mais facilidade agora.

— Desculpe.

— Tudo bem. Respondendo à sua pergunta: hoje é dia 10 de novembro. – Rias começou a chorar. Daniel Lynch não soube interpretar de cara qual – ou quais – motivo ela estaria chorando. Sentiu pena da garota, e deixou entendido na sua mente que ela poderia ter perdido datas importantes no tempo que ficou em coma. Soltou um suspiro alto. – Irei deixar vocês por um momento. Em breve virá um enfermeiro para dar a medicação e faremos alguns exames, para saber se está tudo em ordem. Depois volto para conversar com mais calma, tudo bem? – Daniel falou, se referindo à mãe de Rias no fim da frase, com um pequeno sorriso no rosto. A mãe de Rias assentiu, sentando-se ao lado da filha logo depois que o médico deixou o quarto.

— Mãe, pode me ajudar a sentar? - A mãe não respondeu, mas levantou da cadeira e ajudou a filha a ficar sentada na cama, ajeitando os travesseiros a modo que ela ficasse confortável. Rias soltou pequenos gemidos ao sentir a costa doer um pouco, mas logo sentiu o alivio por ter mudado de posição. – O que é aquilo? – apontou para uma pequena cesta que estava com alguns envelopes.

— São algumas cartas que seus amigos trouxeram nas vezes em que vieram lhe visitar. Você quer ver?

A garota mexeu a cabeça, dizendo que sim. Ao pegar os envelopes, reconheceu a letra de quem havia escrito as cartas. Todas eram da mesma pessoa. Pela segunda vez, desde que acordara, a garota engoliu em seco.

Rias sentiu seu corpo gelar e sabia muito bem que não era por causa do inverno. Mas a sensação era a mesma de que estivesse deitada na neve com roupas de verão. Respirou fundo, soltou o ar lentamente pela boca e abriu o primeiro envelope:

"Hey, Rias,
Quanto tempo? Talvez duas semanas.
Não estou contando, mas parece uma eternidade.
Pensei em te visitar, levar flores, mas ele sempre estava lá, sentado ao seu lado, e eu não queria incomodar.
As coisas por aqui não são as mesmas sem você. Queria ter te dito isso antes, e vou, assim que você acordar.

Sinto sua falta.

Seu amigo,

Charlie.

“Ele”? Charlie estava se referindo à Phelipe?

Lágrimas começaram a molhar o rosto de Rias. Mais uma vez, se perguntou o que havia acontecido para chegar aquele ponto. Por mais que pensasse, não conseguia lembrar de nada. Enxugou o rosto com as mãos e pegou o segundo envelope:

"Olá, Rias,
Sou eu de novo.
Se passaram alguns dias desde a minha última carta.
Espero que tenha se sentido solitária, porque eu me sinto.
Lembra da Misa? Ela tá quase do meu tamanho. Sério, ela até me expulsa da cama. Mas isso não importa, nada importa.
Sem você a casa parece vazia, sempre esteve, mas só agora percebi.
Me perdoe por nunca visita-la, nem eu sei do que tanto tenho medo. Eu ajudo sua mãe sempre que posso, mas ainda não estou preparado pra entrar e te ver desse jeito.

Volte logo, Rias.

Sou eu, seu amigo de sempre,

Charlie.

Rias esboçou um pequeno sorriso ao lembrar-se de Misa, a gatinha que Charlie havia adotado não muito tempo.

Sem Rias perceber, sua mãe caíra no sono, ao observar sua filha amada lendo as cartas com carinho. Um sentimento de tristeza invadiu a garota, ao lembrar que nunca teve a chance de se encontrar com Misa.

Me perdoe, Charlie. Eu realmente não me lembro de nada.

Pegou o terceiro envelope, antes que chorasse uma vez mais:

"Querida Rias,
Você está me deixando sem graça.
Sinto falta das nossas conversas que ninguém mais entendia, de como a gente tinha nossa própria frequência.
Gostaria de ouvi-la cantar de novo, mesmo que não fosse pra mim.
Hoje eu fiz um progresso, consegui ao menos vê-la pela janela. Mas ainda tive medo, medo de que caso você acordasse, eu não fosse o que você esperava. 
De qualquer forma, não ligue pra mim. Todos estão te esperando, então faça o favor de acordar.

Com amor, apenas um amigo,

Charlie.
 

Rias conseguia sentir a tristeza de seu amigo. Estava se sentindo a pior pessoa do mundo. Queria sumir, desejou nunca ter existido.

Olhou para sua mãe, que estava dormindo. Reparou em seus olhos inchados pelas lágrimas, as grandes olheiras que denunciavam noites em claro. Desviou os olhos e fitou a neve que caía no lado de fora. E então, viu seu reflexo. Nítido o suficiente, para ver o estrago. Via as lágrimas caindo sobre seu rosto que estava tão fino que poderia facilmente fazer um cosplay de uma caveira. E mais uma vez, perguntou-se o que tinha acontecido. Olhou para seus braços, e viu que um deles estava espetado por uma pequena agulha onde recebia o soro. Percebeu que seus braços estavam mais finos do que se lembrava, era possível ver facilmente os ossos da mão e do pulso. Fechou os olhos com certa força, sentindo um peso enorme de culpa.

Respirou fundo e pegou o quarto e último envelope que estava na pequena cesta:

"Querida Rias,
Tem algo de errado comigo. Eu sinto um vazio aqui no peito, nada parece ser capaz de preenche-lo.
Antes eu acreditava que desde que você estivesse do meu lado eu seria capaz de lidar com qualquer que fosse o problema, mesmo que o mundo inteiro ficasse contra mim, você nunca me deixaria. Você me mantinha erguido, nunca permitiu que eu desistisse. Mas eu falhei em te retribuir, não consegui enxergar os sinais, quase te perdi.

Eu sou um péssimo amigo.

Desculpa, Rias. Eu vou me esforçar pra ser melhor do que isso.

Sou eu,

Charlie."

Rias conseguia sentir a dor passada pelo papel nas pequenas palavras riscadas. Que estavam ilegíveis. Nenhuma palavra foi dita, apenas lágrimas saíam. Silenciosamente. Respirou fundo várias vezes, tentando se acalmar. Tentando cessar as lágrimas. Enxugou seu rosto úmido e ouviu leves batidas na porta.

Um enfermeiro entrou com dois copos plásticos, um deles era menor e continha dois comprimidos. O outro havia água, para facilitar a descida dos comprimidos. Rias pegou os dois copos com uma pequena dificuldade, agradeceu e ingeriu o medicamento. Devolveu os copos para o enfermeiro, que esboçou um pequeno sorriso triste para ela. Jogou os copos no lixo, e saiu do quarto.

Lentamente, Rias sentiu o sono invadir seu organismo sem permissão. Enquanto pensava em tudo no que acabara de ler, chorou mais um pouco e adormeceu.

Rias esquecera do que tinha feito. Foi um tanto grave. Ela sofreria ao lembrar, pessoas iriam sofrer mais ainda. Visto que, somente a mãe e o médico sabiam do verdadeiro motivo de ela estar ali.





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