Os Guardiões do Tempo: Agentes da Ordem - Parte II escrita por R G Assis


Capítulo 5
Capítulo 3 - Duas vidas




O relógio tocou, já era cedo, tinha de levantar. Melanie abriu bem os olhos esticando o corpo e bocejando, olhou para o marido ao lado que ainda não tinha acordado, beijou seu ombro, lembrando como era bom tê-lo novamente em casa, Will havia acabado de chegar de uma temporada extremamente longa no exército, seu cabelo raspado arrepiou quando ela o beijou.

Afastou-se colocando os chinelos, foi em direção ao pequeno quarto que os dois filhos dividiam, no seu pequeno apartamento no subúrbio de Cardiff. Sentiu uma pontada na têmpora, filhos... Ar... Be... viu a pequena placa pendurada na porta, Daniel e Jamie, eram os nomes deles, seus filhos, ignorou o momento de confusão e foi para a pequena cozinha preparar o café.

Quando terminou acordou os filhos para se aprontarem para a escola, deixou Will dormindo, não precisava acordá-lo tão cedo, os meninos sentaram à mesa, os dois com cabelos castanhos e olhos esverdeados como, como os do falecido avô, que nunca havia acordado de um misterioso coma.

Como... Não acordou?

Mel tentava se lembrar do pai, na verdade estava tendo uma manhã realmente confusa, sem muita certeza das coisas.

"Vou passar na casa do Itan depois da escola... mãe? Está ouvindo?"

"Sim... querido."

Sorriu, um sorriso que pareceu a ela forçado. Ora essa, tinha de parar com os devaneios, tomou seu café em silêncio acompanhada dos filhos, depois voltou ao quarto para se arrumar, colocou sua calça social, junto a sua camisa branca e um blazer, olhou-se no espelho e aquilo lhe pareceu errado, era uma cópia perfeita da mãe, até com aqueles quilinhos a mais que pareciam apertar os botões.

Mãos envolveram sua cintura enquanto se olhava confusa para o espelho, braços fortes e tatuados a envolviam, braços fortes demais, que demonstravam uma pequena obsessão por exercícios excessivos.

Seu coração acelerou, não por prazer ou por excitação, mas por medo, não por medo do homem que a abraçava e sim o medo por não sentir nada, não sentia nada enquanto Will a abraçava e beijava seu pescoço. Will...ela lembrava de seu casamento?

"Eu... tenho que ir..."

Falou se afastando do abraço do marido.

"Tudo bem, te vejo mais tarde."

Will a puxou a beijando e Mel se afastou sorrindo fracamente sem olhá-lo nos olhos.

O que está acontecendo comigo?

Pegou sua bolsa e seguiu para o corredor onde seus filhos esperavam na frente do velho elevador.

***

Deixou os filhos na escola e seguiu para seu emprego em um escritório de uma pequena transportadora que estava em crescimento, com a faculdade de logística que havia feito e não terminara por causa da primeira gravidez, foi o que Melanie conseguiu na época e por ter crescido dentro da empresa, chegando ao melhor cargo de administração, não saiu mais de lá.

Sentou em sua mesa desejando bom dia para pessoas que passavam e ela não conseguia se lembrar dos nomes e nem se já havia visto tais rostos antes.

Aquela dor novamente... sua cabeça latejava como se algo estivesse errado, mas o que seria se aquela era sua vida, sempre fora... era... sempre?

Apoiou os cotovelos na mesa, segurando a cabeça com as mãos... não... não... tudo é real, a minha vida é real, eu estou aqui, aqui na... qual era mesmo o nome da empresa? Está tudo bem, tudo bem, tudo bem, eu vou ficar bem...

Abriu os olhos e tudo estava normal, como devia ser, sorriu voltando-se a seu trabalho, ligou o computador pronta para mais um dia, mais um dia... sobrevivendo.

O sorriso morreu enquanto começava a mexer nos arquivos e pegar algumas pastas em sua gaveta automaticamente, como fazia há anos e parecia que sempre faria.

***

O dia parecia não passar, estava quase na hora do almoço, Melanie digitava e fazia planilhas, atendia ao telefone, tudo no automático como se não soubesse exatamente o que estava fazendo, como se toda a sua vida, aquela que se lembrava estivesse errada, mas não podia estar, aquela era sua vida.

Como seu cargo lhe permitia ter um horário um pouco mais flexível, Mel saiu alguns minutos mais cedo, pegou o carro e dirigiu pela cidade, sem ir a nenhum lugar específico, parou em frente a um lago, aquele que passeava com os pais quando criança, sentou-se em um banco admirando a paisagem, foi quando estava distraída com seus pensamentos que ouviu seu nome em um sussurro no farfalhar do vendo.

Melanie...

Olhou ao redor, não havia mais ninguém. Outra brisa.

Melanie...

Levantou-se assustada. O quê esta acontecendo? Estou ficando louca?

Correu para o carro, a voz pareceu acompanhá-la, como se algo dentro dela estivesse gritando.

Acorde! Acorde! Acorde!

"Não, não, não, não é real, é só imaginação, não tem nada de errado comigo. Eu estou aqui, estou aqui, estou aqui."

Apertou as mãos no volante, sentindo ardor ao apertá-las demais, os nós dos dedos já estavam brancos, sua respiração acelerada aos poucos foi se acalmando, conseguia se concentrar na dor em suas mãos agora, aos poucos foi soltando-as, relaxando os braços, suspirou aliviada ao se acalmar.

Ligou o carro e dirigiu em direção ao restaurante em que sempre comia, somente agora percebia o quanto estava com fome.

***

Finalmente aquele dia conturbado havia acabado e Melanie poderia deitar-se em sua cama e dormir em paz, pelo menos foi o que pensou ao se deitar, o que infelizmente logo iria descobrir que estava errada.

Acordou suando, assustada com o coração acelerado por um pesadelo que não conseguia se lembrar, estava tão assustada que a única coisa que a confortaria seria o abraço de Arthur...

Olhou para o lado da cama onde ele deveria estar, seus olhos se arregalaram de susto ao ver que não era ele, pulou da cama em pânico.

"O que está acontecendo?"

Tentou se lembrar do seu dia, que passou com... onde..? Tentou se lembrar de sua família de seu pai que havia morrido... não! Ele está vivo!

Arthur...

O nome soava familiar, mas ainda estava confuso, correu para o banheiro e se trancou lá tentando pensar, agachou-se encostada na parede lisa e gelada, tremia tentando organizar sua mente sussurrando baixo para si mesma.

"Quem é Arthur? Por que sinto como se o tivesse perdido?"

Perdido.

"O que eu perdi?"

Sua mão escorregou por sua barriga, como sempre fazia quando estava grávida de Ben.

Ben!

"Benjamin!! Arthur... Art!!"

Olhou para baixo assustada, para o próprio corpo que agora não parecia ser o seu, lembrou-se do toque de Will parecer totalmente estranho para ela enquanto se olhava no espelho, como se estivesse errado, e se estivesse errado?

Melanie lembrava claramente das crianças em que embalara em seus braços e tinha certeza que não eram nenhum dos dois que estavam dormindo no quarto ao lado, podia não ter certeza sobre Will ou Arthur, ou sobre sua vida, mas nunca os esqueceria, nunca esqueceria seus filhos, nunca se permitiria perdê-los e com esses sentimentos vieram uma certeza, mesmo que ela não soubesse o que estava acontecendo, mesmo que pudesse ser loucura e ela fosse acabar com sua vida a partir do momento em que decidisse sair daquele apartamento Melanie o faria mesmo assim, a dor que vinha de dentro do seu ventre a impelia a frente, não sabia como, mas recuperaria seus filhos, recuperaria sua vida.

Batidas apressadas soaram a porta a assustando.

"Mel, é você que está aí? Está tudo bem?"

Respirou fundo, já decidida, ainda com a mão em seu ventre olhou ao redor e encontrou algumas roupas empilhadas, pegou uma calça jeans e uma camiseta as colocando apressada, as batidas continuaram, Mel abriu a porta, quase fazendo Will cair em cima dela.

"Mel? O que está acontecendo? Onde você está indo?"

Sem olhá-lo vasculhou o chão procurando o que calçar, colocou um par de sapatilhas que estavam próximas aos quartos, quando as calçou a sua frente um garotinho a olhava enquanto esfregava os olhos de sono, Melanie o encarou com os olhos arregalados.

"Mãe, o que... por que todo mundo... tá acordado?"

O menino olhou para o pai o questionando, depois olhou para a mãe...

Não! Não! Não!

Melanie tinha de sair dali antes que perdesse a coragem, virou as costas e correu para a porta, quase sendo pega por Will, mas conseguiu se esquivar de suas mãos e correr em direção as escadas de incêndio, não teria tempo de pegar o elevador. Correu o mais rápido que conseguiu, até finalmente encontrar a saída do pequeno prédio residencial, onde escapou pela porta em direção à rua onde parecia estar caindo uma tempestade.

A chuva a encharcava enquanto corria pelas ruas, suas roupas recém-colocadas colavam-se ao seu corpo, mesmo com o vento e a água gélida, seus pensamentos continuavam confusos, conforme andava tudo parecia familiar e estranho na mesma medida, continuou correndo sem saber ao certo para onde, só sabia que tinha de chegar, algo a impelia a frente, uma urgência assustadora, mais uma esquina e chegaria a seu destino.

Quando viu a construção deteriorada ficou ainda mais confusa, não era isso que esperava, lembrava agora com mais clareza à medida que chegava mais perto, se aproximando das vitrines vedadas por tábuas passou a mão pela madeira gasta chegando à porta que também estava lacrada, por impulso começou a arrancá-las, tinha que entrar de qualquer modo, quando conseguiu abrir uma brecha quebrou o vidro, um alarme soou, tinha de entrar rápido, ficou ainda um tempo forçando a porta a abrir, tempo suficiente para ouvir sirenes ao longe, entrou apressada batendo o que sobrou da porta a suas costas, caiu no chão de joelhos, procurando.

"Tem que estar aqui! Por favor, tem que estar aqui."

Continuou se arrastando até achar uma tábua solta e a puxou olhando aliviada para o pequeno embrulho de veludo, pegou-o e tirou um livro de dentro dele, o livro emitiu uma luz roxa e esquentou assim que tocaram suas mãos, no mesmo instante que tremeluzia como um holograma.

Quando a polícia chegou para verificar o local, ninguém havia mais ninguém, somente um buraco vazio no piso solto de uma velha livraria abandonada.





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