Hello There 2 escrita por Weirno


Capítulo 4
S02EP04 - Silent Night, Deadly Night


Notas iniciais do capítulo

Noite Silenciosa, Noite Mortal

Jordana toma atitudes sobre a grande casa alugada, ao mesmo tempo que reencontra um rosto conhecido. Atrasada para sua grande estreia, April é pega por uma perigosa surpresa.



Caminhando animadamente pela rua, observando o movimento da cidade, a albina repensava suas ideias. Depois de tudo o que havia acontecido, levada por uma impulsividade desconhecida para ela até aquele momento, reconheceu que a casa alugada era muito grande para duas garotas pequenas. Com isso, a ideia de transformar o lugar em uma espécie de hotel surgiu, mas isso era muito absurdo até mesmo para ela, e sabia que, nem em um milhão de anos, Emily iria aceitar a ideia depois de tudo o que havia acontecido e com o que persistia em ficar em sua cabeça. Por isso, teve uma segunda ideia, a mais viável.

Procurou pela internet por clínicas veterinárias que aceitassem adoções em Oakfield, e por sorte acabou encontrando uma próxima de sua casa, a House & Pet’s Clinic, gerenciada por um homem chamado Logan Bates. No momento, ia até ela ver as opções de cachorros, que era sua escolha preferida como companhia. Queria um pequeno, para não dar trabalho, e de preferência o mais calmo. Sabia que seria um bom tipo de companhia e as distanciariam dos problemas recorrentes de suas vidas. Seria bom para ambas, sem sombra de dúvidas.

De mãos abanando ao lado do corpo, estava animada. Via, logo à frente, um prédio simples, de apenas dois andares e completamente pintado de branco, com uma grande placa acima das portas duplas de vidro. Foi de forma apressada até lá, adentrando o recinto. Era consideravelmente bonito, bem decorado. Um balcão se localizava logo após a porta, em frente a uma passagem que, vista daquele ângulo, transformava-se em um extenso corredor recheado de portas. Uma TV grande estava ligada, acoplada a parede, com alguns bancos na frente e uma mesinha de centro. Além disso, nada mais, apenas enfeites pequenos de diversos animais sobre o balcão.

Não havia ninguém, no entanto, e procurando com os olhos, reparando no ambiente, Jordana se aproximou do balcão, olhando por trás dele, vendo se algum atendente estava oculto pela altura do negócio. Mas não, a recepção estava vazia. Ao fundo, latidos baixos ressoavam, vindos de alguma sala onde, provavelmente, os animais eram mantidos. Procurando por alguma presença, Brammall tocou a sineta posta à frente, em cima do balcão de mármore. O som agudo ressoou pelo ambiente, e de imediato, em menos de cinco segundos, novos sons tomaram forma.

Ao fundo, uma cadeira pareceu se arrastar, seguindo de passos apressados. Eles se aproximavam, vindos do corredor, e segundos depois um homem grande e sorridente apareceu. De cabelos bem penteados e barba rala, o excêntrico e homossexual Logan Bates veio na direção da albina, que, com um sorriso no rosto, receptiva, esperava que ele começasse a falar. Como não era bobo nem nada, o rapaz logo percebeu quem a mocinha era, animando-se ainda mais. Além de ter uma nova cliente, tinha uma sobrevivente em mãos.

— Boa tarde, como posso ajudá-la? – disse ele, apoiando-se no balcão.

— Oi… Soube que essa clínica tem a opção de adoção…. Queria saber qual é o processo para adotar um dos cães.

Bates levantou as sobrancelhas, respondendo:

— Sim, claro! Temos sim. De que tipo de cachorro você está falando?

— Um pequeno, por favor. A casa que aluguei é muito grande, e estava a procura de um companheiro.

— Entendo. Isso é muito comum. Siga-me, por favor.

E assim aconteceu. Dando meia-volta, o veterinário levava consigo um sorriso malicioso no rosto, procurando sua chance de tirar detalhes da vida da sobrevivente. Ele não tinha um motivo específico para tal, apenas era um curioso que não conseguia segurar a língua. Jordana, inocente, foi atrás dele, dando a volta no balcão e entrando no corredor. Estava esperando assinar pilhas de papéis, e já preparava o consciente e a paciência para uma coisa que nunca foi a melhor de se fazer para ela.

Era um corredor extenso, com várias portas de ambos os lados. No final, uma porta diferente das outras se formava, com uma placa de advertência que deixava claro que apenas funcionários poderiam passar para aquele lado. Provavelmente era a área onde cirurgias e procedimentos médicos eram feitos nos animais.

Na metade do caminho, puxando assunto, Logan disse:

— Você é aquela sobrevivente, não é? – Ele ao menos tentou esconder sua curiosidade, indo direto ao ponto de forma fria e um tanto rude.

Sem demonstrar, Brammall se sentiu levemente ofendida, mas respondeu:

— Uhum – concordou, suspirando fundo. Não acredito que entrarei nesse assunto de novo, pensou. – Como ficou sabendo? – questionou, curiosa. Nunca havia rebatido um comentário como aquele, e sentiu um arrepio estranho lhe percorrer a espinha.

— Ah… – Bates não esperava nenhum pouco por aquilo, e pensou rápido em uma resposta para não ser mal-educado. – Eu ouvi algumas pessoas comentarem e fui logo pesquisar sobre quem eram vocês. Sabe, algumas pessoas já moravam aqui desde que tudo aquilo aconteceu… – Ele engoliu em seco, procurando pela porta certa. – Eu acabei vindo pra cá dois meses depois…

A garota concordou com a cabeça, tendo como ponto de visão a nuca de Logan e os ombros largos do homem, que subiam e desciam enquanto ele andava. Quando ele parou diante de uma porta, com a albina lhe acompanhando na freada brusca, voltou a falar, girando a maçaneta:

— Eu já conheci a sua amiga… A Emily.

— Ah, é? – perguntou, curiosa. A sobrevivente não havia lhe contado sobre nenhum encontro desde que chegaram. Achava que, assim como ela, não havia conhecido muitas pessoas, até o momento, além de Sam e Lincoln.

— Sim – respondeu, levando a porta para frente. Os dois entraram numa sala, e logo os latidos começaram a se intensificar. – Nós conversamos com ela. Eu e meu namorado.

A albina apenas concordou com a cabeça, seguindo-o para dentro.

— Ela não falou de mim? – tornou ele, parecendo um pouco chateado. Era notável a forma como Bates queria ser sempre o centro das atenções.

Revirando os olhos, a albina se limitou a responder.

 

1

 

Estava pronta. Voltando a andar pela cidade, Jordana já estava acompanhada. Segurando uma coleira comprada na hora, levava ao lado de si seu mais novo animal. O cachorro, de porte médio, tinha pelos cor de ouro, vistosos e sedosos, que balançam com o vento da tarde. A grande língua avermelhada caía para fora da boca em um gesto de calor, enquanto os olhos cor de caramelo dançavam, curiosos, pelo ambiente ao redor, hipnotizando-se com os esquilos que subiam nas árvores do parque, seguindo os carros que passavam pela rua e observando as pessoas que cruzavam seu caminho.

Mantinha-se feliz, com um sorriso abobado no rosto. Não havia pedido a permissão de Emily para tal, e sabia que a garota provavelmente teria um colapso, em seguida estaria rolando com o cachorro no chão da casa. O processo foi bem simples: alguns papéis assinados e nenhuma nota de dinheiro sequer saída de seu bolso. Uma adoção completa de um belo cão que se parecia com um Labrador, mesmo sendo completamente vira-lata. Brammall sentia-se empolgada, nunca tivera um cachorro na vida, e ao perceber a responsabilidade que era criar um, sentia-se mais adulta, mais madura, carregadora de suas próprias responsabilidades e vontades.

Foi entre o som da respiração pesada de Buster, que a albina percebeu os dois indivíduos que caminhavam em sua direção. De imediato, reconheceu Molly, andando alegremente ao lado um rapaz. Um rapaz estranhamente conhecido. A mocinha alegre sorria enquanto conversava com ele, ambos vindo na direção de Jordana, sem percebê-la ali, enquanto ela também ia na direção deles. O moço, alguns bons centímetros maior do que Merriman, tinha uma barba rala e bem-feita, olhos grandes e alguns músculos saltando das mangas nos braços. Ao se aproximar mais ainda, ela se lembrou quem era.

Sem perceber, um sorriso largo se acoplou ao seu rosto, e então Molly também a reconheceu, sorrindo para ela também. Mas o que a mocinha não sabia era que Jordana não sorria para ela, e sim para o garoto ao lado, que ao reconhecê-la também, tornou a sorrir animadamente.

— Você só pode estar brincando! – gritou o homem, afastando-se de Merriman e seguindo na direção de Brammall, empolgado.

A outra, sendo deixada de lado, viu como a albina e ele se abraçaram como se já se conhecessem a muito tempo. O que não sabia, no entanto, era que Archie Brammall e Jordana Brammall eram primos. Primos muito distantes, que quase não se viam, mas que, além de tudo, continuavam sendo primos. Molly parou, observando, levemente envergonhada por não estar participando da reunião.

— Archie? – questionou a albina, com uma voz que Merriman não havia ouvido antes. Era alegre, genuinamente feliz. – O que… O que você tá fazendo aqui? – Ela estava definitivamente chocada. Não esperava encontrar o primo ali, em Oakfield, por um puro acaso.

— Eu não sabia que você ainda morava aqui… – começou ele, recuando alguns passos e ficando entre Jordana e Molly. – Achei que tinha se mudado depois da faculdade…

— Sim, eu mudei. Voltei pra cá faz alguns dias.

A morena, no entanto, não podia segurar sua ansiedade, e sorrindo, perguntou:

— Vocês dois se conhecem?

Archie pareceu se lembrar da amiga deixada de lado, e se virou para ela, ainda extasiado.

— Essa é a minha prima, Jordana – disse.

— Vocês dois são primos?!

— Então você já conhece ela?!

As surpresas não pararam de vir durante os segundos que se prolongaram no reencontro dos parentes. Um conhecia o outro sem que soubessem, e a situação foi tão engraçada que, de repente, os três se viam rindo euforicamente.

— A Jordana é a minha vizinha – respondeu Molly quando os risos cessaram.

— Pois é, nós nos conhecemos no mesmo dia que cheguei – continuou a albina.

— Archie, por que não me disse que ela era sua prima? – perguntou a morena, ainda sorrindo abobadamente.

— Eu não sabia que ela estava aqui – disse o rapaz. – Ainda não acredito que nos reencontramos.

A albina sentiu a coleira balançar no braço, e isso chamou a atenção de Merriman. Contudo, ela não disse nada sobre o estranho cachorro que acompanhava a amiga, e esperou que os dois tivessem o seu momento. Apesar de tudo, estava adorando aquilo.

— O que você faz aqui, em Oakfield? – perguntou a Brammall sobrevivente, curiosa.

— Eu cheguei a três dias… Resolvi mudar para cá, fiquei curioso para conhecer a cidade.

— Que ótimo… E como vocês dois se conhecem?

Molly respondeu, quase gritando de tão empolgada:

— Tá brincando? O Archie é como um irmão para mim! – Os dois se olharam e sorriram, e Jordana percebeu que, de fato, os dois eram ótimos amigos.

— Eu a Molly nos conhecemos a muito tempo – concluiu ele. – Desde o Ensino Médio.

Jordana e Archie nunca foram muito próximos fisicamente. Os dois foram separados por duas gerações de Brammalls e sempre viveram em cidades diferentes, em circunstâncias diferentes. A mãe da garota, assim como ela, carregava a descendência albina e acabou passando para a filha, enquanto o pai tinha todos os pelos negros, assim como seus tios de primeiro e segundo grau e, consequentemente, o garoto à sua frente. Já haviam se reencontrado em reuniões familiares, festas de aniversários e, de fato, tinham um ótimo comportamento quando estavam juntos. Riam, papeavam e se divertiam, e quando o momento de ir embora chegava, um “adeus” os separava e tudo se repetia no próximo encontro.

De qualquer forma, Archie era um dos grandes orgulhos da família. Se ela não se enganava, o garoto havia se formado em direito e odontologia, mas decidiu seguir com a vida livre enquanto não encontrava um emprego, fazendo sua ronda através do mundo para tentar aproveitar ao máximo sua estadia na Terra antes de se prender a um trabalho ou relação. Jordana não se lembrava muito bem dos pais dele, na verdade. Eles sempre foram muito ausentes para ela e para o restante da família, só não sabia se tal ausência também se aplicava ao próprio filho. De qualquer forma, ela sempre disse a si mesma que estaria disposta a ajudá-lo caso o mesmo precisasse.

Já a relação do garoto com Molly, diferente do esperado, aconteceu há muito tempo, quando os dois fizeram o Ensino Médio juntos. Lá, eram a cara metade um do outro, mesmo que nenhuma relação amorosa tenha surgido. Como a própria Merriman havia dito, Archie era como um irmão para ela, estava sempre ao seu lado para auxiliá-lo e faria de tudo pelo garoto. Acabaram se separando na faculdade, mas a amizade virtual ponderou sobre a dupla e, de uma forma ou de outra, nunca perderam completamente o contato, tanto que quando Molly soube, por ele mesmo, que se mudaria para Oakfield, se encheu de alegria, pois poderia reencontrar o velho amigo.

Agora, depois da chegada do moreno, a garota sorridente era sua guia particular, e estava em um passeio com ele, mostrando os melhores pontos da cidade, logo após terem saído do apartamento onde o menino estava ficando durante aqueles dias. Molly não chegou a perguntar qual era o motivo dele ter ido para lá, apenas sabia que seria por pouco tempo, e após ponderar consigo mesma naquele momento, onde descobriu que os dois eram parentes, chegou à conclusão de que, provavelmente, Archie, em sua grande loucura de viagens e viver a vida, acabou se interessando pela cidade onde, um dia, sua prima havia passado por maus bocados.

No momento de silêncio que se prosseguiu, onde Jordana e Archie queriam muito continuar o papo, e Molly queria lhe dar esse espaço, mas sem, de fato, tomar atitude para tal, foi que Merriman voltou a prestar atenção na quarta presença no ambiente. Uma presença que arfava loucamente e era repleta de pelos. Não conseguiu achar alguma ligação entre Brammall e o cachorro desconhecido, apenas teve certeza de que era, sem sombra de dúvidas, uma criatura adorável, e se animou logo de imediato, estalando os olhos e alargando o sorriso no rosto.

— Oh, meu Deus! – exclamou, se aproximando do cão. – E quem é essa criaturinha adorável…? – Sua voz havia se alterado drasticamente, como se Molly estivesse falando com um bebê ou algo assim. Nenhum dos dois estranhou, no entanto. Era normal ver pessoas se animando na presença de um animal.

Jordana também sorriu, observando como Merriman acariciava Buster e como o mesmo adorava aquilo.

— Ah… Ele é o resultado de um momento de loucura meu – respondeu. – Acabei o adotando naquela clínica ali da esquina.

— Awn… – expressou, mais uma vez, sua felicidade na companhia de Buster. – Ele é tão lindo…

Enquanto a morena se matava com o cachorro, fazendo as mais variadas vozes e o acariciando por todo o corpo, os primos voltaram a ficar um de frente para o outro. Brammall tinha de erguer a cabeça para encarar Archie, que era muito mais alto do que ela. Ainda sorrindo, eles riam do comportamento de Molly, e para aproveitar o tempo que tinham, ainda levemente chocados pela surpresa do reencontro, Jordana perguntou:

— Onde você está ficando?

— Em um hotel aqui perto. É um pouco ruim e pequeno, mas o suficiente para me suportar – disse o garoto, estranhamente constrangido.

Ao ouvir aquilo, a albina se conteve. Não se empolgue demais, Jordana, disse a si mesma mentalmente. Não conseguia parar de pensar em como considerava o primo, e mais uma vez, foi vítima de sua boa vontade.

— Sabe, eu e a minha amiga, Emily, alugamos uma casa aqui. Se você quiser ficar com a gente pelo tempo que ficar aqui na cidade, estamos de portas abertas! – Riu, constrangida.

Archie se surpreendeu, levantando as sobrancelhas, e pensou no assunto.

— Isso… Isso seria ótimo, Jordana – respondeu, por fim. – Faria mesmo isso?

— Claro que sim. Você poderia ajudar nas despesas do aluguel, só isso, mas, claro, pode ficar lá, sim.

— Bom… Eu aceito! Aquele hotel é de longe uma boa coisa, então eu aceito, com toda certeza. – Molly, abaixo, ouvia a conversa discretamente, interessada. – Mas… A sua amiga… Ela aceita isso? Ela nem sabe quem eu sou.

— Te dou a minha palavra de que você vai adorar ela, e de que ela vai adorar você. Sem problema algum. E a Emily confia em mim, a gente é amiga faz muito tempo e passamos por muita coisa juntas… – Archie pensou em como deve ter sido o massacre, e estremeceu. – Ela aceita, não se preocupe.

O Brammall masculino ficou evidentemente feliz, sorrindo em resposta.

— Bom, então você me dá o endereço e eu passo mais tarde para deixar as minhas coisas, tudo bem?

— Isso é incrível, gente! – exclamou Molly, surpreendendo os dois ao se levantar do chão repentinamente. – É muito bom que todos nós sejamos conhecidos, que demais! – Os dois sorriram.

— Sim, Archie, pode passar lá mais tarde. Estaremos te esperando.

 

2

 

Correndo de forma apressada pela calçada, April lutava contra as gotas finas e penetrantes, que mais pareciam pequenas agulhas lhe atingindo o rosto. O asfalto abaixo de si estava úmido pela fraca garoa que caía sob a luz do luar, poças pequenas formavam-se nas inclinações. Green mantinha-se a beira de uma crise de pânico. Nunca pensou que seu pior pesadelo realmente se tornaria verdade algum dia, mas ali, enquanto batia os saltos na calçada, fazendo-os emitirem estralos altos, percebeu que a sorte não estava ao seu favor, e que até mesmo uma artista profissional como ela, pelo menos pela visão da mesma, poderia se atrasar.

Era a noite da estreia de sua nova peça teatral, a qual ela mesma escreveu com um grupo de pessoas, mas, de qualquer forma, colocou todos os créditos sobre si mesma. Além disso, seria a protagonista, e estava fora de seus planos e das regras a protagonista se atrasar. Tinha apenas quinze minutos para chegar ao teatro, colocar seu figurino, fazer a maquiagem e se preparar para a estreia. Mesmo sabendo que não teria tempo o suficiente, e que sua substituta, da qual defendeu com unhas e dentes que não queria, tomaria seu lugar, se tornando o centro das atenções e a estrela principal, continuava. De fato, teria mais três dias para se apresentar, mas nenhuma pessoa olharia para aquele palco e a veria com o mesmo encanto que viram a atriz da estreia, a que abriu o show.

Mesmo que April não achasse que a outra fosse melhor do que si mesma, era fato de que ela tinha, sim, uma beleza encantadora. Isso seria o bastante para desaprovarem Green.

Os postes iluminavam a rua e os estabelecimentos abertos. Não passavam das dez, e dessa forma grande partes dos cidadãos ainda mantinham-se fora de suas casas, andando pela calçada, sob a garoa fria, e a maior parte dos comércios ainda estavam abertos, deixando que mais iluminação surgisse à frente. Ao fundo, a uma quadra de distância, o grande teatro municipal Stanley Woodel de Oakfield se mostrava, imponente. O que era a sua segunda casa estava apenas esperando-a. Um leve arrepio percorreu o corpo da atriz. Estar em cima de um palco, diante de dezenas de pessoas, era e sempre foi o seu grande sonho. Aquilo parecia quase impossível de estar acontecendo, e Green não poderia perder aquela chance de mostrar todo o seu potencial.

A garota, além de todo o seu egoísmo e charme, tirando seus defeitos, era portadora de uma voz incrível, e não era surpresa que alguém com tal característica fosse se dar bem no meio teatral. Mesmo estando em uma cidade pequena, Oakfield era o primeiro passo em direção à Broadway, onde April sonhava em se apresentar um dia.

Engoliu em seco, checando o celular. A barra do sobretudo marrom que usava roçava em suas pernas cobertas por uma calça jeans justa, tampando em partes a camisa branca dentro da mesma e quase chegando ao topo das botas de couro. Para sua sorte, quando percebeu que chegaria atrasada, Green havia feito o penteado adequado para a apresentação – o que, por um lado, não adiantou de muita coisa, sendo que a água que caía do céu provavelmente a forçaria a refazê-lo.

Batia os dentes com o frio. De uma hora para a outra, a cidadezinha foi tomada por um clima nada confortável para a atriz.

 

3

 

Agarrou a arara com todos os figurinos da peça com força, percorrendo o longo corredor em direção ao seu camarim. Privilegiada por ser a protagonista, tinha um quartinho somente para si, enquanto o restante dos atores compartilhavam os seus com mais dois ou três integrantes do projeto. Contudo, o lugar era o mais distante de todo o teatro. Após entrar pela porta lateral, para não ser notada pelos espectadores e não estragar a surpresa da grande atriz que representaria o tema tratado dali instantes, chegou aos bastidores sem falar com ninguém, e então entrou em um corredor estreito, que dava para uma outra porta. Logo, estava ali, arrastando o equipamento por conta própria, passando ao lado de cordas amarradas a sacos de areia e alavancas capazes de movimentar todo o teatro.

Mais à frente, a apenas alguns metros, uma das portas do longo corredor tomava forma. Uma grande estrela dourada, trazida pela própria April, estava colada à madeira, onde seu nome estampava-se no centro dela, deixando claro que aquele cômodo pertencia a ela. As outras portas possivelmente estavam trancadas, e levavam a almoxarifados e salas de projeções. O som de vozes chegava aos ouvidos da atriz, que ouvia os comentários vindos da plateia. Mas ali, estava sozinha. Nenhum membro da equipe apareceu, e o silêncio provinha do corredor. O teto alto ecoava seus passos, o vibrar das rodinhas da arara e a respiração levemente desesperada de Green, que apressava o passo em direção ao camarim.

Quando finalmente o atingiu, girou a maçaneta e entrou de uma vez, acendendo a luz e fechando a porta atrás de si. Era pequeno, por sinal. De forma quadrada, guardava, na parede do lado direito, um sofá velho, que ficava ao lado da porta do banheiro. À frente da porta de entrada, uma penteadeira se fundia à parede, repleta de maquiagens e afins, junto de um grande espelho e uma cadeira de metal, posta à frente dela. April deixou os figurinos ao lado da porta, começando a tirar o sobretudo e jogando-o no sofá. Tinha de se apressar, o relógio acima da porta deixava claro que tinha apenas oito minutos para ficar pronta.

— Vamos… – dizia para si mesma. – Aquela magrela não vai tomar o meu lugar… Só por cima do meu cadáver.

Green sempre deixou-se levar por uma rivalidade inexistente com todo mundo. Se alguém tinha certa calça, era sua obrigação comprar uma melhor. Se a maquiagem de outra era mais bem-feita, April começava a fazer aulas de maquiagem para superá-la. E não era diferente com o teatro. Não deixaria que uma qualquer tomasse seu lugar naquilo que batalhou para ter, que passou horas se esforçando para atingir a perfeição.

Foi quando tirou a barra da camisa de dentro do jeans que, levada por um susto estarrecedor em meio ao silêncio do ambiente, deu um pulo e gritou assim que a porta se abriu repentinamente. Deu um passo para trás, recuando, e tropeçou sobre ele, atingindo a parede antes de cair. Aliviou-se ao ver que quem estava diante da porta, encarando-a com choque e levemente assustado pelo grito desferido pela atriz, era um funcionário do teatro. O garoto magro e de cabelos enrolados tinha um grande headphone na cabeça, com um dos lados, que mais parecia um contêiner, estando para fora da orelha, para que pudesse ouvir melhor o som do exterior.

Ele se arrumou, ficando ereto. A jaqueta azul dele expeliu alguns barulhos, enquanto o crachá balançou de um lado para o outro. A face chocada do garoto ainda se mantinha, encarando April como se ela fosse uma deusa ou algo assim. Green, por sua vez, não podia negar que estava gostando de ser olhada com tanta adoração. De qualquer forma, queria saber o que ele fazia ali, e antes que pudesse perguntar, o garoto tornou:

— April… Você veio?

Debochada, ela riu e franziu o cenho, respondendo:

— É claro que eu vim! – Um tanto rude, o tom de voz fez o garoto recuar. – Agora, peça que me deem cinco minutos. Vou ficar pronta o quanto antes.

Mas aquela expressão, uma mistura de espanto, medo e pena, continuou na cara do funcionário, que ainda segurava a maçaneta da porta, com metade do corpo para dentro e metade para fora do camarim. April, sem vergonha alguma, sendo extremamente profissional, puxou a camisa do corpo, tirando-a de uma vez só e voltando a encarar o garoto, que ficou completamente vermelho ao vê-la só de sutiã.

— O que foi? Nunca viu uma mulher pelada, seu virgem? – disse ela ao perceber a expressão do rapaz. Quando ele não respondeu e abaixou a cabeça, ela continuou, agora com um pouco mais de temor da resposta: – O que aconteceu?

O moleque levantou o olhar e a encarou com pena.

— Bem… Nós achamos que você não viria, então…

Antes que sua frase pudesse ser completada, um grande som de aplausos tomou o ambiente. A plateia estava em êxtase, e Green questionou o motivo para tal. No entanto, logo percebeu o que estava acontecendo quando uma música começou a ser tocada, uma música muito conhecida por ela, seguida de uma voz doce e leve. Era a música que deveria ser cantada por ela, sendo cantada por outra pessoa. O espetáculo havia se iniciado sem sua presença.

— Essa é a minha música… – afirmou ela, chocada.

— Pois é… Nós colocamos a sua substitua no seu lugar.

Arfou com força, sentindo uma forte onda de náusea perpassar seu corpo. Não achava que a situação poderia piorar, e percebeu que estava errada. Não poderia ser, não acabariam com o trabalho de vida dela daquela maneira.

— Essa peça é minha! – gritou contra o rapaz, que se encolheu mais ainda, jogando a camisa no chão. – Tirem ela do palco!

— Não podemos… Uma troca de atrizes, a esse ponto, seria estranho demais para quem está assistindo. Eu sinto muito, mas o show deve continuar.

— Seu merdinha, tire aquela vadia de lá agora, ou eu juro que vou cortar essa porra de amendoim que você tem entre as pernas! – Em tal estado de pânico, April começou a marchar na direção do rapaz, ameaçando atacá-lo com tudo o que tivesse.

— Me desculpe – disse ele, por fim, dando dois passos para trás e fechando a porta antes que a atriz tivesse chance de fazer alguma coisa.

Mas naquele momento, diferente do que queria fazer, que era sair dali e destruir a coisa toda até que a outra saísse de lá, apenas ficou parada, estática, no meio do camarim. Sentia o vento na barriga lisa, mas não arrepiou com o frio. O corpo estava quente pela raiva, quase vermelho. Ali, se vendo sozinha novamente, a única coisa que foi capaz de fazer foi chorar. As lágrimas se juntaram nos olhos de imediato quando a porta bateu, deixando-a no silêncio novamente, apenas com a música alta, que deveria ser cantada por ela, tocando ao fundo.

Estava acabada.

 

4

 

Não sabia a quanto tempo estava naquela posição, sabia apenas que não sairia dali até estar completamente recomposta. Após ter o trabalho de sua vida destruído por alguns minutos de atraso, April mantinha-se sentada de frente a penteadeira, olhando diretamente para seu reflexo no espelho, agora de volta com a camisa no corpo. Por ele, via a porta atrás de si e grande parte do camarim, além de sua face suja por linhas negras, que desciam finas dos olhos e manchavam toda a extensão das bochechas, causadas pelas lágrimas consistentes que levaram o rímel escuro na hora de cair dos olhos. Os cabelos foram bagunçados em um ataque de raiva, e só não atirava todo o conteúdo da penteadeira no chão pois sabia que perderia muito dinheiro o fazendo.

Sua vida deixou de ter sentido. Para Green, que era extremamente frágil e narcisista, tentando ser sempre o centro das atenções, ser substituída era inaceitável. Teria outros dias para se apresentar, mas nenhum seria como aquele, onde o público teria o primeiro contato com a peça. Não sentiria o arrepio perpassar o corpo ao subir no palco, vendo a animação nos olhos de toda a equipe, alguns orando para que tudo desse certo. Sua carreira, na vida da atriz, estava acabada. Ninguém iria querer contratar uma fracassada que ao menos conseguiu chegar a tempo em sua própria peça de teatro, seria vista como irresponsável, incompetente. Uma atriz de merda.

Tornou os olhos para baixo quando uma vibração estranha tremeu toda a madeira da penteadeira, soluçando com força enquanto ainda chorava. Mesmo que sem forças e vontades para tal, estendeu o braço ao se interessar pela ligação de “Número Desconhecido” que estava recebendo. Olhou para a tela e atendeu.

— Alô…? – conseguiu dizer, suspirando, em meios aos soluços e lágrimas.

Hello there, April – a voz arrastada e tenebrosa respondeu do outro lado da linha.

Arqueando as sobrancelhas, curiosa e um pouco confusa, a artista prosseguiu:

— Quem é? – Limpou uma lágrima que ameaçava escorrer enquanto dizia, sujando o indicador com a tinta preta no ato, encostando na costa da cadeira e dando uma longa inspirada para puxar a consistência grossa que estava em seu nariz.

Um amigo.

— Vai se ferrar, não estou no clima.

Sendo um pouco rude, não se importou com as palavras ditas, e esperou a longa pausa que se deu do outro lado, relativamente cheia de chiados, até que a voz voltou a falar:

Por que está chorando? – cinicamente, o psicopata parecia se divertir com o sofrimento de April.

— O quê? – Seu peito inflou em desespero ao não entender o que se passava. Estava aflita pela informação dada pelo seu remetente.

Odeio ver você tão triste…

Como se levada por um impulso, virou o torso para trás. Por alguns segundos, esqueceu de todo o drama ocorrido momentos antes, esqueceu das lágrimas no rosto, de tudo o que havia acontecido até ali, pois, como qualquer pessoa em sã consciência, April Green se encheu de medo. O mais puro e horripilante medo. Não sabia com quem falava, não sabia se era um trote, mas sabia, naquele momento, que era horrível estar sendo observada.

O choro parou repentinamente.

— Está me observando?

É o que você quer, não é? Instagram, Facebook, Twitter… – Engolindo em seco, April continuava observando o local em que estava. Não havia nada de diferente, apenas o habitual camarim meia boca do teatro. E, pelo que viu, não tinha lugar algum capaz de esconder uma pessoa. – Sorrisos perfeitos, vidas perfeitas… Mas eu sei a verdade. – Cada palavra dita era como se mais uma farpa entrasse embaixo de sua unha. Mal percebeu, mas estava começando a ofegar, e as velhas lágrimas, já secas em suas bochechas, começaram a ser cobertas por novas.

— Quem diabos é você? – perguntou, assustada, voltando sua atenção e tomando coragem para proferir as palavras.

Sou a pessoa que vai tirar essa máscara!

Ela mal teve tempo para falar ou expressar alguma coisa para o indivíduo do outro lado da linha, já que o mesmo desligou, deixando-a no vazio silêncio.

Não sabia o que fazer. Sentia-se ameaçada, de alguma forma. Conseguia sentir um peso estranho sobre os ombros, como se tudo o que havia pensado fosse, de fato, correto. Lembrava-se das palavras ditas pela voz, a frieza contidas nela, como se o indivíduo não estivesse com as melhores intenções. Estava apavorada.

April não teve ao menos tempo para tomar alguma providência, e sob o fraco ranger de uma porta, virou o rosto lentamente, acompanhando o som fraco que sobressaía às vozes da peça teatral. Podia ver, logo ao seu lado, uma fenda se abrindo na porta do banheiro, mostrando a escuridão do interior. Tal fenda se alongava enquanto o ranger prosseguia, abrindo a porta lentamente. A garota sentia o peito inflar e desinflar rapidamente, a tremedeira tomando as mãos. A cada segundo, seu coração palpitava mais forte. Não sabia o que estava acontecendo a apenas alguns metros de si, mas orava para que fosse somente a ação do vento.

Então, quando a coisa finalmente terminou de ser aberta, escancarando-se, o ranger cessou. Não conseguia ver o interior, de forma que a passagem para o banheiro ficava na parede ao seu lado, não à sua frente. Green não se mexeu, apenas observou o lugar sem desgrudar os olhos, estática, ainda sentada na cadeira. Logo, vindo da escuridão do interior do banheiro, a figura se moveu para fora, pondo-se diante da porta, encarando a atriz com os olhos mortíferos e sem vida.

Mas diferente do Carrasco, que se manteve imponente diante de si, parado, April não se conteve ao susto de ter tal forma à sua frente. Liberando um grito fino e curto, que escapou-lhe tão repentinamente que ao menos percebeu, ela recuou brutalmente, esquecendo que ainda estava sentada, e com isso, ao se levantar de supetão, derrubou a cadeira, que caiu de forma seca no chão, sendo chutada para baixo da penteadeira enquanto os passos desesperados da morena continuavam a ir para trás.

Ela parou apenas quando bateu na parede, exclamando:

— Quem é você?! – Quando não obteve resposta, continuou: – Eu perguntei quem você é! – Nada.

Foi então que, com um único movimento, girando um pouco o punho, o assassino chamou a atenção de Green para a faca de sobrevivência em sua mão, tão desafiadora quanto o olhar do que a portava. A respiração dela tornou-se forte enquanto desesperava-se. Não conseguia pensar em nenhuma outra opção que não fosse a morte ao ver aquilo. Estava sozinha, praticamente isolada, e, com o som alto vindo do palco, ninguém seria capaz de ouvir os seus gritos.

Em um momento de ponderamento, os dois se encararam, mas a ação seguinte foi que selou o destino da atriz, quando o mascarado se lançou para frente rapidamente, avançando sobre April, que soltava o seu segundo grito da noite, tão longo e escruciante quanto o primeiro, ao ver a lâmina cortar o ar na horizontal, pronta para acertá-la em cheio nas costelas em um movimento de arco. Mas foi mais rápida, no entanto, virando-se para o lado a tempo de escapar da facada, fechando os olhos em desespero ao ver a vida passar diante dos olhos no golpe que quase a acertou. Ainda conseguiu sentir uma rajada de vento ao ter o corpo do mascarado quase acertando a si.

No momento seguinte, ainda de olhos fechados e com o grito começando a acabar, escutou o encontro da faca com a penteadeira, onde a lâmina acertou em cheio o espelho, estilhaçando-o em dezenas de pedaços, que caíram sobre a madeira.

— Por favor, me deixa em paz! – gritou April, recompondo-se ao correr para a porta de saída.

O assassino, atrás de si, havia praticamente caído sobre a penteadeira, e se pôs a ficar ereto de novo, recuperando os sentidos, ao ver a atriz girar a maçaneta e abrir a porta com força. Ela bateu na parede quando os cabelos de Green esvoaçaram para trás, sendo esses, também, o último ponto de vista do perseguidor.

Atingindo o exterior do camarim, a morena começou a correr para o mais longe possível, gritando como louca na busca por ajuda. Os batimentos cardíacos mal eram sentidos, a respiração passou a ser deixada de lado, e a dor dos pés batendo fortemente contra o chão não passava de uma fraca pontada, sob os reais problemas que a cercavam no momento. Não olhava para trás, temendo o que encontraria, apenas encarava a porta que a levaria para os bastidores do teatro, logo no final do corredor, após vários e vários metros para serem percorridos.

Do lado esquerdo, acoplados a parede, alavancas de diversos tamanhos e materiais passavam voando na corrida de April pela sobrevivência, os braços balançando ao lado do corpo e os cabelos batendo no rosto, hora ou outra tampando parte da vista, mas logo desembaçando-a ao ser empurrado pelo vento. Atrás de si, o segundo indivíduo saía pela porta, perseguindo-a com a faca na mão, o sobretudo esvoaçando.

— Socorro! – gritou, as lágrimas saindo pelos olhos e deixando riscos claros ao passar por cima do rímel líquido. – Me ajudem! – Mas de nada adiantava. Green sentia-se sozinha no mundo, como o último ser vivo sendo caçado, prestes a entrar em extinção.

Escutando os passos pesados atrás de si, que a cada segundo chegavam mais perto, April não segurou a curiosidade e virou a cabeça para trás, apenas para ter a pavorosa visão do Carrasco a poucos metros de si, a faca ameaçadora balançando a cada passada. Ela gritou e voltou a olhar para frente, não percebendo, em seu minuto de anestesia momentânea ao perceber o quão ferrada estava, um objeto que entrou em seu caminho repentinamente. Por isso, bateu com o pé direito no balde metálico, o som do impacto ecoando pelo corredor vazio e amplo, e em seguida perdeu a estabilidade.

Só percebeu que estava caindo ao ver o chão se aproximando de forma veloz. O balde virou de uma vez só, sendo atirado para longe ao ser acertado pelo chute involuntário dado por April, tilintando ao rolar no concreto. Os joelhos da atriz se dobraram e foram os primeiros a atingir o chão, com um som alto e que a fez jurar ter quebrado algum osso, e depois deles foram os braços, sendo eles inúteis amenizadores de quedas, pois a dor do impacto não foi nada fraca, espalhando-se pelo corpo de Green enquanto ela gemia em desespero, vendo suas chances de sair viva dali esvaindo-se gradativamente quando os passos se aproximaram.

Sentiu uma mão enganchar em sua nuca, apertando a carne com firmeza e, ainda atordoada por ter batido parte da cabeça, April não conseguiu relutar ou impedir que fosse levantada do chão, o mundo girando como nunca diante de si no movimento repentino. O torso foi tirado do chão com facilidade, e em seguida levado para trás, começando a ser arrastado pelo corredor, de volta para o camarim. Os braços moles da morena arrastavam-se no chão, assim como as pernas, enquanto a mão enluvada a segurava pelo pescoço, levando-a dali.

Quando finalmente começou a retomar à consciência, e debateu-se, tentando se soltar, era tarde demais, pois a porta já estava ali, e o corpo dos dois voltaram para dentro do cômodo.

— Me solta! – gritou, e assim aconteceu, pois o assassino forçou-a ainda mais, deixando que a moça voltasse a ficar ereta, mas, ao mesmo tempo, lançando-a para o outro lado com um empurrão forte.

April gritou, não conseguindo resistir ao golpe, tropeçando nos próprios pés, indo cada vez mais para trás. Fechou os olhos e gritou quando pensou que outra queda contra o chão duro se aproximava, mas diferente disso, o corpo caiu no macio sofá, logo em cima de seu sobretudo. Grunhiu sob o olhar mortífero do Carrasco, que fechava a porta com brutalidade, batendo-a no batente com força o suficiente para estremecer as paredes do camarim.

Remexendo-se em desespero, temendo ser acertada pela faca, Green estabilizou a visão, ainda sentada no sofá, e viu o mascarado vindo para cima de si com a faca em riste. Gritou de novo, rolando para o lado quando a arma desceu. Atingiu o chão no mesmo instante em que a lâmina entrou no estofamento, afundando-se até o cabo. Começou a se levantar de novo, apoiando os braços na parede ao lado, tentando manter o foco em sair dali, mas percebeu que, antes, teria de atrasar o maníaco. Por isso, virou-se e pegou sua arma de contra-ataque, um vaso de flores, que ficava em cima da penteadeira, tornando para o assassino a tempo de vê-lo recuperar a faca.

Então, com todas as suas forças, soltando um grunhido forte, levantou o vaso acima da cabeça e avançou sobre a figura, acertando-o no alto da crânio. Os cacos voaram para todos os lados em um barulho estarrecedor e, em segundos, o objeto desapareceu de suas mãos, deixando os pedaços do que restou caírem no chão. Mas, diferente do que imaginou, o psicopata era mais forte, e o golpe com o vaso não adiantou de muita coisa, desde que ele apenas virou para a moça, mais furioso do que nunca, e como se não tivesse sido acertado, levantou a perna, trazendo-a para si e em seguida lançando-a na direção da atriz.

April teve tempo de gritar antes de ser acertada no peito com violência. Todo o ar foi-lhe tirado, os olhos se esbugalharam com a dor, e então seu corpo caiu para trás. Dessa vez, no entanto, não pôde se proteger, e sentiu quando a cabeça bateu com força na quina da penteadeira. Sua visão tornou-se escura, o ambiente ficou silencioso de repente. Sob a anestesia da batida, o corpo da atriz caía no chão, sendo acompanhado do assassino, que se aproximou lentamente, observando-a.

Abriu os olhos, vendo o Carrasco a alguns centímetros. Não relutou, nada fez. Então, o mascarado pousou sobre si, ficando logo ao seu lado. Os braços da morena mantinham-se jogados ao lado do corpo, as pernas tortas no chão. Seus cabelos desarrumados tomavam parte da face, espalhados ao redor da cabeça. A arma voltou a ser erguida acima do crânio do mascarado, que se protegeu dos cortes dos cacos com o couro da máscara, e vendo seu destino ser selado, April abriu os lábios e deu seu último grito, tão horrorizado quanto os anteriores.

Logo, a faca desceu de uma vez só em seu rosto, a lâmina entrando velozmente no olho esquerdo, estourando-o em uma cena horrível, onde o líquido viscoso do interior do globo eclodiu para fora, espalhando-se junto do sangue vermelho e consistente, que também marcou presença nos momentos finais de Green. Os lábios da morena continuavam abertos quando ela ficou imóvel, relaxando gradualmente conforme a lâmina enterrava-se em seu interior, dando seu último suspiro. O outro olho, ainda aberto, era coberto pelo sangue, que espalhou-se pelo restante da face em linhas tortas e formou uma pequena poça no chão, logo acima de seus cabelos.

Satisfeito, vendo que a moça não mais se mexia, o Carrasco levantou-se, arrancando a arma do interior dela, vendo como parte da lâmina banhava-se em vermelho vivo. Encarou-a, admirando seu trabalho. Estava feito, a quarta vítima do massacre mantinha-se morta, como queria. Olhava ao redor, como se articulasse o que faria a seguir. Manteria o corpo daquela forma ou articularia algum show de horror para expô-lo ao público?

Não teve tempo de pensar, no entanto, pois a defunta voltou a vida. Um suspiro forte e desesperado saiu de April, o peito dela inflou e os braços e pernas debateram-se. O olho restante estalou de forma abrupta, o outro se movendo horrivelmente, perfurado pela faca do assassino. O grito incessante foi capaz de assustar o Carrasco, que pulou e se surpreendeu ao ver a artista voltar a vida, remexendo-se como louca no chão, buscando por uma escapatória, desnorteada o bastante para, pelo que parecia, não ter percebido que um de seus globos oculares estava faltando.

Apenas gritos saiam dela, nenhuma palavra. Green virou o corpo e esticou o braço, deixando que o sangue acumulado caísse pelo rosto e pingasse na boca, fazendo-a sentir o gosto metálico e entrar em pânico ainda mais, percebendo que havia sido acertada. As pernas cobertas pela calça puxavam o corpo para longe, a boca aberta ainda gritando. Os braços balançavam sem parar para frente do corpo, ainda caída no chão, tentando alcançar, inutilmente, a porta. O olho acertado se transformou em uma grande bola vermelha, com a parte afetada se resumindo a pedaços soltos e balançantes de carne, o líquido viscoso ainda eclodindo.

O mascarado não havia acertado-a fundo o bastante para atingir o cérebro, e agora teria de finalizar o trabalho. Por isso, voltou a ela, mais rápido dessa vez, antes que a moça conseguisse se arrastar para fora. Subindo sobre ela e se abaixando, as pernas dele prenderam o corpo da atriz no chão, impedindo-a de se levantar. Aproveitando que a cabeça dela estava levantada, olhando estaticamente na direção da maçaneta à frente, a única coisa que o psicopata fez foi agarrá-la com força pelo pescoço exposto, deixando a faca de lado ao jogá-la no chão, e apertou-o com força.

Com uma das mãos segurando a mandíbula aberta e a outra pressionando a nuca, prendendo o crânio da morena em um aperto profundo e forte, impedindo-a de mover a cabeça, ele virou os braços em uma torção horrenda sem pestanejar. Cada braço foi para um lado, um para frente e o outro para trás, virando a cabeça de April para a direita com brutalidade. E o golpe foi forte o bastante para virá-la mais do que o permitido pelo corpo humano, e os ossos foram frágeis demais naquele momento. Em um estralo capaz de arrepiar a espinha de qualquer um, o pescoço da atriz foi partido em um movimento rápido de giro, cortando o seu grito estridente.

Com a cabeça quase virada completamente para trás, as bochechas esmagas pelos dedos do mascarado, que ainda a segurava, ele via a face relaxada da moça. No momento seguinte, as mãos do psicopata soltaram-na, deixando que a cabeça pendesse mole para frente, batendo fracamente no chão do camarim ao ceder à gravidade. A pupila se dilatou, a respiração cessou. Tudo se perdeu em meio ao sangue e ao caos.



Notas finais do capítulo

Gente, juro que os novos personagens vão parar de surgir no próximo capítulo! Hahahaha Enfim, esse foi focado na Jordana e na apresentação no Archie, assim como no fatídico fim da nossa primeira vítima pós-ataque inicial. April foi a escolhida para morrer, mas quem será a próxima? Já têm suas apostas? Quem vai morrer a seguir? Quem é o assassino? Ficarei extremamente feliz em saber!



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