Hello There 2 escrita por Lucas André


Capítulo 28
S02EP25 – Sledgehammer


Notas iniciais do capítulo

Marreta

Numa noite de investigações, Kai e Linda se veem diante de uma ameaça maior do que supunham, e um ataque iminente contra dois sobreviventes.



A delegacia estava quieta. Era a parte da noite em que a maioria dos policiais ia embora e trocavam de turnos, e tudo ficava silencioso. O máximo que era ouvido, eram os murmúrios de algumas conversas, mas mesmo elas eram abafadas pelo som da TV ligada ou do rádio tocando uma música aleatória. Tal silêncio predominava ainda mais dentro da sala onde Kai ficava, por conta da porta fechada. O único som ali era o do galão de água ao lado da porta, que hora ou outra soltava bolhas e balançava. O xerife tinha ido para casa pela noite, e só seria contatado caso algo muito urgente surgisse. Essas eram as especificações dele: “só me chame se alguém estiver morrendo, entendido, oficial Conway?”.

Por sorte, parecia ser uma das noites calmas. Tão calma, que foi a chance perfeita de se unir à Linda para começarem a investigar. Sentados lado a lado, os dois dividiam a mesa, cada qual com seus itens investigativos em frente a si, como dois adolescentes estudando para uma prova. A escolha de chamar a professora foi feita sobre três tópicos: ela era confiável devido ao ataque que sofreu dias antes, era muito esperta e, também, uma ótima fonte de informações, sejam elas reais ou boatos. E Sammuels, nada boba, não negou a oportunidade de usar de artifícios mais avançados para tentar encontrar alguma coisa, afinal, estava numa delegacia, diante de um computador que lhe dava programas de rastreamento, descodificação, acesso às câmeras de segurança de Oakfield, entre outras coisas que poderiam ser bastante úteis.

Desde a conversa que tiveram sobre as suspeitas por cima de Olivia e Tommy, o policial e a professora haviam se aproximado. Como nada sabiam sobre a morte da asiática, grande parte de suas desconfianças continuavam em cima deles. Uma das hipóteses criadas pela dupla era que, se os dois não estavam trabalhando junto, pelo menos um estava. E após uma rodada caçando pelo passado de Olivia, agora a dupla trabalhava em cima de Tommy.

Kai tinha disponibilizado todo e qualquer arquivo que Sammuels precisasse. Havia dito para os colegas do outro lado da porta que a moça havia vindo para uma conversa particular. De qualquer jeito, após uma hora trancados ali dentro, com certeza já desconfiavam de outra coisa. Mas não se importavam, também.

— Alguma coisa? – perguntou Conway, sem desviar os olhos do arquivo sobre o hotel abandonado na floresta, que foi alvo do – possível – incêndio proporcionado por Olivia e Tommy. Buscava por pontas soltas e detalhes que incriminassem Howard.

— Ainda não – respondeu Linda, lendo um arquivo sobre as primeiras mortes do massacre, incluindo as de Clary Chambers, Ally Horsdal e Toby Fray. – E você?

— Não… – resmungou, desapontado. – Se foram eles mesmo que fizeram isso, esconderam muito bem.

— Era de se esperar. – Riu de lado. – Aliás, a família da Olivia é muito rica, então podem ter pagado qualquer testemunha ou policial que investigou o caso pra acobertar tudo.

— Talvez a gente esteja investigando no lugar errado.

O negro fechou a pasta com uma bufada forte, encostando-se na cadeira.

— Como assim? – perguntou Linda.

— A gente tá tão em cima do Tommy e da Olivia, que o verdadeiro culpado pode estar passando ileso bem na nossa frente.

Linda percebeu que poderia ser verdade, e desistiu do arquivo.

— Tem ideia de quem possa ser, então? – perguntou ela. – Alguma suspeita?

— Não, na verdade. Desconfiei um pouco do Archie quando ele chegou na cidade, mas… – Balançou a cabeça, não conseguindo continuar a frase com “ele está morto”. – A Zoe sempre dizia que eu só enxergo a bondade nas pessoas, e por isso não deveria ter virado policial.

Sammuels riu, percebendo como os olhos de Kai brilharam ao falar da irmã. Era de se orgulhar, para ela, que ele tivesse superado a perda de Zoe.

— E você? — tornou ele.

— Bem… Eu sempre desconfiei da Megan, mas ela tá morta. Da Olivia e do Tommy também, mas provavelmente são inocentes, então… Talvez o Garrett? Ou a Ellen, até?

— Por quê? — questionou, curioso. Era grande amigo dos dois, e não via como aquilo fazia sentido.

— O Garrett nunca foi atacado ou teve qualquer tipo de contato com o assassino. — justificou-se Sammuels. — E a Ellen… Você ficou sabendo da história, não é? O assassino tentou colocá-la no time dele e a ameaçou de morte e tudo mais se não aceitasse. Ela diz que não aceitou, mas continua viva e bem.

Kai concordou com a cabeça, dizendo:

— Mesmo que não seja ela, pode estar envolvida.

— Acha que devíamos interrogá-la?

— Definitivamente não — respondeu o oficial. — Se ela tá no time do assassino, então, com certeza, ele tá de olho nela. A Ellen é ótima em lidar com as pessoas, mas fica muito nervosa sob pressão. A primeira coisa que ela falar sobre ter aceitado esse trato, se tiver aceitado, vai ser a sentença de morte dela, e talvez a nossa.

— Mas você gostaria que ela continuasse viva depois de ter ajudado o assassino? — Linda tinha um olhar de desgosto no rosto.

— Não pensei por esse lado… — disse ele, baixando os olhos. Percebia o quão horrível era ter a confiança posta em jogo, o quão horrível era saber que um de seus amigos poderia ser o responsável por tudo aquilo, estar envolvido com a morte de sua irmã.

Como uma forma de mudar de assunto, disse:

— Vou dar mais uma olhada pela cidade. Checar se tá tudo bem.

— Ok. Eu vou explorar mais um pouco essas pastas — concordou Linda.

A morena se levantou da cadeira e caminhou até o armário ao lado da porta, do tamanho de uma estante, repleto de gavetas com todos os arquivos que poderia precisar. Kai empurrou a cadeira mais para frente, ficando diante do computador. Uma coisa que havia nele, era o aplicativo que lhe dava liberdade para olhar todas as câmeras de segurança da cidade. Olhando para a tela, ele via, do lado esquerdo, uma lista gigantesca com os nomes de todas as ruas de Oakfield. A barra de rolagem era minúscula diante da quantidade de resultados. Conway não sabia por onde começar, então simplesmente foi rolando para baixo até encontrar algo que lhe chamasse a atenção.

Ao fundo, Linda abria as gavetas e via seu conteúdo. Não estava certa do que procurava. Tentaria encontrar qualquer coisa que tivesse o nome de algum dos alvos do assassino, para ver seu passado e procurar por evidências de um crime ou algo assim. Seria um trabalho árduo, diante de tantas opções do que encontrar. Arquivos sobre o antigo massacre também seriam bem-aceitos, caso surgissem. Interligar o presente e o passado parecia um bom começo na procura por culpados.

O dedo de Kai girava a roda de rolagem do mouse, o punho da outra mão apoiando a cabeça de forma entediada. Ver as câmeras de segurança era somente alguma coisa para se manter ocupado, pois já não sabia o que fazer. Dessa forma, ia de rua em rua, observando a tela maior que surgia à direita com a imagem da câmera de segurança, em preto e branco. Nada demais em nenhuma delas, apenas os postes, as casas, os estabelecimentos, e os poucos pedestres que habitavam algumas ruas.

Linda já estava na sua terceira viajem de ida e volta do armário para a mesa, quando Conway finalmente encontrou algo lhe chamasse a atenção. Era uma rua escura. Bastante escura, por sinal. As casas eram enormes, tanto que, das quatro câmeras localizadas naquela região, uma ou duas eram capazes de ocupar o campo de imagem. Os quintais eram grandes e bem cuidados. E era numa das calçadas, a do lado esquerdo, que uma figura caminhava calmamente, seguindo adiante pelo concreto como se não fosse nada demais. A pessoa surgia abaixo da luz de um dos postes, então desaparecia na escuridão entre dois eles, apenas para aparecer novamente segundos depois. Kai foi mais para perto, cerrando os olhos.

A figura trajava uma roupa escura da cabeça aos pés. Um sobretudo negro, que era levado pelo vento forte da noite fria. Era o assassino, sem dúvidas. A máscara de carrasco fechada ao redor do rosto deixava isso bem claro. Andava tão calmamente pela rua que poderia ser confundido com um pedestre qualquer caso tivesse passado rápido. Com um arrepio, Kai percebeu que aquela era sua principal habilidade: se misturar na multidão, se passar por alguém qualquer, um inocente.

Seus olhos se arregalaram e Conway ficou ereto na cadeira.

— Linda, olha isso aqui — ele disse.

A professora virou-se para ele, aproximando um pouco mais da tela, e logo abriu a boca em espanto, desacreditada.

— Oh, meu Deus. Onde é isso? — perguntou ela, afastando-se com medo.

— Stephen Lewton — disse Kai, informando o nome da rua escrito ao lado.

Por um segundo, Sammuels ficou estática, mas logo seus olhos se arregalaram com o choque. Seu peito subiu e desceu com força.

— Ai, Deus… Não, não, não, não… — murmurou, a voz trêmula.

— O que tem de errado? — questionou Conway, sem saber o que fazer direito.

— Essa é… É a rua de um dos meus estudantes… Eu reconheci pelo nome. — Os dois se encararam por alguns segundos, os olhos do negro pedindo pela informação. Até que Linda respirou fundo e soltou: — Max Langdon.

 

1

 

— E aí, já começou? — perguntou Owen, descendo as escadas.

A casa de Max era grande. A sala de estar, onde estava agora, era o maior cômodo, tendo duas passagens diretas que levavam até ela: a que saía do hall de entrada, e a que saía da cozinha. No sofá, Langdon tinha em seu campo de visão as escadas que levavam ao segundo andar, por onde Owen descia apressadamente. O hall era seguido por um corredor, que por sua vez tinha um banheiro — quebrado — e acabava na cozinha. O segundo andar baseava-se nos quartos de Max, seus pais e os dois de hóspedes, e uma sala de estar menor. Uma ótima casa, num dos melhores bairros de Oakfield.

Jogado folgadamente em cima das almofadas felpudas do sofá branco e comprido, que quase atingia as duas extremidades do cômodo, Max ficava de frente a grande TV de tela plana, acoplada na parede. Os comerciais pré maratona de Premonição passavam. Atrás dele, grandes janelas que chegavam ao teto alto ladeavam a parede, separadas do sofá por um corredorzinho de mesas baixas com enfeites e quadros. As grandes cortinas tampavam a vista do lado de fora. À esquerda, o minibar do pai do jovem, trancado para que ele não ousasse roubar algumas doses — por sorte, tinha comprado cervejas. Do lado oposto, entre duas janelas, uma estante de livros, acompanhada pela poltrona de leitura de sua mãe. Um tapete fofo cobria o chão, sob uma mesinha de centro.

No meio da noite calma e fria, a residência dos Langdon mantinha-se aconchegante com todas as suas luzes acesas, espantando os fantasmas do lado de fora.

— Tá quase – respondeu Max, inclinando-se para frente para pegar um salgadinho do saco aberto em cima da mesinha, uma garrafa de cerveja pela metade na outra mão.

Owen terminou de descer o lance de escadas com o celular numa das mãos e se jogou ao lado do amigo no sofá, pegando sua garrafa de álcool quase no fim.

— Cerveja me dá uma mijadeira, cê é louco – comentou o garoto, dando um gole. Langdon riu. – Sei nem como você consegue ficar sozinho aqui – continuou ele, subitamente sentindo um tremor pelo corpo. – Só de ver pela janela do banheiro lá em cima… Tudo escuro, ninguém na rua…

— Ah, eu nunca fui muito cagão – disse Max. – Gosto de morar aqui. É calmo.

— Eu sou bem diferente.

— É, eu sei. Você não gosta de admitir, mas eu já percebi.

— Pois é.

— E por isso eu sou o seu melhor amigo – gabou-se Owen, sorrindo.

— O único e o melhor – concordou Langdon, rindo.

Aproximaram as garrafas de cerveja e fizeram tim-tim, dando um gole em seguida.

— Falando nisso – Max disse. –, tenho que te contar uma coisa que aconteceu hoje, na hora que eu tava no mercado.

Ao ver que Max ficou mais sério, Owen encarou o amigo e arrumou-se no sofá.

— Acho que o assassino me ligou – continuou o anfitrião, bebendo da cerveja, com mais calma do que deveria estar numa situação como aquela.

— Sério mesmo? – perguntou Campbell, de boca aberta.

— É. Falou um monte de coisa. Me ameaçou, fez parecer que tava me observando…

— E?

— E o quê?

— Cara, você acabou de receber uma ligação do assassino e tá agindo como se fosse sua mãe que tivesse ligado. – Owen estava nervoso.

— Mas não deve ser nada sério – justificou-se Max, dando de ombros. – Vai ver era só alguém tirando com a minha cara. Zoando, sei lá.

— Max, isso é sério! – irritou-se o garoto.

Langdon riu de lado e balançou a cabeça.

— Olha, eu nunca tive nada a ver com o assassino, então porque ele me ligaria assim, do nada? Nada a ver, Owen – disse ele. – Devia ser só um trouxa da escola, da nossa sala. O Chuck da aula de Física que eu fico enchendo o saco, ou o namorado da Betty de Filosofia que eu dei em cima sem querer.

— Acho que não. – Owen se encostou mais no sofá, tenso. – A situação tá séria demais. Até os que normalmente ficaram zoando tão percebendo isso. Ninguém fingiria ser o assassino.

— A galera daquela escola não tem respeito com ninguém, Owen.

— Não é nem por respeito. É por medo. Ninguém quer provocar o assassino, ou se passar por ele. Todo mundo tem medo de que isso possa atrair ele.

Os dois se encaravam. Max estava mais apreensivo, finalmente levando a sério.

— Bom, isso explica porque eu fiquei cagado de medo na hora – disse ele, suspirando fundo.

Owen balançou a cabeça de novo.

— O que ele disse? – perguntou Campbell, tentando espiar pelas cortinas fechadas atrás de si.

— Que eu ia morrer, que você é o preferido dele…

— Pera aí – interrompeu-o. – Ele falou de mim? Ele me conhece? Eu tô envolvido nessa merda?

— Eu não sei… – bufou. – Sei lá, pode ser. Ele deu a entender que sim, pelo menos.

— Ai, meu Deus… – A face de Owen ficou vermelha de repente. Ele tinha o pânico nos olhos, desesperado.

— Ei, cara, relaxa – tentou Max. – Não vai acontecer nada.

Naquele mesmo instante, o celular de Owen tocou na mesinha de centro, ao lado da perna estendida de Max. Os dois olharam para ele, nervosos. Ambos foram para frente ao mesmo tempo, notando que era apenas uma ligação de Linda.

— Você ainda tá comendo ela? – perguntou Langdon, indiferente.

— Quê? Claro que não.

Owen foi para frente para pegar o aparelho, mas a mão do amigo interferiu no caminho, segurando-a no ar.

— Lembra do acordo? Sem garotas. E isso inclui as mais velhas.

— Vai que é coisa importante? – perguntou Campbell, encarando o celular vibrando.

— Ela pode falar com você amanhã.

— Tá… – respondeu, decepcionado, encerrando a chamada com o indicador.

Eles voltaram a se largar no sofá. Os comerciais finalmente pareciam que iam acabar. Max, como força do instinto, pegou seu próprio celular, enterrado entre duas almofadas. Franziu o cenho no mesmo instante.

— Eita – disse ele. – Ela também ligou pra mim. Umas sete vezes.

— Tô falando – Owen disse. – É coisa séria. Vou ligar pra ela.

O garoto se levantou e pegou o celular em cima da mesinha, ficando de costas para Max enquanto discava. Langdon nada fez, ficando levemente preocupado também. Imaginava o que Linda Sammuels tinha de tão importante para falar. Pensava que, por ela ligar para os dois, poderia ser algum assunto escolar ou coisa assim, que ela poderia estar ligando para todos os seus alunos. Mas parte de si ainda achava que poderia ser algo mais sério envolvendo os dois. Querendo ou não, Max, Owen e Linda tinham uma certa conexão.

Então, seu celular tocou em sua mão. Owen ainda batalhava para ligar para a professora, quando Langdon olhou para a tela do aparelho e viu que recebia uma chamada de número desconhecido.

— Owen, não surta – disse ele. –, mas é o assassino. Ele tá me ligando.

O rapaz virou em sua direção como se tivesse tomando um susto, abaixando o telefone. Ficou encarando-o, estático, alternando a visão do celular tocando para o rosto do amigo.

— Deixa tocar – disse Owen, a voz trêmula.

— Eu tenho que atender. – Olhou para o celular, indeciso. – É tipo uma regra… Né?

— Regra do quê?! – surtou Campbell. – Tá louco?!

— Do jogo dele! Deve ser, pelo menos.

— Max, não. Sério.

De olhos estalados, Owen encarava Max com o coração na boca.

— Ele me ligou antes e não aconteceu nada. Não vai acontecer nada agora também.

— A gente tá sozinho e tá de noite. Agora com certeza vai acontecer alguma coisa!

— Para de ser paranoico. Tá tudo bem.

Max não esperou e apertou o botão de atender.

— Não! – gritou Owen, esticando a mão para tentar impedi-lo, mas falhando. Parou na metade do caminho, colocando a mão no rosto.

— Alô? – disse Max.

O peito de Owen subia e descia com velocidade. Estava repleto de medo. Max, por sua vez, mesmo que achasse que poderia ser realmente o assassino, não o temia. Poderia ser uma escolha burra, mas era a verdade. O garoto não tinha medo do mascarado.

Hello there, Max — disse a voz, como quando estava no mercadinho.

— O que você quer agora? – perguntou, firmando a voz.

Owen o encarava com o pânico nos olhos, trêmulo.

Apenas dizer o quanto é bom conversar com você de novo. Só odeio ter de avisar que será a última vez.

A frase fez Langdon tremer.

— De novo com a mesma história? – disse Max, ousado. – Qual é, cara. Você só fala, mas não age!

A situação era bastante irritante para ele. Odiava o assassino. Talvez o temesse em alguns momentos, mas não sempre; apenas quando a voracidade da palavra do maníaco era posta a prova. De qualquer forma, a raiva era muito mais forte do que o medo para ele.

— O que você tá fazendo?! – sussurrou Owen ao lado, histérico.

Ah, eu vou agir — continuou o psicopata. — Logo, logo. Você mal perde por esperar.

— Acha que esse papinho furado seu me assusta? – Ele não dava bola para o amigo, logo ao lado, que colocava as mãos na cabeça em completo desespero.

Xingue o quanto quiser, Max. É o que dizem: vamos aproveitar o momento enquanto ainda temos tempo. Carpe diem.

Langdon engoliu em seco.

— Eu vou aproveitar – disse. – Vou aproveitar essa noite e o resto da minha vida. Porque quando eu morrer, pode acreditar, não vai ser pelas suas mãos.

— Desliga agora, Max! – vociferou Owen, em vão. – Para de ser idiota! Vai logo!

A vida dá voltas e voltas. Nunca esperamos pelo que está por vir. Mas dessa vez eu estou te avisando, Max, então não venha demonstrar surpresa quando finalmente ficarmos cara a cara.

— Eu não vou, porque você é só um merda que só sabe falar. Age quando tá na vantagem. quando tá na vantagem.

Dois contra um, acho que a vantagem não está comigo dessa vez, está?

O garoto parou por um momento. A casa era preenchia pelo som da TV ligada, nada mais.

— Você não seria louco… – disse, rindo de lado, finalmente ficando nervoso por pensar que algo realmente poderia estar para acontecer. – Não vai tentar fazer nada. Sabe que vai perder. A gente arrebenta você fácil, fácil.

Vamos ver? — ameaçou o mascarado.

— Vem pra cima, filho da puta.

Com prazer — respondeu a voz. — E diga ao Owen… Ou melhor, lembre-o… Do amigo babaca que ele tem.

— O que quer dizer?

Acabou de botar vocês dois em perigo, Max. Quanto egoísmo! — debochou o maníaco. — Não bastava pedir pela morte, também arrastou seu melhor amigo com você?

Virou os olhos na direção de Owen, que agora tinha parado de dar chilique e apenas o observava com os olhos como duas jabuticabas e a boca friccionada em pânico. Não tinha pensado por esse lado: não estava apenas se arriscando ao falar aquelas coisas, como também Owen.

— Fica na sua. Você nem vai fazer nada. – A voz saiu fraca, temerosa.

Mas não se preocupe — disse o assassino, nem se importando com ele. — Ele não vai morrer… Mesmo que vá desejar ter morrido. — Riu por uns segundos. – Pobre Olivia, não teve essa sorte.

— O quê?!

Franziu o cenho, sentindo o corpo pesar. O coração subiu na garganta.

Ah, não ficou sabendo? Acabei com a sua amiguinha a algumas horas. Mas garanto que o estrago com vocês será bem maior…

Max ficou estático, não acreditando. Sentiu algumas lágrimas cobrindo os olhos. Olivia poderia realmente estar morta? A palavra do assassino não era nem um pouco confiável, mas por algum motivo, naquele instante, Langdon estava hesitante em não acreditar.

— Você tá mentindo – disse.

Eu diria para que você esperasse para ver, mas, no seu caso, não tem muito tempo para isso. Então vou te dar somente a minha palavra: ela está morta — provocou. — E você, Max Langdon… Você é o próximo.

A chamada foi encerrada. Max abaixou o celular, mal percebendo que as mãos tremiam de forma desgovernada. A situação mudou de um momento para o outro e, de repente, o garoto se via com medo. A jogada da morte de Olivia foi o suficiente para desestabilizá-lo e, agora, Max havia se tornado um alvo fácil, exatamente o que o mascarado queria.

Em meio ao seu transe, nem percebeu que Owen falava:

— O que foi? – perguntou o garoto. – O que ele disse?

— A mesma merda de sempre – respondeu, tentando passar uma impressão calma de que não havia nada com o que se preocupar. Ainda havia uma chance da ligação não significar nada, então Max tentaria não passar todo o seu pavor para o amigo.

— Eu não acredito que você fez isso! – exaltou-se Owen. – Como pode ter sido tão burro?! Max, qual é. Ele é a porra de um assassino, mata qualquer um a sangue frio. Você não pode simplesmente sair falando com ele desse jeito!

Langdon não dizia nada, quase não prestando atenção nas palavras de Owen. Apenas olhava ao redor, desconfiado. Decidira não contar sobre Olivia. Tanto porque só deixaria Campbell mais nervoso, quanto porque ao menos tinha certeza de que o assassino falava a verdade – mesmo que fizesse sentido a notícia não ter chegado a Oakfield, por conta do fato ter acontecido a uma cidade de distância e a tão pouco tempo. Além disso, poderia simplesmente ser uma forma do maníaco mexer com sua cabeça, deixá-lo vulnerável, assim como tinha suposto antes. Se fosse isso, realmente estava funcionando.

A frase que o fez voltar a prestar atenção em Owen foi:

— Eu vou ligar pra polícia, tô nem aí.

Pelo jeito, ele nem mais se lembrava de Linda.

— Não, Owen, pera aí – interveio Max.

O rapaz não teve tempo de voltar a falar, pois um barulho extremamente alto interrompeu a conversa dos dois, fazendo seus corações quase saltarem para fora do peito em um susto aterrador. Imediatamente, os amigos se voltaram para a direção do som, encarando, assim, o hall de entrada. A porta da frente tinha sido atingida por um forte impacto, e eles captaram o momento em que ela parou de tremer. Congelados, apenas observavam a porta, esperando para ver se algo aconteceria, não ousando falar para não atrair o que quer que estivesse do lado de fora, quase como se tentassem apagar os traços de suas existências.

— O que foi isso? – perguntou Owen, então.

— Espera um pouco – disse o outro, com o coração na garganta.

Mesmo em tal estado de choque, Max se pôs a andar. Não faria o papel da vítima imbecil que só grita e corre. Lutaria até o fim, e isso incluiria se certificar de que estava seguro, mesmo que a situação se encaixasse perfeitamente numa cena de filme em que os espectadores eletrizados gritariam para a tela “fique longe, idiota! Não vá atrás do barulho desconhecido!”.

Passou direto por Owen, que o encarou com uma expressão confusa, enquanto observava o amigo caminhar de forma lenta e calculada pela sala de estar, até atingir o hall de entrada.

O ambiente voltou a ficar silencioso. Nem mesmo a TV ligada parecia fazer diferença no horrível clima que se estabeleceu sobre os dois adolescentes, onde a adrenalina que percorria seus corpos só não era maior do que o medo na veia.

— Max, volta aqui, porra! – sussurrou Owen, sem sair do lugar, ainda parado no meio da sala de estar, observando o amigo avançando até a porta. Queria muito não demonstrar o quanto temia tudo aqui, mas era quase impossível. Pensava se seria capaz de correr caso precisasse, pois suas pernas pareciam dois blocos de gelo presos ao tapete.

Max não voltou. Diferente disso, atingiu o hall, olhando para ambos os lados. À esquerda, o corredor escuro que seguia até a cozinha ao fundo, e à direita, a porta envernizada de madeira, com um simples quadrado de vidro formando uma janela fosca, de modo que não era possível ver o outro lado. Por estar de noite, a visão tornava-se ainda mais limitada. Mas ficava claro que não havia ninguém lá. Se houvesse, apareceria a silhueta no vidro. Por isso – e apenas por isso –, Langdon estendeu uma das mãos, segurando-se para mantê-la estável, e tocou a tranca abaixo da maçaneta. Girou-a lentamente. Click!

— Max, o que cê tá fazendo?! – questionava Owen, entrando em pânico ao ver o amigo tomar uma atitude tão burra quanto aquela.

O garoto envolveu a maçaneta com sua mão fria e, tenso, girou-a com agilidade. Não hesitou em abrir a porta, escancarando-a de uma vez só no horrível temor de encontrar alguém do outro lado pronto para lhe atacar. O vento que veio arrepiou os cabelos da nuca, mas foi apenas isso. Não tinha ninguém ali. Max encarou a noite fria e escura, o quintal da frente intocado, a rua deserta e a casa da frente toda acesa. Deu um passo adiante, tendo cuidado para não ultrapassar o limite da porta, e colocou a cabeça para o lado de fora. Olhou de um lado, olhou do outro, então voltou para dentro e fechou a porta.

Virou-se para Owen, suspirando de alívio.

— Não tem ninguém lá – disse, a voz soando tão fraca que parecia que tinha gritado por dias.

— Então quem bateu na porta? – perguntou Campbell, a mais de sete metros dele.

— Deve ter sido o vento. – Ele mesmo sabia que não era isso. Nem mesmo uma tempestade seria capaz de atingir a porta daquele jeito. – Deixa pra lá. Vamos… Voltar a assistir o filme.

Seu celular tocou novamente. Max deu um pulo involuntário quando o aparelho mais uma vez vibrou em sua mão. Owen finalmente saiu do lugar e deu um passo para trás, a boca levemente aberta. Langdon engoliu em seco, encarando a tela. Número desconhecido.

Não disse nada nos poucos segundos que se prolongaram quando colocou o celular no ouvido, atendendo.

— Alô? – falou, então.

Nesse momento, a janela na porta atrás do garoto se rompeu em dezenas de pedaços. Max sentiu cacos de vidro atingindo seu pescoço e inclinou-se para frente instintivamente, soltando um grito reprimido de susto enquanto os cacos de vidro acertavam o chão. Foi Owen, do outro lado da casa, que presenciou o momento em que duas mãos enluvadas surgiram do buraco formado. Braços grandes e esguios saindo da escuridão da noite lá fora, que agarraram-se ao primeiro ponto de Max que encontraram, segurando-o com força na nuca e o trazendo em sua direção.

O garoto bateu com as costas na porta, gemendo. Seu celular foi ao chão quando suas mãos se abriram e agarraram na veste preta do lunático. Nem mesmo o grito de susto de Owen foi capaz de impedir que a enorme faca de sobrevivência, trazida por uma das mãos, fosse posicionada friamente contra o pescoço desprotegido de Max.

— Não! – gritou Owen.

Max sentia a pressão fria da arma em sua garganta, logo acima da jugular, esforçando-se para sair dali antes que fosse morto. Mas a força do assassino era maior, prendendo-o contra a madeira, com um dos braços levantando sua cabeça e expondo o pescoço e o outro agarrando a faca que estava prestes a abrir sua garganta.

Do outro lado, Owen não pensou, apenas agiu. Por que teve que ser tão burro, Max?!, pensou consigo mesmo antes de arrancar em uma corrida perigosa até o amigo. Cruzou os metros que os separava numa fração de segundos, com uma única coisa na mente: se não fizesse nada, Langdon estaria morto dali dois segundos, e provavelmente seria o próximo. Por isso, não parou, batendo os pés na madeira e, finalmente, atingindo o rapaz.

Assim que bateu de frente com os dois corpos em luta, Campbell agarrou os ombros do amigo e o puxou para frente com tudo o que tinha. Nem mesmo o assassino foi capaz de prever aquilo, muito menos de esperar que Owen fosse tão forte. Puxou Max para sua direção e conseguiu tirá-lo das mãos do Carrasco, deixando no garoto apenas um corte superficial que nem sangrou, causado pela faca afiada ao riscar um ponto próximo a orelha.

Owen encarou a máscara do assassino do outro lado da porta, pela janelinha quebrada. Abriu a boca em espanto, quase como se, naquele momento, estivesse sido marcado como uma das vítimas. Os dois braços do mascarado desapareceram do outro lado enquanto os dois tentavam não cair do lado de dentro, com Max um pouco desestabilizado sobre Owen, tentando ficar em pé após o susto e o choque, e Owen, por sua vez, tentando segurar o amigo e não cair também. E foi nesse momento de pânico e caos que a porta se abriu diante deles.

Max não tinha chegado a trancar a porta novamente, e por isso o Carrasco teve passe livre para dentro da casa, arreganhando a porta para o lado de dentro fortemente. Tão forte que atingiu os calcanhares de Langdon, que ainda estava próximo a ela. Owen arregalou os olhos quando o amigo literalmente caiu em seus braços, tão despreparado quanto ele, sentindo os calcanhares arderem pelo impacto com a madeira. Campbell não aguentou o peso sobre si e amoleceu as pernas. Não estava pronto para todo aquele caos repentino e, quando se deu por si, estava de bunda no chão, com Max estendido de bruços ao seu lado, levantando os olhos para encarar a aterrorizante visão do assassino, quando ele deu um passo à frente e entrou na casa.

O Carrasco ficou parado na soleira da porta por alguns instantes, olhando de um para o outro, escolhendo quem levaria a primeira facada. Obviamente, Max estava como entrada do cardápio, mas ele também não hesitaria em acabar com Owen. E em meio a essa hesitação repentina do mascarado, vendo Langdon tentando se levantar com grande esforço ao seu lado, Owen tomou a decisão mais egoísta de sua vida: levantou-se e saiu correndo, deixando o amigo para trás.

Para seu azar, as escadas logo ao lado não foram a melhor opção de fuga. O maníaco basicamente previu que ele iria até lá e, quando Owen se levantou e cambaleou naquela direção, foi atrás dele, pulando o corpo caído de Max. Campbell pisou no primeiro, no segundo e no terceiro degrau, até ter a gola da camisa agarrada pela mão enluvada de seu inimigo. Estalou os olhos e deu um grito fraco ao ser puxado para trás. Os pés amoleceram nos degraus e, ao atingirem o chão, proporcionaram um tombo de bunda novamente.

Desorientado, Owen olhou para cima, ainda tendo a camisa agarrada, apenas para dar de cara com o punho fechado do Carrasco. Sentiu o queixo latejar com o soco forte desferido e foi impulsionado para trás, caindo completamente, no mesmo instante em que foi solto. Encolheu-se como uma criança, colocando as mãos no local atingido e revirando-se de dor, fechando os olhos lacrimejantes no processo. Estava impossibilitado de fugir.

Max parecia ter se recuperado o bastante, logo ao lado, vendo o amigo naquela situação com os olhos aguados. Não foi capaz de fazer nada, no entanto. O assassino já estava ao seu lado, dando um chute seco em suas costelas assim que levantou o torso com os braços, devolvendo-o ao chão facilmente. Langdon colocou as mãos ao lado do corpo, virado para cima, grunhindo de dor. O Carrasco tinha colocado os dois em suas mãos. Alvos fáceis. O próximo movimento dependia dele.

Mas diferente do que pensavam, o assassino caminhou até a porta e a fechou, trancando-a em seguida. Havia prendido todos ali dentro. A festa finalmente poderia começar.

No momento de distração do assassino, em que ele estava de costas para os garotos caídos, Owen tomou forças para se levantar. Disse para si mesmo para ser mais forte, mais competente. Disse para si que deveria deixar o medo de lado e lutar pela vida, salvar sua pele e a do amigo. Para isso, deveria se arriscar. Deveria deixar seus temores de lado e simplesmente partir para cima.

Foi o que fez. Levantou-se, apoiando a mão na parede ao lado, cambaleando como um bêbado, com a visão completamente fosca, desorientado, e correu para cima do mascarado. Não hesitou pois tal hesitação tiraria sua coragem. Apenas foi. Correu até ele soltando um grito de guerra e, quando percebeu, estava acertando as costas do maníaco com os braços, empurrando-o para frente com força e fazendo-o dar de cara com a porta, que balançou tremendamente, antes dos dedos enluvados se abrirem involuntariamente e a faca cair no chão. Em meio a baderna de pés que se debatiam, a arma foi chutada para longe, entrando nas profundezas da parte de baixo de uma mesinha que havia ali ao lado da porta, fora de vista e de alcance dos envolvidos.

Contudo, Owen não era tão forte quanto o mascarado. E quando toda a atenção do assassino foi voltada contra si, o desgraçado virou o corpo em sua direção, ficando cara a cara com o garoto. Campbell estalou os olhos em pânico e tentou recuar, mas parou no meio do caminho quando o psicopata agarrou sua camisa na altura do peito, enroscando os dedos no pano forte o bastante para levá-lo para o lado. Owen tentou se manter firme, mas não conseguiu, e no instante seguinte estava com a face colada na mesinha ao lado da porta, o torso inclinado para frente após acertá-la em cheio com o peito. O mascarado ainda o segurava por trás, impedindo-o de se levantar ou se soltar.

Owen, em completo desespero, acertava socos involuntários na parede e acabou por derrubar o vaso de flores que havia ali em cima, estilhaçando-o no chão. Os cacos avermelhados como sangue se uniram com os transparentes da janelinha, jogados aos pés da porta fechada.

— Me solta, por favor! – implorou, pela primeira vez soltando a voz, a face vermelha como um pimentão e os músculos rígidos na tentativa de se soltar.

Como resposta, recebeu um soco violento nas costas, desferido pelo assassino quando ele levantou o punho acima da cabeça e o desceu com velocidade e precisão na espinha do jovem uma, duas, três vezes, até que sua pele queimasse na altura do soco e ele grunhisse de dor e medo, contendo as lágrimas para não demonstrar o quão afetado estava, ainda com o rosto colado na madeira naquela posição desconfortável e uma das mãos do mascarado pressionando-o fortemente.

Os sons secos de impacto foram o bastante para aguçar a vista de Max, que começava a se levantar atrás deles. Manteve a estabilidade dos pés após muito tentar, colocando uma das mãos acima do local onde havia sido chutado. Este que ardia como o inferno. Achava que tinha tido uma costela quebrada, mas isso já seria exagero demais. No entanto, ao ver o amigo naquela situação, sua expressão de dor se transformou em ódio. Seu instinto protetor se ativou. Não deixaria que Owen fosse apanhar daquele jeito.

Max partiu para cima do mascarado com os punhos fechados em ataque, mas quando estava próximo de alcançá-lo, o Carrasco antecipou o golpe e virou em sua direção. Langdon estalou os olhos no susto, perdendo toda a coragem, e começou a recuar agilmente enquanto Owen despencava no chão, recheado de dor. Fazendo movimentos negativos com a cabeça, Max esperava que o assassino fosse parar no meio do caminho, mas isso claramente não aconteceu e, então, o garoto se viu prensado contra a parede, a mão enluvada envolvendo seu pescoço.

Sem sua faca, o maníaco apelou para o bom e velho esganamento. Esmagava o pescoço frágil de Max com toda a força dentro de si. Pressionado no concreto da parede, Langdon não tinha para onde fugir ou o que fazer, e apenas segurava o punho do mascarado na intenção de tirá-lo de si, mas era em vão. Os dedos enluvados apenas apertavam mais e mais seu pescoço, afundando a pele. Max sentia todo o ar saindo de seus pulmões, a queimação crescente no peito. A cara começava a ficar vermelha na intercepção do caminho do sangue para o restante do corpo.

O garoto acertava socos na máscara de couro, chutes nas pernas. Nada adiantava. Sua cabeça era frequentemente batida contra a parede. A dor se alastrou para todos os membros. As mãos formigaram. Por um segundo, ele achou que fosse o fim, mas então um movimento surgiu atrás dos ombros do maníaco, e Max notou: Owen avançava de novo.

Seu queixo estava vermelho como sangue, os olhos aguados e desorientados, insanos. Ele agarrou o mascarado por trás, passando os braços ao redor do peito dele, como se fosse abraçá-lo. Então, puxou-o para si e para fora de Max, que teve o aperto no pescoço desfeito e arfou com força, sem fôlego, despencando com os joelhos no chão e colocando ambas as mãos ao redor da garganta, puxando o ar em completo desespero, sentindo o pescoço arder como se fogo percorresse por ele. Os olhos cheios de lágrimas encaravam a luta que se prosseguiam logo em sua frente.

Owen continuou levando o psicopata para trás, dando passos trêmulos e ágeis para longe de Max e, consequentemente, levando o assassino consigo naquele abraço forte. Todavia, não foi capaz de controlar a situação e, quando percebeu, era o mascarado que o empurrava para trás. Campbell bateu com as costas na parede do lado oposto. A visão escureceu por alguns instantes no impacto violento, onde sua nuca doeu como nunca antes. Pensou que desmaiaria ali mesmo, desfazendo o aperto do redor do peito do Carrasco e deslizando para o chão, com as costas grudadas na parede.

Naquele mesmo instante, o assassino se virou em sua direção e o pegou pelo pescoço, levantando-o até que estivesse em pé novamente. Agora, era Owen quem sofria pelo enforcamento. Ele sentiu a garganta queimar, o ar deixando o corpo, a visão ficando embaçada e a onda quente que subiu das pernas até a cabeça. Agarrava com força os braços do assassino, tentando levá-los para longe, enquanto encarava os olhos sob a máscara, aqueles olhos inexpressivos e, ao mesmo tempo, mortais.

Dessa vez, o mascarado estava ciente de que um ataque poderia vir por trás. Tinha total consciência de Max, a alguns passos, tentando se levantar, com uma perna erguida e as mãos ao redor do pescoço na tentativa quase fútil de recuperar o ar perdido, enquanto sofria pelo engasgo, tossindo como um doente. Langdon tentava ir de encontro ao amigo. Encarava Owen sendo enforcado sem ser capaz de fazer alguma coisa e isso o levava ao pânico. Jamais se perdoaria caso algo acontecesse a ele. Foi Max quem os metera naquela enrascada. Foi Max quem brincou com fogo e acabou se queimando. Por isso, ergueu-se de uma vez e foi para cima do assassino.

Ele previu isso. Antes que Max pudesse chegar a eles, desferiu um preciso golpe de cabeça contra Owen. Suas testas se chocaram com enorme brutalidade e, de repente, Campbell teve a vista e a audição obstruídas. Os sons ficaram abafados e o mundo se transformou em uma enorme quantidade de estrelas dançantes. Não tinha consciência de nada, apenas de que tinha sido solto. Sentia as costas deslizando pela parede enquanto caía em direção ao chão. Acabou sentado na madeira. E naquele estado, recuperar o fôlego era dez vezes mais difícil e desesperador. Não tinha noção de suas próprias ações, não conseguia controlar nada. Sua respiração acabou ficando entrecortada em engasgos e tossidas, o peito inflando e desinflando com voracidade. A cabeça doía e latejava pelo golpe recente.

O assassino virou-se para Max e pausou sua investida contra ele. O garoto percebeu como ele era imponente e desafiador, uns bons centímetros maior do que si. Não tinha chances contra ele. Naquele segundo de hesitação dos dois, Langdon foi capaz de notar o som de sua respiração, vindo como o de uma máscara de gás, e a forma como os ombros subiam e desciam, ofegante. Começou a recuar, indo para trás o mais rápido que podia. Quando viu, o mascarado ia até si. A cozinha escura tomava forma atrás de Max, e Owen era deixado para trás.

Ele lançava olhadas indiscretas para o amigo ao fundo, vendo se ele seria capaz de lhe ajudar. Estava errado quando disse que poderiam acabar com o assassino. Depois de tanta luta, ele ainda era quem estava ganhando. E dessa forma, a única coisa que conseguiu fazer foi pedir por misericórdia, com a voz embargada no cansaço, ainda dando passos ágeis para trás:

— Por favor, vai embora. A gente não fez nada… Nos deixa em paz! Por favor!

O Carrasco deu um passo em cheio para frente. Max não estava preparado e abriu a boca para gritar, mas o punho do assassino foi mais rápido, o acertando no nariz com força suficiente para ricochetear a cabeça do garoto para trás. Um arco de sangue surgiu no ar enquanto Langdon tentava manter a estabilidade nas pernas e não cair. A cozinha escura não ajudou em nada quando sua visão escureceu e a dor se alastrou por toda a face.

Estava no modo automático. Os passos ligeiros para trás ao menos eram calculados. Foi quando mais um soco veio, no exato mesmo lugar. O mascarado afundou os dedos na cara de Max. Grunhidos saíam do rapaz. E então um terceiro soco, de novo no nariz. Dessa vez, um estalo baixo foi ouvido e Max finalmente conseguiu dar um grito de dor, quando esta veio mais forte do que antes. O sangue descia consistente pelo peito, manchando a camisa. Seus olhos eram cegados pela negritude do ambiente e a tontura que lhe abalou pelo nariz quebrado. Agora, era possível ver o osso torto sob a pele.

Langdon não viu quando o maníaco aproximou-se mais e empurrou-o, apenas sentiu a pressão de duas mãos contra o peito e, quando se deu por si, estava batendo com as costas contra a parede da cozinha. O balcão e a mesa de centro já tinham sido deixados para trás sem que ele ao menos percebesse. Já estavam no limite do cômodo, ao lado da porta deslizável de vidro que levaria para o quintal dos fundos. Do outro lado, a bancada que circundava toda a cozinha. Max havia batido naquele meio, entre as duas coisas, zonzo pela dor, sentindo o nariz queimar.

— Me deixa… Em… – tentou dizer, mas não conseguiu terminar a frase.

Teve seu pedido cortado quando foi agarrado pelos braços e virado para o outro lado. Max teve o peito colado contra a parede, a bochecha encostando no concreto frio, dando as costas para o Carrasco. O braço direito havia sido agarrado pelo mascarado, que agora o segurava ali, pressionando-o cada vez mais. Era difícil de respirar. E tudo doía: o nariz quebrado, as costelas chutadas, o pescoço apertado. Além da dor psicológica, é claro. Sentia medo e fúria. Culpa, também.

O braço foi puxado ainda mais contra as costas. Estava todo envergado para trás. O assassino o forçava na direção em que não era possível dobrar. O inevitável estava para acontecer.

— Socorro! – gritou o garoto, pela primeira vez, soltando a voz estrondosamente.

Com o rosto colado na parede, Langdon não podia fazer nada além de resistir a imensa dor que queimava seu braço. Um novo puxão, dessa vez mais forte. Crack!

Max estalou os olhos e gritou. Gritou o mais forte que podia. A garganta doeu de tanto gritar. Mas nada se comparava a dor do braço quebrado. Ele sentiu o ligamento se partindo e, de repente, o membro balançava mole ao lado do corpo, quando o assassino o soltou. Não interrompendo a melodia que era o grito para os ouvidos do assassino, o garoto escorregou até o chão, onde caiu sentado, já virado para o maníaco, que continuou de pé diante de si, encarando-o de cima. Deixava toda a sua miserável dor tentar ser expelida de si na forma do grito. Ela era irreal, desumana.

Logo, a intenção do psicopata tornou-se clara para ele: ele tentava incapacitá-los de todas as maneiras que conseguisse, para então arranjar uma forma de finalmente matá-los, desde que o enforcamento não era possível e, convenhamos, nada que se encaixasse em seu perfil.

Langdon trouxe o braço junto do peito e segurou-o com força. O Carrasco abaixou-se com velocidade e meteu-lhe mais um soco no nariz quebrado, virando o rosto de Max para o lado com o impulso. O sangue manchou a parede numa espirrada violenta. O garoto ainda gritava. A ira do assassino era insaciável. Ao retornar ao seu posto, o maníaco deu um chute em suas pernas alongadas no chão. Max logo as recolheu, tremendo.

Então, um vulto surgiu atrás do mascarado. Owen, recuperado. A face já tinha voltado ao normal, a garganta esbranquiçada em certos pontos. Mas a fúria era a mesma de antes. O assassino foi rápido em virar em sua direção, escutando o som de passos pesados por trás, mas não rápido em se proteger do soco desferido por Campbell. Ele acertou a máscara em cheio, mesmo que grande parte do golpe fosse absorvido pela grossa camada de couro. De qualquer jeito, foi forte o bastante para arrancar um gemido abafado do desgraçado. Este que, mais uma vez, não conseguiu se proteger do soco seguinte, dando um passo para trás e quase tropeçando no corpo caído de Max, mas conseguindo manter-se em pé ao bater na porta de vidro. Ela balançou, mas não cedeu.

Na terceira investida de Owen, no entanto, ele teve seu punho segurado no ar pela mão do mascarado. Estalou os olhos e tentou golpear com a mão esquerda. Ela também foi agarrada. Com grunhidos e gemidos, ele tentava se livrar do aperto do maníaco, mas de nada adiantava, e os dedos enluvados enterravam-se mais em sua pele, agarrando seus punhos e impedindo-o de se soltar.

O Carrasco começou a empurrá-lo, segurando suas mãos no ar. Owen foi mais fraco e cedeu à força dele, dando passos descontrolados na direção oposta, sendo levado para trás.

— Não, não, não, não, não…

Então, foi empurrado, no instante em que teve os membros soltos. Só não caiu pois bateu com a cintura na mesa de vidro, redonda e grande. Apoiou-se com os braços nela, vendo o assassino avançar. Tentou se proteger ou fazer alguma coisa, mas não esperava que o desgraçado fosse agarrar sua cabeça. Owen não tinha colocado força nela e o Carrasco, facilmente, a levou para baixo. Descendo com a lateral do corpo, Campbell teve o lado do crânio arrebentado contra a mesa de vidro. O material aguentou e não quebrou, ficando apenas com uma bola de sangue manchada na superfície, vinda do corte fino que surgiu em sua têmpora.

O garoto gritou e tentou se levantar, mas já era tarde demais. Novamente, a cabeça foi de encontro a mesa. Mais sangue se acumulou quando o corte abriu. Ele grunhiu, de olhos fechados, sentindo-se ser levado mais uma vez. Vidro e carne se chocaram de novo. E nessa terceira e última vez, o assassino largou a cabeça do garoto, que escorregou para o chão, caindo de bruços num impacto grosseiro, sendo observado com desgosto pelo mascarado. Tentou lutar para se levantar, mas era impossível. Estava zonzo, a visão embaçada e a cabeça doendo como nunca. O rosto era coberto de sangue. Owen ficou anestesiado ali.

Um gemido rouco chamou a atenção do psicopata, que virou-se, apenas para encontrar Max arrastando-se pelo chão da cozinha. Ele usava o braço bom para avançar, vendo a brecha perfeita para escapar. O braço quebrado era mantido colado ao peito. Lágrimas desciam de seus olhos e formavam trilhas no sangue que manchava o rosto. As pernas inutilmente levavam o corpo para frente. E ele realmente achou que teria alguma chance. Pelo menos até que o Carrasco surgisse ao seu lado, os coturnos preto diante do rosto.

Langdon abriu a boca para gritar, mas foi calado pelo chute recebido na altura do queixo. Teve o corpo virado impulsionalmente para cima. Encarou o teto com os olhos piscando, tentando recobrar a visão fixa e se livrar da visão turva. O peito subia e descia em ofegância. As pernas e os braços estavam tortos ao lado do corpo. Estava esgotado, incapaz de lutar mais.

Apenas gemeu quando o assassino se abaixou e agarrou-o pela camisa. Foi tirado do chão com facilidade, como um boneco. As pernas amoleceram, mas isso não foi problema, pois o mascarado era forte o bastante para segurá-lo. Logo, começou a ser levado, os calcanhares arrastando no chão.

Ao lado, Owen arrastava-se para longe o mais rápido que conseguia, o que não era muito devido ao seu estado. Suor pingava do cabelo, sangue escorria da testa aberta. O garoto usava os antebraços e as pernas para ir para longe, chegando no seu máximo ao alcançar a parede ao lado da passagem que levaria ao hall de entrada, de onde tinha vindo. Esgotado, parou ali mesmo, sentando-se todo torto, encostando a cabeça no concreto. Tentando manter os olhos abertos, Owen via o que acontecia logo ali, na sua frente.

Max continuava sendo arrastado. Passou os últimos segundos dessa forma, até que os dois, ele e o assassino, pararam diante à porta de vidro. Langdon fechou os olhos antes de ser jogado contra ela. Grunhiu baixo quando os cacos voaram e o corpo ardeu. O barulho pareceu como o de um tiro de canhão. Ele não conseguiu ver quando dezenas de cacos voaram para dentro e para fora da casa, apenas sentiu o vento frio que veio do outro lado, e abraçou a grama molhada pela neblina como se fosse sua salvação, caindo de costas contra ela, sendo cortado nos braços, costas e nuca pelos fragmentos transparentes e pontudos que açoitavam sua pele em pinicadas violentas e constantes. Por isso, tentou não se mover.

Owen via a forma como Max tremia no chão. A dor se alastrava pelo corpo dele, os dedos atrofiavam e as pernas davam tremeliques. A respiração do rapaz era ouvida por Campbell, pesada e quase inexistente, afogada. O mascarado deu um passo para fora da casa e passou para o ar noturno. Ele ficou do lado do corpo estendido de Max por alguns segundos, e então sumiu ao ir para o lado, desaparecendo atrás da parede da casa. Owen continuou sentado ali, assistindo tudo, até que o Carrasco voltou, agora com algo em mãos.

No gazebo no quintal dos fundos, o mascarado tinha encontrado algo que chamou sua atenção: uma grande e ameaçadora marreta, com um longo cabo de madeira circular que acabava em uma enorme pedra quadrangular pesada. Com uma das mãos agarrando o cabo, ele arrastava-a na direção de Max, a ponta arrastando na grama. E Langdon, sem saber o que acontecia logo ao seu lado, apenas era açoitado pelo vento frio, que amenizava parte do calor sentido.

O Carrasco parou atrás da cabeça de Max, num ângulo escolhido quase que propositalmente para que Owen, do lado de dentro, fosse capaz de ver. E sim, ele foi. Com o peito apertado e o pânico cobrindo o corpo, Owen viu, com muita clareza, o momento em que o assassino levantou a marreta acima dos ombros, e desceu-a na direção da cabeça desprotegida de Max.

Um estouro violento foi ouvido no som do crânio se partindo. Por um segundo, todos os membros de Langdon tremeram e ele sentiu a linha de sangue descer pela testa, a dor como uma única pinicada no topo da cabeça. Ele abriu os olhos e observou as estrelas. Mas então, a marreta surgiu de novo. Ele viu como tudo se tornou preto, e então como tudo se tornou nada. A testa estava afundada dentro do corpo, um aglomerado de sangue cercando sua cabeça. O mesmo sangue que tampava o corte aberto pela marreta. Esta, por sua vez, subiu de novo, preparando-se para mais um golpe. O assassino não teve misericórdia, erguendo a arma sobre os ombros, e descendo-a pela terceira vez na cabeça de Max, caído diante de si.

Crack! Owen ouviu. Ele já tinha lágrimas nos olhos, os braços tremendo ao lado do corpo como se ele mesmo estivesse sendo acertado pela ponta de pedra. Não podia acreditar que Max estava realmente morrendo, da forma mais cruel possível. Lembrou-se do amigo, vivo e bem, e então comparou com a imagem diante de si, a que mostrava o quão brutal e insensível o Carrasco poderia ser, enquanto subia e descia aquela enorme marreta sem parar, acertando o crânio de Langdon com tamanha violência que pedaços de seu cérebro eram lançados no ar, junto de uma linha de sangue brilhante, que manchava a máscara e o traje, caindo por toda a grama, e deixando no chão, apenas um bolo de miolos e carne, com aquele som horrível preenchendo todo o ambiente.

O que antes era oval, agora tornou-se reto e prensado na grama. A face de Max fora desfigurada por completo. Lábios, olhos, nariz: tudo se foi em meio às violentas acertadas da marreta pesada, que transformou tudo em um amontoado de cérebro esmagado e ossos quebrados, logo acima do pescoço, onde sua cabeça desaparecia. O sangue cobria parte do peito do rapaz e formava um círculo na grama, crescendo e crescendo. As pernas do cadáver ainda tremiam, os braços davam espasmos vez ou outra. E em meio a toda aquela situação, a única certeza era esta: Max Langdon estava definitivamente morto.

Do lado de dentro, Owen chorava e tremia. Esse simples feito era capaz de doer todo seu corpo. As lágrimas nunca foram tão dolorosas. Ele observava toda a cena e não era capaz de fazer uma coisa sequer. Tinha de ver enquanto a vida de seu melhor amigo era levada, sem poder interferir, sem poder mudar a situação.

O maníaco continuou golpeando. As marretadas iam e vinham, sem intenção de parar. O sangue brilhava à luz da lua ao ser lançado no ar, e a cada encontro de pedra e crânio, o corpo de Langdon tremia. E quando finalmente acabou de acertar a cabeça de Max, o mascarado ficou parado ali, com a marreta ensanguentada ao lado do corpo, encarando Owen com uma expressão vitoriosa de quem, mais uma vez, havia ganhado.

Mas o maior medo veio segundos depois, quando o maníaco se pôs a entrar na casa mais uma vez. Arrastando a marreta pelo piso e deixando uma trilha de sangue por onde passava, ele ia com passos lentos e bem decididos na direção de Campbell. Owen levantou os olhos para encará-lo, a face mal sendo sentida pela quantidade de hematomas que nela havia, com todo o sangue ainda cegando-lhe um pouco. Era como se vestisse uma máscara. No entanto, o temor ele sentia, o medo ele sentia, aquela horrível sensação de saber o que aconteceria. E sim, ele tinha muita certeza do que pensava, tinha extrema precisão nos pensamentos de que, sim, seria o próximo.

O grunhido baixo da grande pedra na ponta da marreta arrepiava a espinha de Owen. O garoto chegou a fechar os olhos quando o psicopata se colocou diante dele, criando uma sombra sobre seu corpo. Com a face franzida, ele implorou:

— Me deixa em paz… Por favor…

De qualquer forma, não ousou abrir os olhos. Tinha medo demais. Toda a sua fúria e coragem havia se desfeito com a ida de Max, e agora sobrara apenas a carcaça de um garotinho assustado. O peito ardia de tanto chorar e a garganta queimava. Ele apenas esperava a dor que viria antes da morte, quando aquela arma acertasse sua cabeça.

Em partes, nada disso aconteceu. A marreta havia sido levantada novamente. Owen abriu os olhos quando escutou o barulho, mas o choque não o deixou sentir a tremenda dor de imediato, e o que Campbell viu foi o momento em que sua perna, esticada no piso, foi alvo da pesada pedra, que afundou-se em sua carne em um estalo violento que partiu o osso abaixo do joelho, abrindo um corte profundo que inundou o piso com seu sangue quente e consistente. O rapaz estalou os olhos nos primeiros segundos, e então abriu a boca para dar o seu maior grito daquela noite, um grito carregado de medo, ódio e dor, uma dor tão escruciante que lhe tirava todos os sentidos.

Sentia aquela sensação subindo pela perna quebrada. Conseguia ver o interior de sua carne pelo corte sob a calça jeans. Owen não deixou de gritar enquanto as lágrimas desciam pelo rosto e o fim se aproximava, levantando os olhos uma última vez, apenas para encarar a pesada marreta a centímetros de seu rosto, gotejando o sangue quente de Max em seu colo. O braço estendido do mascarado exibia a aterrorizante arma para o garoto, colocada exatamente diante de seu rosto, ameaçando o golpe que estaria por vir a qualquer instante.

Owen virou o rosto, tentando se afastar. A parede o impedia, e a única coisa que conseguiu, foi ter o concreto frio contra o rosto. Fechou os olhos, preparando-se. Sentia o sangue pingando em seu colo, a vibração da arma ainda parada ali, em sua frente. Conseguia sentir o Carrasco, também. Ele continuava parado ali, vendo o que ele faria. E a dor, a maldita dor, continuava impregnando sua perna, sofredora de leves tremidas a cada instante, fechando a garganta de Campbell, tamanha era sua intensidade. Ele nunca havia sofrido tal coisa, e preferia que tivesse continuado desse jeito.

E nos segundos de tensão que se passaram, em que Owen abraçava a escuridão com os punhos fechados e o coração acelerado, Campbell pensou em sua família e em seus amigos, e o quão tudo aquilo havia sido em vão. Pensou em como a ira do assassino era tão idiota quanto ele próprio. Do que aquilo adiantaria, de qualquer jeito?

Abriu os olhos.

Owen temeu encarar o que aconteceria, mas quando virou o rosto, percebeu o espaço diante de si vazio. Nenhuma marreta, nenhum assassino. Olhou ao redor, mas a cozinha também estava vazia. A única coisa que havia, era o corpo estendido e morto de Max, a alguns metros. O Carrasco, por sua vez, havia sumido, como sempre fazia, deixando-o com a inconsolável dor no peito, e o sangue quente de seu melhor amigo ainda esquentando suas mãos.



Notas finais do capítulo

RIP Max! Foi triste matá-lo, mas essencial. Espero que a minha intenção com a perseguição/luta dos garotos tenha funcionado: vocês ficaram em dúvida em relação a quem morreria? A cena foi bem extensa e praticamente a que mais teve luta e porradaria entre a(s) vítima(s) e o assassino. Foi bem divertido de escrever, mas complicado. Se vocês tiverem alguma dúvida sobre alguma parte, é só falar haha
Então, o que acharam? Gostaram da morte do Max? Da cena de luta? Sentiram pena, raiva, indiferença? A morte dele vai marcar um ponto importante, principalmente pro Owen, que sobreviveu. E sobre a Linda e o Kai e sua vontade de descobrir a verdade? Eles não vão ser os únicos a ter essa vontade selvagem de saber quem é o responsável haha Me deem suas opiniões, críticas, ideias, teorias, eu vou adorar saber? Quais são seus suspeitos? O que acham que vai acontecer de agora em diante?
Aliás, eu cortei a cena em que o Kai e a Linda aparecem pra resgatar o Owen. Mas foi isso que aconteceu. Vou explicar isso no próximo capítulo, pra não ficar um pouco avulso a descoberta deles no começo.
Lembrando que faltam somente dois capítulos para a revelação final. Estamos nos aproximando da finale, galera! Até mais sz



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