Zohar escrita por AnneFanfic


Capítulo 22
Surpresas




 

Aquelas palavras tinham atingido um ponto tão sensível do meu cérebro que demorei um tempo para voltar à realidade e chorar de alegria com aquela notícia.

 

 

 

Um mês e meio. Esse era o tempo que Zohar estava morando na casa de Suzan e quando ela se deu conta disso simplesmente não conseguiu acreditar. Fazia mais de um mês que não via a mãe e não sabia quando teria notícias dela novamente. Quando pensava nisso sempre sentia um aperto no peito ao passo que inúmeras perguntas ocupavam sua mente. Será que ela estava bem? Será que ainda estava morando com seu tio ou ele teria expulsado ela da casa por conta do que aconteceu? Será que ela já tinha se casado novamente? Será que ainda estava em Londres? Será que a tinha perdoado por ter feito aquilo?

Após se recuperar do susto que levou ao olhar para o calendário, Zohar fechou a geladeira com o cotovelo enquanto segurava algumas batatas com as mãos e foi até a pia. Era sexta-feira e à noite Sarah chegaria para passar o final de semana com a mãe. E com ela, é claro.

No início morar na casa de Suzan a fez se sentir muito desconfortável. Afinal, era uma intrusa ali. E teria ido ficar na ONG, que se localizava na rua atrás da casa, se Suzan não tivesse insistido para que ela ficasse ali. Como ela sempre gostava de afirmar, Zohar era uma companhia agradável já que Sarah estudava no centro de Londres e só voltava aos finais de semana.

Zohar acabou aceitando ficar na casa para fazer companhia e só ia para a ONG durante as tardes e em alguns dias da semana no período da manhã para fazer acompanhamento com a psicóloga. Essa, por sinal, tinha sido uma experiência diferente, já que nas primeiras sessões ela quase não falou nada por sentir-se exposta demais diante de uma pessoa que nem conhecia. Mas aos poucos ela foi se abrindo e percebendo que aquilo a ajudava a por a cabeça no lugar.

Na ONG ela também encontrou outras mulheres que tinham passado por situações traumatizantes e, embora nos primeiros dias ela tenha se sentindo um pouco tímida, com o passar do tempo o elo em comum a fez se sentir próxima à elas. Nenhuma delas tinha passado por uma guerra, mas Zohar sabia que não era preciso uma guerra para destruir uma pessoa por dentro, e no fim elas sempre tentavam se ajudar de alguma forma.

Durante as tardes ela e algumas das novas amigas participavam dos cursos de artesanato que eram oferecidos gratuitamente. Essa era uma forma de mantê-las com a mente ocupada além de ser uma fonte de renda extra. Zohar tinha escolhido o curso de crochê, porque tinha visto as toalhinhas na casa de Suzan e as achava muito bonitas. Mas logo nas primeiras aulas viu que não era assim tão fácil fazer aquilo. Percebeu que não tinha muita paciência para ficar uma tarde inteira concentrada naquilo e ao chegar ao fim do dia se deparar com uma coisa esquisita diante dos olhos. Como a professora dizia, ela tinha a mão pesada e apertava demais os pontos. “Relaxe... Relaxe...”, ela dizia. Mas era complicado demais pra ela.

Estava a ponto de desistir do crochê e tentar outro curso quando em uma noite viu Suzan tirar porta-copos de crochê e colocá-los sobre a mesa, organizando-a para o jantar. Era a primeira vez que reparava neles e como pareciam fáceis de fazer, por serem bem menores, trocou o gráfico.

Diante daquela mudança a professora prontamente a ajudou com os pontos difíceis, dando uma ou outra dica. Mas foi só quando Zohar viu a pequena toalhinha pronta diante dos olhos em tão pouco tempo que ela teve certeza de que empenharia seus esforços naquilo.

Fazia parte do calendário da ONG organizar feiras de artesanato ali e em outras cidades para que as mulheres pudessem conseguir sua própria renda extra, mas Zohar decidiu fazer várias peças daquelas e sair pelo bairro para vendê-las independentemente. Era ainda a terceira semana que estava ali quando decidiu fazer aquilo e estava tão radiante diante da ideia de conseguir algum dinheiro para ajudar Suzan, por mais que a quantia fosse mínima, que não se lembrou que estava em outro país, com outra cultura, em uma cidade um pouco afastada da capital, e que as pessoas ali a olhariam diferente pelo fato de usar véu.

De início as pessoas olhavam para ela com curiosidade e ao mesmo tempo receio, fazendo perguntas às vezes um tanto invasivas que a deixavam chateada.  Pensou em desistir daquilo, mas ponderou bem as coisas e depois de falar com a psicóloga e com Suzan decidiu tentar outra vez, usando sua situação ao seu favor. Era sim refugiada, tinha sim passado por uma guerra e perdido boa parte da sua família, mas estava ali para reconstruir sua vida. Foi de casa em casa oferecendo as peças de crochê, explicando por cima o que tinha acontecido e ao final do dia voltou para casa feliz por ter conseguido vender tudo o que tinha feito.

 

—Sarah acabou de mandar uma mensagem. Disse que vai se atrasar um pouco porque teve um acidente na saída da cidade, mas não é pra gente jantar antes dela chegar.- Suzan apareceu na cozinha com o celular na mão.

Zohar riu com o que ouviu, achando que aquilo era bem a cara de Sarah dizer uma coisa daquelas, e voltou sua atenção às batatas. Estavam todas descascadas e devidamente cortadas apenas esperando um tempero para serem colocadas no forno.

 

De todas as pessoas que conheceu naqueles dias em que estava ali Sarah era de longe a pessoa mais estranha. No primeiro final de semana que ela voltou para casa Zohar pode observar ela melhor e assustou-se com o que viu. Como ela conseguia ser tão louca e espalhafatosa daquele jeito?

Seis finais de semana tinham se passado, mas Zohar ainda se assustava com o jeito liberal e quase sem limites dela, sem falar nas coisas que ela contava depois de uma semana de novidades e nas perguntas que fazia. Não conseguia se esquecer de uma noite em que ela, batendo na porta depois de abri-la, entrou no quarto de Zohar e perguntou se podia dormir ali. Ela quis dizer que não. Tinha receio das coisas que ela com certeza iria contar sobre sua vida madrugada a fora, mas antes que pudesse dar uma resposta de um jeito que ela não se sentisse ofendida, Sarah saiu do quarto e voltou trazendo seu colchão. Colocou-o no chão ao lado da cama de Zohar e simplesmente deitou-se, virou para o lado e dormiu. No dia seguinte, como consequência, Zohar acordou com Sarah cantarolando pelo quarto, convidando-a para ir até uma pracinha no centrinho da cidade. Zohar nunca passou tanta vergonha em público como naquele dia.

 

Diante daquelas situações Zohar chegou a absoluta conclusão de que não gostava dela. Nem um pouco. Eram totalmente diferentes, viviam a vida de forma totalmente diversa, e buscavam coisas distintas. Zohar cansou de dizer que jamais iria em uma balada com ela e que não iria sair com nenhum dos garotos que Sarah insistia em querer apresentar. Por conta desses desentendimentos Sarah dizia apontando o dedo na cara de Zohar que ela era uma chata que não sabia aproveitar a vida. Tudo o que ela estava querendo fazer, dizia, era ajuda-la a se enturmar com as pessoas da idade delas. Nesses momentos Zohar ouvia tudo em silêncio, pois não teria coragem de dizer na cara dela o que pensava sobre seu jeito de ser.

Seu pensamento a respeito dela só começou a mudar no dia em que ela começou a ligar no meio da semana simplesmente para conversar. Na primeira vez que isso aconteceu Zohar estava sentada na sala assistindo TV com Suzan quando o telefone tocou. Foi Suzan quem atendeu ao telefone e qual não foi sua surpresa ao pegar o telefone e ouvir a voz de Sarah no outro lado da linha perguntando sobre sua cor preferida. “Azul”, tinha respondido. E depois de um “Ok, ZohZoh.” ela simplesmente desligou o telefone. Naquele final de semana ela trouxe um véu daquela cor de presente para Zohar e o entregou depois de dar um abraço apertado. Uma lista de garotos “interessantes” acompanhava o pacote.

Sem opção, Zohar começou aceitar Sarah do jeito que ela era. Às vezes a observava, enquanto ela contava algum dos seus casos românticos, e perguntava-se como ela podia ser filha de Suzan. Elas eram totalmente diferentes e era engraçado como elas se davam tão bem como mãe e filha, apesar de todos os detalhes que poderiam sugerir o contrário.

 

Naquela sexta-feira Zohar já tinha sido previamente avisada que era para se preparar para um assunto bombástico. Por telefone ela insistiu em saber do que se tratava, mas Sarah não disse nada, nem mesmo uma dica. E diante de tanto suspense sua mente começou a trabalhar nas possibilidades. A que a deixou mais assustada e nervosa foi pensar na possibilidade “gravidez”.

Quando Sarah chegou, fazendo estardalhaço desde o portão, Zohar terminou de ajeitar os pratos na mesa e correu para a porta. Lá estava ela sorridente e falante, carregando uma porção de sacolas nas mãos.

—Olha o que eu trouxe pra você!- ela disse, caminhando rapidamente, balançando uma sacola no ar. Mas assim que ela pôs os pés na varanda e se aproximou de Zohar, seu sorriso congelou no rosto.

—O que foi?- Zohar não tinha entendido, e achando que fosse algo em seu rosto, passou a mão pelo mesmo para ter certeza de que não tinha nada nele.

—Caramba!- Sarah exclamou, abrindo a boca em um formato oval. Em seguida arregalou os olhos, tapou a boca com a mão e passou por Zohar sem dizer nada.

Zohar se virou e olhou para Suzan, que estava logo atrás. Ela deu de ombros, não entendendo nada, e foi para a cozinha atrás da filha perguntando o que tinha acontecido.

Durante o jantar Sarah não disse nada. Não fez comentário nem sobre a comida, o que era estranho, e apenas ficou olhando seriamente para Zohar entre uma garfada e outra.

—Sarah, você está me deixando constrangida.- Zohar sentiu-se na obrigação de dizer, depois que Sarah  ficou encarando-a por um tempo que Zohar julgou ser longo demais.

—É ela. Tenho certeza.- simplesmente falou, como se todos estivessem conversando sobre um assunto em comum.

Ela balançou a cabeça para dar mais ênfase à sua descoberta, enquanto olhava para a mãe, e então voltou a olhar para Zohar.

—Ela é a sua cara.- disse, encarando Zohar dentro dos olhos.  —Não, na verdade você é a cara dela.- riu. —Foi você que nasceu dela.

Ao ouvir aquilo Zohar arregalou os olhos. Uma descarga de adrenalina começou a correr em suas veias, fazendo seu coração bater acelerado.

—O que você disse?- Zohar perguntou, sentindo uma vertigem súbita.

—Sua mãe. Ela tem esse sinal no canto da sobrancelha como você falou outro dia. É ela! Eu vi.

Zohar ficou encarando Sarah por um tempo, ao passo que aquelas palavras rodavam em sua cabeça, deixando-a zonza demais para entender o que estava acontecendo ali.

—Zohar, você está bem?- Suzan imediatamente se levantou e foi ao lado de Zohar ao ver que ela estava ficando pálida.

Foram precisos alguns minutos para Zohar se recuperar daquilo, e precisou puxar na memória todas as palavras que tinham saído da boca de Sarah para ter certeza de que tinha escutado direito.

—Você viu minha mãe?- perguntou, sentindo os olhos se encherem de lágrimas. —Você viu minha mãe...- repetiu mais para si mesma do que para Sarah, não acreditando que aquilo estava acontecendo.

—Vi.- Sarah sorriu satisfeita, estufando o peito e sentindo-se uma heroína. —Mas ela não parecia muito feliz não.



Notas finais do capítulo

Demorei, mas postei. o/

E então, o que vocês acham da Sarah? Será que ela é mesmo uma boa pessoa, apesar dessas loucurinhas dela?
Hm...



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