Chess escrita por Pan Alban


Capítulo 6
Roque


Notas iniciais do capítulo

Olá pessoas!!

Trazendo um capítulo fresquinho nesse fim de semana prolongado (que não é prolongado para mim TT).
O título do capítulo é uma jogada de xadrez para proteger o Rei ;)
Quero agradecer o carinho imenso que estou tendo de vocês! Realmente não esperava tanta gente linda acompanhando ♥ Vou deixar um recadinho nas notas finais ;)

Boa leitura!



“Foi a primeira vez que ele chorou pela ida de Shikaku”

“Obrigada”

 

Temari esticou o braço no escuro do seu quarto para pegar o celular na beirada do criado mudo. Os olhos se irritaram quando a luz do visor mostrou ser quatro e dezoito da manhã. Virou-se de barriga para cima e suspirou. Tentou fechar os olhos de novo, mas temeu continuar o sonho, quase uma lembrança do que havia acontecido mais cedo.

Havia abraçado Shikamaru e deixou que ele escondesse o rosto em seu pescoço. Ele não a abraçou de volta, somente chorou apoiado no corpo dela, aos pouco se libertando e deixando que os soluços saíssem sem barreiras, deixando que as lágrimas caíssem com toda a dor que ele guardava.

Temari manteve-se forte. Ela não chorou, apesar do nó que formou em sua garganta. Ela era forte, e era de força que ele precisava naquele momento.

Ela o abraçou, o apertou entre seus braços quando o sentiu tremer e chorar mais, mas logo ele usava as forças que voltavam depois do primeiro desabafo para sair do abraço dela. Ela não viu o rosto dele, nem quando ele se levantou e se virou andando até entrar e desaparecer no meio das árvores.

— Foi a primeira vez que Shikamaru chorou pela ida de Shikaku — Yoshino falou olhando para as árvores e com a voz falha, mas Temari não viu nenhuma lágrima ou sinal de que havia chorado no rosto de Yoshino, apenas a ruga de preocupação entre as sobrancelhas e um tremor de leve nas mãos quase escondidas nos braços cruzados. A mulher ficou um segundo em silêncio sem desviar os olhos de onde seu filho havia sumido, um minuto que bastou para que Temari pudesse se recompor e ter certeza que também não choraria quando voltou a falar. — Obrigada.

Temari tirou o lençol que a cobria sentindo calor, girou o corpo e tentou se acomodar para dormir novamente, mas a inquietação não deixava. Sua mente não deixava.

Estava sempre tão ocupada, sempre com a cabeça em suas metas, que quando se chocava com os problemas da vida real acabava impactada, algumas vezes de forma positiva e outras de forma negativa. Naquele momento ela não soube definir quais dos extremos aquele aperto no peito se encaixava.

Esfregou o rosto com força e voltou a fechar os olhos. Queria parar de pensar em coisas que não estavam em seu controle, coisas que não conseguia consertar com suas mãos, mas ele não saia de sua cabeça, a forma tranquila que conversou e jogou com ela, sem sinais de que desabaria a qualquer momento. Ela sabia que ele podia estar guardando muito dentro de si, mas ouvir de Yoshino que ele não havia chorado ainda a pegou de surpresa. Não julgaria um homem por chorar pela morte do pai, acreditava que o choro era uma das mais eficazes ferramentas para desafogar o luto.

Virou-se novamente na cama, voltando a olhar o teto com os braços ao lado do corpo, anda pensando em como ele deveria estar, se voltou para casa logo depois que Kankuro chegou para buscá-la, se ficou mais tempo, se ainda estava lá. Buscou o celular mais uma vez, quatro e vinte e cinco da manhã. A hora não passava, o sentimento de impotência também não.

Virou-se de lado e socou o travesseiro para deixá-lo fofo antes de pousar a cabeça, encolheu-se sob o lençol apesar de estar calor, talvez fosse uma forma inconsciente para se proteger do que ela não tinha controle, mas para quê se preocupar tanto com aquilo? Shikamaru não era seu amigo, não era alguém próximo, apenas um garoto que instigava a curiosidade dela, que a desafiava a usar seu intelecto para jogar contra ou para tentar entendê-lo, para decifrá-lo. Ele tinha seu respeito por mais de um episódio sendo diferente do que ela esperava, sendo melhor.

Era isso. Shikamaru não se encaixava em nenhuma das categorias que ela achava válidas para sua preocupação, estava num espaço especial e sozinho que havia sido criado apenas para ele, onde apenas um moleque excêntrico e com mais camadas do que mostra pode ficar. Ele tinha sua atenção.

Talvez pudesse virar amiga dele para que aquilo não a incomodasse tanto. Para que aquilo fizesse sentido dentro de sua cabeça e pudesse ajudar de uma forma mais eficaz.

Sim - pensou consigo - ela se aproximaria e seria amiga dele. Era um pirralho como seus irmãos? Não no sentido que ela costumava usar, mas tinham a mesma idade, entretanto Shikamaru era completamente diferente daquela molecada e já havia demonstrado mais de uma vez uma maturidade que ela gostava nas pessoas.

Acordou com o despertador do celular tocando incessante e ela quase o silenciou para voltar a dormir. Demorou para sair da cama e já sentia que uma dor de cabeça a visitaria naquele dia por ter dormido tão pouco. E a culpa era do Shikamaru, seu novo/futuro amigo.

— Estudando até tarde? — Rasa observou o cansaço no rosto da filha assim que ela se juntou a eles na mesa. Não lia seu jornal matinal e parecia estar conversando com Kankuro antes dela chegar.

— Insônia.

Kankuro a olhou dos pés a cabeça e fez uma careta, Temari segurou a vontade de mostrar o dedo do meio, somente sustentou a carranca de quem claramente deveria ter dormido mais.

— Não durma durante o dia — Rasa disse passando a garrafa de café para a filha. Ela assentiu completando em sua mente que se dormisse a de dia, não pregaria os olhos a noite. — Então, os Uzumaki compraram aquela casa? É uma bela aquisição. — Temari fez uma careta para o que o pai dizia, mas foi só Kankuro responder para ela entender que não era com ela.

Merda de sono.

— Sim. Fica perto da dos Hyuuga. Claro que não chega nem perto de ser tão foda quanto, mas é olha… Devem ter gasto uma nota.

— Do que estão falando? — Temari sentiu-se um pouco desperta depois de beber o café forte que o pai fazia. Kankuro a olhou com a boca torta e ela reparou, então, uma coisa estranha nascendo acima da boca do irmão. Um ralo e pobre bigode. Ergueu uma sobrancelha para aquele atentado no meio da cara do irmão. Era ridículo.

— Os pais do Naruto compraram uma casa na beira da praia. — Kankuro, a fonte de notícias matinais da família Sabaku, disse de forma natural enquanto passava manteiga no pão. Nem parecia que na noite passada havia buscado a irmã que, surpreendentemente, estava na casa do amigo e mandou ele não perguntar nada indo embora com cara de enterro.

— Hm, legal — se limitou a resmungar tomando mais um gole de café.

Nem participou mais da conversa, nada daquilo a interessava de qualquer forma e precisava fazer sua mente funcionar para começar bem o dia.

— Hey, Tema. Tá pronta?

E não teria tanto tempo assim para despertar ainda em casa. Kankuro já se levantava com a mochila nas costas e ela obrigou o seu corpo a aceitar que seriam só aquelas horas dormidas, que deveria funcionar como sempre.

Desde que tirou a habilitação, Kankuro se negava a deixar Temari dirigir, e Gaara fazia o possível para não andar com ela quando era inevitável. Mas ela não criava caso com aquilo, muito pelo contrário, aproveitava a viagem para ler ou fazer alguma atividade mais urgente como naquele momento em que tentava finalizar o livro que deveria fazer resumo. Mas a sua mente cansada e a inquietação quase palpável de Kankuro não deixavam-na se concentrar.

— Hmm, Temari? — Finalmente ele a chamou e ela abaixou o kindle olhando-o com chateação. Kankuro ignorou olhando para frente — O que aconteceu lá no Nara?

Ok, era oficial. Ela não ia mais se concentrar naquela hora.

— Fui jogar shogi…

— O que é isso? — interrompeu com uma careta.

— Um jogo japonês que ele jogava com o pai — suspirou apoiando o cotovelo na janela aberta e a testa na palma da mão aberta. Não eram nem sete da manhã e já estava um calor terrível. — Aí no meio do jogo ele… — Temari parou a narração pensando em se deveria contar o que aconteceu logo para Kankuro. Aquilo era íntimo demais, esfregou a testa e respirou fundo torcendo para parecer suficiente e ele não perguntar mais nada — ele passou mal. Deve ter sido algo que comeu, ou sei lá.

— Entendi . — Kankuro disse baixinho e não perguntou mais nada, mesmo que aquilo não justificasse ela mandá-lo não perguntar nada quando a buscou.

O carro silencioso a fez lembrar de Gaara, se estivesse ali estaria sendo o alvo de Kankuro para uma conversa unilateral sem fim, mas por causa do castigo estava indo para a escola de bicicleta. Aquilo a lembrou de algo que precisava resolver.

— A propósito, estou sabendo sobre a briga do Gaara, com quem e porquê. — usou seu tom de acusação, aquele que fazia Kankuro dar uma encolhidinha  — Estava lá?

— Claro que não — Kankuro pareceu ofendido — eu teria quebrado aquele cara se estivesse lá.

— Sabe que ele faz parte da minha comissão, não?

Kankuro olhou com surpresa e ar de riso para a irmã.

— Sério? Que merda, Tema. Aquele cara é um filho da puta.

— Vou conversar com ele hoje.

— Não precisa. — Kankuro riu e balançou a cabeça — A gente resolve isso. — terminou dando de ombros e Temari apertou os lábios em desgosto.

— Vocês não vão se meter em briga de novo. Deixa comigo. — ela tinha que dar um ponto final naquilo, sabia que o orgulho masculino era frágil demais e a violência era uma forma rápida e fácil de se manter a “hombridade” na cabeça daqueles idiotas.

Mas, Kankuro riu ao estacionar e Temari não gostou daquele tom debochado.

— Não precisamos mais que a irmã mais velha compre nossas brigas, Tema. Relaxa que temos um pacifista que vai afastar o Sai da Ino.

 

♚♛

 

— Você não tá tomando café demais? — Tenten se sentou ao lado de uma Temari concentrada escrevendo enquanto tomava café de canudinho na hora do intervalo para o almoço. A loira apenas ergueu os olhos para ver a bandeja cheia de frutas e saladas da estudante de Educação Física.

— Não dormi bem. — justificou espreguiçando. Fechou o cadernos e desligou o kindle guardando, logo em seguida, ambos na bolsa. Tenten já nem se surpreendia mais com as esquisitices de Temari enquanto almoçava, tomar café de canudinho era a mais comum forma para fazer duas coisas ao mesmo tempo. — Onde esteve ontem?

— Ah, tive aula livre e fui embora. Ficou me esperando?

— Fiquei curiosa com o tal Neji — sorriu de canto com a careta de Tenten.

— Tô quase achando que era outro cara e eu confundi. Loucura, né? — Tenten riu forçada e Temari roubou uma fatia da maçã cortada em quatro.

— Ok. E o que me conta de novo?

Antes que Tenten pudesse responder, Izumi e Konan se sentaram ao lado de Temari com suas bandejas. Izumi cumprimentou-as com um sorriso e Konan apenas se sentou, nada de estranho no mundo preto e roxo da amiga. Tenten não era amiga delas, então ficou mais tímida quando as duas chegaram e Temari soube que ficaria calada até o fim. Mas Izumi não deixava o espaço em silêncio.

— Sonhei com protozoários de rostinhos felizes, eu estou surtando. — falar sobre a semana de provas era o assunto favorito de Izumi.

— Estou mais preocupada com meus trabalhos, nem tive tempo de pensar nas provas. — Temari pegou outra fatia da maçã da Tenten. — Konan, faz tempo que não te vejo.

— Estudando na biblioteca. — respondeu deixando a comida de lado e pousando a cabeça na mão de forma preguiçosa.

— E acho que ter dois namorados não deixam você com tempo de sobra — Izumi a cutucou uma vez com o cotovelo e Konan revirou os olhos de forma dramática.

— É, Nagato teve uma crisezinha de ciúmes um dia desses. Não sei se isso vai continuar dando certo.

Temari ficou surpresa e Izumi não ficou diferente, já Tenten estava atenta, curiosa com o relacionamento que só conhecia a distância.

— Não sei como dura tanto tempo — Temari era sincera e sabia que aquilo não magoava Konan de jeito nenhum, tanto que recebeu o dar de ombros dela.

— Posso fazer uma pergunta indiscreta? — Tenten disse e Konan a olhou com divertimento.

— Manda aí.

Tenten olhou para Temari para tomar coragem e respirou fundo antes de olhar de novo para Konan que mexia com a língua o piercing abaixo do lábio inferior.

— Bom, como você consegue organizar seu tempo entre os dois? Como isso funciona?

Temari já sabia a resposta, mas olhou para Konan interessada. Izumi voltou a comer e Konan riu.

— Não temos uma agenda nem nada. Nós três nos pegamos — deu de ombro com naturalidade e Tenten arregalou os olhos quando foi compreendendo o que aquilo queria dizer — Quando você disse “indiscreta”, achei que fosse mesmo indiscreta. — riu mais uma vez e Tenten corou envergonhada.

— Ninguém quer saber a vida depravada de vocês em quatro paredes. — Temari comentou com humor para aliviar para o lado de Tenten.

— Izumi eu sei que sabe — Konan sorriu de seu modo sombrio e um tanto malicioso ignorando o questionamento com o olhar de Izumi e continuou — mas vocês duas têm cara de quem ainda não teve uma boa trepada para saber como é boa a “depravação”.

— Ah, me poupe — Temari fingiu cara de nojo enquanto Konan gargalhava roubando na cara de pau o terceiro pedaço da maçã de Tenten.

Era hora de mudar de assunto. Falar sobre a sua virgindade ou qualquer assunto relacionado a relacionamento era sempre uma irritação inútil com Konan. Não que ela tivesse problemas com aquilo, mas era um assunto que ficava bem abaixo na sua lista de assuntos legais para se discutir na hora do almoço num refeitório lotado.

Izumi riu e limpou a boca com o guardanapo. Ela sempre comia muito rápido e voltava para o laboratório correndo, era um rotina comum e ela já estava quase pronta para ir, ainda sobrava um pouco de suco em seu copo quando ela girou o líquido com um sorriso.

— Deixa eu contar para vocês. Ontem o meu cunhado levou a namorada para meus sogros conhecerem. Sasuke parecia um bobo observando a reação do seu Fugaku como se quisesse a aprovação dele, sabe?

— Que fofos. — Tenten se sentiu mais à vontade para comentar. Se ela conhecia Sasuke ou Sakura, Temari não sabia direito.

— Estou vendo o dia em que Gaara vai levar a dele lá em casa. Ainda não me decidi se eu devo toca o terror na vida da menina ou ser legal.

—Tocar o terror — Konan repetiu dando seu voto. — Não tenho irmãos, mas eu faria isso.

Temari riu, dependeria muito de como a garota era, mas não faria de propósito. Ela era muito transparente e não costumava fingir gostar de algo que não gostava.

— Minha cunhada vai ser como uma irmãzinha para mim — Izumi se levantou com a bandeja e Konan a seguiu com a comida intocada — Fim de semana não marquem nada, Itachi quer fazer alguma coisa. Ele não pensa nas provas! Até.

— Essas duas são engraçadas. — Tenten sussurrou olhando-as se afastarem. Temari acompanhou o olhar dela e teve que concordar, todo aquele preto em Konan contrastava com o branco de Izumi. — Tá muito quente, quer um picolé?

— Ótima ideia — Temari não gostava de calor e suar a fazia ficar irritada. E irritada não conseguia se organizar direito.

As duas seguiram para o lado de fora da Universidade onde havia um senhor que vendia picolé naquela época do ano. Perto dali, Temari viu a namorada do seu irmão conversando com Shikamaru ela sorria bastante e de repente pulava no pescoço dele num abraço que o fez desequilibrar e quase cair. Temari comprou seu sorvete e quando olhou novamente nenhum dos dois estava mais ali, voltou para dentro do campus já sem Tenten que havia ficado para trás conversando com uma colega de classe. Tirava pedaços de seu picolé de limão enquanto se sentia uma inútil em não conseguir pensar com clareza nas coisas que deviam ser feitas naquele dia, depois do almoço era sempre o horário mais difícil para quem estava cansado como ela.

Ia direto para a sala de sua próxima aula, teria acabado o sorvete até lá e poderia dar andamento no resumo antes do professor chegar, mas foi facilmente distraída por Shiho que quase saltitava pelo campus ao lado de alguém e não foi surpresa ver que era Shikamaru. Ele estava com as mãos no bolso e quase encurvado enquanto andava. Naquele momento ela pensou se deveria ir cumprimentá-lo, perguntar se ele estava bem ou algo do tipo. As dúvidas foram sanadas quando Shiho agarrou-o pelo braço e ele pareceu tomar um susto, lá ia ela salvar ele de novo daquela doidinha. Seria divertido.

Shikamaru parou de andar e conseguiu puxar o braço sem ser grosseiro, Temari percebeu enquanto andava pelo gramado até eles, e se sentou aos pés de uma árvore encostando as costas nela. Shiho se apressou em sentar o mais próximo possível tendo o limite de não tocá-lo.

Temari já sorria maquiavélica pensando no que poderia inventar para tirá-lo dali e talvez até conversar um pouco sobre a noite anterior, mas os seus planos foram esquecidos com o susto que levou: Shikamaru pulou num único salto desesperado enquanto tentava alcançar as próprias costas com as mãos. Tirou a camiseta de uma vez batendo nas costas com a peça em uma dança desesperadora.

— Formigueiro! — Shiho gritou pulando logo em seguida e saiu correndo destrambelhada batendo nas próprias roupas e sumindo em direção ao banheiro feminino.

Temari não sabia se ria ou se corria ajudar. Os alunos ali ao redor não continham a risada e Shikamaru repetia a palavra “merda” e “que saco”. Era adorável o repertório de palavrões dele.

— Hey, vira as costas para mim. — Temari se aproximou e Shikamaru ergueu os olhos para ela, segurava a camiseta em frente ao corpo e já ia saindo de lá. Ela segurava a risada sem esconder e Shikamaru pareceu encolher com aquilo.

Temari ignorou o constrangimento breve que passou pelos olhos dele e mirou no dorso nu atrás das picadas, mas foi abruptamente distraída pelo físico do menino, até seu sorriso zombeteiro murchou. O peito era definido, não de forma exagerada, apenas o mínimo de um treinamento localizado e eficaz, os braços eram magros, mas fortes, com bíceps bem acentuados que era facilmente escondidos em qualquer roupa um pouco maior. Mas a observação dela ficou somente nisso porque Shikamaru virou as costas para ela se afastando da árvore com o formigueiro ainda tentando alcançar as próprias costas.

— Espera aí! — ela gritou o seguindo. Shikamaru parou perto da parede em um lugar que parecia ter menos pessoas e continuou de costas para Temari. A pele dele era branca e tinha umas pintas nas costas, ela pôde reparar quando chegou mais perto. Analisou toda a pele com atenção atrás de formigas que pudessem estar perdidas, desceu os olhos pelo cós levemente caído da calça jeans e do elastico azul da cueca. Ficou tentada a brincar perguntando se não havia entrado formiga nas calças dele, mas deixou quieto vendo os quatro vergões vermelhos nas costas. — Tem coisas que só acontecem com você, garoto. Cuidado. — ela riu e passou o resto do picolé de limão por cima das picadas. Shikamaru deu um pulo quando o gelado tocou a pele quente e deixou um “Droga” sair abafado entre os dentes enquanto batia a camiseta tirando qualquer formiga que estivesse lá. — Que bom que sempre estou no lugar certo para te salvar, não é?

Shikamaru se limitou a resmungar algo baixinho e se contorcer com o gelado que ela passava pela pele atacada. Estava difícil segurar o riso diante da situação, era cada uma que aquele menino se enfiava.

— Melhorou? — perguntou recebendo apenas um aceno de cabeça. Shikamaru não queria falar com ela? Vergonha por ter chorado? Ok, ela iria fingir que nada havia acontecido. — Sentou lá de propósito, né? Para se livrar da Shiho. — ela comentou com riso olhando as costas dele, engoliu em seco quando ele ergueu os braços para vestir a camiseta novamente e os músculos das costas se sobressaltaram. Temari desviou os olhos para o lixo ali perto onde descartou o que restou do picolé. — Não foi tão ruim, tem alergia ou algo do tipo?

— Não. — ele respondeu num suspiro esticando as costas com desagrado.

Estava estranho ter ele fugindo daquele jeito. Não era o plano tê-lo como amigo para enquadrá-lo num setor de sua mente que fizesse sentido ajudá-lo?

— Você deve ter um imã para loiras e problemas. — comentou segurando um sorriso de canto.

E isso o fez se virar para ela. Os olhos com um constrangido brilho de divertimento enquanto olhava dos cabelos no topo da cabeça dela para os olhos como se dissesse o óbvio: que ela era loira.

Temari riu pelo nariz enquanto observava-o amarrar os cabelos que havia se rebelado para fora do penteado com a confusão.

— Estou começando a achar que são sinônimos, loiras e problemas. — ele comentou olhando para o chão e tentando coçar as próprias costas. Temari, entretanto, deu um tapa no braço dele o censurando tanto pelo comentário quanto pelo ato.

— Vai no banheiro lavar as costas, o melado vai acabar atraindo mais formigas. — “ou loiras” ela ia acrescentar ainda na brincadeira, mas se cortou e o acompanhou em direção ao banheiro masculino.

Shikamaru não disse mais nada, parecia desconfortável ao lado dela e andava um pouco mais rápido que o normal. Fosse pelas picadas de formigas, fosse por estar com vergonha dela.

Enquanto o aguardava do lado de fora, pensava se deveria sair e deixá-lo quieto até que se sentisse confortável para conversar com ela, ou se continuava ali e usava a inusitada e engraçada situação para deixá-lo mais confortável. Tirou o celular para olhar a hora e aproveitou para mandar uma mensagem para Shiho perguntando se ela estava bem, não sabia como faria para não rir quando olhasse a cara da colega da comissão. Olhou novamente para a hora e pensou que ele poderia estar demorando de propósito.

— Ah…

Olhou para a direção do banheiro ao ouvir a exclamação de surpresa de Shikamaru e confirmou sua teoria. Sorriu guardando o celular no bolso e cruzou os braços enquanto ele fingia estar tudo bem, colocando as mãos no bolso e começando a andar de sua forma sem pressa.

— Quer ir até a enfermaria? — perguntou andando ao lado dele.

Shikamaru suspirou e olhou de forma sofredora para o céu. Ela queria rir só de imaginar o que podia estar passando pela cabeça dele.

— Estou bem, o gelo ajudou — ele respondeu sem olhá-la mexendo um pouco os ombros como se para se certificar que era verdade. Algumas pessoas que haviam visto a cena ainda riam olhando para eles, Shikamaru ignorava com louvor. — Será que a Shiho está bem?

— Preocupado com a namorada? — Temari o cutucou divertida. As expressões que ele faziam era muito engraçadas para ela, quase um sofrimento ou tédio eterno. — Não coça! — bateu de novo no braço dele que ameaçava coçar as costas.

— Deixa de ser problemática, mulher.

Temari ergueu a sobrancelha ameaçadora e logo teve que segurar o sorriso. Andar com aquele menino era realmente uma experiência divertida, realmente não esperava algo assim de alguém tão novo, mas ele não era como os outros.

— Temari! — Tenten gritou o nome dela no começo do corredor e veio correndo na direção da amiga. — Shikamaru? — o olhou com confusão quando parou na frente do casal. Shikamaru levantou uma mão cumprimentando-a e Tenten copiou ainda um pouco perdida.

— Aconteceu alguma coisa? — Temari chamou a atenção dela, parecia que a surpresa pela presença de Shikamaru ali ainda pegaria bastante gente.

Tenten balançou a cabeça se situando e apertou as mãos em frente o corpo. Shikamaru ajeitou a mochila no ombro e voltou a andar, olhou por cima do ombro para Temari

— Vou jogar xadrez com o reitor.

Ela não tinha perguntado nada e nem iria, mas assentiu e ele voltou a andar. Ficou de olho nas costas dele e apertou os olhos quando o viu se coçar antes de virar o corredor.

— Hey — a mão de Tenten passou na frente do rosto e Temari — Por que ele tá aqui?

— Não sei. — Temari respirou fundo olhando para a amiga que nem deveria estar naquele prédio. — E você?

Tenten pareceu se lembrar do que havia ido fazer e começou a ficar afobada agitando as mão na frente de Temari.

— Neji — sussurrou arregalando os olhos castanhos — É ele mesmo. Ele veio falar comigo, ele ainda tem meu número. Ele me viu e disse “Quanto tempo, Tenten” — imitou uma voz grossa.

Temari balançou a cabeça lentamente ainda tentando entender o que Tenten fazia ali. Não iria adiantar,entretanto, então olhou de novo as horas no celular e viu ainda ter alguns minutos, passou o braço por cima dos ombros de Tenten e suspirou com um sorriso.

— Ele está aqui, então?

— Neste prédio — Tenten olhou estranhando o comportamento de Temari, ainda mais o sorriso que despontava quase sádico enquanto a forçava a andar pelo corredor. — Eu… eu precisava ver com meus próprios olhos.

— Que bom. Vamos dar um “oi” ao Neji, então.

— Temari! Não! Me solta! Socorro.

 

♚♛

 

Sua cabeça estava quase explodindo quando largou a caneta marca texto e deu por finalizado o resumo do livro que deveria estar pronto somente na próxima semana, mas Temari não gostava de perder tempo e riscar mais uma obrigação da sua lista era absurdamente relaxante. Esfregou os olhos cansados, olhou as horas no celular e desamarrou as maria chiquinhas. Estava tão cansada, com tanto sono que poderia dormir naquele momento, mas sabia que não conseguiria se não terminasse tudo o que havia planejado naquele dia, o bom era que havia somente que mandar relatórios do seu e-mail para o grupo da Comissão no whatsapp, e isso a fez lembrar que não havia salvo o número de Shikamaru ainda e o colocado no grupo.

Esticou-se até sua pasta no criado mudo e pegou a cópia da ficha com os dados dele e digitou os números salvando o nome e sobrenome, logo a foto dele apareceu, não uma imagem dele mesmo, mas de sua sombra num muro chapiscado. O incluiu no grupo e enviou os anexos, aproveitou para visualizar as mensagens de mais cedo e riu das fotos que Shiho mandou de suas costas perto do cós cheias de vergões vermelhos, não havia tido tanta sorte quanto Shikamaru.

Falando em Shiho, havia mandando uma mensagem no grupo ignorando os relatórios e dando inúteis boas vindas à Shikamaru. Temari suspirou rolando os olhos e pensando que idade do menino parecia não ter sido um fato assustador para Shiho, ousava até pensar que aquilo atraía ainda mais.

Colocou o celular no criado mudo aprontou-se para dormir, mas uma leve batida na porta a fez desistir de fechar os olhos e resmungar um cansado “entra”. Gaara apareceu com a cabeça ruiva na fresta da porta aberta e a viu deitada, entrou e fechou a porta às suas costas.

— Temari, quero te pedir um favor.

Claro que ele queria pedir um favor, ela pensou acenando com a cabeça para que ele continuasse. Gaara passou a mão pelos fios arrepiados e andou até perto da cama sentado-se na beirada, Temari não via aquilo como uma coisa boa, significava que aquilo poderia demorar e ela só queria dormir.

— Fala logo.

Gaara fez uma ligeira careta a impaciência de Temari, mas ainda demorou uns segundos antes de escolher as melhores palavras.

— O Kankuro disse que você está ajudando o Nara a se ocupar na faculdade — ele começou olhando para a irmã e ela assentiu lentamente. Shikamaru estava sendo muito citado na casa dela ultimamente, queria só ver no que eles queriam enfiar ela daquela vez — Então, o pessoal vai na praia esse sábado e… você podia ir também e convencer ele a ir.

Temari o olhou sem entender o raciocínio de Gaara. O que a ida dela implicaria na ida de Shikamaru? Aquilo não fazia sentido nenhum. Ela poderia colocá-o na Comissão e obrigá-lo a fazer o que ela quisesse dentro daquele âmbito, nada se estendia para fora da universidade.

— Pede para a sua namorada convencer ele a ir. — Temari ofertou como se fosse o óbvio a se fazer — Eles parecem bem amigos.

Gaara apertou os lábios, os olhos de um lado para o outro como se pensasse em algo rapidamente.

— Ino acha que manda no Shikamaru — Gaara levantou os ombros — ele enrola ela e faz o que quer fazendo ela acreditar que a ideia foi dela. — Temari soltou um riso anasalado não duvidando daquilo.

— Você não tem ciúmes dos dois? — perguntou algo que havia pensado mais cedo, Ino e Shikamaru pareciam tão íntimos. Gaara a olhou sem entender — Ele é universitário, está um nível acima de vocês, não parece um moleque retardado…

Gaara nem se ofendeu, levantou os ombros de novo e negou com a cabeça duas vezes.

— Eles são amigos de infância, tipo de berço mesmo. São como irmãos, ela, Shikamaru e Chouji. Impossível ter algo ali, às vezes tenho até dó dos dois quando estão perto da Ino — ele sorriu um pouco e Temari achou fofo. Gaara era sempre muito fechado e calado, mas a menina parecia fazer florescer algo nele. Era adorável vê-lo um pouco corado nas bochechas sardentas — E esse lance dele ser universitário não tem nada a ver — ele completou — Shikamaru não é arrogante e nem nada, quando está com a gente é como se estivesse no colegial também, sei lá. Ele não é como aquele filho da puta do seu grupo.

— Ahn, foi bom o senhor tocar nesse assunto. O que aconteceu entre você e Sai? — questionou olhando séria para o irmão, ele estalou a língua e suas feições ficaram graves, as lembranças tendo um gosto desagradável.

— Aquele puto tentou agarrar a Ino na frente da escola. Imbecil ficava lá igual um urubu já fazia um tempo.

— Bom saber. — Temari apertou os olhos e se limitou a dizer só aquilo estando tão cansada. — Ok, mas desista — ela se ajeitou na cama e puxou o lençol fino até perto do queixo — eu não vou a lugar algum e nem vou arrastar ninguém junto. Boa sorte.

— Eu… o que você quer para fazer isso por mim?

Temari quase fechava os olhos para deixar Gaara falando sozinho, mas aquilo chamou demais a atenção dela. Então sua mente anuviada começou a fazer algum sentido. Gaara não diria algo como aquilo em circunstância alguma, ainda mais por outra pessoa.

Não, ele não estava sendo generoso e um bom amigo preocupado com Shikamaru, e a culpa tingia as orelhas dele a cada segundo mais que ela o olhava e olhos apertados. Temari quis espancá-lo.

— O pai falou que só deixaria você ir a praia se eu fosse. Estou certa? — disse lentamente e teve como resposta um hesitação dele antes de balançar a cabeça para cima e para baixo. — E mentiu achando que conseguiria me enrolar?

— Eu não menti — ele se defendeu na mesma hora — Ino está preocupada com ele e todo mundo está tentando convencer ele a ir na praia passear com a galera. Qual é? Vai ser durante a tarde, depois eu volto com você, ou sei lá.

Temari soltou um riso anasalado. Estava começando a ficar incômodo usarem seu emocional contra ela, mesmo que fosse sem intenção. Não queria mesmo ir à praia, não gostava de sol, areia e água salgada, mas também, pensou, não faria mal algum chamar Tenten ou Izumi para dar um passeio na praia sabendo que o fim de semana estaria tão quente.

— Ok, amanhã conversamos sobre isso. — puxou o lençol até perto do queixo novamente dando aquela conversa por encerrado.

Gaara sorriu e deu um tapinha no pé dela antes de ir.

— Valeu, Tema.

E ela também sorriu, só um pouquinho quando o ouviu lhe chamando daquele jeito. Apenas Kankuro permanecia com o apelido que os dois usavam quando era menores, aquilo trazia uma sensação boa, como se os dois fossem ainda seus pequenos e precisassem dela. Poderia reclamar o quanto fosse sobre sempre estarem atrás pedindo ajuda ou favor, mas aquele tipo de coisa mostrava o quanto os dois se importavam com a opinião dela e confiavam nela.

Olhou o celular uma última vez para calcular quanto tempo teria de sono, uma mania que adquiriu na primeira semana de provas na faculdade, quando chegou uma mensagem de Shikamaru no privado, fora as inúmeras no grupo. Achou que estava vendo errado e que sua mente já não era confiável estando com tanto sono, mas foi só abrir o aplicativo de mensagens para confirmar.

“Respondendo diretamente a você: talvez.
         Não gosto de praia, mas se tiver uma boa companhia na areia eu irei.”

O que Gaara havia mandado para ele? Certamente dizendo que Temari havia perguntado se ele iria. Ela ia matar Gaara de manhã.

Já havia visualizado e ele estava online. Ela não havia confirmado para Gaara que iria, só que pensaria sobre. Então pairou a dúvida: se ele havia mandado a mensagem daquela forma, podia significar que se ela não fosse para ficar na areia, ele certamente não iria então ou iria, mas preferia que tivesse uma companhia madura como a dela que dava a certeza de que não o jogaria na água ou coisa parecida.

Odiava dilemas quando não conseguia pensar direito. Talvez tivesse outra atitude se fosse em outra ocasião, mas a única coisa que passou pela cabeça sonolenta e dolorida dela era que ela poderia tirar proveito daquilo. Digitou as três palavras com um sorriso.

“Leve o xadrez”

E então, finalmente, conseguiu dormir em paz.

 

 

betado por MrsFox



Notas finais do capítulo

Hehehehehehe minha beta disse o seguinte: Até fugindo das formigas imagino o Shikamaru com preguiça HAHAHAHHAH

Temari querendo colocar o Shikamaru na caixinha da amizade para saber como lidar com ele? Vamos ver nos próximos capítulo o que os outros pensam sobre isso hehehehehe E Xadrez na praia? Sim, esses dois são capazes disso.
Agora o aviso: Eu normalmente posto essa fic semanalmente, mas esse mês eu estarei participando do NanoWrimo e por isso vai ser complicado escrever a fic com a mesma frequência. Então, eu volto daqui duas semanas. A fic não vai ser muito longa, acho que finalizo em dezembro ;)

Um beijão! Até o próximo!