A história de Sakura escrita por Hanako


Capítulo 3
Descobertas




Lógico que a Ino já esperava que eu gostasse de alguém. Afinal, nessa época nós já tínhamos doze anos e a maioria das meninas já tinham seus ídolos e primeiros amores. Muitas das revistas que líamos também abordavam assuntos como primeiros beijos e namorados. Ela mesma já incluía assuntos sobre como algum garoto da sala era bonitinho ou sobre como o galã da televisão parecia perfeito. O maior problema é que me apaixonei pela mesma pessoa que ela e não me dei conta disso.

Eu não me interessava muito pelo assunto amor antes disso e não olhava muito para os rapazes, ainda era muito infantil. E por ser mesmo essa criança que eu creio que não havia uma maneira melhor de tudo ter começado do que com um jogo.  Era o início do verão quando a minha escola de fundamental I promoveu os jogos estudantis e resolveu que não teríamos aulas durante uma semana para praticarmos atividades esportivas.

Minha classe estava bem animada. Montamos cartazes, escolhemos a cor da camisa oficial dos nossos times e preparamos pompons para a torcida. Eu e Ino já éramos extremamente competitivas naquela época e nos esforçamos bastante para que nos escolhessem para participar de todas as atividades. Acabei em natação, vôlei e basquete enquanto que a minha amiga foi inscrita em futsal, handebol e badminton.

O início foi bem empolgante. Todos da minha sala vestidos de vermelho, perfilados com todas as outras turmas em suas cores. Cantamos o hino de nosso país e de nossa escola alegremente e depois nos preparamos para as divisões: como aconteceriam vários jogos simultaneamente, teríamos que dividir as equipes e também a torcida, para que ninguém ficasse sem motivação enquanto participava.

Os primeiros jogos eram basquete feminino, handebol feminino e vôlei masculino, o que significava que não poderia torcer para a Ino e vice-versa. Nos despedimos como se cada uma fosse para uma guerra diferente e fomos na certeza de que nada além da vitória seria aceito.

Eu prendi o meu cabelo em um rabo de cavalo bem alto com uma fita vermelha antes de ir. Também preparei o meu rosto mais destemido e assustador para minhas oponentes de verde. Elas pareciam mais velhas e mais preparadas, mas eu não iria deixar isso me abalar. Entrei na quadra e olhei para cada um dos alunos do time oposto meticulosamente, tentando descobrir quem tentaria me marcar durante o jogo.

O professor apitou dando início à partida e fui correndo pegar a bola.  Uma garota de verde, bem mais alta que eu conseguiu me ultrapassar e ia lançar  para sua colega quando entrei na frente para marcar e...

BAM!

Eu estava meio desorientada, sem entender o que tinha acontecido comigo. Todos me olhavam com uma cara não muito boa quando resolvi olhar para o chão. Estranho. Haviam gotas de sangue, pequenas gotas escarlate que pingavam... de mim?  O resto que ainda guardo na memória não passa de um borrão: pessoas falando meu nome e que devia ser levada à enfermaria, alguém dizendo que um nariz estava provavelmente quebrado e algo como “pobre menina”.

No fim, lembro que uma enfermeira me deu gelo para colocar no meu nariz e eu agradeci por não ter quebrado e ficado com mais um item desagradável no meu rosto. Não pude participar de nenhuma das partidas e, como a Ino estava bem inserida, também não pode me ver. Eu estava bem entediada, olhando para aquele teto branco e sem graça, balançando a fita do meu cabelo entre meus dedos, quando ouvi um movimento na cama ao meu lado. Louca por alguma ação naquele lugar monótono, logo me levantei para ver quem era meu companheiro ferido em batalha.

O meu coração não bateu normalmente no momento em que abri as cortinas que nos separavam e eu não entendi direito o motivo. Também não soube explicar por que não saiu nenhuma voz da minha boca na primeira tentativa. Ao lado da minha cama havia um garoto que possivelmente estava no mesmo ano que o meu, vestido de azul marinho. Ele tinha um cabelo negro curto levemente bagunçado e a pele bem branca. Quando olhei para ele, se demorou a virar na minha direção, despreocupado, mas logo fixou seus olhos também negros nos meus.

Fiquei fascinada em como a luz do sol refletia belamente em seu cabelo e me senti mal por ele me ver com os fios sem a fita vermelha e completamente embaraçados além, claro, do nariz inchado. Por isso, já era de se esperar que eu gaguejasse na hora de cumprimentá-lo com minha voz nasalada.

—O-olá – eu disse a ele – O que aconteceu com você?

— Eu torci meu dedo no vôlei – respondeu calmamente – Você quebrou o nariz?

—Bem, parece que não. Só ficou inchado mesmo – eu dei um leve sorriso me lembrando da situação – Uma bola de basquete acertou o meu rosto durante a partida.

Ele riu. Seu sorriso acabou me contagiando e ri com ele por um tempo. Era confortante e ao mesmo tempo um pouco assustador ficar ao lado daquele garoto que definitivamente não era como os outros. Parecia que a sua presença me enviava ondas de eletricidade que borbulhavam o estômago e aceleravam o coração.

 Após as risadas eu me peguei pensando em como eu faria para manter aquela pessoa mais tempo comigo. Olhei ao redor da sala e peguei umas folhas brancas e duas canetas da enfermeira. Apontei para ele e disse:

— Você quer jogar enquanto estamos aqui?

— Bem, nós podemos jogar sim, mas você conhece alguma brincadeira que não envolva muito o meu dedo ou o seu nariz? – riu.

— Podemos brincar de forca! – afirmei – Se você tiver dificuldades em escrever, é só me falar e eu coloco para você!

— Tudo bem então. Eu aceito o desafio. Quem ganhar vai ter direito a alguma coisa?

— Eu não sei... não tinha pensado em prêmio nenhum. Quer escolher?

— Vamos fazer assim: quem vencer propõe uma prenda para o perdedor.

—Fechado!

Foi o jogo mais acirrado de forca que já participei até hoje. Ele era muito inteligente e propunha palavras difíceis, mas eu também era a melhor aluna da sala. Estava empatado e eu estava quase perdendo a última quando o sinal da escola tocou e meus pais chegaram para me buscar. No final eu me esqueci de perguntar qual era o seu nome, mas o seu rosto não saiu da minha cabeça.

Logo que cheguei em casa tudo o que eu queria era contar para a Ino sobre os cabelos do garoto da enfermaria, o sorriso dele, sua voz, o jeito de conversar e tudo mais que tinha feito o meu peito acelerar.  O problema é que meus pais estavam muito assustados com o meu nariz para me deixarem fazer uma simples ligação. Logo, ela teve que me fazer uma visita e aproveitou para jantar conosco.

Ino era sempre muito bem-vinda na minha casa. Meus pais a viam como alguém que eu devesse ser, um estímulo para o meu crescimento. No jantar, ela contou sobre como venceu todos os jogos que participou e como a turma se saiu bem. Mesmo que a garota tivesse vindo direto da escola, seu cabelo loiro continuava em um rabo de cavalo impecável e ela não parecia ter sequer um arranhão ou gota de suor. Depois de comermos, fomos ao meu quarto.

— Uma pena que não deu para você jogar, Sakura! – ela começou – Bem no primeiro jogo e já teve esse estrago! Você deveria ganhar um prêmio como a rainha dos azarados!

— Na verdade, Ino, eu acho que dei sorte... – eu sorri – Eu conheci uma pessoa super legal na enfermaria e nós...

—Menino ou menina? – Ela interrompeu.

—Menino.

— Ponto! – Ino riu – E você conseguiu conversar com ele?

— Sim! Ele era incrível! Tinha um cabelo que brilhava no sol e um sorriso perfeito! Nós ficamos passando o tempo juntos jogando forca até meus pais chegarem e ele é super inteligente! Colocou só palavras difíceis e estava bem acirrado...

Ino caiu na gargalhada. Parecia que eu era a única pessoa no mundo que pensaria em jogar forca com um garoto só porque ele era bonitinho.

— Sakura, você é ótima! – ela não conseguia parar de rir – Primeira vez que você se apaixona! Isso é tão fofinho!

— Eu não estou apaixonada por ele!

—É lógico que está! Não para de falar sobre o bonitinho da enfermaria! Quer ver que eu identifico todos os outros sinais? Aposto que seu coração bateu loucamente quando o viu e que parecia que tinha alguma coisa se movendo loucamente no seu estômago.

—Bem, isso foi porque eu levantei rápido e ainda estava com o nariz inchado...

—Admite.

— Não posso admitir isso.

— Você já admitiu para si mesma! Apenas admite para mim para que eu possa sentir o gostinho!

— Está bem. Eu gosto dele.

— Eu quero ouvir com todas as letras.

— Ino, acho que é a primeira vez que gosto de um garoto.

— Ótimo! Então assim que você se recuperar nós vamos procurar por ele para acalentar seu coraçãozinho apaixonado!

A partir daí foram só piadas sobre a minha situação e ainda mais piadas quando disse que não sabia o nome dele. Minha melhor amiga saiu de casa naquela noite e me deixou super nervosa sobre tudo o que poderia acontecer. Eu fiquei uma semana sem poder ir à escola e, quando voltei, os nervos estavam à flor da pele.





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