Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2) escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 5
Capítulo 4 — Amizades




 

 

“Para conseguir a amizade de uma pessoa digna é preciso desenvolvermos em nós mesmos as qualidades que naquela admiramos. ” — Sócrates.

 

 

 

Londres

 

A pequena sala abriga a cordial conversa com Jekyll, tomamos o chá das 5 p.m. como é de seu costume. Ficamos lembrando algumas brincadeiras cotidianas antes que tudo se tornasse um caos, na época em que todos éramos amigos, Jekyll, Dorian e eu. Apesar da idade, Jekyll ainda é mais alto do que alguém nas mesmas condições, reconheço alguns cheiros familiares vindos de sua pele mal lavada. Ele ainda toma a fórmula, porém, deve ser em pequenas quantidades. Manson fica claramente incomodado, quando toco as mãos de Jekyll, engasga com o chá tossindo alto.

— Desculpe, acho que não estou acostumado com chá. — fala Manson enquanto coloca a xícara na mesa de centro, causando um ruído com a porcelana.

— Eu entendo, filho. Quando eu tinha a sua idade também era afobado.

— E como, hein? — completo rindo, mas paro assim que vejo a feição irritada de meu acompanhante. Ele questiona:

— Achei que íamos falar sobre Dorian. Quando iremos para a Romênia terminar essa situação?

— Sim, Lucy... quando iremos? — Jekyll fala virando a mim.

Não gosto de ser apressada, mas entendo a falta de conforto de Manson, fora de seu país, de sua casa.

— Preciso saber isso de você, Jekyll. Está pronto para usar o tônico novamente?

— Eu ainda tenho um pouco.

— Ótimo, então o ideal é que tentemos surpreender Dorian e a Ordem.

— A Ordem está envolvida?

— Acredito que seja por isso de tantas mulheres.

— O tráfico seria para alimentar a Ordem.

— Sim, acho que sim.

— Espera! Tempo, que Ordem vocês estão falando? — interrompe Manson, gesticulando um “T” no ar.

— Quando encontrei Drácula pela última vez, Shiva organizou um novo clã. Ela era líder da Ordem, um grupo de vampiros que conspiraram com ela para tomar o poder de Drácula. Dorian se aliou, na verdade, da última vez que o vi ele a tinha escravizado e comandava tudo sozinho.

— Última vez? — Jekyll me provoca. — Pelo que eu me lembre...

— O que importa é que acho que... — interrompo Jekyll tentando focar no que precisamos.

— Não! Espera, o encontrou outras vezes? — Manson insiste.

Eu fico em silêncio com Jekyll sorrindo sarcasticamente para mim, eu sabia que o velho tinha guardado algum rancor.

— Vamos, Lucy. Conte mais sobre isso. — Jekyll, parece querer me colocar em situação constrangedora.

— Não me venha com falso moralismo, estamos todos no mesmo barco.

— Eu achei que vocês eram amigos. — Manson fala questionando a postura de nós dois, ele se encosta na poltrona como se quisesse ver mais ao longe.

— Sim. Eu também pensei. — fala o idoso, olhando fixamente para mim.

— Está bem, se é assim que deseja, vamos colocar tudo na mesa. — falo desafiando o velho.

— Posso mesmo? — questiona Jekyll, querendo uma confirmação.

Eu levanto, me colocando à prova. Jekyll rapidamente abre sua bengala e atira em mim com sua escopeta improvisada, eu chego a ser arrastada até a parede pelo empurrão da bala fragmentada. Caio no chão atordoada, quando percebo que Manson está mirando para o rosto Jekyll, o velho sequer olha para o policial.

— Abaixe a arma. — fala Manson, mirando para o centro do rosto de Jekyll.

— Você não tem jurisdição aqui filho, está na minha casa, como convidado. E ela mereceu, ela sabe muito bem disso.

— Vou avisar mais uma vez Senhor, abaixe a arma... — fala Manson, já destravando sua pistola.

— Manson, pare. — sussurro do chão, do outro lado da pequena sala.

Manson me escuta, olha para mim de canto de olho, estou me levantando já com alguns dos fragmentos caindo de meu peito. A camisa está destruída de perfurações e sangue, ainda bem que nem cheguei a morrer ali, ou talvez eles poderiam ter ido longe demais.

— Até porque, atirar em Jekyll não iria adiantar de nada, não é mesmo velho? — Ele abaixa a arma, Jekyll monta de novo a sua bengala, a encosta na poltrona para depois começar a juntar as xícaras de chá na bandeja novamente.

— Qual a razão disso tudo? — Confuso, Manson questiona enquanto me ajuda a levantar finalmente.

— Pois Dorian foi um problema a todos nós e, em outro momento, eu não quis ajudar amável doutor com sua vingança. — Jekyll para ao me ouvir.

— Dorian me fez perder tudo, Lucy. — fala Jekyll para mim.

— ELE ME FEZ PERDER TUDO VÁRIAS VEZES! — grito já afastando Manson com minha mão — Eu só tentei me esconder dele e ele sempre apareceu! Eu não tenho culpa pelo que te aconteceu Jekyll!

— Eu pedi a sua ajuda. — fala ele, ainda abaixado para o açucareiro.

— E eu não dei, pois eu tinha muito a perder e precisava aproveitar que ele não tinha me encontrado ainda!

— Muito a perder? — fala ele ainda abaixado, em tom incisivo.

— Minha dignidade.

Jekyll fica com seus olhos enegrecidos, ele dá apenas dois passos e segura meu pescoço com as mãos, me ergue na parede completamente irado.

— Que dignidade, Lucy? Quando eu a encontrei você estava lutando em uma jaula por comida, sangue e vodka em Moscou. Você era uma assassina que logo foi encontrada por quem lhe pagasse por suas habilidades, isso que você chama de dignidade? Uma puta por comida e sangue? Uma assassina paga pelo governo?

— Eu era livre. E o que eu fazia não te importa em nada, não me leve a mal, mas não é da sua conta. Quem é você para me falar disso, um viciado que consome até hoje o tônico para se manter vivo...

— ELE ME MANIPULOU! Você não teve a sua mente manipulada, para saber o que é ser um fantoche Lucy!

— Sabe muito bem que também fui manip...

— NÃO COMO EU! — vocifera ele enquanto me bate na parede. —Ele a manipulou para amá-lo, a mim, fez com que eu matasse o Clã, pessoas do vilarejo, eu ataquei...

A pressão é tão grande que sinto as pedras sendo esmagadas em minhas costas, ele berra muito próximo ao meu rosto e Manson está chocado ao meu lado. Quando percebo que o policial está sacando a arma novamente eu estendo a minha mão pedindo calma. Atirar em Jekyll agora só pioraria a situação.

— Sim, você os matou. Nós dois somos monstros, mas eu nunca estraçalhei alguém próximo a mim, não é mesmo, Mr. Hyde?

— Eu não...

— Acha mesmo que não reconheço um robô quando vejo um, Jekyll? A torradeira moderna atendendo em sua loja, com o rosto de seu filho, aquilo é um masoquismo seu, um lembrete do que você é capaz.

Jekyll paralisa ou me ouvir, ele me puxa e me bate novamente contra a parede, causando algumas fraturas em meu corpo. Me solta para que eu caia novamente ao chão, com dificuldade e corpo arqueado se acalma, posso ver seus olhos manchados de catarata novamente.

— Nem todos se curam como você, Lucy. — Ele me fala um pouco ofegante.

— Eu sei, eu entendo você querer ficar vivo. Entendo você querer sua vingança, mas na época eu não podia.

— Você não queria! — Ele me corrige, eu fico em silêncio por alguns instantes antes de falar.

— Eu não queria. Mas agora é diferente.

Ele vira o rosto e olha para Manson, paralisado no canto da sala, volta para mim e responde.

— Eu sei.

Finalmente ele se vira, pega a bandeja de chá e se retira da sala. Da cozinha ele fala em tom mais elevado, irritado, porém calmo.

— Preciso resolver algumas coisas aqui antes de partir, podemos sair depois de amanhã, tudo bem pra vocês?

— Sim. Se não se importar, vamos voltar ao Hotel agora...

— Tudo bem, amanhã nos falamos então.

Eu bato com as mãos em minha camisa e calças, Manson pega minha bolsa, se despede meio sem jeito de Jekyll e saímos. Ao descer as escadas o robô imitando o rosto de Thomas nos recepciona calorosamente.

— Espero que tenham gostado de nossos produtos, voltem sempre.

Eu passo direto pelo garoto artificial, Manson olha fixamente para os olhos sem vida do boneco.

— É tão realista...

— Sim, é sim. Anda logo, Manson.

Ele finalmente sai comigo da loja. Assim que estamos na rua, coloco o meu casaco tentando esconder as marcas de tiros, Manson me acompanha tentando acenar ao taxi que se aproxima.

— Ele os matou?

— O tônico, transforma o seu corpo e mente. Ele consegue se controlar, mas nem sempre. É muito instável, ele se tornou um viciado. E fora que...

— Que?

— Eu acredito que Dorian o tenha manipulado para atacá-los.

— Para matar a família?

— Sim.

— Esse Dorian, não tem nenhum limite? Nada o afeta para que você o pudesse tê-lo parado antes?

— Não que eu tenha encontrado. — O táxi para, entramos e nos direcionamos para o Hotel, sentado ao meu lado, Manson ainda está interessado em saber mais.

— Você ainda não terminou de falar de Madri.

— Ah sim, é verdade.

 

 

 

Madri, 1576

 

Eu corto as ameixas, contornando o seu grande caroço interno. Abro e retiro a dura semente, a coloco em uma tigela de barro e mergulho a ameixa cortada em outra cuia com água e mel. Laura fica empurrando as ameixas que boiam para o fundo da tigela, em alguns momentos lambe os dedos levantando seus lindos olhos castanhos. Suas sardas em suas bochechas rosadas são a imagem de meu conforto, seus cabelos castanhos claros estão soltos em madeixas encaracoladas sobre os ombros.

Eu estou cozinhando um bolo de ameixas e laranjas, seu dia de aniversário é amanhã, fará oito anos. É nesse momento de paz, que a porta recebe cruelmente três batidas fortes, eu limpo minhas mãos de caldo de ameixas no avental e deixo as frutas na mesa. Abro a porta e encontro a imponente figura do Bispo diante de mim.

— Dona Catarina.

Eu me ajoelho beijando o seu anel, ele continua.

— Preciso que volte para o convento, há uma ovelha que precisará de cuidados em breve.

— Sim senhor, quando devo ir?

— Se possível, amanhã. — O homem de cabelos grisalhos está um pouco ofegante, se curva lateralmente olhando por cima de meu ombro. — Estava cozinhando?

— Sim, minha filha faz anos amanhã. Deseja descansar antes de seu retorno?

— Sim, agradeço.

Ele entra e caminha firmemente até minha cozinha, Laura levanta do banco de madeira cedendo espaço para o Bispo, que se senta confortavelmente. Coloca as pernas gordas esticadas embaixo da mesa, levanta os braços fazendo com que as largas mangas deslizem, deixando seus cotovelos a mostra apoiados na mesa. Então ele se curva para olhar a tigela na mesa.

— Ameixas?

— Sim, senhor. É para o meu bolo. — responde Laura, do outro lado da mesa.

Ele sorri simpaticamente enquanto eu chego. Levanta o braço e pega uma metade de ameixa que boiava na calda de mel, leva a boca e mastiga ruidosamente. Eu coloco um copo com água na mesa, ele toma acenando com a cabeça a mim de forma cordial.

— Sou um velho já, fico cansado com essa cavalgada toda.

— Não tem problema. — respondo de forma educada, quando ele ergue o braço e pega mais outra ameixa da calda.

— Sempre foi parteira? — eu confirmo com a cabeça. — Onde aprendeu essa... ciência.

— Minha mãe era parteira.

— É mesmo? Como ela se chamava?

— Georgeta. — responde o Bispo de boca cheia.

— Não a conheci.

— Ela não era daqui, éramos de Andalucia.

— Eu era de Andalucia. Estranho, não me lembro de nenhuma Georgeta... mas foram tantos nomes que já ouvi, não estranharia se eu a tivesse conhecido e não me lembre.

Ele pega mais uma ameixa, coloca na boca e continua falando com a fruta sendo visivelmente mastigada.

— Então serão gerações de parteiras, isso é bonito, gosto de tradições. Vai ser parteira também menina?

Laura responde balançando a cabeça em negação, tímida e um pouco com nojo de minha profissão. O Bispo ri.

— Um dia cheguei um pouco suja de um trabalho. Acho que ela se impressionou.

— Ah sim, impressiona mesmo. Mas uma menina como você deve então saber bordar, ou cozinhar bem, não é?

Laura me olha um pouco confusa, eu a instruí apenas para saber brincar e nada muito mais.

— Acho que devemos dar tempo a tudo, não é mesmo, Bispo? — falo tentando desviar o assunto, antes que ele já tente doutrinar a minha filha.

— Sim, é verdade. — Estendendo o braço novamente para pegar outra ameixa que boiava na calda, a traz para sua boca, deixando a calda pingar algumas vezes na mesa.

Ele me pede e eu trago um copo com água. Bebe em grandes goladas, bate o copo na mesa e pega mais uma ameixa. Em silêncio ele permanece comendo em minha cozinha, até que enfim, ele suspira se espreguiçando.

— Acho que vou embora agora, agradeço por me deixar esticar as pernas antes de pegar o cavalo novamente.

Eu aceno com a cabeça, ele se levanta devagar apoiado na mesa, lambe os dedos ruidosamente enquanto se vira para sair. Abro a porta e ele finalmente passa por mim em direção ao seu cavalo, monta no animal e me confirma minha tarefa para amanhã.

— Amanhã cedo, não se preocupe que será paga na mesma quantia que anterior.

— Oh! Obrigada.

Ele parte com seu cavalo marrom, eu me viro fechando a porta e finalmente voltando aos meus afazeres. Na mesa, noto que sobraram apenas duas meias-ameixas boiando na calda.

 

 

 

Londres, 2017

 

Chegando ao Hotel recebo o aviso que tenho uma carta para mim. Vou à portaria, recebo o envelope de papel róseo, abro, leio.

— Algum problema? — fala Manson, me esperando no saguão do hotel.

— Não. É só a conta. Vamos, estou um pouco cansada. — digo fechando rapidamente e guardando o envelope.

O quarto espaçoso tem uma bela cama, mesa na parede lateral com duas cadeiras estofadas. Um sofá pequeno ao lado da varanda, aberta ela ilumina as paredes brancas com detalhes em cinza claro. Possui boa estética, minimalista, compatível com o valor cobrado. Manson olha com as sobrancelhas arqueadas, balança a cabeça como que afirmando para si mesmo que gostou do ambiente. Eu entro, empurro a mala até o armário, deixo a bolsa na mesa e vou ao banheiro me refrescar.

Assim que fecho a porta sinto o cheiro de um cigarro sendo aceso por Manson na varanda, eu paro na pia olhando o reflexo de minha confusão. O que farei? Isso não está nada bom, não sei se devo ficar, e talvez tenha sido um erro trazer Manson comigo.

— Vai ser “com emoção”! Vai levar o policial pra briga? — fala Mefisto na banheira ao meu lado. Está encostado na parede, com as mãos cruzadas atrás da cabeça, apoiando no azulejo branco. Ele fala comigo de olhos fechados, relaxado com os pés esticados apoiados na beirada da banheira.

— Estou pensando. — falo olhando-o através do espelho.

— Vai, seria divertido ver ele atirando em vampiros, eles se regenerando, e depois o fazendo de suco matinal. Acha que ele dura quanto tempo? Dez, quinze minutos?

Manson tosse alto no quarto, Mefisto abre os olhos como se quisesse prestar atenção, ouve as tossidas e revira os olhos em desdém.

— Não que ele vá durar muito mesmo.

Viro o rosto para ele, como que questionando a necessidade de uma fala dessa.

— Qual o seu problema Mefisto?

— Eu? Nenhum. Só acho que não pensou direito antes de trazê-lo. Homens pensam “com a cabeça de baixo”, pelo jeito você também.

— Está enciumado ou é só impressão minha?

— Ainda fico surpreso por você ainda se relacionar com eles... e não estou enciumado, sou um demônio, não um primata.

— Porquê a surpresa?

— Ficam doentes, fracos, debilitados. Se quisesse poderia...

— Sim, eu poderia. Mas prefiro assim.

— Mesmo?

Eu fico em silêncio tentando entender meu amável, e odioso, demônio.

— Enfim... da última vez em que esteve em casa estava silenciosa. Eu sei, eu meio que mereci. Mas quero compensar na próxima. — Com um sorriso de lado dando uma piscadinha.

Eu rio e percebo o meu celular vibrando, um e-mail acabara de chegar. Olho e vejo a confirmação de minha encomenda, deve ser entregue em breve em New Orleans, espero que Hidekki goste, estou preocupada com ele. Abro a torneira na pia tampada, vejo a água encher a bacia de porcelana branca. Fecho a torneira e mergulho o meu rosto até as orelhas, o silêncio me conforta enquanto somente um murmuro indecifrável de Mefisto está ao fundo.

Não estou mais acostumada a ter companhia, depois de Mirian, nunca mais tive companhia por tanto tempo. Eu fecho os olhos na água aproveitando meu mergulho de paz, lembrando de como foi na Rússia, aquele foi um dia cheio de encontros na jaula.

O som da tossida de Manson finalmente me liberta de meu transe de solidão, ele entra no banheiro, eu tiro o rosto da cuba d’água e viro para ele pegando a toalha ao lado da pia.

— Você está bem?

— Estou, acho que peguei uma gripe. — fala ele enquanto pega um pouco de papel higiênico, ele cospe o que incomodava, embrulha e joga no vaso sanitário.

 

 

 

Madri, 1576

 

No dia seguinte da visita do Bispo, vou até o convento e encontro a Irmã Teresa, com quem tenho conversado sobre as meninas atendidas.

— Bom dia irmã, vim para ver a nova mãe que teremos.

— Oh! Catarina. Temo que isso não será mais necessário.

Ainda com a trouxa de tecidos, bacia e tesoura na mão eu questiono na porta do convento.

— Qual o motivo?

— Infelizmente ela faleceu essa noite.

— Mas entrou em trabalho de parto? Foram complicações, sangramento?

— Não, mal tinha contrações ontem, mas hoje quando chegamos para acordá-la já estava tinha subido aos céus. — em seu tom conformista no meio de aborrecimento.

— E o bebê?

— Nós abrimos seu ventre, tentamos resgatar a criança, mas a mãe estava fria demais. A bebê não sobreviveu.

— Minha nossa... você se importaria se eu a visse? Como parteira, talvez seja alguma doença que eu não conheça.

— Mas é claro, nos ajudou tanto da última vez, quem sabe nos traga uma luz.

Ela me conduz pelo convento, até uma saleta de funeral. Lá, coberto apenas por um lençol branco está o corpo da menina com o bebê sobre o seu peito, embrulhado completamente por outro tecido branco. Eu me aproximo e levanto o lenço revelando seu alvo rosto de cabelos louros e lisos. Seus traços angelicais tem os lábios azulados cerrados, estranhamente tem alguns músculos tensionados, ela deve ter sentido alguma dor ou agonia na morte.

Delicadamente, tiro o bebê de seus braços e começo a examinar seu dorso. Não vejo marca alguma, nenhuma picada de animal, ou sinal que tenha caído ou se machucado. Vejo o seu ventre sadio, suas pernas torneadas e bacia musculosa. Ela seria um parto fácil, não tem motivo para essa tragédia. Vou até o pequeno embrulho recém-nascido, desato as camadas encontrando a pequena menina de rosto azulado. Apenas alguns cachos louros estão em sua cabeça, bracinhos gordinhos de como uma criança deve ser. Saudável. Mãe e filha muito saudáveis e, mesmo assim, mortas lado a lado.

— É muito triste, não é mesmo? — fala a freira, atrás de mim.

— Sim. Estranho que não vejo nenhum sinal de doença nas duas. — falo ainda pensativa.

— Pensamos que poderia ser uma parada do coração.

— Não. Foi respiratória, por causa dos lábios azuis na mãe. Se fosse cardíaca causaria pequenas veias saltadas, estouradas nos olhos

— Mas o a fez parar de respirar?

— Eu não sei, não há nada no pescoço, garganta. Tem certeza que estava respirando bem quando chegou?

— Eu a examinei ontem, será que era pneumonia?

— Ela tossia? Tinha respiração cheia?

— Não... — responde ela com incerteza.

— Não acho que seja pneumonia, ou ela seria mais magra.

Ela fica pensativa com minha fala, delicadamente eu coloco a bebê embrulhada nos braços da mãe novamente, cruzo as mãos maternas sobre a criança, como se ela carregasse sua filha. Então reparo em suas unhas e vejo que uma delas está suja, cheia de pele e sangue preso na parte inferior.

 

 

 

Londres, atualmente

 

Saio do banheiro, a neblina de umidade do meu banho me acompanha perfumadamente para o quarto. Manson apagou o cigarro na varanda e finalmente folga sua gravata azul.

— O que pretende fazer, Lucy?

— Amanhã tenho que comprar algumas coisas para usar contra Dorian e a Ordem, devo encontrar Jekyll para ajudá-lo a organizar as coisas para a viajem. Quero partir logo.

— Sim, sim...

— Algum problema?

Ele vira para mim se deitando na cama, acabou de tirar seus sapatos e se ajeita confortavelmente encima do edredom.

— É que não gostei muito de Jekyll, ele tem muita... intimidade com você, de uma forma que não me agrada.

— Manson, esqueceu que ele também me deu um tiro hoje?

— Não esqueci, e de certa forma, você não parecia surpresa com isso.

— De fato, não estava. Fiquei surpresa dele ter sido discreto antes, na verdade.

— Eu sei que eram próximos, que não tenha dado certo antes e ambos foram perseguidos por Dorian, mas...

— Mas...? — falo enquanto tiro o robe e fico de camisola para deitar.

— Ainda foi gentil de forma estranha no começo.

Eu rio me aproximando de seu rosto, me deito ao seu lado apoiando minha cabeça em meu braço. Ele me olha lateralmente e se curva para um beijo, logo passa seu braço em minhas costas me puxando para o seu peito. Sua mão desliza em meu dorso encontrando a minha única cicatriz em minha barriga. Ele para por um momento pensativo, me olhando diretamente nos olhos.

— O que foi? Não está incomodado com minha cicatriz, não é? Você tem muitas mais. — sussurro sarcasticamente.

— Não me incomoda, só lembrando que na verdade também é mortal. Como se chamava mesmo, o punhal?

— Sedenta.

— E você está indo para Dorian, o único que tem a arma que pode te matar para sempre.

— Eu não vou morrer, Manson. Não se preocupe.

— Não, você nem está preocupada, não é mesmo? Afinal, se aliou a um brutamontes só para que tivesse um aliado mais poderoso para essa luta. Está fazendo planos... sendo que sempre foi impulsiva.

Fico olhando para ele, atenta a análise de meu querido estrategista.

— Se está planejando, é porque está com medo Lucy, eu consigo perceber isso.

— O que sugere?

— Está fazendo isso por quê? Esse embate é realmente necessário?

— Sim, é sim.

— Se fosse, você já teria feito isso a muito tempo.

— Eu adiei muito tempo, exatamente por achar que era possível de eu me esconder dele. Mas ele sempre me encontra, sempre há grandes consequências a quem está a minha volta.

Ele recua o rosto, franze a sobrancelha um pouco irritado.

— Acha que está fazendo isso para me proteger?

Eu permaneço em silêncio, sei que ele não vai gostar da resposta. Ele fala então irritado:

— Eu não sou uma mocinha no castelo para ser protegida, Lucy.

— Eu sei que não, mas ele costuma cercar em uma situação em que todos a minha volta sejam afetados.

— Todos?

— Apenas a morte de Mirian não foi, essa foi causada por malditos nazistas. Todos os outros, de uma forma ou outra, ele sempre fazia algo para que todos morressem.

— Ele sabe de mim?

— Acredito que ainda não. E espero que continue assim.

— Como tem certeza?

— Eu não tenho.

Ele vira o rosto preocupado, mas de repente sua feição se transforma em um sorriso de lado voltando o rosto a mim.

— Então está preocupada comigo... que romântica.

— Não exagera, Manson.

Ele ri, e puxa o meu dorso para si dando um intenso beijo, minhas mãos percorrem seu peito me aninhando ainda mais em seus braços quentes. Esse momento relaxado é cortado pelo estridente celular que vibra no criado-mudo ao lado.

— Deixe. — falo baixo ao seu ouvido.

— Não posso, esse toque é da delegacia.

Comigo ainda sobre o seu dorso, ele estende o braço e atende o celular, eu apenas encosto a cabeça sobre seu outro ombro, descansando em minha cama viva.

— Sim... sim, Senhor... mas eu avisei que estaria em viagem Senhor, é alg... — Ele fica em silêncio. Sua temperatura muda e seu tom de voz é outro instantaneamente. Eu me coloco ao lado, ele se levanta se curvando na beirada da cama.

— Ambos no posto de gasolina? Não haviam testemu...

Um novo silêncio, ele leva a mão a cabeça passando as unhas sobre o couro cabeludo muito curto. Ele respira pausadamente antes de completar ao telefone.

— Tudo bem, assim que chegar, entrarei em contato.  — Manson desliga o telefone, ele fica parado em silêncio.

O que quer que tenha contec...

— Cris está morto. — Sua voz seca corta os meus pensamentos.

— O seu colega?

— Ele não era um colega, era um irmão para mim.

— Eu entendo, vocês eram ligados. — falo pausadamente. — O que aconteceu?

— Ele e Dolores tinham ido levar Babel para o pré-julgamento. Ele os matou e os abandonou em um posto de gasolina da estrada.

— Eu sinto muito Manson, sei que ele era impor...

Ele se levanta, fica parado ao lado da cama por alguns instantes, leva a mão na cabeça novamente. Ele passa a mão no pescoço, no rosto, na boca e para. Então se curva para o criado mudo e em um golpe lança o abajur do outro lado do quarto, se espatifando na parede. Ele urra balbuciando alguma coisa que não entendo, começa a socar a parede com de forma repetida, alternando os punhos. Deixo ele socar cada um três vezes, então quando vejo seus nódulos sangrando na parede e me levanto pedindo que pare.

— Chega, isso está te machucando.

Ele me empurra para a cama, eu me levanto novamente segurando o seu braço, ele tenta se livrar de mim. Não consegue. Seguro o seu outro braço e ele começa a esbravejar.

— Me solta! Me deixa!

Se contorce tentando soltar os braços que eu atei aos meus, nesse movimento acaba me dando uma cabeçada em meu rosto. Eu não me movo, meu nariz quebrado mal sangra, ele para olhando o osso se regenerando e dando forma novamente. Ele está quente, irritado, seu coração está descoordenado e sei que deseja chorar. Ofegante ele para finalmente, abaixa a cabeça fechando os olhos, finalmente volta a respirar de forma compassada.

Eu solto os seus braços, ele movimenta devagar os seus me abraçando, segurando por trás e deixando seu corpo cair. Ele cai de joelhos aos meus pés e permanece no chão, abraçado em minhas pernas. Permanecemos assim, em silêncio por quase meia hora. Na hora em que ele finalmente solta as minhas pernas eu ando até a mesa para pegar o meu celular.

— Eu vou ligar para a companhia aérea e marcar seu voo para amanhã.

— Lucy. — fala ele ainda de costas, no chão.

— Sim, Manson.

— Mate Dorian e depois volte para casa. Se eu não tiver conseguido, quero que você mate Babel por mim.

— Manson isso não é...

— Foda-se o que é certo ou errado. Eu não quero a Lei para esse animal. Eu quero ele morto.

 





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