Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2) escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 2
Capítulo 1 — Noite de encontros




 

 

“Não penses mal dos que procedem mal; pensa somente que estão equivocados.” — Sócrates.

 

 

 

Madri, 1569

 

Eu seguro Laura em meus braços. Seu rosto alvo destaca as pequenas sardas em suas bochechas, os lábios pequenos e rosados soltam um bocejo suave antes de embarcar no sono. Antônio entra em casa carregando as compras. Eu faço um gesto pedindo silêncio, ele começa a tirar os objetos mais afastado na cozinha. Após guardar tudo, vem até nós, beija o rosto de Laura e minha testa antes de sentar-se ao nosso lado na cadeira.

— Ela está crescendo rápido. — fala ele, sussurrando a mim. — Tem só um ano, mas parece ter mais...

Eu confirmo com a cabeça, sorrio para meu esposo.

— E está muito saudável. Conseguiu comprar tudo?

— Só faltou a aveia. Mas podemos conseguir isso depois.

Eu me levanto e carrego a bebê até o berço, colocando-a com delicadeza nos tecidos. Curvo-me para massagear minha lombar cansada.

— Hoje vai mudar a lua, é possível que venha alguma parturiente. É melhor você e Laura irem para o estábulo por causa do barulho. — Ele fica entristecido, sei que amava muito Eleonore, novos partos sempre o fazem lembrar da falecida esposa. — Você está bem?

— Me desculpe. As coisas aconteceram tão rápido.

— Não há um dia que eu não pense naquela noite...

De fato, eu pensava. Todo aquele sangue, o útero que continuava a sangrar mesmo após cauterizar... Foi horrível, caótico. O choro de Laura mal era ouvido entre os trovões, Antônio estava em choque e eu desesperada tentando salvar a jovem mãe. Ainda bem que ele compreende, ele estava lá, viu que eu fiz tudo o que podia.

— Eu sei. Eu jamais duvidaria de você. Eleonore confiava em você, muito mais que nas freiras.

— Freiras sequer são casadas, nunca tiveram um homem ou foram grávidas. Não deviam opinar e dar instruções do que não sabem.

— E você já teve filhos?

— Não posso.

— Como sabe? Algum médico já lhe confirmou isso?

Fico pensando em quando Mefistófeles me avisou que amaldiçoados não podem gerar a bênção da vida, como eu poderia explicar isso a ele.

— Meu antigo esposo pagou um bom médico.

— Nunca me falou que já foi casada. — Ele fica curioso.

Nunca falei muitas coisas, casada algumas vezes, amaldiçoada, guerreira, assassina... e é melhor que continue assim.

— Ele faleceu.

Ele olha para mim preocupado com minha fala. Pergunto a razão de suas sobrancelhas arqueadas e me responde:

— Às vezes, você fala como se odiasse as freiras e outros religiosos.

— Eu não... não odeio as freiras. É que não gosto que religiosos venham julgar como amaldiçoado algo que nem sempre é realmente.

— Como assim? Nem sempre? Então você ainda crê.

— É claro que sim, apenas não me sinto mais tão à vontade com isso.

 

 

 

New Orleans, 2016, minha casa

 

Manson tira a venda de meus olhos, e me encontro sentada à mesa que foi decorada com uma vela baixa. O cheiro do assado escapa pela tampa, talheres e guardanapos foram posicionados ao lado do prato. Ele caprichou.

— Uau, você fez tudo isso? — falo duvidosa.

— Você acha mesmo que não consigo fazer nem um jantar? — fala enquanto se senta à mesa. — Na verdade, eu comprei na mercearia dos indianos, pelo bem da sua cozinha. — Eu rio e sinto outra pessoa se aproximar.

— Espero que esteja do seu agrado. — fala Clinton, em pé ao meu lado, enquanto coloca o vinho em minha taça.

A presença do assassino e canibal ao meu lado é aterradora. Institivamente tento mover meus braços, mas eles estão paralisados, amarrados com silvertape no braço da cadeira. Manson sorri enquanto come a carne de seu prato. Olho para o meu e vejo vermes rastejando sobre as folhagens.

— Seu prato favorito está na mesa, Lucy. — declara o cozinheiro enquanto levanta a tampa do prato de assado.

Nele, a cabeça de Drácula está deitada, com uma das bochechas cortadas, servida no prato de Manson. A cabeça decorada com figos, ostras e castanhas abre os olhos esbranquiçados, encara-me decepcionado.

— Porquê não fez nada? Eu lhe dei tudo! — fala a cabeça assada de meu primeiro esposo.

Eu balanço o corpo tentando sair, mas não consigo me mover.

— Está na hora da guarnição!

Clinton ao dar uma forte garfada em meu braço amarrado. Ele rasga a minha pele com os dentes do talher, arrancando um filete de carne de meu braço.

 

 

 

Eu acordo com o braço que eu mesma arranhei, com minhas unhas estão cobertas de sangue e minha pele se regenerando instantaneamente.

Um outro braço repousa meu pescoço. A respiração suave de Manson em meu ouvido me acalma. Eu me desato devagar dele antes de me levantar. O policial dorme pesado ainda, sua barba mal aparada dá um charme especial em seu rosto. Em sua pele negra é possível ver muitas cicatrizes. Entre riscos e estrelas indicando balas, uma bem grande atravessa suas costas de um lado a outro, a facada dada por Clinton naquele dia fatídico. Admiro por um instante, seus contornos fortes, e gentis quando quer. Ponho um hobby de seda azul e vou pegar a comida de Demócrito, que já está reclamando na cozinha. Após alimentar o gato filósofo, desço até o porão e pego as fichas que Manson trouxe de Nikolai.

O russo, como também é conhecido, está ligado a muitas mortes de mulheres forçadas a se prostituírem, além de inúmeros traficantes. Esses não me incomodam por estarem mortos, mas me surpreendem a forma que foram encontrados, severamente espancados. Aparentemente, usaram algum tipo de barra de ferro e muita raiva para deformar aqueles homens. Alguns foram encontrados em um estado que até o dentista teve dificuldades de identificar.

— Você vai hoje à noite no Black Cat? — fala Manson, ainda cambaleante na escada.

— White Cat. Sim, vou.

— Recomendo tentar ser discreta. Você viu o que ele faz com informantes.

— Sim... discreta. — falo enquanto olho os restos mortais de um deles.

 

 

 

White Cat, New Orleans

 

A boate já está fechada quando eu abro a escotilha de vidro no telhado. Entro no salão central, o palco com postes de dança é parcialmente iluminado, assim como o bar para drinks. Logo acima, avisto o que deve ser o escritório. Ando pelo teto. Um lugar como esses, cheio de traficantes, é ideal para lavagem de dinheiro. Em geral, há algum tipo de sensor voltado para o chão, mas não costumam colocar sensores no teto.

Entro no escritório espaçoso com uma grande mesa ao fundo e um grande quadro com Nikolai pintado ao lado de um tigre siberiano. É impressionante a sua “humildade”. Os outros quadros enfeitam a parede do lodo esquerdo, enquanto do lado direito a parede de vidro dá vista para o palco. Vejo um grande cofre no chão atrás da mesa.

— Muito fácil. — fala Mefisto ao meu lado.

— O que está fazendo aqui?

— Sabe que gosto de jogos. — responde, passando por mim e sentando-se na poltrona giratória de couro.

Ruidosamente ele apoia os pés imundos no mogno da mesa e, como sempre, sujam a madeira, enquanto curioso, fuça nas gavetas.

— Não deveria estar aqui, está me desconcentrando.

Ele me responde apenas com um “blá blá blá”, reclamando de meu falatório. Aproximo-me do cofre já aprontando o estetoscópio, mas então, sinto o cheiro à sua volta.

— Que foi? — indaga ele.

— Não é esse, eles pagam em diamantes, esse cofre fede a dinheiro.

Começo a olhar melhor nas paredes, levantando os quadros, os livros da estante e olho a parte interna da mesa, conferindo as madeiras. Passo a mão tentando sentir elevações, bato para conferir se não há nada oco. Encontro um segundo cofre atrás de um dos quadros, mas ele também cheira a papéis e cocaína.

— A gente poderia apenas pegar uma granada e com certeza iria aparecer alguma coisa. — Mefisto fala enquanto come os chocolates recheados de whisky da bomboniere.

— Eu não posso demorar e não quero que saibam que estive aqui.

Coloco de volta o quadro e começo a andar em círculos, olhando por todo o escritório. O passo no tablado de madeira provoca um leve ranger das tábuas em meus pés. Cheiro de dinheiro e outros papéis velhos. Um cofre no chão, abaixo do tapete, não é um lugar confortável e óbvio.

Levanto o tapete de urso polar e removo algumas tábuas no piso, encontrando a pequena abertura metálica. Coloco o estetoscópio e giro a chave até cada número provocar um pequeno clec. Consigo abrir com facilidade. Nele um pequeno caderno de anotações com datas, nomes, números de porto, quantidade de diamantes e mercadorias. Um saco de diamantes em veludo azul e pronto, tenho todas as provas que preciso para Manson conseguir uma prisão legítima.

Coloco o caderninho em um plástico, tomando cuidado com ele. Coloco de volta os diamantes no saco de veludo e assim que fecho o saco, sinto um cheiro metálico diferente. Olho para o lado e vejo um taco de baseball prata e fosco me atingir e lançar pela janela lateral. Eu atravesso o vidro do escritório e caio no andar de baixo, direto no chão em frente ao palco. Algumas costelas também trincaram e ficam cutucando meu pulmão direito.

— Você é ousada. — fala Nikolai, sentado em uma das mesas do salão. Ele toma vodca e suga ruidosamente as ostras de um balde na mesa. — Depois de me fazer perder mercadoria no porto, veio até aqui pegar mais alguma coisa?

Apenas levanto o rosto, é claro, coberto pela máscara. Os pedaços de vidros caem no chão.

— Desculpa pela hora, da próxima vez eu aviso e trago uma torta. — Vejo muitos homens chegando, muito armados e com cara de poucos amigos.

Eu me levanto do chão tentando ficar pronta para qualquer ataque. Ele ri com a boca cheia de ostras parcialmente mastigadas.

— Gostei de você! — Ele perscruta minha figura em uma análise minuciosa. — Tem um corpo legal, deve ter uma carinha boa embaixo dessa máscara. Poderia trabalhar para mim se quiser. Eu sempre preciso de guarda-costas, ou putas novas. Poderia ser as duas.

— Obrigada, mas dispenso o trabalho.

— Que pena.

Ele faz um gesto com à mão e outros homens a nossa volta chamam um homem nas sombras do corredor. Ouço seus passos pesados e logo vejo a grande silhueta de seu corpo robusto. Assim que chega à porta, é possível ver suas calças pretas com listras seguradas por um suspensório em seu peito nu. Não é do tipo com músculos torneados, mas as cicatrizes em sua pele são bem definidas. Contei doze no dorso, todos de tiros, seu ombro muito largo apoia um taco de baseball. Ele chega, abaixa a cabeça e passa pela porta, levantando para mim, olhando diretamente com seu único olho azul, o outro, assim como metade de sua face é um emaranhado de cicatrizes.

Ótimo, vou ter que enfrentar um caolho gigante. Enquanto penso e fico tentando ver algo que eu possa usar, Mefisto aparece, como sempre, de forma imprudente e sem aviso.

— Tenho minhas dúvidas se esse é um primata ou uma versão ainda mais involuída. Um neandertal talvez — Mefisto fala com tom de ironia e uma ponta de preocupação. Ele está deitado de lado no chão, na beirada do palco, sua cabeça está relaxada na mão —, mas a boa notícia é que pelo menos ele tem marcas, então dá para matar.

— São de tiros.

— E?

— Isso significa que ninguém chegou perto o suficiente para uma facada, não posso perder esses diamantes e o caderno. Preciso levar para o Manson, são provas irrefutáveis.

— Acha que dá para explicar isso para o gorila albino lá? Bom, ainda bem que o pior que pode acontecer é você morrer, né?

— Última chance mocinha. Entregue os diamantes e eu peço que Górki não te machuque. — fala Nikolai, enquanto toma mais uma dose de vodca.

— Acho que se esqueceu do que fiz com seus homens no armazém, Nikolai.

— E quem disse que Górki é um homem? Acho que dá para reparar que ele é um tanto... peculiar.

Ele se inclina enquanto escolhe a música no smarthphone conectado as caixas de som. Os outros homens apoiam os rifles no chão e colocam pistolas nos coldres.

achando que vou perder a aposta. — diz Mefisto.

— Aposta? Você brincando né? — retruco inconformada.

— Que foi? Eu apostei em você!

Ouço Górki largar o bastão no chão e correr na minha direção. Ele me atropela, agarrando-me e empurrando-me para a parede. Distraída com Mefisto, eu deixei ser pega. Nessa hora, o pequeno saco de veludo já caíra no chão e já estou encurralada na parede, assim que bato com força na parede ele solta e começa com socos em sequência, que eu desvio. Ele até é bem rápido para o seu tamanho, consigo sentir o ar ser cruelmente empurrado. Eu salto e lhe dou um chute com muita força em seu estômago. Ele não move nenhum centímetro.

— Vish! Perdi mesmo... — fala Mefisto já sentado no chão, suas mãos apoiadas atrás o permite assistir tudo como em um filme ao ar livre.

Górki agarra minha perna e me atira com força até o fundo do salão, caindo entre cadeiras e mesas. Fui arremessada como um saco de lixo. Nikolai se decide na música e David Bowie começa a ecoar no salão, o instrumental chama a atenção de Mefisto que balança a cabeça no ritmo. Atordoada, percebo muito próximo o passo pesado do neandertal. Rolo no chão para desviar do soco, ele faz um buraco no chão com sua força.

Merda, ele fez a droga de um buraco no chão... definitivamente não é um “cara normal”.

— Ei, eu adoro essa música! — Mefisto se levanta, já desinteressado na luta e me ver perder a sua aposta com algum outro demônio.

Que merda! Tudo o que eu preciso, uma plateia desanimada! Ainda no chão, eu chuto os testículos de Górki, ele finalmente para levando as mãos a seu orgulho ferido. Posso me levantar e o soco no estômago e dorso, ele não se move ainda, que diabos é isso? Pego uma das cadeiras de metal e salto antes de atingi-lo nas costas, a cadeira entorta em minha mão, estou olhando atônita quando ele me encara irritado. Segura-me pelo pescoço com uma das mãos e me levanta, me prendendo contra a parede apertando os ossos de meu pescoço entre os dedos. Mefisto se move com empolgação apoiado no microfone. Sim, agora tem um microfone e luzes acesas que o iluminam no palco, o miserável gosta mesmo de um show, é claro que só eu posso ver isso tudo.

 

 

 

— I, I will be king (Eu, eu serei rei)

And you, you will be queen (E você, você será a rainha) — Ele canta pontando para mim.

Though nothing will drive them away (Embora nada, nada vá os afastar)

We can beat them, just for one day (Nós podemos vencê-los, apenas por um dia)

We can be heroes, just for one day (Oh, nós podemos ser heróis, apenas por um dia).

 

 

 

Górki me segura pelo pescoço e me levanta. Com a perna esquerda agarro seu braço, penduro-me e chuto com a direita o seu rosto. Finalmente ele se move, seu rosto vai para trás e volta sangrando. Após o terceiro chute ele se desequilibra, bate-me contra a parede, eu agarro seu braço com minhas pernas, mas ele me atira lateralmente na parede. Eu, e pedaços de cimento, caímos no chão.

Mefisto está rebolando com suas calças brancas e pés imundos no palco. Ele abre a camisa, passando a mão em seu peito, corta-se com uma de suas unhas longas e leva o sangue com o dedo a boca, olha para mim enquanto canta sensualmente.

 

 

 

— And you, you can be mean (E você, você pode ser má)

And I, I'll drink all the time (E eu, eu vou beber o tempo todo)

Cause we're lovers, and that is a fact (Porque nós somos amantes, e isso é um fato)

Yes, we're lovers, and that is that (Sim, somos amantes, e isso é o que é).

 

 

 

Deslizo por baixo das pernas de Górki e salto em suas costas o acertando com minha adaga. Ela quebra em suas costas, fazendo com que ele urre de dor. Que bom, ele fala.

O gigante se vira para mim, dando um golpe em minhas costelas, na mesma hora sinto o quebrar. A faca nas costas o incomoda o suficiente para ficar tentando tirar a lâmina, então eu aproveito e pego o pedestal do microfone de Mefisto e acerto no joelho de meu gorila louro. Ele ajoelha, ferido, dando a oportunidade de bater em sua cabeça e ele se curva com o movimento para trás. Eu dou impulso para bater mais uma vez... e ele segura o pedestal com a mão.

Foram longos milésimos de segundos até eu perceber que estava muito perto para escapar. Ele puxa e enfia o pedestal em meu estômago, atravessando até minhas costas. Mefisto desliza os pés fazendo um passo comedido entre as estrofes.

 

 

 

— I, I will be king (Eu, eu serei rei)

And you, you will be queen (E você, você será a rainha).

Though nothing will drive them away (Embora nada, nada vá os afastar)

We can beat them, just for one day (Nós podemos vencê-los, apenas por um dia).

 

 

 

Górki puxa o pedestal de meu corpo e dá uma cotovelada em meu ombro. Caio, tentando proteger meu rosto com as mãos. Górki segura meus cabelos erguendo meu rosto e me acertar com um gancho de direita. Sinto que meu maxilar não está mais comigo, alguma coisa pastosa, com pedaços crocantes está no lugar.

 

 

 

— We can be heroes, just for one day... (Oh, nós podemos ser heróis, apenas por um dia...) o som já está um pouco distorcido...

 

 

 

Sinto Górki bater o meu rosto no chão, uma, duas vezes... e depois não sinto mais nada.

 

 

 

*********

 

Manson chega ao 31ºDP, SVU, Cris está saindo da sala de interrogatório quando se depara com o Sargento. Ele entrega a ficha nas mãos dele e avisa sobre a situação.

— Essa é a esposa, estava no banco de trás e viu tudo, a bebê está com a Detetive Dolores na sala três.

— Já falaram com o sujeito?

— Ainda não, achamos que você iria querer ter essa honra.

Manson se vira no corredor e avista do outro lado do salão cheio de mesas o rapaz através da grade. Ele olha o seu rosto calmo, sentado no banco de cimento com as mãos apoiadas nos joelhos. Olha e quase sente um frio na espinha, ele tem sangue em todo o rosto e alguns pedaços brancos ainda grudados na pele.

— Ele é do tipo calado?

— Não mesmo, veio assoviando no carro.

— Estava o quê?

— Assoviando. Você sabe quando faz...

­— Eu sei o que é, idiota. Estou perguntando o que ele assoviava!

— Yellow submarine. — responde o policial louro.

— Por que eu tenho um mau pressentimento com esse cara?

— Por que ele acabou de matar um cara com um martelo a plena luz do dia?

Manson olha irritado para Cris. Eles são amigos a muito tempo, foram parceiros por cinco anos nas ruas, mas seu senso de humor ainda o surpreende. Volta o olhar novamente para a ficha e depois para a mulher na saleta, assustada e trêmula, sem falar mais nada ele entra.

— Você quer um pouco d’água, um café? — pergunta em tom baixo à mulher ainda da porta.

Ela balança o rosto negando. Ele fecha a sala e se aproxima, coloca a ficha silenciosamente na mesa e se apoia sobre ela com as duas mãos. Dá uma suspirada profunda antes de falar.

— Eu ainda não falei com ele. Espero que isso seja resolvido da forma mais rápida possível, Senhora... — Ele abre a ficha para conferir o nome. — Margot Shelby. Mas antes de tudo, minhas condolências.

Ela balança a cabeça aceitando. Seus olhos estão baixos, mas agora já está calma. Já chorara tudo o que podia, se sentia seca e vazia. Suas mãos à frente, no colo, ainda estão sujas de sangue. Em seu rosto, apenas algumas gotas de respingo. Manson para por um instante tentando imaginar o terror do que ela viu. Ele puxa a cadeira a sua frente e se posiciona lendo a ficha e perguntando.

— Então ele não a conhecia? E o seu marido.

— Nunca o tinha visto, acredito que meu marido também ou então teria falado na hora que se encontraram. — fala ela enquanto toca o copo plástico na mesa.

— Sim. — A pausa parece uma eternidade silenciosa. — Durante a conversa de manhã, ele parecia nervoso?

— Não, de forma alguma. Ele estava me contando do livro que estava lendo, era sorridente e...

— E?

— Simpático. Ofereceu ajuda, segurou a minha bolsa, pouco antes...

— Então só mudou no instante do ataque?

Ela paralisa por um instante antes de responder:

— Sim, foi só naquela hora.

— E quando conversou com ele, parecia normal?

— Como assim?

— Houve algo que lhe chamou a atenção, Sra. Shelby?

Os olhos dela vão de um lado a outro, em negação, confusão. Cavando em suas memórias algo que tivesse chamado a atenção.

— Ele apenas... apenas que era gentil.

Ela continua seu relato, mas tudo ressoa sem sentido, sem motivo aparente para tamanha violência. Talvez o marido tivesse uma vida dupla, por isso ele pode não ter contado à mulher que conhecia o rapaz. Crime passional? Estranho, mas possível.

Enquanto ela fala ele lê o relatório inicial da perícia, a quantidade de golpes não condiz com um crime comum. Ele levou o martelo na bolsa, planejava atacar, não tinha outro motivo para carregar um martelo, mas a razão disso... A fala da mulher é interrompida por três batidas curtas na porta. Manson pede licença, recolhe a ficha da mesa e sai da saleta.

— O que foi? Encontraram alguma coisa do marido?

— Norton Shelby, não tem qualquer registro, nenhum antecedente, o cartão de crédito só tem compras de farmácia da esquina de casa e supermercado. Nem pornografia o cara consumia, acabaram de ligar da casa deles e até o computador era desbloqueado. — Cris responde com um pequeno bloco de notas na mão.

— Nada que o colocasse em risco. — conclui Manson, escorado na parede.

— Pelo menos até agora. Se eles se conheciam, somente o maluco irá saber.

— E falando nele, alguma informação que conseguiram?

— Sem documentos, cartões, até agora as digitais não deram em nada e nem a foto.

Manson estende o olhar novamente pelo salão e vê passar o Jonatahn Cotton, ficando furioso com a presença do policial.

— O que esse filho da puta está fazendo aqui? — questiona Manson para Cris.

— Você não soube? A corregedoria liberou depois que a testemunha saiu do Estado. O juiz achou que as denúncias não eram o suficiente para penalizar.

— Deixa esse cara longe desse caso, de preferência longe de mim também, pilantra desgraçado.

— Pode deixar... — fala Cris enquanto masca chicletes —, eu devo trazer o marceneiro para a sua sala?

Manson olha feio para Cris que logo corrige.

— O suspeito.

— Sala um, eu já vou.

Cris leva o prisioneiro algemado até a saleta de interrogatórios um. O rapaz se senta e logo levanta os pulsos para que o policial possa desatar suas algemas, mas o policial lhe dá as costas e sai da sala em silêncio. Manson, em pé, joga a pasta sobre a mesa, deixando-a deslizar. As fotos iniciais da ficha escapam pela abertura e Manson puxa a cadeira devagar para se sentar. Mexe um pouco na ficha espalhando as fotos da atrocidade na mesa, levanta os olhos e espia para o rapaz a frente.

— Qual é o seu nome?

O rapaz sorri simpaticamente em silêncio. Manson segura seus pensamentos em estrangulá-lo, volta a olhar para os itens da pasta e pega uma ficha preenchida:

— Na bolsa continha um martelo, chaveiro composto de quatro chaves simples, o livro Frankenstein de Mary Shelley, um pacote de balas de menta, catorze dólares em moedas e trocado. — O rapaz nada responde, continua olhando para a ficha e as fotos espalhadas na mesa. Manson percebe. — Gosta de terror garoto?

— Por que? Isso cria assassinos? — responde o rapaz, completamente imerso nas fotos.

O policial olha para o rapaz que tenta tirar sua concentração, ele está calmo em sua cadeira, algemado e ainda tenta tirar proveito em alguma coisa.

— Não, com certeza não.

O rapaz apenas pende o rosto de lado, olha profundamente para o rosto robusto e marcado de Manson que o questiona:

— Como conhecia o Sr. Shelby?

— Eu não o conhecia.

Manson franze as sobrancelhas com a resposta.

— Então, por que o matou?

O franzino dá de ombros antes de responder:

— Por que tinha que ser assim. — Ele faz uma pausa, apoia as mãos algemadas no metal frio percorrendo com o olhar sobre as fotos perdidas na mesa. — Já teve a sensação de que nada fazia sentido... Detetive...

— Sargento Jones Manson.

O rapaz não parece se importar com o cargo de Manson.

— As pessoas seguem sua vida, sargento. Suas vidas sem nenhum propósito, sem nenhuma razão, sem rumo e querer. — Após terminar de admirar sua obra registrada, ele volta a olhar para o policial. — Já esteve entre a vida e a morte, sargento?

Manson permanece em silêncio, continua olhando para o magro e ousado rapaz de olhos castanhos a frente. Sua camiseta verde está suja de sangue e a combinação das cores é horripilante.

— Vou interpretar seu silêncio como um sim. A questão, é que depois que você sobreviveu, tudo ficou melhor. Aposto que não reclamava mais de dores, cansaço ou problemas na vida, tenho certeza que passou a valorizar mais sua própria vida.

— O Senhor Shelby não poderá valorizar a vida dele.

— Ele não. Mas a Senhora Shelby sim.

— Então a conhece?

— Não. Não senhor... — fala ele balançando o rosto e recuando o corpo. —, eu apenas quis fazer isso, um favor a ela. Tão cansada, pobrezinha, mas agora, está tudo em equilíbrio.

— Acha que é equilíbrio matar um pai que acabara de ter o primeiro filho?

— Por que ele é pai não pode morrer? Por que uma pessoa é boa, não pode sofrer? Quem disse que ele é maior merecedor, Sargento? Assim como todos nós, ele está sujeito a natureza, ela testa inúmeras possibilidades.

— O que quer dizer? — Manson se encosta na cadeira, seus olhos semicerrados tentam entender a lógica do assassino.

— Em uma gigantesca explosão, milhares de átomos foram reorganizados. O caos reinou, e isso era perfeito. Tudo morre, é consumido, absorvido e novamente passa a viver, na forma de uma fruta, de um novo ser alimentado dela.

— E a escolha, por que ele, e não a mãe?

O rapaz vibra os olhos.

— A quantidade de variedade genética, de espécies que evoluem e outras não, pensou em tantos seres vivos que deixaram de existir para que estivéssemos aqui? A diversidade do que compõe estrelas e planetas diferentes... tudo isso é um grande teste. A Mãe joga em um caldeirão de possibilidades e, de repente, sorteia uma espécie que será a escolhida. Se o resultado da mudança for bom, ela sobreviverá, senão, será extinta.

— A escolha foi ao acaso.

— Olhe só, o sargento é um bom aluno.

— Qual é o seu nome?

— Babel. — responde sorrindo.

— Isso não é um nome. Isso é algum apelido, algo criado. Quero saber seu nome de nascimento.

— Eu nasci para ser a aleatoriedade. Eu sou o que é necessário e, no momento, é preciso renovar. Para que ocorra a renovação é preciso morrer, é preciso a destruição, é necessá...

— A Torre de Babel.

— Realmente. Um ótimo aluno. — conclui o insano, fechando os olhos pausadamente.

— Mas na Torre, haviam diversas nações, você é só um.

— Tudo nasce em algum lugar, algum ponto inicial.

Manson o avalia friamente.

— Então o equilíbrio está na aleatoriedade, no caos; e você se considera um agente da natureza?

— Vamos dizer que eu a auxilio, mas se assim quiser chamar...

Manson chuta a cadeira para trás enquanto se levanta, segura o próprio movimento de socar aquela criatura à frente. Sua vontade é de matá-lo com suas próprias mãos, sem uso de martelo. Mas ele se contém, seus olhos irados demonstram o que ele desejaria, mas seu corpo se segura. Babel apenas observa, lê a postura do policial, ele entende o desejo dele.

— Você tentar se conter agora é também uma fraqueza, sargento. Não é natural. — provoca o rapaz, que não se movera mesmo com o prenúncio de ameaça física de Manson.

— Quer me convencer que matou sem qualquer motivo.

— Eu preciso de motivos? Preciso de motivo para dar uma lata de refrigerante para um mendigo? Se ele tem sede... nada me custa dar a lata de refrigerante. Pode ser que ela esteja envenenada, ou pode ser que esteja gelada e agradável.

— O que você ganha com isso?

— Quem disse que quero ganhar, sargento?

Manson balança a cabeça em negação, caminhando de um lado a outro antes de falar.

— Eu não tenho tempo para isso, para insanos sem qualquer conserto.

Ele se direciona para a porta, pois  sabe que não terá qualquer informação melhor do que aquela do rapaz. Sabe também que na verdade não há mesmo uma explicação razoável.

— Não se pode impedir o equilíbrio natural das coisas, sargento. O caos, a aleatoriedade, o notório... tudo isso é a Babel que criamos.

Manson ouve, olha para o insano criminoso com profundo desprezo e sai da sala.

 

 





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