Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2) escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 11
Capítulo 10 – O fim de um arco, é o começo de outros




 

 

 

“O amor não é um deus, nem um mortal, e sim um grande demônio. ” – Sócrates.

 

 

 

New Orleans

 

Manson dirige em alta velocidade, o celular está no viva voz, jogado no banco do passageiro. Ele faz a curva e precisa segurar o telefone para que não caia no chão.

— O que está acontecendo, Diego! Fale!

— Eu rastreei o endereço da estudante que saiu com Babel, eu não pude conter a delegacia, eles armaram uma tocaia para agora.

— E porque não me avisaram? Estão loucos?

— Eu tentei te ligar hoje de manhã, mas só tocava e ninguém atendia. Quanto tempo até você chegar?

— Já estou indo! Só mais alguns minutos. Como é o local? Você está aí?

Diego está apoiado no carro, ele olha ao redor e vê o sobrado prestes a ser invadido pelo grupo da SWAT. Estão fortemente armados e com instruções de neutralizar, mas ele sabe que o esquadrão não costuma lidar bem com terroristas. Grupos de sete soldados estão na porta da frente e dos fundos. Mais quatro entrarão direto no andar de cima pelas janelas. Em seus trajes pretos, possuem máscaras rifles e todo o tipo de armamento pesado para combate. Ele pede que esperem a chegada de Manson que não demora a virar a esquina. Estaciona, sai do carro e corre até Diego.

— Certo, estou aqui. Estão todos prontos?

— Sim. — responde Diego enquanto entrega um colete para Manson. O sargento faz um sinal e o comandante da SWAT recebe o aval de entrada.

Ambos se ajeitam no carro já com a mão posicionada em cima da pistola, prontos no caso de fuga. Os homens de preto dão sinais sonoros em seus comunicadores, posicionam os arrombadores e fazem a contagem. Todos entram de uma vez, sincronizados os homens de cima quebram as janelas com os bastões e entram. Correm pelos quartos falando “limpo” em cada cômodo. Pela porta da sala entram um grupo de sete que caminham rapidamente até encontrarem o grupo do fundo.

Tudo está limpo e vazio, ninguém na casa, tipicamente jovem e feminina. Encontram um porão e um grupo de sete desce pelo cômodo escuro. É possível ouvir seus passos rápidos descendo as escadas de madeira. Tudo está vazio. Manson fica irritado com a primeira perícia, ninguém na casa da garota. Ele anda de um lado a outro e manda pelo comunicador que eles procurem dados que possam indicar qualquer localização.

— Desgraçado, maldito! — pragueja o sargento saindo de trás do carro.

Diego coloca a arma no coldre e acompanha Manson, eles vão até a casa. Assim que entram na casa, as paredes estão completamente escritas e desenhadas com símbolos aparentemente místicos. Alguns dos policiais saem enquanto ele ainda está na entrada e observa o local. Diego fica impressionado.

— O cara é insano.

— É mesmo? Deu pra notar? — murmura Manson entre os dentes para o parceiro.

Eles andam devagar pela sala, enquanto isso, no andar de cima, um som estridente assusta dois agentes da SWAT. Após o susto inicial, eles respondem pelo comunicador que estão no quarto.

— Parece um despertador de relógio de pulso. Vou procurar.

Dois deles aproximam devagar do armário, o alarme sonoro toca abafado. Abrem de uma vez e encontram o corpo de uma garota sentada em posição de lótus, seu relógio de pulso bipa estridentemente. A jovem de cabelos louros teve o seu dorso cortado, sinais indianos estão marcados em várias partes e, no colo, um papel. O soldado pega o bilhete, assim que o puxa, um fio é solto de sua parte inferior. No papel está escrito: “Voe”.

A casa explode. Pedaços de madeira e vidro voam por todo o quarteirão. A grande bola de fogo sobe em vermelho e preto, seu som abafado é seguido pelo agudo de alarmes veiculares disparados pela vibração.

 

 

 

Castelo de Bran, Transilvânia

 

A cabeça de Dorian rolou e se desmanchou no chão. Destruí a lança de Longinos com facilidade, agora, desejo o meu reino, tal como meu poder clama. Hyde me olha, parecendo ainda não aprovar essa mudança de planos.

— Era para eu tê-lo matado. — fala Shiva, em tom rancoroso.

— Não me leve a mal, Shiva. Mas ambas sabemos que você não teria competência para isso. — falo sorrindo enquanto coloco a sedenta em minha cintura.

— Você não... está na hora do nosso trato, agora. — fala ela caminhando, subindo os degraus em minha direção. Ela para logo em seguida, novamente se sentindo mal. Eu inclino o meu rosto como se estivesse falando a uma criança.

— Está se sentindo mal, filha?

Ela cai de quatro e vomita sangue nos degraus, é possível ouvir vários outros vampiros também se sentirem mal, começam a cair e desfalecer.

— O que é isso?! — questiona a tola, desesperada.

— Você achou mesmo que eu iria te dar o trono, Shiva? Tenho que concordar com Dorian. Você é tão burra, que me dá pena.

Seus longos cabelos negros embranquecem e caem, sua pele começa a se descamar e desmanchar no ar. Ela grita olhando para suas mãos, em fúria levanta o seu rosto já envelhecido vociferando como uma bruxa maldita. Ela corre até mim com o punho para cima querendo me atingir. Eu permaneço de pé e parada, sorrio para minha vingança, que corre e se desfaz completamente a poucos centímetros de me atingir. Olho calmamente em torno e todos os vampiros que me morderam, que beberam de meu sangue se tornam pó.

— Eu sou um cálice de veneno, minhas crianças. Agora, todos vocês que restaram, que eu poupei. De joelhos!

Os vampiros se ajoelham, mas alguns, fiéis a Shiva ou Dorian, permanecem de pé. Eles se entreolham com coragem antes de serem fitados por meus olhos negros.

— Não se preocupem, eu matarei todos. Eu não quero um reino sujo como o de vocês, o meu precisa ser novo, fresco. Sem contaminantes como fiéis a Dorian ou Shiva.

Os vampiros que estavam ajoelhados se assustam, murmuram palavras de medo em suas mentes, os outros tentam se organizar para um ataque. Hyde olha horrorizado, ele não esperava minha traição para Shiva, talvez ele achasse que eu a deixaria com um reino como prometera. Volta a me encarar, e questiona.

— Chega, Lucy! Isso não é você. Você não precisa ser esse monstro!

— Eu serei o que eu quiser, Hyde. E você será o meu animal de estimação.

Eu desço um degrau e caminho. Caminho flutuando no ar quase um metro do chão, lenta e docemente para o meu monstro favorito. Ele irá me servir, nem que seja em sua morte.

— Meu querido Hyde, venha comigo. Não quero te machucar. Apenas quero criar um reino, novo e belo.

— Um que subjugue aqueles que não forem vampiros.

— Ora, são mesmo criaturas fracas. Precisam de alguém para comandá-los.

Ele inclina o rosto em dúvida, eu estendo a minha mão para ele que a agarra com força e me atira, do outro lado do salão. Antes que eu bata, me viro e fico de pé na parede.

— Desculpe. Mas eu prefiro a Lucy que ama e nunca desejou um reino. Essa é a mulher que conheço.

— É uma pena. Mas sua história de “Médico e Monstro” terá de acabar.

Salto correndo em sua direção, os vampiros correm aos montes em cima de mim, com facilidade eu agarro um deles, arranco a cabeça com a mão esquerda a jogando no rosto de outro. Chuto-o derrubando, mais um tenta me atacar por trás com suas garras, eu seguro seus punhos e ponho minhas pernas em seu peito. Arranco o seu braço e ataco usando o seu membro como taco. É o suficiente para lançar alguns longe de mim. Eu estendo a mão fazendo com que a espada de Shiva venha em minha direção, ela atravessa as costas de um, eu viro o corpo e ela prende o outro pendurado na parede.

Eles tentam me acuar, lutamos nas paredes até eu chegar na espada, pego e decapito alguns em poucos movimentos. Cabeças caem no chão, braços são arremessados vampiros caem, eu permaneço.Hyde olha para mim, do chão ele tem grande visão do monstro que me tornei, alguns vampiros começam a recuar vendo que a vitória é pouco certa. Eu percebo meus desertores e volto ao chão para buscá-los.

— Ninguém irá sair des... — Minha cabeça é pega pela gigantesca mão de Hyde. Ele me segura e joga com força no chão, fazendo um buraco profundo entre as pedras ele me avisa.

— Chega, Lucy! — Ele levanta sua perna e pisa forte em minha cabeça. — Você só precisa sair desse transe, dessa insanidade do sangue — Chuta uma segunda vez, eu afundo ainda mais entre pedras. —, você não pode se... — Eu agarro o seu pé e seguro.

— Hyde, entenda uma coisa, eu faço o que quiser. — dito isso, empurro com força o seu pé, jogando o monstro para longe de mim. Me levanto diretamente do chão virando para ele, e o soco.

O gigante se desequilibra e cai de costas no chão, salto unindo os punhos e atinjo as pedras quando ele rola escapando de meu golpe. Estranhamente é um movimento que normalmente eu faria quando ele me atacasse. Mas agora é diferente, nunca tive força suficiente para realmente feri-lo, agora é o meu turno. Hyde pega o trono, e me golpeia como se fosse um taco, eu bato na parede com ele usando o móvel para me esmagar, ele se quebra em pedaços.

Soca o meu rosto com a direita, esquerda e eu acerto com o joelho os seus rins. Ele curva em dor, eu lhe dou um gancho na têmpora esquerda e depois no queixo. Cambaleante para trás, me segura ainda para cairmos no chão. Ele me puxa pela perna batendo de um lado a outro, fazendo uma meia lua. Eu me livro de sua mão chutando o seu rosto. Corro e pego o outro trono, carrego em minhas mãos e o lanço contra ele que acerta com as mãos unidas, quebrando o móvel em dois.

Ele corre para a outra sala, eu atravesso a parede o encontrando do outro lado. Então ele me segura pelo braço me batendo contra o pilar.

— LUCY, POR FAVOR! — berra para mim, estendendo a Sedenta em sua mão. — Eu não quero mais lutar!

Movo a minha mão pela cintura, ele deve ter roubado de mim quando estávamos próximos e eu nem percebi.

— Interessante, Hyde. Acho que você nunca lutou com uma arma, não é? Nunca precisou usar nada. Está compreendendo sua real posição.

— Lucy, precisa tirar isso de você. Essa fúria e sede de poder não é...

Eu paro ao ouvir as suas palavras, vejo o meu amigo em posição de desvantagem. Vejo os vampiros recuados ao fundo do salão, e os inúmeros cadáveres que Dorian fez, aquela carnificina que tanto me horrorizou quando cheguei. Olho para mim e vejo o sangue em minhas mãos, em todo o meu corpo, meus olhos permanecem negros, mas agora estagnados em contemplar esse imundo comportamento.

A sede me toma novamente, como se faltasse algo em mim, eu recuo até a parede vendo o grande quadro de Vlad pendendo. Hyde se aproxima devagar, eu não compreendo o que ele fala, mas permito que chegue mais perto. Ele levanta a Sedenta para mim e instintivamente eu o chuto para longe.

— NÃO! NINGUÉM MAIS IRÁ ME DOMAR!

Estendo a mão e a espada voa até mim, eu giro acima da cabeça antes de golpear Hyde. Ele levanta o braço em defesa, atinjo ambos que estão cruzados protegendo o rosto, levanta a mão para segurar a lâmina, mas eu decepo o seu membro. Ele grita tentando me acertar com a sedenta, eu me curvo desviando, aproveito seu movimento mais lento e salto, fincando a espada em sua coxa o prendendo no chão. Ele urra de dor enquanto estico minhas garras para degolá-lo. Neste momento paro, sinto algo que atravessa minhas costelas, a Sedenta está fincada na lateral de meu dorso.

 

 

 

Olho. Sinto o sangue preenchendo meu pulmão esquerdo.

 

 

 

Recuo dois passos. E volto a olhar para Hyde. Sua face é de alívio, ele quase sorri para mim.

 

 

 

Eu seguro a sedenta e a puxo devagar, assim que sai, grande quantidade de sangue vermelho muito escuro escorre pela grande abertura. Meus olhos voltam a ficar brancos e verdes, eu olho para Hyde e digo:

— Obrigada.

 

 

 

3º Círculo do inferno, Lago de Lama, A Gula

 

Envolta no lodo putrefato de lama, vômito e fezes de pecadores eu acordo, estou presa até a cintura dessa mistura densa e grotesca. Mefisto caminha no ar até mim, se agacha ainda ficando poucos centímetros acima da maldita lama.

— Está se divertindo?

— Santo Deus, que horror. Que círculo é esse? — falo, tentando me mover o mínimo possível para não afundar no lama.

— O lago de lama, terceiro círculo. Clinton também está aqui, mas em outra área. Acho que Banshee ainda está cuidando dele.

— A gula? Acho que nunca tinha vindo para cá. — falo preocupada, estou afundando.

— Você veio quando surtou na Rússia, mas tinha caído na borda daquela vez.

— Mefiso... — A lama está em meu peito.

— Eu nem sei porque ainda te ajudo, Lucy.

— Mefisto... — A lama fria toca o meu pescoço.

— Eu deveria aprender... oh, desculpe, estava distraído. — Ele segura a minha mão, eu estava já com o rosto levantado.

Ele me puxa até eu subir em uma canoa estreita, ele a eleva logo em seguida, afinal há muitas mãos segurando a borda tentando subir. Elas ameaçam virar o pequeno barco, eu tento não me mover, enojada com o que recobre o meu corpo. Ele olha para mim com pena de minha condição.

— Não se preocupe, eu deixo você tomar um banho. — fala ele, com o barco já se movimentando.

— Obrigada. — Olho para o lado e vejo Shiva, ela está apenas com a parte superior do rosto para cima, me segue com os olhos em uma mistura de agonia e fúria.

— Ela chegou mais cedo.

— E Dorian?

— Ele está no Quarto Círculo, na Ganância.

— Pode me levar até lá?

Ele se vira para mim, sorrindo com malícia.

— É claro que sim, eu não perderia isso por nada.

Ele se levanta no barco, se coloca a frente como um velejador vienense. Noto que já estou limpa e posso me sentar no banco de madeira.

— É melhor assim, por mais que eu goste de te ver se banhar, isso é melhor para não nos atrasar. Não vai querer perder a surpresa.

— O que está aprontando, Mefisto?

— Acredite minha cara, isso não será um presente somente para você.

Ele conduz o barco de forma veloz, por rios de outros penitentes e esquecimento. Até chegarmos ao Quarto Círculo. O vale dos gananciosos é cheio de riquezas e poder, mas eles não recebem da forma que gostariam. Vejo um rei de joelhos, demônios o fazem estender a mão para pegar todo o ouro que puder carregar. Eles derramam o ouro derretido nas mãos do homem.

— Minus. Ele se regenera e volta para a mesma situação, todos os dias. — fala Mefisto, enquanto caminhamos.

Eu não falo nada, apenas fito ao longe um Papa que é esmagado por barras de ouro e pedrarias. Entramos em um grandioso castelo, nele, há muitos salões para todos os reis, duques, rainhas e tantos outros seres com gana de poder. Em um deles, Mefisto estala os dedos acendendo as inúmeras tochas, Dorian está acorrentado, de cabeça para baixo. Próximo ás paredes muitas correntes, chicotes, açoites e tantos outros itens que vi em meus depoimentos inquisitórios. Dorian está sem os olhos, seu corpo fora inteiramente esfolado e agora sangra, é tomado por moscas e outros insetos.

— Lucy, é você?

Olho para aquele animal em situação de abate.

— Aqui ele não tem mais poder algum. É só mais um homem. — fala o demônio.

— Mefisto, por favor, podemos fazer acordo. Eu lhe dei muitas almas, somos parceiros! — Dorian tenta barganhar.

— Seu contrato já está encerrado, Dorian. — fala Mefisto, em tom provocativo.

— Oh, Deus. Isso não é justo! — Lamenta Dorian.

— Ele não está aqui. Mas se quiser posso entregar o recado a Ele.

— Pode me dar um momento a sós com Dorian? — pergunto à Mefisto.

— Claro, mas não estrague o presente, ele é posse de outra pessoa. — fala Mefisto, sorrindo à mim antes de sair pelo corredor.

Permaneço na sala muito quente, Dorian balança um pouco pendurado pelas correntes. Seu corpo fede com ao sangue seco sendo devorado aos poucos por percevejos. Seu rosto tem dois grandes e negros buracos no lugar dos olhos, está em agonia, finalmente.

— Lucy. Você é influente aqui. Os vampiros me disseram que você tem uma relação próxima a Mefisto, você pode...

— Cala a boca, Dorian.

A expressão dele é de rancor.

— Ingrata. Eu lhe criei, Lucy. Drácula apenas a transformou, mas eu...

— Você é apenas um mimado. Uma criança com ilusão de grandeza. Diz que me criou, mas na verdade depende de mim, ou não teria motivo para viver. Sua fixação é desprezível.

— Eu me encanto por coisas que brilham, Lucy. Como uma coruja que pega uma joia e leva ao ninho.

— Você é a coruja mais feia que já vi e eu, nunca fui brilhante.

— Eu vou sair daqui! Nem que eu tenha que dominar o inferno, irei... — Eu o soco, ele balança batendo na parede de pedras atrás e depois volta com impulso para outro soco. Quando volta novamente Mefisto segura seu corpo pendente, seu rosto sangra e precisa cuspir o sangue para não escorrer ao nariz.

— Sinto muito, Lucy. Mas você não vai ser a carrasca dele. Ele é meu presente para outro.

— Sim. — Já me acalmando, volto para Dorian. — Era apenas uma forma de dizer que ele não fará nada. É um grande nada, um animal que sequer fazia tudo sozinho, sempre dependendo de outros, de uma lança para ter suas vontades.

Mefisto olha para o saco de carne pendente pelas correntes que ainda emitem seu agudo som. Ele faz um sinal e sinto alguém se aproximar atrás de mim.

— Quando disse que tinha um presente, não achei que seria tão bom, Mefisto. — fala Vlad, tocando a sua mão em meu ombro. Eu lhe dou passagem e ele caminha, eles sorriem entre si.

— Sabia que iria gostar, Vlad.

Dorian começa a se debater, tentando escapar das correntes em desespero.

— Quanto eu posso ficar aqui? — pergunta Vlad.

— Quanto quiser, já não é nosso prisioneiro a muito tempo. — fala Mefisto, dando de ombros.

— Vlad. Sabe o quanto eu te admirava, não é? — Dorian, tentando barganhar. — Nunca existiu um Drácula tão imponente quanto você.

— Eu sei que não. — Vlad responde, voltando os olhos a mim. — Existem melhores. Mas isso não importa agora, Dorian. Não me importa o dia que me manipulou com um artefato. Não ligo para o dia que traiu a mim, Shiva, Lucy e até o seu amigo médico. Acho que só tem uma coisa que realmente me aborreceu com você.

Vlad toca e passa os dedos nos açoitadores de couro, escolhendo, observando. Pega uma corrente com garras na ponta, o som da pesada garra de ferro ecoa no salão enquanto é arrastada no chão de pedras.

— Eu não posso lhe perdoar, por você ter tirado Mina de mim. Ousou colocar suas mãos imundas nela, animal ordinário.

— Ajudaria se eu dissesse que ela lutou? Tive que fazê-la acreditar que estava com você, não comigo. — responde Dorian.

Mefisto olha levantando as sobrancelhas, surpreso com a ousadia do condenado. Ele desencosta da parede, quer sair da “área de respingo”.

— Não. Não ajuda. — Vlad responde, vira-se de uma vez fazendo a corrente tilintar.

 

 

 

Castelo de Bran, Transilvânia

 

Eu acordo com a dor de um corte recente entre as minhas costelas, olho e encontro uma nova cicatriz, um novo aviso de minha mortalidade. A verdade é que eu tive sorte de Hyde não ter me decapitado na hora, ele poderia, e eu, merecia. Olho para frente e vejo-o sendo atacado por mais dois vampiros restantes, não tenho qualquer dúvida de pegar a Sedenta em minhas mãos e atacar os animais que ferem meu amigo.

A sedenta divide o dorso de um em diagonal, no outro, apenas um passo e atinjo a sua garganta, ele se esvai em sangue ainda de pé, antes de cair. Solto a arma no chão para segurar o dorso de meu amigo, que agora, já está bem menor, o efeito do tônico passara.

— Jekyll, aquente firme.

Ele tosse um pouco de sangue se agarrando em meus ombros, consigo apoiá-lo nos restos de um dos tronos. Procuro no bolso dele o frasco pequeno que ele sempre deixa de segurança. Ele sempre usa um vidro mais grosso que o normal para não se quebrar com facilidade, apenas o suficiente para que não morra com ferimentos graves. Eu o deixara já em estado crítico, mas os vampiros se aproveitaram.

— Você foi visitá-lo? — fala ele quase sorrindo pra mim.

— Desculpe, eu demorei?

— Foram dois ou três minutos. — enquanto fala, tosse um pouco de sangue.

— Lá são dias, as vezes meses.

— Por acaso sabe aonde eu vou?

— Eu não acho que você vá para o inferno. — Acho finalmente o pequeno frasco de líquido verde.

Jekyll olha em volta, o cenário da carnificina criada por Dorian, lembra do que era com Drácula, e agora, quase foi comigo.

— Talvez o inferno seja aqui, nesse castelo. — Ele olha para mim, enquanto segura a minha mão.

— Jekyll, por favor. Você me salvou, agora deixe salvá-lo.

Sua mão aperta a minha cada vez mais, usa o restante de sua força.

— Você já fez isso, minha querida.

Ele aperta fortemente minha mão, o vidro se quebra cortando minha palma e escorrendo o precioso líquido entre meus dedos. Ele solta quando ouve o barulho, satisfeito. Olho para o meu amigo, que nunca fui suficientemente parceira, ele merecia muito mais de mim.

— Jekyll, eu sinto muito.

Ele sorri, se esvaindo em sangue.

— Eu não. Obrigado.

Seus olhos castanhos paralisam, sua feição magra e idosa está petrificada em meus braços. Seu coração para de bater tornando o castelo finalmente silencioso.

 

 

 

Catacumbas, Castelo de Bran, horas antes

 

A robô reinicia, seus olhos brilham rapidamente e depois ela pisca. Não que ela precise piscar em suas lentes verdes, mas apenas por achar que deve. Ela olha em volta e vê que Lucy, Shiva e Jekyll a deixaram lá.

— Lucy? Pai? — chama, mas ninguém responde.

Apoia os braços e olha rapidamente pela porta. Vê muitos vampiros mortos e fica assustada. “Eles devem ter matado aqueles vampiros”, pensa ela, um barulho estremece as paredes. Vem de cima, uma verdadeira guerra está acontecendo, Moira não gosta de guerras. Volta seus olhos para o buraco em seu ventre, vê muito líquido branco leitoso e denso saindo.

— Meu sangue!

Rapidamente se levanta correndo para uma cômoda, abre as gavetas e encontra um grampeador, começa a fechar sua abertura. Assim que fecha, vê o celular queimado de Lucy abandonado encima da cama e volta a olhar o ferimento.

— Ela ficou brava, por causa disso? Lucy me atacou?

Ela vê que ainda há líquido saindo pela barriga mal emendada, seus olhos passam a brilhar buscando informações que captou de meu celular.

— Análise: “eficiência de nutrientes”, 35%, entrando em estado crítico.  Buscando: “métodos de cauterização”. Encontradas 112.000 resultados, tempo estimado de pesquisa 0,46 segundos.

Seus olhos param de brilhar, ela volta a cômoda, pega canetas plásticas, uma vela e começa a reabrir sua pele sintética. Aquecendo os tubos transparentes pode colocá-los como enxerto dos tubos cortados.

— Análise: “eficiência de nutrientes”, 78%, reestabilizado. Eficiência total em 18 minutos.

Seus olhos param de brilhar, ela fica aliviada e para pensativa. Lucy a atacou, ela não gostou do celular queimado, ou talvez, não gostou dela. Lucy disse que ela não precisava obedecer ninguém, então, não tinha porque obedecer Lucy também. Jekyll a criou, a construiu, mas não ficou com ela. Shiva a odiava, não sabia qual era o motivo. Dorian disse que ela era uma “cópia malfeita, de algo maior”.

— Eu não sou uma cópia. Eu sou... outra. Não sou Lucy, não mais.

Ela volta a olhar para a estante de livros e vê a capa dura azul, Sócrates, Platão e Aristóteles. Sempre fora o seu favorito, mas sempre pensara que fosse como um dos aprisionados dentro da caverna de Platão, voltada para as sombras. Não. Ela acaba de perceber que era a sombra. Todos manipularam, a criaram apenas pela diversão. Era feita para ser uma ilusão de Lucy, nunca teve a sua própria diversão. Olha para o cabo ainda solto saindo de sua orelha, o prende de volta e pensa: “Está na hora da sombra sair da caverna”.

Ela caminha pelas catacumbas, sobe as escadas e passa pela cozinha. Olha pela porta e encontra uma luta de Jekyll, eu, Shiva e centenas de vampiros que nos atacam. Ela vê Dorian se divertindo com tudo isso, vê os inúmeros cadáveres espalhados pelo chão. Mulheres, vampiros, tantas pessoas mortas que aquela cena é repugnante demais. “É isso que ele é, que todos são, assassinos e usurpadores, nenhum deles realmente presta”, pensa ela.

Sai pela cozinha e caminha para fora do castelo, anda pela relva por horas até encontrar uma estrada, já está amanhecendo, e uma brisa passa. Ela vê os seus cabelos balançando com o vento, mas nada sente, ela pensa em como eu sentia o vento. Fica se lembrando dessa sensação. Parada em seus pensamentos, sua paz é interrompida quando os faróis estão muito próximos, uma buzina alta e estridente.

O carro bate, para e a robô é lançada muitos metros à frente, rola pela estrada até parar no chão. Um homem sai do carro, em torno dos cinquenta anos, ele cheira a cerveja e corre até a mulher caída. Se aproxima e tenta tocá-la, mas lhe falta honra para isso. Ele olha em volta, está suando nervoso em sua covardia, não vê ninguém e começa a voltar para o carro.

— Você ia me deixar aqui? — fala a voz feminina da robô.

O homem para, se vira para a robô que já está de pé.

— Eu... achei que...

— Que o que?

— Eu ia chamar uma ambulância.

Moira o observa, analisa em 0,13 segundos o padrão de sua frequência respiratória.

— Mentiroso.

— Eu ia, eu juro que ia. — fala tirando o celular do bolso.

Moira se aproxima dele, caminha como um gato se espreitando para a presa, ele fica atônito sem entender seu comportamento. Ela toma o celular da mão dele.

— Ei, não pode fazer iss... — Antes que ele complete a frase, ela estica o braço, provocando um som de quebrado e líquido.

Ela olha para o aparelho, fica pensando em como é diferente do meu, outro modelo, outra marca.

— Interessante. Tem vários modelos então.

Ela tira a mão que atravessou ao crânio do homem, entrando pela boca e as pontas dos dedos saíram pela nuca. O deixa cair no chão, segura o celular, puxa novamente o cabo e conecta ao aparelho. Olha para o carro com os faróis acesos e o capô muito amassado e se conecta.

— Buscando: “Direção, carros. ”

Seus olhos brilham com a chegada dos resultados.

— Copiar dados. Buscando: “Modelos eletrônicos. ”

Ela sorri com a imensa variedade de resultados.

— Filtrar: “Robôs. ” — A escuridão da estrada é cortada apenas pela luz dos faróis do carro a frente.

Um fascínio vem a sua mente.

— Buscando: “Regeneração eletrônica”.

São tantos resultados, tantas possibilidades, mas uma delas lhe chama a atenção.

— Buscar: “Impressora 3D”.

Um sorriso macabro surge em seus lábios, Moira agora pode ser muito melhor, pode se aprimorar. Basta conseguir os materiais certos.

 

 





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