A Garota da Torta de Maçã escrita por A S Victorian


Capítulo 3
Capítulo 2 (parte 2)





O que Juliana pensou que acabaria dentro de poucos dias estava se estendendo por muito mais tempo do que era tolerável. Estava para completar duas semanas desde que o mundo começou a notar a existência da filha, e Juliana acreditava que mandaria para o inferno a próxima pessoa que ligasse pedindo informações de Joana. A Internet se tornara um imenso fã-clube da garota e estava mais do que insuportável ainda ficar online.

Ela não entendia como aquilo havia tomado aquelas proporções. Ok, Joana era bastante bonita (de rosto, acrescentou mentalmente), mas até ela Juliana teve que trabalhar muito para ficar popular. Longe de ser o estouro desproporcional que foi a filha. Pensou que conseguiria lidar com aquilo, que agiria de forma calma e graciosa, mas sentia que sua cabeça iria explodir a qualquer momento.

Tinha certeza que Joana deveria estar feliz vendo a mãe sofrer daquela forma. Pelo menos, ela não tinha voltado para casa naquelas duas semanas, o que permitia Juliana respirar um pouco, já que não saberia o que faria se visse a cara redonda de Joana.

Mas Joana estava odiando tanto quanto, senão mais do que a mãe. Passara aqueles dias na casa de Luca (que também não estava nada feliz com o assédio que a namorada estava recebendo), saindo apenas para as aulas mais importantes, e se escondendo de qualquer viva alma que portasse ao menos um celular. Não queria ter o infortúnio de ser fotografada novamente, nem que sua privacidade fosse ainda mais invadida.

Não podia nem ao menos ligar o computador sem receber uma enxurrada de notificações. Suas redes sociais estavam impraticáveis. Era surreal como mais de duas mil pessoas tentaram adicioná-la no Facebook naqueles dias. Sem contar com o indecente número de seguidores no Twitter e Instagram.

Por conta de toda aquela história maluca, Luca estava horrível de se lidar naqueles dias. A casa dele era o único lugar que Joana poderia ficar, já que não estava a fim de ter que ver a mãe tão cedo, então ela teve que suportar. E, no fundo, ela entendia o lado dele também. Aquela fama indesejada além de dificultar as saídas de Joana, havia dado um motivo para que sua vida inteira fosse espalhada na internet.

Aquilo não era nada agradável, eles estavam odiando.

Como a situação não parecia dar sinal de que iria melhorar, bem a contragosto, Joana aceitou responder a algumas perguntas. Havia aceitado a ajuda do empresário de Juliana para marcar com um veículo de qualidade, que melhor espalharia o que a garota tanto queria falar. Joana só esperava que, depois da entrevista, tudo aquilo chegasse a um fim.

Marcou de se encontrar com quem lhe entrevistaria durante a manhã de quarta-feira. Joana queria poder encontrar a repórter em um lugar calma, fora do horário de pico, onde conhecesse as pessoas e tivesse certeza que teriam privacidade.

Chegou no horário marcado e ficou feliz ao constatar que a repórter também não havia se atrasado.

Era uma mulher alta, de cabelos muito claros e vestida de maneira confortável. Carregava muito mais folhas do que Joana esperava, mas sorria de maneira carinhosa, o que deixou a entrevistada mais confortável.

Joana pareceu acanhada no início da conversa, principalmente por não estar acostumada com uma câmera virada o tempo todo para ela, mas, lá pela terceira pergunta, descontraiu-se e respondeu a tudo alegre e de coração.

Sabia que depois provavelmente tudo o que estava falando seria editado, e que muita coisa não dita poderia ser colocada em sua boca, mas preferia mostrar ao mundo seu jeito doce de ser, com o coração leve por ter sido verdadeira.

Achou até que se saiu muito bem. Contou um pouco de sua vida, de como via a figura da mãe e frisou que precisava de espaço e que aquela vida definitivamente não era para ela. A entrevistadora a elogiou por sua eloquência, e negou que ela não tinha um dom para aquilo, afirmando que Joana nascera para os holofotes.

Dos holofotes ela queria distância.

Deixou o lugar sem mais o peso nas costas. Agora precisava apenas esperar o resultado. Esperar sua liberdade de volta.

 

Juliana não acreditou quando recebeu um link com a entrevista de Joana. Quando a filha falou que, se quisesse, responderia sim às entrevistas, ela pensou que fosse só da boca para fora.

Seu rosto queimou de raiva. Sua intenção era jogar o tablet que segurava contra a parede, derrubar todos os ornamentos caros do quarto e botar fogo nos pertences de Joana. Mas ela apenas respirou fundo, esperou alguns minutos na esperança da raiva passar.

Debruçou-se sobre o criado-mudo, na direção da gaveta que sempre ficava fechada. Ali guardava seus segredinhos. Tudo o que guardava ali era para emergências: um pequeno revólver, um alarme antiestupro que parara de usar há algum tempo, muitos contatos…

Procurou no meio das folhas um número de telefone específico. Ficou feliz por ter guardado aquilo depois de tanto tempo. Pescou também dentro da confusão seu velho celular, um pré-pago do tempo que Noé ainda era vivo, mas funcionava muito bem para ligações de emergência.

Teclou rapidamente os números e esperou que a pessoa atendesse do outro lado.

— Alô. – A ligação com certeza acordou o rapaz, já que sua voz estava rouca e zangada. – Você sabe que horas são, porr…

— Preciso de seus serviços.

— Quem tá falando?

— Não importa. Preciso de seus serviços e vou pagar bem.

— Estou ouvindo.

A voz do outro lado ficou mais animada.





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