Hugo escrita por Rossetti


Capítulo 10
Dez


Notas iniciais do capítulo

Agora que eu terminei, oficialmente de escrever, os capítulos vão sair mais rapidinho. :)
E eu mal podia esperar para postar esse aqui



No seu penúltimo dia em casa, Hugo acordou mais cedo. Quando levantei ele estava estranho, meio quieto demais, sorrindo com um pesar. Sonia também estava esquisita. Imaginei se eles tinham conversado algo. Eu queria perguntar o que houve, mesmo que não fosse exatamente da minha conta. Mas as palavras certas e a coragem não encontraram caminho para se concretizar. Senti meu peito apertar, não queria ele mal, seja pelo que fosse, ainda mais no nosso último dia antes de mais semanas afastados.

Então Hugo me acordou no meio da madrugada. Sem motivo algum, me chamou para andar de bicicleta. E eu, também sem motivo algum, aceitei. Então fomos.

Eu gostei de olhar para o lado, ver o vento balançar o cabelo dele. Estava fresco e eu estava com minha regata de dormir, o ar gelado fazia os pelos do meu braço se arrepiarem, mas era uma sensação boa.

Paramos no parque e sentamos na beira de um riozinho raso. Ficamos olhando para a agua, em silencio, recuperando o folego. Estava ligeiramente claro, luz vinda de uns postes num estilo antigo, às nossas costas.

Demorei um tempo para perceber que ele queria falar comigo. Acho que reparei pela forma que ele apenas não conseguia parar de mexer as mãos. Esperei. Hugo tirou o chinelo e molhou o pé na agua. Esperei mais. Ele prendeu o cabelo. E esperei mais. Ele começou a arrancar grama com as mãos. Apenas quando eu já me sentia sufocado pela ansiedade, falei:

— Pode me falar o que é, Hugo. – Murmurei.

— Ah... – Ele olhou para cima. – Desculpa. Eu não sei direito o que... – Ele deu uma pausa e eu esperei. Hugo não olhava para mim, mas eu sabia que ele podia me ver no canto de seu campo de visão. – Eu discordo do que o papai acha. – Desabafou, enfim. E quando abri a boca para falar, ele me interrompeu. – Minha casa ainda é minha casa e, sim, eu sempre acabo sabendo de tudo que acontece lá, uma hora ou outra, mesmo estando longe.

— Então a Sonia ouviu e te falou? – Perguntei, repassando mentalmente a conversa que tive com meu pai. De repente eu estava muito constrangido e triste.

— Sim. – ele arrancou um monte de grama e amassou com as duas mãos. – Greg, olha... Não é assim que funciona. Caralho, ele jogou tudo pra cima de você, não é assim, porra.

— Mas é tudo verdade.

— Não, não é! – Hugo olhou para mim. Ele parecia perdido entre raiva e tristeza. – Você não tem que carregar o peso de tudo com você, só porque é um pouco mais velho. Ser mais velho não significa nada. E tudo o que eu faço, cada decisão, é sim pensando em você. Lide com essa pressão, Greg: Você é a pessoa mais importante da minha vida, ontem, hoje e amanhã. Mas eu te desejei por decisão própria, cada vez que me toquei pensando em você foi por decisão própria. Eu te beijei, eu quis ir pra longe, eu tentei usar outra pessoa pra completar o vazio de não ter você e desandei com isso. E em cada segundo pensei no que aconteceria com você, se você sentia o mesmo, se você ficaria livre para superar ou se ficaria triste. Só que fui eu, eu que fiz tudo isso. Às vezes me sinto um furacão, Greg, bagunçando sua vida, porque eu cheguei depois, eu que sempre chego, você tá na sua vida quietinho e eu chego tirando tudo do lugar que deveria estar. E você consegue ser tão bom, tão amável que se sente culpado por tudo sozinho. Eu amo que você tenha esse senso de irmão maior, Greg, eu amo me sentir protegido por você, mas você não pode ficar se machucando por uma coisa que não temos controle. Nós não escolhemos nos amar assim. Ir pra longe não vai cancelar, desconectar isso. Estamos dando murros em ponta de faca, irmão, tentando ignorar o que sentimos. Então você tem, eu tenho, nós temos que parar de sentir culpa. – Ele respirou fundo. Lagrimas saiam de seus olhos e acho que dos meus também. Foi tão difícil ficar olhando para ele, sem conseguir dizer uma palavra, sem conseguir discordar ou parar de chorar. Mas eu também não conseguia desviar o olhar. – Greg, eu estou tão cansado. – Ele soluçou e passou a mão cheia de terra no rosto, secando as lagrimas. – Eu não sei se você ainda aguenta brincar de irmãos normais mais um pouco, mas eu não tô aguentando, eu não sei mais lidar. E olha, eu nem ligo se você consegue, eu só quero que você lembre... Que fui eu que desisti.

Abri a boca, uma tentativa de falar qualquer coisa, mas antes mesmo de eu saber o que falaria...

Ele me beijou.

Foi salgado, a princípio, ambos muito cheios de lagrimas. Mas depois ficou doce, de uma forma que não posso explicar logicamente. Ficou calmo e ao mesmo tempo tempestuoso. Era carinhoso e ao mesmo tempo meio desesperado. Eu segurei seu cabelo com força e ele se inclinou para mim de tal forma que se não fossem suas mãos em minhas costas, eu teria caído deitado para trás.

Poderíamos ter nos beijado por anos, desmistificando todas as histórias sobre ficar sem folego: Quando precisávamos respirar, apenas ficávamos quietinhos, respirando pelo nariz, sem ousar afastar nossos lábios um do outro. Só para, em seguida, ele me beijar mais forte, mais intensamente.

Mas em algum momento escorregamos para a agua e tivemos que parar para rir. Eu apenas fechei os olhos e fiquei deitado, meio no barranco, meio na agua gelada. Sua mão estava na minha cintura, apertando, estando ali comigo.

Até que ele me resgatou, me fez sentar. Ajoelhou no espaço entre minhas pernas e me beijou mais um vez. Dessa vez um selinho. Depois beijou minha testa e me abraçou. Apoiei o rosto em seu peito. Ele respirava rápido, estava quente. Pensei se eu deveria dizer que amava ele, mas descartei a ideia. Ele sabia. E eu sabia que ele me amava também.

 

 

 

Voltamos para casa quase de manhã, cheios de lama. Tomamos banho separados, cada um em um banheiro, mas na hora de dormir Hugo se aninhou em minha cama e me abraçou. Era tão bom estar assim de novo com Hugo, meu Hugo, meu mundo. Seu cheiro, sua respiração, sua temperatura. Foi como acordar de um pesadelo muito longo ou como voltar a vida.

Ele também se sentia assim? Provavelmente. Ele me apertou tanto, respirou fundo no meu pescoço, sorriu, me deu um monte de beijos de boa noite.

O ônibus dele sairia em poucas horas, então acabamos tendo só uma hora de sono. E foi a melhor hora de sono da minha vida.

 

 

 

Não conversamos sobre falar ou não para o resto da família sobre nós. Ainda estávamos meio perdidos em nós mesmos. Durante as pouquíssimas horas que ficamos juntos, do acordar até ele embarcar no ônibus, apenas rimos sem motivo e demos as mãos. Se alguém percebeu... Não sei, eu não sabia de mais nada.

E antes que eu estivesse pronto, ele se foi mais um vez.

 

Mas não fiquei tão triste. Eu quase podia, ainda, sentir seu cheiro. Suas mãos na minha cintura. O gosto da sua boca.

Mais tarde eu ri sozinho, deitado em minha cama, porque se eu já estava totalmente entorpecido por alguns beijos, transar com Hugo provavelmente me faria alcançar o nirvana ou coisa assim. Cobri meu rosto, sentindo vergonha até dos meus pensamentos, e ri mais alto, apenas feliz.

É claro, eu não fiquei feliz durante muito tempo. Duas semanas depois eu já estava consumido pelas minhas paranoias, o medo de tudo dar errado, a saudade... Felizmente as conversas com Hugo levantavam o meu humor com facilidade.

Nós não falamos muito sobre o que aconteceu. Nossas conversas já eram “eu te amo” demais mesmo antes de nos beijarmos, então não havia muito o que acrescentar. Era fato que precisamos falar sobre nós, sobre a família e sobre o que faríamos, mas não era um assunto para se conversar por mensagens.  E depois de tanto tempo sem dizer nada, falar de nós ainda soava como um tipo de tabu.

Por isso eu fiquei surpreso quando, durante uma ligação no meio da madrugada, ele me disse baixinho: “Queria estar aí. Eu te beijaria tanto, mais tanto, que você ia até me pedir pra parar porque não me aguenta mais.”

— Hugo. – Eu ri e mordi a ponta do meu polegar.

“Não estou brincando. Mal posso esperar pra você vir pra cá.”

— Eu também. – Confessei. E hesitei, mastigando a ponta do dedo, antes de continuar falando. – E para seu governo, eu não conseguiria te mandar parar.

“Então fodeu. Quando nos vermos, vamos beijar tanto que só vamos parar quando estivermos velhos e sem dentes.” Mesmo pelo telefone eu podia vê-lo claramente sorrindo.

— Isso não faz sentido. Porra, Hugo. Como vamos nos beijar e perder os dentes? – Eu ri baixinho e ele também.

“É obvio que eu estou brincando, Greg. Tem bem mais partes do seu corpo, além da sua boca, que eu quero pôr a minha boca.”

Eu afastei o celular do ouvido e coloquei a outra mão sobre meu peito, sentindo meu próprio coração disparado. Sorri, sem conseguir reagir direito, me sentindo exatamente com um adolescente abobado, na puberdade e apaixonado. Estava indo rumo a uma coisa totalmente inexplorada: Eu já tinha pensado sobre fazer sexo com Hugo, mas eram pensamentos muito bem guardados no fundo da minha mente. A possibilidade de simplesmente falar de sexo com ele era o bastante para me fazer sentir a barriga gelar e outras partes do meu corpo esquentarem.

“Greg, você ta vivo?” Coloquei o celular na orelha de novo e suspirei. “É claro que estou falando de beijar sua bochecha, Greg.”

— Claro que sim. – Eu ri de novo.

 

 

Levou uma eternidade até o dia que eu viajei para a cidade de Hugo. Cada minuto dentro do ônibus foi inquietante, quase não consegui dormir, a estrada parecia não ter fim. Horas e horas; só cheguei a noite.

Quando finalmente o ônibus na rodoviária, tinha um furacão no meu peito. Eu me atrapalhei pegando a mochila e esbarrei em umas quatro pessoas diferentes, no corredor do ônibus. Uma senhora me olhou torto e tirou a bolsa de perto de mim, mas eu estava ocupado demais me enroscando em cada banco e explodindo de ansiedade para me importar.

Consegui descer vivo e olhei em volta. Nada do Hugo. Eu estava em um lugar totalmente desconhecido e lotado de estranhos. Comecei a me sentir mal.

Até que um braço surgiu e me puxou. Após um breve momento de confusão e susto, me vi no meu lugar preferido do mundo: Com Hugo. Respirei fundo seu cheiro, como se me alimentasse disso, e tudo de ruim que eu sentia evaporou imediatamente.

— Greg. – Ele parecia sentir prazer em repetir meu apelido, por isso sussurrou muitas vezes. – Greg, Greg, Greg...

— Oi, amor. – Respondi. E ele me abraçou com mais força. Era tão certo estar com ele.

Pegamos um ônibus urbano para a casa dele. Sentamos muito juntos, demos as mãos e esperamos que ninguém percebesse ou resolvesse implicar. Hugo morava longe e demoramos para chegar.

Assim que abri a porta do apartamento, senti que tudo ali era muito Hugo. Tinha o cheiro dele, o jeito dele de arrumar as coisas, as cores que ele gostava. Era minúsculo, mas era acolhedora e cada cantinho parecia confortável e agradável.

— Eu já amo aqui. – Comentei, passando a mão pelo sofá pequeno e azul escuro.

— Eu também amo. Só é uma pena que, até ontem, minhas lembranças todas daqui envolvessem muita saudade. – Ele disse baixinho, se aproximando e me abraçando por trás. – Preciso de lembranças felizes aqui.

— Vamos criar boas lembranças, então. – Segurei suas mãos e fechei os olhos. Ficamos um tempo quietos, apenas ouvindo a respiração um do outro. Então ele virou o rosto e começou a beijar meu pescoço, devagar. Cada beijo causava um arrepio pelo meu corpo, como uma pequena corrente elétrica.

— Você tem esse cheiro maravilhoso. – Ele murmurou, com os lábios roçando na minha pele, enquanto falava.

Estremeci, de repente muito nervoso. Não era o momento para ter qualquer crise de pânico, mas minhas mãos estavam suando e eu não conseguia respirar, porque repentinamente tudo era real. Estávamos ali, independente de todo nosso esforço de não tocar no assunto, de não nos aproximar, o nós existia além de apenas em nossas mentes. Eu quis tanto, tanto, era tão inalcançável... Que quando se tornou verdade, eu travei.

— Greg? – Hugo chamou baixinho. Ele percebeu minha reação, claro que percebeu. Me virou de frente para ele, enquanto eu apenas tentava não sufocar, sem reação. – Greg, o que foi? Você não quer...?

Olhei bem para seus olhos e então consegui aspirar uma boa quantidade de ar. Estava tudo bem. Era só o Hugo, por que eu estava apavorado? Não existia pessoa no mundo tão intima a mim quando Hugo. Meu irmãozinho, meu melhor amigo, meu amor.

— Tive um pequeno lapso. – Expliquei, apertando as mão para que parassem de tremer. E sorri, para ele ver que estava tudo bem.

— Eu devia ter esperado mais, não devia?

— Não, já perdemos muito tempo. – E, pela primeira vez, eu tomei a iniciativa de beija-lo.

Me lembro de cada segundo dessa noite, felizmente. É uma lembrança que não quero perder nunca. Mas não sinto vontade de compartilhar os detalhes com alguém além dele mesmo; prefiro guardar tudo em meu coração, intimo demais para que eu consiga pôr em palavras. Só consigo contar que descobri algumas coisas novas sobre ele, e algumas delas me deixaram extasiado. Me fez sentir que agora ele era mais meu do que nunca. Me chamem de obcecado, mas havia um prazer me pensar que Hugo nunca seria tão próximo de alguém quanto era de mim.

 

 

 

— Gregório? – Hugo me chamou, me fazendo acordar de um longo devaneio sonolento. Respondi um “hum”, sem me mexer. Hugo passou a mão em meu rosto e deu um beijo molhado em meu pescoço. – Eu só percebi agora, você não comeu nada. Desculpa. Eu sou o pior irmão de todos.

Eu dei risada. Principalmente porque eu também tinha esquecido disso. Provavelmente só lembraria que passei muitas horas sem comer quando desmaiasse de fraqueza.

— Bora fazer uma janta. – Sugeri, sentando. Hugo me olhou e eu olhei para ele, ambos sem roupa nenhuma. Por um momento desviamos o olhar, depois rimos de nossa própria timidez.

Tomamos banho juntos e eu estava apenas cansado demais para pensar em qualquer coisa além de encostar minhas costas em seu peito e ficar debaixo da agua morna com ele. Hugo apoiou o rosto em meu ombro e ficou quietinho, me abraçando. Ficamos vários minutos assim, antes de lembrar que não dava pra desperdiçar tanta agua, então terminamos o banho correndo.

Cozinhamos juntos e isso foi muito normal, dentro do que já erámos acostumados. Exceto que ele me tocava sempre que podia: um braço pela minha cintura, um selinho, um cafuné. Era como estar de lua de mel ou coisa assim. Eu sabia que, provavelmente, com o passar do tempo nós não faríamos tanta questão de contato físico a cada dois segundos, mas aquele novo começo pedia por isso. Quase para compensar o tempo que passamos longe um do outro.

Jantamos e vimos alguns episódios de seriado. Transamos mais uma vez, no sofá, antes de pegarmos no sono enroscados um no outro.

 

 

Não preciso nem contar o quão rápido passou minha estadia ali.

O ônibus no qual eu ia embora era de noite, então tentamos aproveitar ao máximo a última tarde. Os planos eram de passearmos, mas acabamos ficamos no apartamento. Hugo chorou um pouco enquanto eu arrumava minha mochila e conferia a passagem, mas tentou disfarçar e eu fingi não ver. Depois ele sentou no chão, perto da janela, e eu fui para seu lado. Hugo deitou a cabeça no meu ombro e os cachinhos faziam cocegas no meu pescoço.

— Eu vou voltar para casa, assim que minha faculdade acabar. – Anunciou, sem cerimônia alguma. – E então... – Ele deixou a frase morrer.

— Então...? – Questionei.

— Não sei. A gente vê o que faz. Algum lugar pra ir. Vamos morar juntos, sei lá. Só quero ficar com você.

Eu senti um frio na barriga que infelizmente já conhecia fazia tempo.

Não importava o quanto eu ignorasse o medo, ele sempre voltava. Eu tive motivos para ter medo durante toda a vida e agora tinha mais ainda. Mas não falei nada, só concordei. Não precisava contaminar Hugo com meu realismo triste ainda mais.

— Precisamos falar com o pessoal. – Desviei o assunto para um tópico que não me assustava tanto.

— Precisamos. – Ele concordou. – Quer pegar eles de surpresa? – Hugo sorriu, exatamente da forma que fazia quando era criança e estava aprontando alguma coisa. Me senti imediatamente mais feliz.

— Claro. Como?

— Deixa comigo. – Ele segurou minha mão e beijou.

— Você não vai fazer nada insano, né? – Perguntei, levantando as sobrancelhas para fazer minha expressão de irmão mais velho responsável, mesmo que ele não estivesse vendo.

— Claro que não. – Hugo riu um pouco. – Apenas finja pra eles que está tudo como estava.

— Você é tipo uma peste. – Conferi o relógio, para ter certeza que não iria perder a hora de sair. Então fechei os olhos para ficar quietinho, aproveitando o silencio com ele. Mas Hugo aparentemente tinha outros planos, porque, sem aviso nenhum, me puxou para o colo dele e abriu os botões da minha camisa. – Ah, que porra é essa? – Suspirei, enquanto ele beijava minhas costas e descia as mãos para abrir minha calça também. – Hugo, eu já tomei banho pra ir, não vai dar tempo de tomar outro.

— Não toma.

— São dez horas de viagem.

— E daí? ­– Ele chupou meu pescoço com força e, mesmo se eu quisesse, já não conseguiria argumentar mais.

 

 

Não demos um beijo de despedida na rodoviária.

E eu senti toda o peso de toda a maldade do mundo, todo o preconceito e falta de empatia. Não que eu nunca tivesse sentido o que é preconceito, sendo negro e gay estive convivendo com ele desde antes de entender o estrago que causa em tantas vidas; mas mesmo todos os xingamentos, olhares tortos e perdas de oportunidade que vivi e aguentei em silencio, não foram tão dolorosos e devastadores como não poder dar um simples beijo de despedida em Hugo, antes de entrar no ônibus. Ainda havia a coisa de sermos irmãos, mas isso nem importava naquele caos de desconhecidos, não foi o que mais pesou na situação. Tive medo de sermos vistos, apavorado com a ideia de deixar Hugo sozinho ali, com algum possível maluco violento.

Tinha um casal, um rapaz e uma moça, se beijando do nosso lado. Tão livres, sem a menor noção da própria liberdade e do quanto aquele ato de amor significava. Me senti triste, quebrado, injustiçado e com raiva. Me lembrei de quando Hugo disse que estava com raiva de tudo.

— Ei, Greg. – Hugo me abraçou. Pelo menos isso, pelo menos um abraço. – Sabe porque o mundo é bom? – Ele perguntou no meu ouvido, como se pudesse ler meus pensamentos, minha dor. – Porque tem você nele.

Meu coração deu um pulo e bateu tão rápido que me senti imediatamente aquecido, protegido. Abracei meu irmão com tanta força que ele riu, sem folego.

Eu me sentia quase como ele: O mundo valia a pena porque Hugo existia nele.



Notas finais do capítulo

Se esse capítulo não deixou vocês nem um pouco feliz, vocês não tem coração!
Até porque ta maior do que quase todos outros.
aah, espero que gostem. Um abreijo pra cada um. ♥



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