Hugo escrita por Rossetti


Capítulo 9
Nove


Notas iniciais do capítulo

O que é isso? Sim, CAPÍTULO NOVO! Hugo ainda existe, eu ainda estou aqui!



Cada vez que Hugo voltava para casa, eu voltava ao meu estado de ficar, sinceramente, um porre. Não faço ideia de como minha família me suportava, já que eu acabava mergulhando num estado de auto aversão ridículo. Eu estava deixando que o querer me afundasse, não tinha qualquer controle sobre isso. Não estava mal pelo que eu sentia, estava pelo que eu precisava e não podia ter. Então percebia que devia me sentir culpado por isso e não me sentia. Era quase como sentir culpa por não me achar errado pelo que desejava. E minha cabeça virava uma bola de neve, eu me sentia incapaz de me mexer, mesmo quando estava agitado. A maldita ansiedade, mais uma vez.

Já faziam alguns dias que eu quase não falava com ninguém da família e passava meu tempo livre jogado em algum canto da casa. Estava no tapete da sala, com o celular na testa, quando meu pai sentou do meu lado com duas cervejas e me entregou uma. Não tinha nenhum motivo aparente para bebermos no meio da semana, mas sentei o peguei a cerveja, em silencio.

E ele fez aquela cara, aquela de quando você se prepara para dizer algo. Isso se tornou um motivo bom para justificar a cerveja, então bebi meia garrafinha de uma vez.

— Dias difíceis, hein. – Ele começou mal. Deveria perceber isso de cara e desistir de seja lá qual conversa quisesse ter comigo. – Sonia me falou que você anda quieto demais. Bom, não precisava nem falar, qualquer um vê.

— E ela te obrigou a vir falar comigo? – Chutei.

— Parece que a última conversa que vocês tivesse sobre o assunto não teve muitos resultados.

O assunto. Certo.

— Só que você não concorda totalmente com ela. – Afirmei, sem olhar para meu pai. Eu quase podia ouvir seu cérebro ranger, em busca da resposta certa.

— Parece que ela e suas irmãs andaram tentando te deixar mais confortável sobre isso, mas não deu certo.

— É, acho que não.

— Eu achei uma abordagem errada.

Eu suspirei e passei a mão no rosto. Ele estava tão deslocado quanto eu, falando da situação. Talvez eu fosse mesmo muito parecido com ele.

— Por que? – Questionei, quando percebi que ele não ia continuar falando se eu não perguntasse nada.

— Acho que você tá certo na sua decisão.

Então ele não aprovava. Claro que não, quem normal aprovaria? As meninas, Sonia, provavelmente estavam ficando loucas. Talvez elas ainda não tivessem noção, talvez se vissem Hugo e eu juntos se arrependeriam imediatamente de dar corda, talvez sentissem nojo e constrangimento. Meu pai estava sendo realista.

— Greg, você tá chorando. – Ele me avisou.

— É, isso acontece sem eu perceber. – Sequei o rosto de qualquer jeito.

— Eu sei. Você faz muito disso.

Ficamos um pouco e silencio, no qual me esforcei para manter o mínimo da minha dignidade e não soluçar. Terminei a cerveja.

— Mas acredito que você está fazendo tudo de um jeito errado. – Ele finalmente continuou. – Você não tem vivido. Já é um adulto, deveria estar fazendo planos para comprar um casa, deveria estar saindo com seus amigos... Se você ficar só aqui, nunca vai superar. Pense só... Seu irmão já está... Tentando se soltar, não está? Mas você acaba não permitindo, porque continua aqui. Nada mudou. Então ele também não consegue seguir em frente, porque você não mudou em nada.

— O que o Hugo consegue ou não fazer, não tem nada a ver com o que eu faço. – Declarei, mais seco do que tive a intenção. – Ele é totalmente independente e toma as próprias decisões, sem qualquer influência.

— É o que você acha, mas... – Ele suspirou. – Hugo simplesmente segue você. Tudo o que ele faz, faz pra te agradar. E se ele foi embora, foi só porque ele achou que era o que você queria.

Me lembrei da voz de Hugo, dizendo que estava cansado. Senti um embrulho no estomago.

— A única decisão que ele já tomou por escolha própria foi arranjar uma namorada. – Meu pai concluiu. – E o que você fez, na primeira chance, Greg?

Eu estava tremendo. Meu pai estava me dizendo, de forma clara e direta, que toda a culpa era minha. E eu sabia, eu sabia. Talvez não sobre manipular meu irmão, mas eu sentia que era o responsável, já sentia fazia muito tempo. Eu era o irmão mais velho. Eu senti desejo, primeiramente, por um adolescente. Eu deixei que ele dormisse comigo todas as noites. Eu fiz questão de tomar todos os banhos com ele, quando éramos crianças. Hugo nem tinha amigos direito, porque seu mundinho girava em torno de mim todo o tempo e eu permiti. E eu fiz ele se sentir culpado por tentar namorar. Eu era o doente ali e estava prejudicando a pessoa que eu mais amava no mundo. Eu já sabia, mas não queria ouvir.

— Sim, pai. – Falei baixinho.

— Eu não estou falando por mal, Gregório. – Ele colocou uma mão em meu ombro e apertou. Eu não queria que ele me tocasse, não queria que percebesse o quanto eu tremia. – Filho... Eu não sou contra isso. Se vocês... É claro que eu não tentaria impedir. Se é o que vocês precisam para estarem felizes, que tipo de pai eu seria se não ficasse feliz também, por meus filhos? – Olhei para ele, com o coração doído. Meu pai tinha uma expressão que demonstrava quase tanta angústia quanto eu mesmo estava sentindo ali. – Vocês são a minha vida, Greg. Todos vocês. Só estou falando tudo isso porque... Você tem que se decidir, afinal. E estar ciente das consequências de suas atitudes, ciente que você vai estar escolhendo por vocês dois. Pense em tudo o que pode acontecer, como o mundo vai tratar vocês, porque seja hoje ou daqui dez anos, o mundo vai descobrir.

— Eu sei. De tudo isso. Eu sei.

— Eu sei que você sabe. E sei que você tem tentado com todas as suas forças ignorar a verdade e o futuro. E não te culpo. – Sua mão foi para meu outro ombro e ele me deu um meio abraço desajeitado. Papai nunca foi o melhor em contato físico. Mesmo assim me senti um pouco melhor. Ele estava ali, não estava? Falando comigo, me amando apesar de tudo, tentando me fazer lidar com a realidade. – Já é doloroso demais pra você, não é? Odeio que você tenha que lidar com isso, Greg. É coisa demais e você, para mim, ainda é meu menininho. – Acho que ri, junto com um soluço. – E tem o Hugo, ele... Ah, como eu queria que ele voltasse para casa. Como eu queria que vocês pudessem apenas comprar um apartamento aqui no prédio e ficarmos todos juntos para sempre. E principalmente... Queria proteger vocês do mundo, minhas crianças. – Ele sussurrou as últimas frases e eu voltei a chorar, com o rosto apoiado em seu ombro.

— Me desculpa, pai. – Pedi, soluçando.

— Pelo que? – Ele fundou, mas deu uma risadinha para quebrar o clima.

— Por todos esses problemas, por deixar todo mundo triste.

— Você não causa problemas, muito menos me deixa triste, Greg. – Ele me deu um tapinha nas costas. – Você é uma luz na minha vida, filho.



Adassa arrumou um namorado.

A primeira coisa que reparei quando ela apareceu com ele lá em casa foi que ele era branco. E não foi porque a família toda era negra/morena, mas porque o cara parecia nunca ter tomado sol na vida ou tivesse sido protagonista de uma cena de filme na qual ele passou debaixo de uma escada e caiu um balde de tinta branca na cabeça. O cabelo dele era loiro demais.

Caio, o nome do cara. Adassa teve outros namorados antes desse, mas foi o primeiro que ela apresentou oficialmente à família, então era sério.

Ele era legal, gordinho, bonito e fazia todo mundo rir o tempo todo. Acho que não teve quem não gostou dele de primeira. Embora Hugo tenha mandado mensagens ameaçadoras falando que só deixaria Adassa namorar mesmo quando ele viesse e conhecesse o rapaz. Claro, claro.

— Você não tem nenhum irmão mais novo para apresentar? – Nina perguntou, fazendo Caio rir e afogar com o café que tomava. – Talvez um primo, um amigo? Os garotos que conheço são uns idiotas, se você tiver um amigo legal assim, já tá ótimo.

— Nina! – Adassa empurrou Nina para o lado, rindo.

— Nem precisa ser bonito, sério.

— Vou te apresentar uns primos. – Caio prometeu. Adassa soltou uma gargalhada.

— Jovem, nem pense nisso. – Meu pai falou, sério o bastante para assustar o rapaz por um momento. Em seguida todo mundo estava rindo de novo.

Eu estava apoiei o queixo numa mão e sorri um pouco. Digitei uma mensagem para Hugo.

“Queria que você estivesse aqui.”

 

 

Eu fui buscar Hugo sozinho na rodoviária daquela vez. Era tão bom quando nossos olhos se encontravam depois de tanto tempo. Como sempre, ele correu para mim e praticamente se jogou em mim. A sensação de estar completo novamente me acertou com força. Estar em casa, estar em paz, estar com meu pequeno pedaço do céu.

Quando ele se afastou que pude reparar melhor. A barba ainda estava lá, porém parecia muito calculada e bem feita. Além disso seu cabelo estava enorme, parecendo mais macio do que nunca.

Demorei para me tocar que enquanto eu analisava cada detalhe seu, ele fazia o mesmo comigo. E Hugo desviou o olhar quando percebeu que fiquei constrangido. Apesar disso, senti o coração disparar ao pensar, indevidamente, que ele também me achava bonito.

— Desculpa. – Ele pediu, beijando minha testa. – Veio sozinho?

— Vim sim. – Mostrei as chaves do carro. – Quer ser rebelde e dar um role sem motivo nenhum por aí?

— Quero muito. – Ele sorriu.

— Então você é o cara que anda falando de namorar a minha irmã. – Hugo falou para Caio, assim que tivemos nosso jantar de família com todos juntos.

— Aah... – Caio ficou meio vermelho e olhou em volta, buscando apoio. Adassa quase enfiou a cara no próprio prato para disfarçar que segurava o riso. – Nós já estamos namorando, na verdade.

— Não. Minha irmã só namora se eu aprovar. – Hugo cruzou os braços. – E eu ainda não sei se aprovo.

— Mas...

— Sem mas. Acha que eu tenho o coração mole igual meu pai e o Greg? Rapaz, aqui é pauleira, se eu disser que é não, é não e você vai ter que sair daqui rapidinho.

Caio deu mais uma olhada em volta, perdido. Então reparou que quase todo mundo já estava dando risadinhas e escorregou pela cadeira, aliviado.

— Deus do céu, achei que você estivesse falando sério. – Ele suspirou.

Hugo deu uma gargalhada gostosa e estendeu a mão para ele.

— Bem-vindo à família, cara.

— Depois de quase me matar de susto, você vem com essa? – Caio riu e apertou a mão do meu irmão. Adassa olhou de um para outro, com os olhos brilhando. – Obrigado.

— Você tem que ver o que ele fez com um amiguinho da Nina que veio aqui, uma vez. – Sonia contou, fazendo Nina fechar a cara.

— Uma vez ele implicou com um paquera meu, também. – Tati contou. – Várias vezes, na verdade.

— Vocês estão manchando minha imagem. – Hugo comentou, dramaticamente. – Veja bem, eu nunca impliquei com as namoradinhas do Daniel.

— É porque eu ainda não tenho. – Dan mostrou a língua e Hugo levou as mãos ao peito, como se sofresse de uma grande indignação.

— Cara, isso é assustador. – Caio riu. Então olhou para mim. – E com seus namorados, ele já implicou também?

Houve um segundo de silencio no qual ninguém sabia realmente como reagir.

— Nunca tive um namorado. – Falei baixinho, sorrindo para quebrar o clima estranho.

— Mas você não é...?

— Ele namorou uma moça uma vez, só porque eu me distraí um pouco. Mas nunca deixei ele namorar nenhum cara. – Hugo voltou a ser o centro das atenções da mesa. – Greg é minha propriedade e eu não vou deixar ninguém chegar perto dele, tipo nunca.

Eu não sabia se era para rir disso. Por um breve momento minha ansiedade foi a mil e só voltou ao normal quando Tati e Adassa trocaram um olhar e gargalharam. Em seguida todo mundo riu. Acho que da minha cara, porque eu queria muito morrer naquele exato segundo. Olhei para Hugo e ele só sorriu para mim. Eu nem sabia se estava grato, ou não, por ser apenas uma piada.

Passamos muito tempo sozinhos dessa vez. Demorei para perceber, mas estávamos mais próximos. Não mais do que já tínhamos sido, quando dormíamos abraçados todos os dias. Mas em comparação à convivência que estabelecemos depois que Hugo foi para a faculdade, era muito mais.

Três vezes eu cheguei a pensar (ou fantasiar?) que ele me beijaria.

A primeira vez foi enquanto eu estava comento a última maçã verde da fruteira, já que ele mesmo havia devorado todas as outras sozinho.

— Me dá metade? – Ele pediu, sem cerimônia nenhuma, surgindo assim que dei a primeira mordida.

— Nem fodendo. – Recusei, dando a segunda mordida. – Não mandei você comer o resto de uma vez.

— Greg! – Ele choramingou e tentou pegar da minha mão. Nos empurramos um pouco, enquanto eu tentava manter a maçã longe dele. Em pouco tempo estávamos rindo feito idiotas, mais brincando do que brigando pela maçã. Até que ele me prendeu contra a parede. – Me dá! – Hugo exigiu.

Então eu usei meu último recurso, a arma secreta suprema de quem não quer dividir a comida com um irmão: Lambi toda a maçã.

Lancei um olhar de vitória para ele e me surpreendi ao vê-lo sorrindo.

— Acha que isso vai me impedir? – Ele pegou a maçã da minha mão e mordeu.

— Ah, qual é, Hugo. – Reconheci minha vitória. Ele riu, segurando a maçã no alto.

— Achou que eu teria nojo da sua boca?

— Funcionava quando você era criança.

Hugo sorriu de novo e foi uma visão linda. Tomei consciência do quão próximo ele estava, ainda me prendendo contra a parede. A temperatura pareceu subir vários graus de uma vez.

— Você tem nojo disso? – Ele perguntou baixinho, perto demais de mim. “Ele vai me beijar”, passou pela minha cabeça, mas não consegui me mexer um centímetro. Porem no último segundo sua expressão mudou e em vez de beijar ele lambeu o próprio dedo indicador e enfiou na minha orelha.

— Hugo! – Gritei, me contorcendo de aflição. Ele apenas riu e fugiu com a maçã.

A segunda vez que pensei que ele me beijaria foi quando eu saí do banho. Entrei no quarto, só de bermuda, e me surpreendi com Hugo esparramado na minha cama, com um braço cobrindo o rosto. Me passou pela cabeça se ele iria dormir na minha cama, se dormiríamos juntos. Fiquei parado, segurando a maçaneta da porta.

Ele olhou para mim quando percebeu que entrei, como se fosse falar alguma coisa, mas aparentemente desistiu. Então ficou me olhando, em silencio. E o ar ficou mais denso, eu me senti constrangido, mas tinha algo de satisfatório ali; a forma como ele me olhava, deixando claro o que queria, desejava. Ele mordeu os lábios e eu senti cada pelo do meu corpo se arrepiando. 

Falando sinceramente, não sei o que me impediu de trancar aquela porta. Tenho certeza que o simples ato de virar a chave teria feito todo o esforço que fizemos, para nos manter afastados, ruir em menos de um segundo.

Hugo levantou e acho que eu estava tremendo. Veio até mim. Eu não me mexi, hipnotizado por tudo que seu olhar expressava. Ele parou em minha frente. Eu esperei.

Suas mãos de repente estavam em minha bermuda e eu nem tive tempo de ter esperanças, antes dele puxa-la mais para cima. Eu nem tinha dado atenção ao fato da bermuda estar larga.

— Não anda por aí com a roupa caindo, Gregório. – Ele sussurrou, o tom muito diferente do que usa normalmente.

Dei um passo para o lado e ele saiu do quarto.

Eu continuei parado no mesmo lugar, tentando recuperar ao menos um pouco da minha sanidade.

A terceira vez foi mais repentina. Estávamos sentado no sofá, conversando, quando ele se inclinou, quase por cima de mim, para pegar seu celular para me mostrar um vídeo. Ficamos próximos demais e quando percebemos, não reagimos. Acho que ficamos vários minutos, talvez uma eternidade, com o peso de não poder apenas acabar com o espaço entre nós, porém sem a menor disposição de enfrentar o vazio que seria apenas recuar.

Até que Daniel entrou correndo e nós conseguimos voltar para o mundo real.



Notas finais do capítulo

De noite, quando vem a tristeza e amargura vêm com tudo, quando escuto sons de tiros sendo disparados e quando me vem a noção de que a vida passa muito mais rápido do que damos conta de vive-la, percebo o quanto o humano é frágil e como eu não quero morrer sem finalizar nada. Quase sempre isso me deixa deprimida a ponto de que tudo que quero é fechar os olhos e entrar no mundo dos sonhos. Outras vezes me sinto inspirada (com base em desespero) para escrever tudo o que eu posso. Até porque no dia que eu morrer os personagens que não estiverem no papel morrerão comigo. Eu não os quero mortos.



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