Damaged Memories escrita por Clenery Aingremont, Clenery Aingremont


Capítulo 21
Capítulo 20 - Cure





Uma coisa que James odiava em Lily era a sua extrema percepção das coisas. Isso incluía tanto os sentimentos de outras pessoas quanto a facilidade de acordar, não importando o silêncio que ele fizesse. O mínimo movimento, e ela despertava.

— Bom dia — disse Lily, sem mover-se de seu lugar na cama, apenas os olhos abertos indicavam que estava acordada.

James subiu o zíper do casaco, antes de inclinar-se novamente na cama, dando um rápido beijo em seus lábios.

— Bom dia — ele respondeu.

— Ia embora sem se despedir de mim? — Lily perguntou.

Ele ficou com vontade de responder que não era ele quem esteve evitando-a, mas a gravidez devia afetar muito os seus hormônios, então decidiu não começar uma briga.

— É claro que não — mentiu.

Saber que o seu filho era a causa pela qual tinha sido sequestrado e manipulado só aumentava o seu rancor sobre Voldemort. O que o bruxo planejava obrigá-lo a fazer? Entregar o seu filho a ele? Matá-lo ele mesmo?

So de pensar nas possibilidades, caso não tivesse sido forte o suficiente, estremecia.

E saber sobre a profecia apenas o fazia sentir mais vontade de lutar e revoltar-se contra os absurdos que a política sangue purista propunha, precisava estar inteiro para proteger a sua família. E a única chance real que tinham era a velha conhecida de Dumbledore.

— Dorcas já está la fora — disse James, fazendo um carinho suave em seu couro cabeludo — Só estão me esperando.

— Promete que mandará notícias? — perguntou Lily, um pouco sonolenta.

— Prometo.

Vendo que ela não planejava levantar, deu um beijo em sua testa, e afastou-se, levantando-se da cama.

— James — disse Lily, sentando na cama.

Ele parou em frente à porta, virando-se para ela, que abriu a gaveta da cabeceira e entregou uma sacola de plástico.

— Não esquece dos remédios — ela disse, parecendo infeliz por não poder ver se o progresso seria bom.

James pegou a sacola de suas mãos, roçando as suas mãos, antes de sair do quarto, contra a sua vontade. Colocou a sacola dentro do bolso do casaco — que estava com feitiço indetectável de expansão — e desceu as escadas para a sala de estar.

— Já não era sem tempo — disse Dorcas, sem compaixão — Vamos?

Ele olhou mais uma vez para as escadas, antes de concordar.

— Vamos.

Remus deu um sorriso encorajador para o amigo.

Assim que saíram da casa, Dorcas retirou uma chave de portal de seu bolso da capa e todos apoiaram as mãos na lanterna, antes de desaparecerem.

— Onde estamos? — perguntou James, tentando proteger os olhos de um sol muito forte.

— Manama — respondeu Dorcas, desenrolando um tecido negro de seu pulso e enrolando-o ao redor da cabeça e à frente de seu nariz e boca — Bahrein.

Ela pegou um pedaço de pergaminho de dentro de sua capa e mostrou a James e Remus.

26° 14’ 10’’ N 50° 34’ 59’’ O.

— Coordenadas — disse o lobisomem, olhando ao redor, os olhos apertados para tentar bloquear a forte luz do sol — Dumbledore fez algum feitiço para localizá-la?

— Ou deve ter consultado aquela vidente — Dorcas revirou os olhos, como se acreditasse que a adivinhação era uma estupidez — Quando pensamos que as próximas gerações terão algo mais útil a aprender em Hogwarts, e ele resolve contratar essa charlatã...

— Bem, ela fez uma profecia — retrucou Remus — E, se ele acredita nela, deve ter algum fundo de verdade.

Dorcas apenas revirou os olhos, pegou a varinha e apontou-a para a frente.

— Me oriente.

Uma seta apontou para o lado direito ao deles.

— Oeste — ela murmurou para si mesma, pegando um mapa estranho de dentro da capa.

— Alguma ideia de onde essa senhora está hospedada? — perguntou James, olhando para os grandes prédios.

— Vai ser uma procura difícil — disse Dorcas, ajeitando o pano em seu rosto, apenas os seus olhos azuis eram visíveis.

— A gente também vai precisar cobrir o rosto?

Ela apenas olhou incrédula para James, negando com a cabeça.

— Talvez um pouco mais sobre a cultura trouxa faria bem — concluiu o pensamento anterior sobre a grade curricular do colégio.

— É parte da religião islâmica. As mulheres não podem mostrar o rosto nem o cabelo — Remus explicou.

— Se queremos passar despercebidos, o melhor a se fazer é nos adequarmos à região local.

Como auror, James não podia discordar daquele pensamento. Trocando um olhar com o amigo, apressaram-se em transfigurar as suas roupas o melhor que podiam. Não era à toa que davam-se bem com a transfiguração.

Dorcas sorriu, apoiando a decisão deles, e também transformou a sua blusa de mangas compridas e suas calças em vestes mais apropriadas para a cultura local.

Pegando um pouco de dinheiro — já convertido — dado por Dumbledore, eles abrigaram-se em uma pousada bruxa, que o bruxo já tinha se ocupado em pesquisar e informar no mapa.

— Diga-me que você tem um dicionário árabe aí — pediu James a Remus, enquanto que Dorcas perguntava às mulheres que encontrava do outro lado do bar por Thandie Zummach.

— Você sabe que isso não vale para todos os países — ele disse, vendo como o amigo procurava por algumas palavras.

— Eu não tenho certeza se serei compreendido se falar inglês. E isso deve chamar a atenção.

Remus precisou concordar com isso, mas alertou, convencido:

— Isso não vai dar certo.

James apenas ignorou-o. Quando levantou-se, Dorcas parou-o.

— O que está fazendo? — ela sussurrou, olhando ao redor.

— Eu só quero beber água! — reclamou James.

— Você é um bruxo ou não é? — Dorcas perguntou, como se ele tivesse algum problema mental — Pegue a sua varinha e conjure a porcaria da água.

Ele apenas sentou à contragosto, enquanto ela voltava a caminhar para uma mesa longe deles.

— Odeio isso — resmungou James, apontando a varinha para dentro do copo.

Assim que estava cheio de água, pegou uma caixa cilíndrica que Lily o entregou, junto com outras caixas. Tentou entender o que estava escrito, mas não conseguiu, então apenas deu de ombros. Pegou um comprimido, colocou na ponta da língua e deu um gole de água, como ela disse que ele deveria fazer.

Esperava que aquilo funcionasse.

Eles passaram o resto do dia caminhando sob o sol escaldante, que fez com que James prometesse nunca mais reclamar das noites de verão da Grã-Bretanha, e sentisse falta da neve invernal, embora não estivessem nessa estação do ano.

Assim que anoiteceu, decidiram que percorreriam o resto da cidade no dia seguinte. Antes de dormir, James enviou um patrono a Lily, informando-a de que tinham chegado bem e que não tinham tido sucesso quanto às buscas, por enquanto.

Antes de dormir, tomou outro comprimido, pois acreditava que o efeito seria apenas de 12 em 12 horas.

Quando acordou no dia seguinte, logo notou que algo estava errado.

Não tratava-se de estar longe de casa ou algum pressentimento de ataque, era ele mesmo.

— Remus, mande uma mensagem para Lily — escutou a voz de Dorcas dizer, preocupada — Ela deve saber o que fazer.

— O que está...? — James tentou levantar-se, mas gritou de dor, ao sentir uma contração na perna.

Ela empurrou-o de volta para a cama, e ele não reclamou, tentando conter os gritos de dor. Remus voltou, fechando a porta do quarto, preocupado.

— Não podemos parar as buscas — disse Dorcas, descontente — Você cuide dele, e eu continuo.

— Enlouqueceu? — retrucou Remus — Acha que confiarão uma informação a uma mulher? Justo onde estamos?

Ela apenas mostrou a sua varinha, antes de sair do quarto, sem esperar por uma resposta.

— Envenenaram a comida — resmungou James, cobrindo os olhos com o antebraço, sentindo a garganta doer pelo esforço de falar.

— Acho que foi um efeito colateral dos remédios que a Lily te deu — ele disse, pegando uma das caixas retangulares — Melhor pararmos por aqui.

— Ele não pode voltar, Remus, não pode.

O amigo apenas olhou-o com pena, antes de fechar as cortinas do quarto.

— Durma um pouco — aconselhou-o — Ele não vai voltar. Dorcas deve trazer boas notícias.

James torceu para que fosse verdade.

Infelizmente, Dorcas não trazia notícias. Na manhã seguinte, eles mudaram de hospedaria, procurando algum rastro que Thandie pudesse ter deixado.

— Se eu quisesse me esconder, eu me meteria na mata — disse James, cansado — Estamos chamando a atenção!

— É claro que não! Por que estaríamos? — Dorcas revirou os olhos, como se a sua sugestão fosse tola.

Estava pronto para retrucar, quando Remus virou-se para ele.

— Melhor enviar um patrono para Lily — disse, calmamente.

Trancou-se no banheiro, tentando pensar no que poderia dizer em uma mensagem rápida.

Certo, ele já tinha feito isso, mas o primeiro dia era sempre diferente.

— Expecto patronum — ele murmurou, apertando a varinha com força.

O cervo brilhante surgiu à sua frente.

— Lily — disse James, olhando para a porta, um pouco paranoico, antes de engolir em seco, e voltar a encarar o animal — Eu estou melhor agora. Parei de tomar os remédios, Remus deve ter lhe explicado o que aconteceu. Espero que esteja bem. É realmente uma droga essas mensagens unilaterais, mas nós sabemos que é o melhor. Eu vou ficar bem, não se preocupe. Cuide de Harry. Eu te amo.

A cada patrono, era como se levasse um pouco de seu coração, exatamente a quem pertencia.

E, a cada mudança de lugar, cada dia perdido procurando por uma possível — nem era confirmada — cura, James sentia que começava a valorizar o tempo que tinham em mãos. Na verdade, só começou a notá-lo quando os seus pais morreram, mas era uma situação diferente, que agora estava invertida.

— Vai ficar tudo bem — Remus colocou a mão em seu ombro, como se adivinhasse os seus pensamentos, ao vê-lo sentado à cama da vez.

— E se essa mulher atravessou a fronteira? — perguntou James.

— Vamos atrás dela. Dorcas está conversando com Dumbledore pela lareira do bar, e parece que o mapa continua indicando o mesmo. Ela está aqui.

Tão perto, mas, ao mesmo tempo, tão longe.

Como era possível aquilo?

Uma ideia louca veio à sua cabeça, e ele levantou-se de seu lugar.

— Remus, eu vou descer ao bar, pode ser? — ele pediu.

— Claro, claro — o amigo respondeu, concentrado em um livro.

Fechou a porta do quarto e desceu as escadas, sentando-se à mesma mesa do bar que costumavam sentar.

Devia ser a primeira vez que ele observava ao seu redor com atenção. Cada rosto dali, procurando algum familiar.

— O que está fazendo?

Dorcas cruzou os braços, olhando ao redor.

— Você não sente que estamos sendo observados? — sussurrou James.

— A todo o momento, talvez? — ela revirou os olhos.

Ele apenas negou com a cabeça, virando a cabeça para o outro lado.

— Vão pedir algo? — uma garçonete perguntou a eles.

James fixou os olhos na mulher. Algo nela parecia familiar, mas o que realmente o chamou a atenção foi que ela falou em inglês.

— Não, obrigada — respondeu Dorcas por eles.

Ela afastou-se, os olhos ainda fixos neles.

— Isso não é bom, vamos embora — a auror disse, imediatamente.

— Dorcas, estamos correndo em círculos — James levantou-se de seu lugar.

— O que quer dizer com isso? — Dorcas franziu o cenho.

— É estranho que estejamos rodando o país inteiro e nunca estamos perto ou longe dessa mulher, não acha?

Olhou para o lado, ajeitando o pano em seu rosto.

— Você acha que ela está nos seguindo? — ela perguntou.

— Sim, eu acho.

Dorcas olhou novamente para a garçonete, que parecia ser estrangeira, assim como eles, mexendo em um café apenas com uma mexida de dedos.

— Eu vou até lá — ela disse — Oi, Remus!

James olhou para cima, vendo como o amigo descia as escadas, sorrindo em um cumprimento para Dorcas.

Esse simples momento de distração foi o suficiente.

— Cuidado! — Dorcas gritou, tirando a varinha de seu bolso.

Instintivamente, James jogou-se ao chão, sentindo um raio de luz verde passar rapidamente por onde ele estava antes. Remus desceu o resto das escadas, a varinha também em mãos, lançando feitiços a torto e a direito.

Assim que levantou-se, olhou na direção em que Dorcas esteve, chegando a ver o momento em que Thandie agarrou uma jaqueta e desaparatou do bar.

— Droga! Droga! — ele resmungou, conjurando um escudo para protegê-lo de alguns feitiços que não tinham um aspecto muito bom.

Não eram muitos os bruxos que os atacavam. James podia chutar que eram Death Eaters, mas o comportamento e vestimenta deles o levaram a pensar que, talvez, se tratasse de um grupo local, embora duvidasse que agissem a favor da lei, só pelo fato de atacarem a um bar sem quaisquer ameaça evidente.

Sentiu uma mão agarrando-se ao seu ombro e tentou desvencilhar-se, sem sucesso. O mundo ficou borrado e estreito por um momento. Quando tudo voltou ao normal, ele afastou-se tropegando.

— Ei! Calma! Sou só eu — disse Dorcas, guardando a varinha dentro do bolso da transfigurada jaqueta, que voltava a ter a sua aparência normal — Isso não está dando certo! Se Zummach tinha alguma pretensão de permanecer mais algum tempo aqui, foi por água abaixo! Acabou! Será uma perseguição de volta ao mundo!

Remus apenas virou de costas para eles, observando a floresta na qual tinham surgido.

— Nós saímos do país? — ele perguntou.

— Não! — exclamou Dorcas, ofendida — Nós estruncharíamos, com certeza. Precisamos de uma chave de portal, entrarei em contato com Dumbledore.

Ela afastou-se dos dois, esbarrando no ombro de James, que levou a mão até o local, sentindo um pouco de dor.

— Certo — murmurou Remus — Devemos montar uma barraca ou...?

— Eu já volto — disse James, indo para o caminho contrário ao de Dorcas.

— Ótimo — escutou o amigo dizer.

Por que as precisavam ser tão difíceis?

Ele sentia saudades de Lily, e como sentia, mas poderia voltar para casa de mãos vazias?

Não podia deixar-se ficar à mercê de uma personalidade ruim, que poderia prejudicar a sua mulher e o seu filho. Não podia fazer com que aquele tempo fora fosse em vão.

Mas o que podia fazer? Ficar mais meses e meses atrás de uma única possível cura, que nem era confirmada?

Thandie estava os seguindo, certo? Ela seguiria atrás deles, mesmo quando saíssem do continente? Ele duvidava. Sua chance tinha escapado de suas mãos tal como água.

Encontrou um riacho ali por perto e quase gargalhou pela ironia da situação. Aproximou-se da margem, molhando o seu rosto. Não devia ficar de guarda baixa, alguém poderia surgir e empurrá-lo para dentro do rio, afogando-o, mas não importou-se com isso. Ele agia de acordo com o que acontecia, e não com possibilidades. Se o fizesse, seria tão paranoico quanto Dorcas e Moody.

Assim que abriu os olhos novamente, viu Thandie do outro lado. Ela não tinha mais a aparência de garçonete jovem, mas ele sabia que era ela. Quem mais poderia segui-los com tamanha facilidade?

— James Potter. Venha até aqui!

Perguntou-se se era normal de gente mais velha ser tão misteriosa e sábia, lembrava-o um pouco como Dumbledore agia. A diferença era que Dumbledore estava à frente da guerra, e Thandie estava escondendo-se para se proteger, até onde eles sabiam.

Sem hesitar, passou o antebraço na frente de seus olhos, secando-os mais, e pisou em uma das pedras escorregadias com cuidado. Atravessou sem dificuldades, embora pudesse ter escorregado e caído com a mesma facilidade.

Deixou que a idosa tocasse o seu rosto e o avaliasse sem pestanejar.

— O que Tom o fez? — ela perguntou, parecendo decepcionada, como se tivesse conhecido bem a Voldemort.

— Eu não sei — James foi sincero.

— Venha, vamos buscar os seus amigos — disse Thandie.

Mas eles não atravessaram o rio outra vez, o que fez com que James não compreendesse muito como chegariam ao outro lado. Porém, Dorcas já estava do outro lado do rio, o seu patrono à sua frente, mas ele desfez-se assim que eles aproximaram-se. A auror tirou rapidamente a varinha de seu bolso e apontou-a na direção de Thandie.

— Os horrores da guerra — disse a idosa, como se não a incomodasse o fato de ter uma varinha apontada para si — O seu amigo logo virá, é melhor começarmos. Já está ficando tarde.

— Começarmos com o quê? — perguntou James, sem entender.

— Albus estava certo em dizer que eu tinha uma cura — disse Thandie — Você não é o primeiro bruxo a sofrer de dupla personalidade, induzida ou não.

— Mas teriam de ser curas diferentes, não? — retrucou Dorcas — São circunstâncias diferentes.

— Não necessariamente. Só precisamos uni-las em uma só.

Dorcas pareceu ficar tensa, mas James já sabia que não seria fácil.

— Isso causará dor — disse Thandie — Tem certeza de que quer o fazer?

— Sim — respondeu James.

Ela não perguntou outra vez, apenas sorriu.

Escutaram passos abafados de folhas e Remus surgiu de algumas árvores, segurando as mochilas que deixaram com ele. Ele parou, surpreso, observando a comitiva, antes de voltar a caminhar em sua direção.

— Ele irá desmaiá-lo e sentir muita dor, vocês precisam ajudá-lo nesse processo — Thandie alertou aos dois.

— Há como evitar a dor? — perguntou Remus, apurado.

— Não, infelizmente. Ele terá de sentir — ela respondeu, deixando claro como sentia por isso — Ele pode demorar a acordar, mas vocês não podem forçá-lo a isso, ou nada valerá a pena. Muito pelo contrário, isso pode prejudicar ainda mais a situação.

— Senhora Zummach, não será melhor que nós o levemos, assim que começar a fazer efeito? — ele voltou a perguntar, eles ainda não sabiam se era uma poção ou um feitiço.

Thandie não respondeu, deixando o critério a eles.

— Afastem-se — ela disse.

Dorcas e Remus olharam-se, mas obedeceram.

— Você também — instruiu a James — Caminhe para trás.

Ele olhou para os amigos, também confuso, mas o fez. Caminhou um passo de cada vez, sem virar-se um momento que fosse.

— Pare — ela disse.

James continuou olhando quando ela apontou a varinha em sua direção e disse algumas palavras cantadas em latim. Fechou os olhos antes que pudesse distinguir qual era a cor do raio de luz.

Não podia dizer que foi indolor. A queda, de certa forma, foi, já que ele nem chegou a senti-la. De repente, cada poro de seu corpo queimava de dor.

Seria delírio demais ele dizer que aquilo era a sua alma separando-se de sua pele?

Afinal, as personalidades eram parte de sua alma? Ou um defeito em seu cérebro? Ele era um em dois, ou dois em um?

Obliviate.

Obliviate.

Obliviate.

Obliviate.

Aquela voz ecoava várias vezes, sussurrada, ecoada no espaço interminável.

— Eu quero o meu marido de volta, Remus! Eu preciso do James!

Lily.

Aquilo era uma lembrança ou acontecia agora?

James quis gritar de volta para ela, embora não soubesse o que poderia dizer para acalmá-la. Ele estava longe de estar bem, estava sentindo muita dor. A dor que penetrava os poros de sua pele agora estava em sua própria cabeça.

Era psicológico, mas, ao mesmo tempo, tão físico.

— Potter nunca vai acreditar se não tiver uma prova física.

— Ele não precisa de provas.

— Um Death Eater sem a sua marca não é um Death Eater.

Ele não era um Death Eater! Quis gritar.

Sabia que conhecia aquelas vozes, mas não conseguia identificá-las.

— Quero muita cautela. Qualquer feitiço ou ação não pensada pode colocar o nosso plano em perigo.

Logo depois, lembrou-se de quando Voldemort gritou a maldição da tortura aos seus seguidores, mas excluindo a ele e Bellatrix. Agora já sabia o porquê.

Cruciatus seria capaz de tê-lo libertado daquilo? Ou Voldemort queria apenas prevenir-se?

— O que houve, Evans? Cansada?

— Parece que é desinformado. É Potter.

— Parece que nossa reunião termina por aqui.

— Sem despedidas? Apresente-se, pelo menos!

Um raio de luz iluminou o local onde ele estava. Ou acreditava estar.

Era como o átrio do Ministério da Magia, mas não tinha nem Lily, nem Marlene, nem Sirius por ali com ele.

Só tinha ele e ele.

Quase caiu para trás.

Eram tão iguais, mas, ao mesmo tempo, tão diferentes.

O outro carregava uma máscara caída em uma das mãos, uma marca negra em seu antebraço, uma capa negra com capuz, típica de Death Eaters. Um olhar maníaco e assassino, mas, ao mesmo tempo, confuso e cauteloso.

Os mesmos cabelos, óculos e olhos. A mesma varinha.

Posturas diferentes, atitudes e memórias também.

— Um Death Eater sem a sua marca não é um Death Eater.

— Eu não posso arriscar tudo.

Quase que imediatamente, James olhou para o seu próprio antebraço enrolado pelo pedaço de tecido e desenrolou-o, vendo como a pele estava lisa, sem qualquer marca.

O seu reflexo sorriu debochadamente para ele, ou parecia querer fazê-lo.

Era como se apenas metade de seu rosto reagisse às suas vontades. Sentia-se frente ao próprio Jano da mitologia romana. O deus das duas caras, das mudanças e transições, do passado e do futuro.

— Como...? — ele sentiu a sua garganta seca, as palavras escaparam quase que contra a sua vontade.

— A marca? — o outro perguntou retoricamente — Não precisa de magia negra para isso.

— Mas Peter... No Ministério... — ele olhou ao redor, mas não demorou a entender — Ele mentiu.

O outro apenas concordou com a cabeça.

— Então não existe isso de comunicar-se apenas com um seguidor? — perguntou James, confuso — Ele só conseguiu comigo porque eu não tinha uma marca!

— Bem, se dá para fazer isso ou não, eu não tenho a menor ideia.

É claro que não tinha.

Ele era ele.

— O que eu faço agora? — perguntou James — O que eu preciso fazer?

— Lembrar.

— A guerra não acabou ainda. Qualquer coisa pode acontecer.

— O que eu preciso me lembrar? — James perguntou outra vez, sem externar a sua dor.

— De tudo.

— Se eu fosse você, garantiria que os seus... Seguidores fossem leais.

— Avada Kedavra!

— Por que me disseram que eu não tinha matado alguém? — perguntou James — Eu matei Jeremy McKinnon!

— Porque ninguém estava lá. E você já matou outras pessoas, fosse por acidente ou não — o outro deu de ombros — O que importava era se tivesse matado uma criança, como Ariella Oris.

— Ela está desesperada! Matou a minha mãe e me torturou só para que você não descubra!

— Cuidado!

— Você tentou salvar Marlene McKinnon.

— Seu traidor, traidor!

— James!

Ele tentou não lembrar-se de como a sua mão fechou-se ao redor do pescoço de Lily, aquela maldita lembrança que ele não queria.

— Anapneo! Aguamenti!

— Eles não vão me envenenar! Não vão!

— Pare com isso — choramingou James, puxando os seus cabelos com força, tentando tirar aquelas imagens de sua cabeça.

— Tem certeza de que quer parar?

— Se eu tiver que asfixiar todos eles, eu não me importo.

— E você valoriza bem os seus pais, não é mesmo?

— Você não sabe do que está falando!

— Por que Pettigrew está tão interessado em tirá-lo daqui?

— Acho que o nosso tempo acabou.

— Essa é a minha missão!

— Quem diria que o medroso Pettigrew teria coragem de trair aos seus próprios amigos — murmurou James, movendo a cabeça para o lado, como se tentasse proteger o seu pescoço da mordida de uma serpente traiçoeira.

— O chapéu considerou levá-lo para a Slytherin — disse o outro — Digamos que em alguns momentos ele era cauteloso demais, e em outros baixava a guarda.

— Isso é bom.

— Os Malfoy têm uma masmorra.

— E se for uma armadilha? Você a quer morta.

— Quantos ponteiros já foram retirados?

— Por favor, não me faça responder isso.

— Por favor, eu preciso saber.

— Chame Dumbledore! Agora!

— Você usou Legilimência enquanto nos beijávamos, talvez isso ajude.

— Eu quero tentar uma coisa.

James abriu os olhos, mas o seu outro eu tinha desaparecido, só restando o ambiente do Ministério.

— Ficar preso pela eternidade aqui estava, realmente, nos meus planos! — ele gritou para o nada — Muito obrigado!

O sol surgiu de algum lugar. Olhando para cima, James viu que o teto tinha tornado-se vidro, e que era de lá que a luz forte surgia. Tentou permanecer olhando, mas seus olhos fecharam-se contra a sua vontade.

Algo gelado e molhado estava sendo passado em sua testa, e ele retraiu-se automaticamente.

— Está tudo bem — sussurrou Lily.

Assim que escutou a sua voz, ele abriu os olhos, vendo que o sol não passava de outra ilusão de sua mente. Na verdade, estava escuro, o quarto iluminado apenas pela luz vinda do corredor.

— Lily — ele sussurrou, pegando a sua mão.

— Você voltou — ela sorriu.

— Eu nunca fui embora.

Ignorando as possíveis recomendações de permanecer quieto e parado, ele pegou o pano da mão da esposa, colocou-o a um lado, e sentou-se para abraçá-la.

— Ele sentiu a sua falta — Lily pegou a sua mão e colocou-a em sua barriga.

— Eu também senti.

Hesitou um pouco, antes de tentar usar legilimência.

Lily desceu as escadas correndo, ao escutar gritos e uma batida apressada de porta. A varinha em mãos, ela abriu a porta, sendo quase que atropelada por Dorcas e Remus, que carregava um James inconsciente.

— O que houve? — ela perguntou, nervosa, indo atrás do grupo.

— Está feito — disse Dorcas, ao jogá-lo em cima do sofá — Agora é só esperar.

— Não podemos deixá-lo aqui — disse Remus — Venha, vamos levá-lo lá para cima!

Dorcas resmungou, antes de ajudá-lo a levantar o bruxo novamente.

Lily odiou sentir-se tão impotente, e ver como James estava daquele jeito novamente.

— Parece que ainda funciona — James deu um sorriso envergonhado, afastando os braços dela.

— Isso é bom — Lily retribuiu o sorriso — Quer dizer que algo de bom saiu disso tudo.





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