Damaged Memories escrita por Clenery Aingremont, Clenery Aingremont


Capítulo 20
Capítulo 19 - Demand


Notas iniciais do capítulo

Está cada vez mais perto do final...




Qualquer pessoa que entrasse no quarto de poções dos Bones seria surpreendida com a desorganização do local que, no geral, era muitíssimo bem arrumado. Não sendo por menos, estava sempre aos cuidados da habilidosa Lily Potter.

Não havia pocionista mais exímia para ocupar aquela tarefa na Ordem da Fênix. Talvez um dos motivos para a oferta de Voldemort, ele devia querer afastar uma grande apoiadora da causa de Dumbledore. Independente de sua falta de linhagem mágica.

Os aromas misturavam-se formando combinações não muito agradáveis ao olfato, mas certamente eram poções úteis, uma ótima combinação de ingredientes. Pergaminhos e mais pergaminhos, amontoados acima, abaixo e dentro de livros fechados e abertos, todos estendidos à mesa de madeira polida.

Dorcas entrou, jogando uma sacola de plástico em cima da mesa abarrotada, antes que Lily pudesse perguntá-la qualquer coisa.

— Os trouxas são estranhos — ela disse, laconicamente — Foi difícil de encontrar. Tantas palavras difíceis e complicadas! Não há nem como pronunciar.

A auror observou como Lily abriu a sacola, retirando uma das caixas retangulares lá de dentro.

— É isso mesmo — ela confirmou, em voz baixa — Cloridrato de Clomipramina.

— Esses livros não são bruxos, certo? — Dorcas voltou a perguntar, observando o sumário de um dos maiores grossos.

— Não, são livros trouxas — respondeu Lily — Eu estou tentando arrumar uma maneira de substituir elementos químicos trouxas por ingredientes de poções ou mesmo incluir esses elementos sem anular os efeitos...

— Certo, certo — ela interrompeu-a, já que não entendia quase nada do que estava dizendo — Se precisar de mais alguma coisa, é só me avisar.

— Muito obrigada.

A loira não respondeu, apenas deu mais uma olhada para a sala, antes de subir as escadas de onde veio.

Lily tirou um dos pergaminhos de cima de um frasco de vidro vazio.

— Aguamenti — ela apontou a varinha para dentro do frasco.

Assim que a água pura começou a surgir, o pouco do líquido da poção juntou-se. Quem dera que isso fizesse a poção aumentar de quantidade, Lily já tinha feito esse experimento. Jogou a água com poção dentro da pia, apontou a varinha novamente para dentro, secando-o, e apressou-se para perto de um dos caldeirões fervilhando, pegando um pouco mais da poção Veritaserum.

A poção transparente tinha sido bem útil para coletar as informações que precisava sobre o tratamento de dupla personalidade. Usou-o contra um farmacêutico e um psicoterapeuta, antes de apagar-lhes as memórias.

Queria poder usar o Specialis Revelio com a pequena cápsula de remédio, mas sabia que não funcionaria, já que não tinha sido criada por feitiços ou poções.

Um dos livros era como um glossário de alguns medicamentos, incluindo os com esse princípio ativo. Informava os efeitos colaterais que poderiam ocorrer, suas composições... Tudo o que ela precisava saber.

Pegou novamente a caixa de remédio, puxando junto o resto da sacola de plástico.

Clonil, Apo-Clomipramine, Clofranil, Anafranil... Diferentes marcas e doses para a mesma função. Dorcas tinha feito um excelente trabalho de busca, já que duvidava que ela tivesse conseguido tudo na mesma drogaria.

Passou a mão pelo cabelo, que ela tinha certeza já estar adquirindo uma aparência mais pálida pelas preocupações que vinha tendo.

— Certo... Vamos alternar — ela murmurou para si mesma, decidindo-se — Um tem que ser melhor que o outro.

Decidiu-se por começar pelas menores doses. Abriu as caixas habilidosamente, retirando as bulas de dentro para comparar as informações de cada uma. Um dos caldeirões, que não era de Veritaserum, começou a silvar, e Lily deixou o que estava fazendo para conferir o processo.

Estava sendo uma rotina um pouco cansativa. Ter que dividir-se entre arrumar um modo de ajudar a James e, ao mesmo tempo, ainda fazer as poções que a Ordem necessitava, e que eram muitas.

O seu orgulho a impedia de pedir ajuda, mas sabia que não poderia permanecer naquela tarefa por muito mais tempo, já que a gravidez não permitiria. Só não queria ter o seu lugar ocupado por Severus Snape. Faria de tudo para impedir, pois até a recuperação de James dependia daqueles experimentos no quartinho de poções, e duvidava muito que Snape fosse colaborar para a sua melhora.

Observou o livro do príncipe mestiço, esquecido em um canto, e que não tinha sido tocado desde o dia em que foi colocado ali.

Tinha certeza de que não havia nada novo por ali, nada que já não soubesse. Além do mais, James nunca aceitaria se curar com alguma ajuda vinda do seu maior rival de colégio, e ela mesma não tinha certeza se poderia confiar no homem que denunciou a profecia, que envolvia ao seu filho, a Voldemort.

Tampou o caldeirão da poção polissuco, sabendo que ainda demoraria para aquela completar-se. Uma poção perfeita e muito útil, mas com um tempo de preparo muito longo, e bem suscetível a erros.

No meio da guerra, a qualquer momento, os fornecedores poderiam fechar as portas, e não seria bom para Lily nem para ninguém da Ordem se ela errasse um passo sequer das poções. Seria um grande desperdício de tempo, matéria prima e dinheiro.

Ela suspirou, mais uma vez, dando uma última olhada entre os caldeirões, antes de voltar a ler as bulas. Esperava que James não tivesse alguma alergia àquele princípio, ou teriam sérios problemas.

Enquanto não conseguisse repetir os efeitos nas poções, daria os remédios comprados a James, esperando que eles funcionassem com bruxos sem maiores dificuldades. Pelo menos, até conseguir uma cura definitiva, ou mesmo eficiente a longo prazo.

O tratamento trouxa o ajudaria de alguma forma?

Talvez deveria colocá-lo na psicoterapia? Não, isso não ajudaria. Ele não poderia ser inteiramente sincero, e procurar um psicoterapeuta aborto era como procurar uma agulha no palheiro.

Odiava como as diferenças entre bruxos e trouxas pareciam estender-se mais do que imaginou no princípio. Feitiços e poções que tornavam profissões como dentistas e cabeleireiros, na visão dos bruxos, “frescura” dos trouxas.

E talvez fosse a baixa contaminação de doenças trouxas aos bruxos, mas não havia um especialista que cuidasse, por exemplo, do psicológico. Pelo menos, não no St. Mungos. Não havia uma única poção para todas as funções que os remédios abrangiam. Poção de dor de cabeça, ressaca... Certo, mas e a poção para dor estomacal? Para cólicas menstruais? E, principalmente, que porcaria de magia era aquela que não criava um absorvente que mandasse o sangue para um lugar de nome inadequado?

Lily já sabia que teria dificuldades, ao ingressar nesse novo mundo, completamente diferente ao dela, mas não esperava que chegasse ao ponto em que chegou. Não esperava precisar encontrar uma maneira ela mesma para resolver os problemas. Sempre acreditou e foi levada a acreditar que a magia solucionava todos os problemas.

Nenhum bruxo jamais sofreu de dupla personalidade como James estava fazendo? E, se sofreu, onde estavam as soluções para esse problema? Se existisse, funcionaria, já que a dupla personalidade de seu marido foi induzida por um feitiço original?

A Ordem da Fênix, no final, seria muito mais que uma organização que lutava contra os ideais sangue puristas, seria também um tubo de escape para outros problemas que ninguém parecia ter pensado em solucionar, pelo menos para ela.

— Dorcas? — escutou chamarem do lado de fora.

Ela pegou um dos pergaminhos, que continha informação sobre os ingredientes usados nas poções. Dos mais comuns aos mais raros, os efeitos mais contraditórios.

A porta da sala abriu-se, e Lily olhou para o relógio em seu pulso, surpreendendo-se pelo tempo que devia estar lá embaixo.

— James! — ela reconheceu, ao olhar para trás.

Ele parecia decididamente melhor após o dia anterior, isso era fato. Aproximou-se, cumprimentando-o com um beijo rápido nos lábios.

— Você precisa comer, Lily — disse James, preocupado.

Ela precisou conter os sentimentos que afloraram ao escutá-lo dizer aquilo.

— E você precisa melhorar, James — Lily retrucou, não querendo dar o braço a torcer — Não imagino a confusão que seria se, daqui a alguns anos, sua outra personalidade voltasse a acordar, inconsciente do tempo que se passou. Provavelmente ele acreditaria ser uma conspiração da Ordem, justo quando estava começando a acreditar na gente.

James não precisava respondê-la para que ela soubesse que ele tinha alguns receios sobre todo aquele processo de fusão das personalidades. Lily preferia não comentar o que aconteceu quando descobriram sobre sua dupla personalidade. Só de imaginar a dor que seu marido sentiu, sentia calafrios, mas que solução tinham? Qualquer tratamento causaria aquilo, era melhor erradicar de uma maldita vez, e sabia que ele concordaria com isso — se é que isso poderia ser levado como um consolo, considerando os seus impulsos nobres.

— Como eu voltei? — ele perguntou, em vez disso — Alguma forte emoção?

Lily teve a ligeira sensação de que a resposta não ia agradá-lo muito.

Transar com a segunda personalidade de seu marido era considerado traição?

— Sim, uma bem forte — decidiu não dar uma gravidade inexistente à situação.

Moveu as sobrancelhas, esperando que ele entendesse o que ela estava falando, mas, antes que ele pudesse abrir a boca novamente, mudou de assunto.

— Veio só para certificar-se de que eu comeria? — ela perguntou.

— Eu senti a sua falta — respondeu James, sinceramente.

Ela também sentia sua falta.

— Você tem mais alguma poção para engarrafar? — ele perguntou.

— Não, eu já terminei aqui — Lily respondeu.

— Então teremos um tempo para nós, antes de eu ser bombardeado por perguntas de Albus?

Ela sorriu, e James aproveitou para puxá-la para mais um beijo — dessa vez, aprofundando-o um pouco. Talvez a lembrança de outra noite fez com que ela aprofundasse o beijo mais do que seria saudável, considerando que não estavam em casa. Sentiu uma ligeira dor no quadril, quando ele bateu com força na mesa de madeira, derrubando alguns pergaminhos, e isso a fez acordar.

— Ai, caramba! — Lily colocou as duas mãos em suas bochechas, tentando esconder a vermelhidão.

Tentou abaixar-se para pegá-los, mas ergueu-se de imediato, sentindo as consequências da gravidez.

— Ei! Calma! — James abraçou-a de lado, e ela apoiou um pouco de seu corpo nele — Por Merlin! Você não tem nenhuma cadeira aqui?

— Não tem como fazer as poções sentada — ela respondeu, sentindo um pouco da tontura passar, mas a dor nas costas não parecia que ia embora tão cedo.

— Não pode ficar tanto tempo de pé, Lily — ele disse, suavemente — E nem pegar as coisas do chão.

Para frisar a última frase, ele abaixou-se, pegando os pergaminhos que tinham caído e colocando-os de volta em cima da mesa.

— Vamos almoçar? — Lily pediu, querendo não prolongar mais aquela conversa.

— Está bem — disse James, um pouco contrariado.

Não queria estressar-se com ele, ainda mais depois de tanto tempo afastados psicologicamente, mas não gostava que fosse tratada como uma inválida. Por isso, fazia questão de ajudar no que pudesse, mesmo que isso envolvesse afastar-se das missões de campo — o que ela já estava.

— Finalmente alguém saiu do laboratório de experiências terroríficas — brincou Edgar.

— Veio para ver se a casa está inteira? — retrucou James — Tranquilo, tudo em seu lugar.

— Ou nem tanto — comentou Lily, sorrindo divertida.

Edgar virou-se melhor na cadeira onde estava sentado, olhando atentamente para James, parecendo estranhar uma resposta vinda dele.

— Vamos, amor — Lily murmurou, puxando-o para o outro lado da sala.

— Ei! O professor Dumbledore chegou, ele está na cozinha — exclamou Edgar.

Sabendo que aquele aviso não era à toa, o casal dirigiu-se até o cômodo, encontrando não apenas o seu antigo diretor como também uma pessoa que Lily esperava que James não encontrasse tão cedo.

— O que ele está fazendo aqui?

Dumbledore ignorou o tom na voz de James, sorrindo, ao notar a presença deles.

— Ótimo, ótimo! — ele disse — Sentem-se, por favor.

— Estou bem de pé — disse James, cruzando os braços — O que ele está fazendo aqui?

Snape crispou os lábios em um sorriso debochado, e Lily não demorou em lançar um feitiço mudo em sua direção, impedindo-o de falar qualquer palavra que fosse. Apesar de se dizer tão especialista em identificar feitiços e movimentos, o homem não pareceu notar a sua precaução.

— Severus irá ajudar em nosso problema — disse Dumbledore, tranquilamente.

— Desculpe-me? Nosso? — repetiu James — Ele não passa de um maldito Death Eater!

Snape abriu a boca, repentinamente, e só então pareceu ter notado que nenhuma palavra saía. Dumbledore também notou, mas não comentou.

— Um “maldito Death Eater” que está nos ajudando mais do que poderia imaginar, James — respondeu o mais velho — Severus é um excelente pocionista, e seus conhecimentos podem ajudar e muito.

— Conhecimentos de artes das trevas? Não, muito obrigado! — replicou James, indignado — Não vejo algo que ele possa fazer que minha Lily não possa!

— Sejamos racionais, sua esposa está grávida, e não poderá ficar em contato com os vapores das poções por muito tempo — disse Dumbledore — Isso pode fazer mal ao bebê.

Algo oculto no olhar dele fez com que Lily se indignasse.

Ele não parecia tão preocupado pela saúde de seu filho, mas pela profecia, com a forma de derrotar a Voldemort, sendo que Harry não era a única das opções.

— E nós não queremos que isto ocorra, verdade? — disse Lily, irônica.

O seu tom chamou a atenção de James, que não demorou a perceber que tinha algo de errado, algo que ele não sabia nas entrelinhas daquelas simples frases.

— Era só isso? — perguntou James, os braços ainda cruzados.

— Queria ver como está a sua recuperação — Dumbledore começou a dizer.

— Estamos nessa guerra já faz um tempo, nenhuma novidade até aí.

Lily resolveu acabar com o clima tenso da cozinha, embora estivesse tão desconfortável com a conversa quanto James.

— Quem quer ajudar, não pede permissão — ela retrucou, ríspida — Ou querem algo em troca?

— Só queremos que James esteja livre desse pequeno problema — respondeu Dumbledore.

— Então permaneço sem compreender o que fazemos aqui, além de um momento de convivência que poderia ser evitado — Lily olhou explicitamente para Snape, que parecia ter apertado os lábios com força, irritado pelo feitiço silenciador.

— Acredito que nenhum momento de convivência pode ser evitado. Estamos lutando do mesmo lado, precisamos aprender a conviver em paz.

Lily levantou uma sobrancelha para Dumbledore, como que o lembrando que Snape não ficou calado por livre e espontânea vontade, a varinha à mostra em seu bolso só deixava isso mais evidente.

— Além disso, uma velha conhecida está escondendo-se de Voldemort. Ela tem informações que seriam preciosas demais para ambos os lados, corre grande perigo — Dumbledore resolveu dizer o motivo de sua vida.

— Quer que a movemos para um local seguro? — perguntou James.

— Na verdade, acredito que você, Dorcas e Remus teriam a capacidade de encontrá-la — ele sorriu — Tenho certeza de que ela terá uma brilhante ideia que não tivemos ainda em relação ao seu problema de personalidade. É uma medibruxa que viajou o mundo inteiro, atrás de conhecimentos, mas largou o St. Mungos por negar-se em compartilhá-los.

— E acredita que ela poderá compartilhar conosco? — foi Lily quem perguntou, interessada.

— Acho que podemos tentar.

Dumbledore levantou-se de seu lugar, olhando brevemente para Snape, antes de voltar o olhar para eles.

— Enquanto isso, Severus tentará descobrir mais sobre o feitiço criado por Voldemort e procurar alguma forma de reverter os efeitos colaterais — ele finalizou — Agora, senhora Potter, poderia fazer o favor de retirar o feitiço silenciador?

James virou-se, olhando surpreso para Lily, que apenas fez o que Dumbledore pediu.

— O ideal seria que partissem amanhã pela manhã, será uma longa viagem — o diretor disse.

— Para onde irão? Se é que eu posso perguntar... — perguntou Lily.

— Tenho indícios de que ela está na Ásia, mas talvez tenha atravessado a fronteira para a Europa — foi a sua resposta.

“Um tiro no escuro” pensou Lily, descontente.

Mas que chances tinham?

— Dorcas e Remus já sabem? — perguntou James, evitando olhar para a esposa.

— Sim, sim. Remus irá esta tarde para a sua casa — respondeu Dumbledore — E Dorcas irá até lá de manhã para partirem. Aconselho que recolha tudo o que puder, será uma viagem longa e cheia de perigos. Os Death Eaters ainda estão a solta, e não demorará para Voldemort descobrir que você está fora da proteção da Ordem. Ele fará de tudo para capturá-lo.

— Professor, não seria melhor que...? — Lily interviu, preocupada.

— É a melhor oportunidade que têm — disse Snape — Dificilmente a anciã confiará os seus segredos sem a presença dele.

Apesar de saber ser certo, ela ainda não estava feliz com aquela situação. Sentia vontade de gritar. James tinha acabado de retornar e já queriam tirá-lo de si? E para uma missão super arriscada?

— Já vamos — declarou Dumbledore, notando o silêncio do casal e os seus olhares preocupados.

— Não irá almoçar, senhor? — Lily perguntou, automaticamente.

— Tenho muitas coisas a resolver, mas obrigado pelo convite.

Snape acompanhou o bruxo, sem olhar para eles outra vez, o que era um alívio, não precisavam de mais intrigas.

— Você precisa se alimentar — disse James, sem emoção.

Ela não respondeu, saindo da cozinha, sem dizer uma só palavra.

— Lily!

Edgar levantou o olhar de seu livro, sorrindo gentilmente para a mulher, que apenas pôde retribuir, antes de voltar para o quarto de poções.

Conjurou uma cadeira — apenas porque estava cansada de ficar de pé, e não porque James a perturbava para isso —, e pegou um dos pergaminhos e uma pena. Analisou a lista de ingredientes que conseguiu pensar e riscou asfódelo sem hesitar. Estava convencida de que a Pedra Bezoar funcionaria, já que era ingrediente principal de toda poção de cura.

Talvez raízes de Valeriana. Eram usadas na Felix Felicis, e talvez eles precisassem de bastante sorte. Algum mal seria causado se ela misturasse mais de uma poção pronta para criar uma nova? Era o que se fazia com o antídoto dos venenos, de acordo com a lei...

A porta abriu-se, e Lily apertou a pena com força.

— Lily...

— Vai embora!

Escutou a porta fechar-se, e voltou a devanear. Talvez um pouco de Ditamno, para recobrar as forças, já que seria uma poção bem forte e cansativa de se tomar. O acônito, na cultura trouxa, era usado para afastar lobisomens, e ela tinha certeza de que, futuramente, aquilo serviria para uma contenção da espécie. Conteria o quê? Os pensamentos? Ações?

— Eu disse para você ir embora — ela disse, irritada.

— Lily, você precisa comer — disse James, parecendo cansado.

— Bem, você não se importa com a sua própria vida, então eu não estou me importando muito também agora — Lily retrucou — Tudo pelo bem maior.

A frase de Grindelwald escapou de seus lábios inconscientemente.

—  Você está exagerando — disse James, começando a irritar-se também — E não se trata de você, trata-se de nosso filho.

— Claro, pois, evidentemente, você não se importa comigo. Harry ainda está dentro de mim, então você não se importa de ir embora. Ele não sentirá a sua falta.

Sabia que o que disse era mentira. Duvidava que Harry não sentisse a falta do pai, mesmo que ainda dentro de si. Ele sentia o que acontecia ao seu redor, disso ela tinha certeza.

Odiou-se por sua voz ter ficado embargada e algumas lágrimas começassem a escorrer de seus olhos.

— Ei! — disse James, carinhosamente, abraçando-a — Eu não estou sozinho. Ficarei bem!

— No meio do nada, sem saber onde está, sem poder mandar notícias... — retrucou Lily.

— Vamos fazer o seguinte? Esqueça essas anotações, vamos almoçar, passar o resto do dia juntos.

Ela permaneceu olhando-o irritada.

— Eu prometo que vou mandar notícias — ele acrescentou — Podemos usar o patrono, não é rastreável.

— E se eu mandar em um momento crítico? — retrucou Lily.

— Riscos que corremos.

Era aquilo ou não ter notícias dele. O que faria?

— Só você me manda, eu não vou responder — a ruiva decidiu — É mais seguro.

James concordou, sem problemas. Convencida, Lily ajeitou as anotações em cima da mesa e trancou o quarto, não gostava de deixar as suas coisas para todos poderem ver e pegar, ainda mais com Snape circulando livremente pela casa. Não confiava nele, não importava o que Dumbledore dissesse.

Indo até a lareira para partirem para casa, viu Dorcas conversando com Edgar. Resolveu despedir-se deles, argumentando não estar muito bem.

— Lily, se eu fosse você, eu contaria sobre a profecia a James antes de partirmos amanhã — a auror aconselhou-a.

— Obrigada — ela respondeu, sem dar muita atenção.

Sabia que era um desejo inútil esconder aquele fardo dele, mas era o seu último dia juntos em um tempo indeterminado. Não queria estragar isso, ele já sofria demais com todas as outras informações para adicionar mais uma tão em cima da hora, sem a mínima preparação.

— Não seria melhor ideia você permanecer com Mary, nesse meio tempo? — perguntou James, inseguro.

— Nossa casa é protegida — ela respondeu.

Mesmo assim, ele não pareceu convencido, e Lily começou a pensar em, realmente, ir para algum outro lugar. Antes tinha Marlene dormindo consigo, e Sirius visitando-as constantemente, mas agora...

— De qualquer forma, a última experiência com Mary na fazenda dos pais dela não terminou tão bem quanto gostaríamos — comentou Lily, sem dar muita importância ao que dizia — Eu passo a maior parte do dia na sede da Ordem, só dormiria em casa.

— Mesmo assim, eu não estou muito seguro. Acho que vou pedir para Sirius...

Ela deu uma risada irônica.

— Você acha que eu não sou capaz de me defender? — retrucou.

James olhou perdido para ela, e um pouco assustado.

— Não, não foi o que eu quis... — ele começou a dizer.

Lily começou a chorar novamente.

— Ai, meu Deus! Desculpe-me! — ela disse, cobrindo o rosto com as mãos — Eu estou sendo tão injusta com você!

— Calma! Está tudo bem! — James resolveu que a melhor forma de apaziguar a situação incompreensível era abraçá-la, mas o fez com o receio de que ela pudesse empurrá-lo, voltando a ficar furiosa.

— Não, não está tudo bem! Como poderia estar? Estamos sendo perseguidos... Você está sendo perseguido.

James deu um jeito de caminharem até sentarem-se ao sofá, ainda abraçados.

— Mas nós assumimos esse risco quando entramos para a Ordem, anjo — ele sussurrou, dando um beijo no topo de sua cabeça, tentando acalmá-la.

— Agora é diferente. Nem Frank nem qualquer outra pessoa foi sequestrada por ele — Lily fungou, escondendo o rosto em seu peito — E eu também não estava grávida.

Ele não respondeu, continuando a acariciar os seus cabelos, parecendo pensativo.

— Eu vou partir amanhã, e eu prometo que voltarei, mas tem algo que eu precise saber? — James perguntou — Qualquer coisa?

Ela afastou o rosto de si, tentando desvencilhar de seus braços, respirando fundo para criar coragem e responder a sua pergunta.

Um som de aparatação surgiu do lado de fora e, em um instante, James estava de pé com a varinha em mãos.

— Viu o que te disse? — ele perguntou, frustrado.

— Não pode ser um desconhecido, a casa tem proteções — Lily revirou os olhos, procurando lembrá-lo daquele detalhe.

Mesmo assim, ele fez sinal para que ela ficasse ali, enquanto ia checar.

Quando retornou, estava acompanhado de Remus, e ela apenas levantou as sobrancelhas para o marido, como que provando-o de que estava certa.

— Está tudo bem? — perguntou Remus, preocupado, parecendo notar os vestígios de lágrimas em seu rosto.

Lily apenas passou as mãos por baixo dos olhos, secando o rosto.

— É claro que estou — ela respondeu, antes de levantar-se — Podemos falar um pouco?

Remus olhou para James, antes de concordar, sem entender muito.

Eles foram até a cozinha, e Lily fechou a porta.

— Eu não consigo contar para ele — ela disse, fechando os olhos.

— Contar o quê? — perguntou Remus, confuso.

— Sobre a profecia — ela abriu os olhos, virando-se para ele — Por favor, eu não consigo. Eu já tive que contá-lo sobre Marlene e foi... Doloroso demais.

— Mas ele já sabe sobre a profecia.

Lily olhou fixamente para Remus, ela mesma começando a confundir-se.

— Você sabe que ele voltou, certo? — ela perguntou — O nosso James voltou.

Remus pegou uma cadeira, sentando-se, olhando abismado para a amiga.

— O nosso James? — ele repetiu.

— Surpreende-me que você não tenha notado, quando ele o recebeu — replicou Lily — Aliás, onde esteve? Está com uma aparência horrível!

— A lua cheia me ocupou muito — respondeu Remus.

Ela sentiu-se culpada.

Estava tão feliz pela recuperação de James, que sequer notou a ausência de um dos melhores amigos de seu marido. Sirius tinha surgido no outro dia, mas também estava sumido, o que era para ser considerado estranho, considerando as circunstâncias.

— Eu vou falar com ele — disse Remus, tranquilizando-a — Acho que seria melhor ficarmos a sós.

Lily devia sentir-se mal pelo alívio que a invadiu?

Deveria estar ao lado de James, naqueles momentos de descobertas difíceis, mas se sentia fraca demais para isso. Apenas assentiu, abrindo a porta novamente.

— Remus quer falar com você — ela murmurou para James, quando ele aproximou-se dela.

Ele apenas olhou para a cozinha, parecendo temeroso, antes de assentir e seguir pelo caminho. Lily não fez o mínimo esforço para escutar, já sabia o que seria dito ali. Levou as suas unhas à boca, roendo inconscientemente. Já fazia um tempo em que ela quase não tinha o que roer, mas mesmo assim os seus dentes procuravam por uma lasquinha que fosse.

Conjurou a ração de Antrax e aproveitou para ocupar-se em preencher a sua tigela com a comida. Acariciou o pelo curto e macio do gato, do topo da cabeça ao rabo, tentando dispersar a sua mente dos problemas.

Quando o gato acabou com a comida, ronronou, esfregando-se mais nela. Com dificuldades, Lily sentou-se ao chão, sentindo as conhecidas dores nas costas começarem a acontecer. Era apenas o começo, o peso da barriga apenas crescia, dia após dia, de um modo quase imperceptível.

— Eu vou precisar de sua ajuda — ela murmurou para o gato — Seremos só nós dois e Harry por um tempo.

Antrax não prestava atenção no que ela dizia. E, mesmo que o fizesse, devia perguntar-se quem, pelo deus dos gatos, era Harry.





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