A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 30
Outro momento de traição


Notas iniciais do capítulo

"O grande silêncio enfrentava estas duas figuras com a sua paciência agoirenta, aguardando a passagem de uma invasão fantástica."
in Coração das Trevas, Conrad, J., Nova Vega, 2008



— Nunca gostei muito de ti.

Forçou um sorriso para que o gesto não fosse tão abominável. Encostou o cano da arma ao peito do soldado e disparou. O raio laser queimou o coração e o homem teve morte instantânea. Usou a sua pistola pessoal SC-4 para não ser incriminado. Não seria de estranhar que mais um soldado tivesse sido assassinado por um daqueles contrabandistas que utilizavam aquela antiga base imperial do lado obscuro do planeta Luyta. De qualquer maneira, havia uma atividade invulgar naquele lugar abandonado, com naves não identificadas a chegar e a partir, gente estranha a percorrer os corredores escuros do complexo, uma azáfama infernal na sala de comunicações que fora ativada para estabelecer as ligações necessárias para coordenar a ofensiva que se destinava a recuperar a criatura, mediante pelotões de intervenção, falsas pistas, armadilhas para apanhar gente proeminente da Nova República, sabotagens diversas e outros truques.

Sim, claro, ela continuava na sua vida.

Devia ser isso o que significava a marca mencionada pelo homem zarolho. Que ele nunca mais iria conseguir viver em paz sem que ela se cruzasse, de vez em quando, no seu caminho.

Frint olhou para o soldado que acabava de assassinar. Arrancou o seu capacete que tombou ruidosamente, cuspiu para o lado. Patrulhavam juntos aquela secção da base, teve de se livrar dele para prosseguir com o seu plano pessoal. Não lhe quis chamar traição, era demasiado forte, ainda que concordasse que seria uma designação mais apropriada para aquilo que iria fazer.

Era a segunda vez que traía Kram. Primeiro, ao colaborar com o homem zarolho para danificar a criatura e fazê-la desistir, mesmo que acreditasse que fosse temporariamente, do seu objetivo de eliminar Luke Skywalker. Para isso até recebera uma medalha, com direito a cerimónia oficial e palmadinhas nas costas de parabéns. Depois, na base imperial de Luyta, ao fazer uma inflexão e dirigir-se para a cela secreta onde o cavaleiro Jedi estava aprisionado.

Antes, empurrara o corpo da sua vítima com o pé para um recesso mal iluminado para que não dessem logo com o soldado abatido e fizessem soar um dos muitos alarmes que ele recebia constantemente pelo intercomunicador pessoal. Os incidentes sucediam-se em catadupa e estavam a mexer-lhe com os nervos, mas aguentou-se e não desligou o pequeno aparelho que zunia imparável, lançando avisos codificados. Mais uma vez ajuizou como inteligente a escolha da sua pistola pessoal modelo SC-4 para o tiro mortal. Se disparasse a espingarda laser E-11 que cingia a si, arma anteriormente utilizada pelos stormtroopers do Império Galáctico, e que no seu modo letal era conhecida como a imperdoável, seria desmascarado. Não levaria muito tempo até analisarem todas as espingardas para detetarem aquelas que tinham sido disparadas e em que circunstâncias, contra ele estava o facto de que fazia patrulha com o desgraçado que morrera, mais todas as suas ligações à criatura e, em última análise, ao cavaleiro Jedi.

Olvidou essas conjeturas que o enervavam.

Esperou que uma patrulha de seis soldados passasse e avançou pelo corredor. Virou à direita e tomou um atalho para a ala de detenção, que se encontrava totalmente tomada pela floresta de Luyta. O bloco não era utilizado desde o fim da guerra, nem mesmo pelos bandidos, assaltantes e outros proscritos que faziam daquela base o seu esconderijo e sítio secreto para as suas negociatas ilegais. Um ótimo local para esconder um prisioneiro sensível, que ninguém podia saber que estava ali.

A cela não estava guardada, mas a galeria que lhe dava acesso, sim, por dois soldados atentos, revezados em turnos de seis horas. Frint observou-os demoradamente desde uma esquina envolvida numa planta trepadeira especialmente agressiva. Por sorte, na nave estivera a estudar o mapa daquela área antes de chegar a Luyta e sabia que podia entrar na galeria sem passar pela entrada vigiada pelo par de camaradas. Havia umas condutas de ar cujas portinholas, suficientemente largas para um homem passar, encontravam-se entre as portas das celas e seria por aí que ele chegaria ao prisioneiro.

Tinha-a visto na Belirium, quando a criatura fora capturada a bordo da Tydirium, a nave de transporte tipo Lambda, classe T-4a, pilotada pelo cavaleiro Jedi, a mesma nave que, ironicamente, havia sido rastreada, identificada e perseguida arduamente na missão ultrassecreta de Tatooine. Vira-a a descer a rampa da nave e ficara siderado quando descobriu, nos olhos dela, a chama de uma alma e o brilho da emoção. Não a concebia capaz de avivar aquele olhar opaco ao ponto de disfarçar a sua inumanidade. A digerir esse choque, Frint odiou o feiticeiro de Ekatha que a tinha despojado da sua imponência. Se porventura o homem zarolho descesse aquela rampa atrás dela e de Luke Skywalker, enfiava-lhe um disparo laser na carcaça envelhecida, tão desiludido e irritado estava com o que tinha acontecido.

Não seria aquela mulher assustada, transviada, acanhada e insegura que conseguiria enfrentar um cavaleiro Jedi num duelo lendário de sabres de luz. Ao ter perdido a noção de quem verdadeiramente era, ao se imbuir de lembranças do inimigo que passara, claramente, a considerar como aliado incondicional, tinha-se fragilizado para além do que era remotamente aceitável. Por momentos, temera que Kram sentisse o mesmo grau de desilusão e de irritação que ele, ao ver a sua criatura que supostamente amava, transformada naquele pobre reflexo da sua real essência e que a matasse por despeito. Então, voluntariara-se para levá-la até ao seu senhor, para que pudesse, talvez num impulso insano, defendê-la, salvá-la, morrer com ela.

Contudo, não fora necessário agir contra Kram nesse dia. Sentado no seu trono negro, o senhor misterioso parecera até divertido por rever a criatura naquele estado de profunda confusão e desacerto. Ele ficara a tremer, receoso de que Kram conseguisse ler-lhe os pensamentos sediciosos e, assim que a entrevista terminara, levara-a numa corrida, para que também ele se afastasse rapidamente dali. Ainda era demasiado cedo para que se descobrisse que a sua lealdade fora totalmente posta em causa por causa dela.

Ao ser destacado para o batalhão que levaria o cavaleiro Jedi para o lado sombrio de Luyta, numa ação tática que se destinava a recapturar a criatura que entretanto fora resgatada da Belirium por um contrabandista, assim como neutralizar a irmã do cavaleiro Jedi e todos os que a acompanhassem que também se dirigiam a esse planeta, Frint não teve dúvidas do seu papel naquela missão sensível.

Fazendo uma análise honesta, não se tratava de um verdadeiro ato de traição. Estava apenas a cumprir o grande objetivo de O’Sen Kram que pretendia eliminar o cavaleiro Jedi. Frint adotava outros métodos. Abreviava a rota, abjurava os juramentos feitos, criava alianças dúbias e enterrava-se em mal-entendidos, mas o resultado seria sempre a eliminação do cavaleiro Jedi.

A criatura precisava de duas coisas fundamentais, mas ele podia apenas assegurar uma delas. A primeira seria recuperar as suas memórias, saber quem era e por que fora criada, mas isso estava para além dos seus poderes. Confiava que o tempo fizesse o seu trabalho nesse departamento e que ela acabasse por se recordar sozinha. A segunda seria obter um treino exaustivo, completo, difícil e esgotante que fizessem sobressair as suas qualidades letais, os seus anseios guerreiros, a fome pelo tal desafio impossível e, naquele ponto, não acreditava que Kram fosse o indicado para ser o mestre dela. As memórias novas tinham criado um muro que nem mesmo Kram seria capaz de derrubar. Teria de ser ela a recuperar o ódio que estivera subjacente à sua criação, mais uma vez sozinha. E apenas Luke Skywalker estava qualificado para ensiná-la e guiá-la, transformá-la num instrumento mortífero e cometer o erro típico que faria dela a sua maior adversária.

E para que a criatura se convertesse na aprendiza de Luke Skywalker, teriam de voltar a estar juntos. O que significava que ele, soldado Frint, teria de libertar o cavaleiro Jedi da prisão.

Esgueirou-se pela conduta de ar. À medida que se aproximava do gesto rebelde, sentia-se sufocado e repulsivo. Não gostava do que iria fazer, mas, por mais que pensasse, não via outra maneira de resgatar a criatura do lodaçal de falta de personalidade onde ela, inconscientemente, se debatia.

Retirou o painel exterior com muito cuidado para não alertar os dois guardas que olhavam fixamente em frente, pois julgavam, com acerto, de que qualquer tentativa de resgate aconteceria através daquela entrada. Saiu para a galeria, observou as portas carcomidas de ferrugem e encontrou a que procurava, pois era a única que deixava passar luz pela frincha junto ao chão. Abriu-a e entrou.

O cavaleiro Jedi sentava-se num banco no fundo da cela, atrás de uma teia metálica brilhante que pulsava intermitente, alternando de forma irregular a cintilação irritante. Tinha a cabeça coberta pelo capuz castanho da capa que o envolvia totalmente, os braços apoiados nas pernas, os dedos unidos junto à boca. Viu-lhe, na sombra, um olhar inquiridor, mas não fez qualquer outro movimento que indicasse ânsia ou ameaça.

Frint começou por desligar a teia metálica, um dispositivo que se destinava a dominar os poderes místicos do prisioneiro. Mais uma vez, o Jedi não se mexeu. Acercou-se de um painel, arrancou-o e expôs o computador. Puxou por uma placa e introduziu nesta a peça com o idioma de Ekatha, ligando o fio roxo. Soou um apito, pressionou dois botões em simultâneo e a máquina silenciou-se. Arrancou alguns fios vermelhos para impedir a emissão do alarme, desligou uma parte do computador e puxou por uma alavanca.

— O que estás a fazer?

— Não é a primeira vez que te ajudo, cavaleiro Jedi.

De uma ranhura surgiu um cartão transparente cruzado por linhas prateadas. Frint enfiou-o no bolso, arrancou a peça com o idioma de Ekatha e esmagou-a com a bota. Enquanto estivera na Belirium brincara, em segredo, com aquela peça. Não conseguira penetrar nos seus segredos, nem decifrar a linguagem hermética que continha, mas acrescentara-lhe dados incoerentes para torná-la mais estranha, como registos antigos do Chanceler Supremo Palpatine. Estava tudo no cartão transparente que continha a localização do cavaleiro Jedi, uma cortina de fumo que teria de ser dissolvida para se ter acesso à informação verdadeira. Confiava que a criatura teria a ajuda necessária para o fazer e que o salvamento aconteceria em breve.

Encarou o cavaleiro Jedi. Este tinha retirado o capuz e mirava-o intrigado, mas sem animosidade. A resignação aparente, a superioridade natural e a postura irrepreensível desconcertaram-no. Frint acercou-se dele, que continuava sentado no banco, a segui-lo com os olhos.

— Vamos tornar isto mais credível?

Bateu-lhe na cabeça com o punho da espingarda laser E-11, o cavaleiro Jedi gemeu com o impacto. Levou uma mão à têmpora que começou a sangrar. Um fio de sangue saía por entre os dedos

— Não te estou a ajudar porque gosto de ti. Somos inimigos, nunca te esqueças.

Pousou o sabre de luz no banco.

— Não me perguntes como consegui isto… Considera-o como o meu último presente. Espero que faças bom uso daquilo que te estou a dar.

O cavaleiro Jedi acenou afirmativamente, com a mão a pressionar o ferimento.

— Não venhas atrás de mim, vou trancar a porta quando sair. Espera que te venham buscar.

Ao abandonar a ala de detenção, pelo mesmo caminho escondido através da conduta de ar, Frint saiu para o exterior. Respirou fundo o ar frio da noite até que finalmente arrefeceu e se acalmou. Tateou o casaco do uniforme e encontrou o volume do cartão. Estava ali a prova da sua quebra de lealdade, ou, se fosse visto sob um diferente prisma, a prova da sua fidelidade absoluta à criatura. Odiava o cavaleiro Jedi por ter estado tanto tempo com ela.

Descartou-se da pistola laser SC-4 atirando-a para a floresta. Nunca iriam ligar o tiro que matara o colega com a sua arma. Nunca saberiam que tinha sido ele a denunciar a localização da cela do cavaleiro Jedi. Haveria de manter a mascarada até ao fim. Afinal, não tinha qualquer motivo para agir contra o exército.

Regressou à base e correu pelos corredores, seguindo os alarmes lançados no intercomunicador após uma violenta explosão que destruíra algumas pistas de aterragem. Com uma voz assustada reportou que o soldado que o acompanhava tinha sido morto e que ele estava em perseguição do assassino.

De repente, parou.

Escutava os passos dela e sentia-a aproximar-se.

Apertou a espingarda, caminhando silenciosamente, preparando-se para o reencontro.

Sorriu. Só queria que ela se voltasse a lembrar dele.



Notas finais do capítulo

E a Cleo voltou mesmo a lembrar-se dele, pois foi depois deste acontecimento que ela encontrou Leia, Han, Chewbacca e os dois androides, perdeu os sentidos e fez esta viagem contada por Frint.
Assim termina a narração do soldado e no próximo capítulo teremos, finalmente, o regresso da Cleo como narradora e protagonista, pois, afinal, ela é a criação da luz.

Próximo capítulo:
A voz.



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