A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 29
O desfiladeiro


Notas iniciais do capítulo

"Selou-me a fala até eu vos encontrar. Voltou a dizer-me que me ensinaria aquilo que eu havia de dizer."
in Taliesin, Lawhead, S., Bertrand Editora, 1994



As despedidas nunca aconteciam com a criatura e Frint tinha simplesmente que ir-se embora. Deixá-la seguir o seu caminho e encontrar um caminho para si que, mais uma vez, parecia incerto e inquinado. Mas ao contrário daquele dia terrível em que tinham encerrado a Academia, não sentia desespero, mas uma pacífica resignação. Havia sempre a escolha que o seu pai tinha feito e, antes de ter saído da casa onde pernoitara, olhara demoradamente para a sua pistola pessoal. Ela não falharia. O seu dedo no gatilho talvez vacilasse, mas o tiro sairia sempre com uma promessa fatal de esquecimento e de derradeira redenção.

Convencia-se de que não podia regressar depois de ter sido seduzido pelas palavras do homem zarolho, de ter permitido a violação da mente da criatura, de ter sucumbido à fadiga e de ter preferido dormir a reagir, de ter concordado, ainda que tacitamente, com o que sucederia a seguir, pois iriam entregá-la ao cavaleiro Jedi. Convenceu-se de que o velho o tinha enfeitiçado, como fizera com Jorr. E o mais irónico era que Jorr seria considerado um herói por ter morrido no cumprimento do dever, no comboio barbaramente emboscado e ele, porque escapara, que conhecia a verdade dos factos que nunca poderia revelar sob pena de sofrer a ira de Kram, seria castigado de forma exemplar.

Não podia contrariar as forças que o obrigavam a caminhar em frente, sem qualquer horizonte nítido ou nobre propósito, e deixava-se conduzir desanimado, vagueando por entre a sua própria desorientação.

Carregaram-na na parte de trás de um velho planador, um speeder do modelo X-34 já descontinuado, e cobriram-na com uma manta, o que dava a impressão de que transportavam uma trouxa de uma qualquer mercadoria maleável. Ocuparam os dois únicos lugares para passageiros e foi Frint que conduziu até ao desfiladeiro de Vitra, um local perigoso frequentado por bandidos, onde era normal acontecerem assassínios encomendados. Seria o local ideal para deixarem a criatura, sem levantar grandes suspeitas e sem testemunhas inesperadas.

Frint não discutiu as opções do homem zarolho. Confiava que ele amasse a criatura tal como tinha revelado, a tal ponto que não consentiria que lhe acontecesse algum imprevisto que lhe fosse prejudicial. Também confiava nas capacidades mortíferas dela, apesar de não saber até que ponto tinham sido afetadas com a perda de memória.

Estava ansioso para que aquilo terminasse, de uma vez por todas.

Esconderam-se atrás de um rochedo e esperaram, sob o sol inclemente do deserto. Tinham destapado a criatura e ela estendia-se sob a chapa do speeder, atrás dos bancos dos passageiros, mas não dava mostras de se incomodar com o calor e mantinha-se perdida num sono pacífico.

Alguns Pickot surgiram ao fundo e, assim que notaram que tinham sido detetados, desapareceram apressadamente atrás do relevo mais adiante. Frint colocou-se em alerta. Sacou da pistola laser SC-4, o homem zarolho puxou-lhe pelo braço.

— Não! Eles só estão a perseguir o que julgam ser deles. O negócio foi fechado e, para os Pickot, ela pertence-lhes. Acho que lhes dei a entender que, depois de lhe apagar a memória, podiam ficar com ela. Não tenho a certeza se o tradutor foi completamente honesto neste caso. De qualquer modo, não lhes devolvi o que me pagaram.

— Vão persegui-la sempre?

— Sempre, até obterem a posse dessa fêmea, em definitivo. Não irão desistir.

— Se a deixarmos aqui, esses nojentos vão ficar com ela.

— O cavaleiro Jedi não vai deixar que isso aconteça.

Frint enfiou a pistola no cinto, sentou-se para aproveitar a sombra projetada pelo speeder, ao lado do homem zarolho. Não ficara totalmente convencido, por isso ficou a observar as dunas onde os Pickot se esconderam, mas eles não tornaram a aparecer.

— Confias muito nesse cavaleiro Jedi – observou cínico.

— A bondade é inerente a esses nobres guerreiros, pelo que a partir do momento em que entrar em contacto com a criatura, ele vai empenhar-se em protegê-la e, de certo modo, guiá-la.

— Eles vão lutar um contra o outro. Se Kram recuperar a criatura, o combate vai acontecer.

— É o que ela mais deseja, soldado.

Passaram intermináveis momentos de silêncio e de calor.

O homem zarolho levantou-se e disse-lhe que tinha chegado a hora. Frint agarrou na criatura ao colo e desceu a ravina. Ela vestia o vestido comprido e estava descalça, o cabelo pendia solto. Devia odiar essa indumentária desleixada, tão diferente da autoridade conferida pelo uniforme, complementado com as botas negras brilhantes, se conseguisse recuperar, quando despertasse, um pouco da sua personalidade. Isso não iria acontecer e Frint sentiu-se profundamente desiludido. Aquela coia que carregava não era o brinquedo de Kram.

Deixou-a no desfiladeiro de Vitra e regressou ao esconderijo.

— O que é que vai acontecer agora?

O homem zarolho apontou para a depressão onde ela se prostrava, imóvel. Frint olhou por cima do ombro. Sem sinal dos Pickot. Teriam contornado o terreno e preparavam-se para um assalto a partir de outro lugar mais distante, que ele não conseguia cobrir?

Escutou o som de um planador, aguçou os sentidos, sacou novamente da pistola laser SC-4, vigiava todos os rochedos do desfiladeiro. O motor parou e ele sentiu os músculos enrijecerem com a tensão. Olhou para a criatura e viu uma figura encapuzada aproximar-se a correr. Colocou o dedo no gatilho.

O homem zarolho desviou a arma e abanou a cabeça, num sinal negativo.

Ele retirou o capuz. Frint viu-lhe as feições jovens, o cabelo loiro, a bem parecença, apesar das marcas evidentes da solidão na expressão fechada. Então, aquele era o célebre Luke Skywalker. Admirou-se, não estava à espera que fosse tão novo. A pontada de ciúme deixou-o irritado. Não gostava de imaginar aquele homem perto da criatura e apartou o olhar.

Não precisava de ver mais. O ciclo de eventos completava-se. O cavaleiro Jedi debruçava-se sobre ela, media-lhe a pulsação, verificava-lhe a respiração. Assegurava-se de que estava viva, segurava-a entre os braços, regressava ao seu planador, levava-a daquele desfiladeiro para cuidar dela com todo o seu altruísmo, para que, um dia, ela despertasse, aliviada do peso de não ter uma alma, com memórias novas e uma nova vida, que, provável e inevitavelmente, a iria conduzir de regresso ao seu criador.

Não precisava de ver mais e não viu. Só abriu os olhos depois de escutar o planador de Skywalker afastar-se e o zunido do seu motor perder-se na distância.

Cuida dela com todo o teu empenho, Jedi. Poderás, talvez, contrariar a sua natureza, mas duvido que o meu senhor Kram te deixe muito tempo longe da verdade. Espero que não te apegues demasiado, pois deverás odiá-la e derrotá-la, se quiseres continuar a viver, pensou com uma certa amargura. Estava já com saudades da criatura e ela tinha acabado de partir.

Guardou a pistola laser SC-4 no cinto e atirou agastado:

— O que fazia ele aqui? Julgava que este sítio era mal-afamado… Não estou a ver que motivo terá um Jedi virtuoso para andar de passeio pelo desfiladeiro de Vitra.

— Ele anda a seguir os passos do seu pai, Anakin Skywalker, que nasceu e foi escravo em Tatooine. Eventualmente, o desfiladeiro de Vitra fazia parte desses passos…

— Já sabias que ele iria passar pelo desfiladeiro, ideal para entregas clandestinas, de coisas e de pessoas. Embora a criatura seja as duas, uma coisa e uma pessoa.

O homem zarolho acariciou a pedra negra que usava ao pescoço e acenou afirmativamente.

Frint foi buscar um cantil ao speeder, bebeu um generoso gole de cerveja jawa que tivera a lembrança de trazer para aquela expedição. Ofereceu o cantil ao homem zarolho, que recusou a bebida. Ele encolheu os ombros, acabou com o que restava da cerveja e atirou o cantil para o desfiladeiro. O som metálico do recipiente a rebolar pelas pedras ecoou pelos montes. Limpou a boca com as costas da mão que, depois, colocou em pala sobre a testa verificando as suas opções. Não se via nada em muitas milhas em redor, mas ele não tinha nenhum destino certo e qualquer lugar serviria, a partir daquela conclusão.

— Velho, é aqui que nos separamos – declarou.

— Sob a tua perceção, nunca estivemos juntos, pelo que não há lugar a uma separação.

A seguir, o homem zarolho estendeu-lhe uma peça transparente com circuitos minúsculos, envolvida por um fio roxo. Um componente eletrónico que albergava dados cifrados que podia ser lido por qualquer computador, sem o auxílio de um descodificador específico.

— Dou-te isto, soldado.

— O que é?

— O idioma de Ekatha. – O homem zarolho sorriu-lhe. – Poucos o conhecem. O sistema de onde venho está, aos poucos, a ser abandonado, os velhos rituais estão a desaparecer e a herança secular vai-se esbatendo por via de uma má interpretação das nossas tradições relacionadas com a magia. A língua nativa é praticamente desconhecida pelas novas gerações. Algum dia vais precisar de utilizar este idioma, para disfarçar uma ação menos digna e muito censurável.

Frint recebeu a oferta, guardou-a no interior do cinto, junto à pistola.

— Consegues prever o futuro.

O homem zarolho negou enfaticamente.

— Não, não! Antes pudesse! Apenas vejo sombras em constante mutação… Vejo-te a ti, contudo, purificado dos teus pecados. Vais morrer como queres.

— Como um soldado, na guerra – completou, rindo-se com essa ironia.

Aquilo parecia-lhe impossível no desfiladeiro de Vitra, naquele dia.

Retirou do speeder a espingarda laser DLT-19, pô-la a tiracolo. Dobrou a manta que tapara a criatura e colocou-a sobre um dos ombros. Serviria como agasalho, tenda, cobertor e cama durante a sua longa travessia daquelas vastas terras inóspitas.

— Podes ficar com essa sucata. Não preciso de transporte.

Deu meia volta e começou a andar.

Esperava encontrar uma colónia ou uma quinta isolada em breve, onde venderia uma das armas para poder comprar comida e bebida. Quem sabe conseguir algum trabalho, mesmo que fosse ilegal, para juntar dinheiro e comprar uma passagem numa das naves de contrabando que saíam amiúde de Mos Eisley. Fazia planos em catadupa que desconstruía e reformulava à velocidade da luz. Não se iria deixar abater por aquele revés, não queria pensar mais na criatura e em tudo o que ele desperdiçara ao apoiar o homem zarolho que era um feiticeiro de Ekatha. Estava feito e terminado, a vida miserável que o esperava era mais uma das muitas adversidades pelas quais tinha de passar.

E tinha sempre a possibilidade da escolha do pai, se fosse demasiado insuportável.

Caminhou durante horas, ignorando o cansaço e a sede, as tonturas provocadas pela atmosfera inebriante de Tatooine. Os Pickot nunca mais tinham aparecido, mas via banthas ao longe, Povo da Areia, jawas, animais esguios que fugiam do sol que queimava sem piedade, esqueletos de incautos, de bichos e de gente, que tinham ousado provocar o deserto num momento impróprio e em desvantagem.

Não era o caso dele.

Escutou motores atrás de si, ignorou o barulho.

Continuou a andar, a forçar os joelhos emperrados, as pernas pesadas, o corpo esgotado. Não podia parar, desistir, encostar o cano da pistola à cabeça. Isso ficava para outra ocasião…

Os motores aproximavam-se. Queria seriamente ignorá-los, mas estava a ficar curioso. Veículos terrestres de elevada potência rolavam apressadamente, em fuga, em ação de reconhecimento, em excursão inofensiva ou em perseguição. Estabeleceu o rol de opções no seguimento do método distrativo que o seu cérebro adotara.

Quando se apercebeu de que o mais ajuizado seria esconder-se, foi envolvido por uma nuvem densa de areia e viu-se rodeado pela prisão circular formada pelas máquinas que troavam de uma maneira ensurdecedora.

Pensou ingenuamente nos Pickot e numa espécie de vingança. Tinha matado dois deles, tinha colaborado para lhes surripiar a criatura, afugentara-os no desfiladeiro.

A realidade, porém, era mais tenebrosa. Aos poucos, a neblina acastanhada assentava e os contornos da prisão metálica ruidosa deixaram de ser indistintos para passarem a ser dolorosamente familiares. Apesar de não terem nenhum emblema distintivo que os identificaria inequivocamente, pois o exército mantinha-se incógnito até àquele dia de revelação que encetaria uma nova guerra na galáxia, ele conhecia aqueles veículos. Adaptações de antigos planadores imperiais, naves terrestres recuperadas e adaptadas ao transporte de pelotões de assalto. Os motores continuavam a rugir ameaçadores, um aviso de que todas as suas veleidades tinham terminado.

O exército do qual tinha desertado, embora só se tivesse dado conta dessa verdade naquele instante em que a rampa de um planador se abria aos sacolejos, tinha-o encontrado. Não considerou utilizar qualquer uma das armas que carregava. Tornaria a sua situação muito pior. Franziu a testa para melhor divisar quem descia pela rampa, de uniforme, mãos atrás das costas.

— Soldado Frint!

Fez uma continência forçada e cumprimentou o oficial que o interpelava.

— Capitão Revan, senhor.

— Estávamos à tua procura.

Não sabia o que responder, não conseguia parar de tremer. Para disfarçar, fechou os punhos. O capitão observou-o com um ar desaprovador.

— Estás com um aspeto péssimo. Parece-me que andas a vaguear pelo deserto há demasiado tempo. E, se continuasses, não encontrarias nenhum lugar interessante, pois para aqueles lados não existe nada. Se não te tivéssemos encontrado, corrias o risco de cair de exaustão. Depois, quem sabe o que te aconteceria.

Estalou os dedos e um soldado aproximou-se com um cantil. Frint recebeu-o, levou-o à boca. Era uma bebida reconfortante, gelada, que lhe mitigou a sede com os primeiros tragos. O capitão explicou-lhe que era chá de fygre, típico de Tatooine. Indicou-lhe o planador e subiram a rampa, lado a lado. No interior, um Frint relutante entregou as suas armas a um camarada que ele não reconheceu na sombra. Sentiu-se despido e vulnerável.

O capitão disse-lhe:

— Estamos muito contentes contigo. Demonstraste uma incrível bravura perante uma situação adversa, inesperada e bastante complicada.

— Peço desculpa, senhor, mas não estou a compreender – estranhou Frint.

— Foste o único sobrevivente de uma vil emboscada, que resultou na morte desnecessária de homens, na perda de um importante ativo da nossa missão ultrassecreta neste planeta e na destruição de material militar. Felizmente, o perpetrador escapou à explosão para que pudesses enfrentá-lo e executá-lo, aplicando-lhe o castigo mais do que merecido, por ter ousado trair a confiança deste grande exército.

— Estás a falar… de Jorr, senhor.

— Sim, Jorr é esse traidor. Fez um pacto vergonhoso com um povo local para retirar proventos financeiros, que pretendia gozar assim que abandonasse o planeta na nave que estava pronta para o efeito, em Mos Eisley. Felizmente, o sinal que o comboio enviou para o centro de comando permitiu-nos seguir os teus passos, soldado, e verificar a forma espantosa e corajosa como denunciaste e mataste Jorr, como tentaste recuperar o ativo da missão, como foste neutralizado por cúmplices de Jorr ao seres aprisionado numa colónia miserável não cartografada que te impediu de prosseguir com a tua busca, como escapaste para o deserto, onde te encontramos.

Ativo era outra designação para a criatura que ele achou completamente injusta. Ela não era um objeto, igual a uma arma, um computador ou uma nave daquele exército. Era uma mulher, que passaria por igual a qualquer outra no harém dos Pickot.

No entanto, em prol da sua própria sobrevivência e da sua reputação pessoal, aceitou o relato do capitão Revan e gaguejou:

— Sim, senhor. Obrigado, senhor.

— Kram está muito agradado contigo, soldado – revelou o oficial com um sorriso. – Vais ser condecorado logo que cheguemos à Belirium.

— Sim, senhor. – Não estava à espera daquela graça e foi como se o chão lhe fugisse debaixo dos pés. Não era considerado um desertor, mas um herói. Ousou perguntar: – E a nossa missão, senhor?

— Os objetivos foram cumpridos. O ativo encontra-se, neste momento, com o nosso alvo. As circunstâncias são ligeiramente diferentes, pelo que haverá correções a efetuar nas próximas ações relacionados com esse alvo, mas a missão foi concluída com incrível sucesso. Deixaremos Tatooine dentro em breve.

O capitão Revan girou sobre os calcanhares e entrou na carlinga, onde deu ordem para avançar.

Frint seguiu para a cabina dos passageiros, onde desabou sobre um dos bancos.

Dobrou as costas, apoiou os cotovelos nas coxas, envolveu a cabeça com os braços e soltou o ar dos pulmões.

Fora miraculosamente salvo de uma morte lenta no deserto, evitara o seu mais que provável suicídio, continuava no exército de Kram, era um herói e iria receber uma condecoração. Mas ainda não tinha parado de tremer.



Notas finais do capítulo

Frint ainda continua como soldado de Kram, apesas de todas as suas pequenas deslealdades.
Com este capítulo ficámos a saber como Luke Skywalker se encontrou com a Cleo - o encontro foi planeado e executado pelo feiticeiro, com a cumplicidade de Frint.
Ficámos também a saber como os Pickot começaram a persegui-la, até terem efetivamente conseguido raptá-la.
E Kram? Acham que ele sabe o que está a acontecer? Ou simplesmente ignora esta sabotagem aos seus planos de supremacia sobre a galáxia?
Uma nota final: Frint vai continuar a acompanhar-nos nos desenvolvimentos seguintes desta história, mas está quase a abandonar o palco. Mais um capítulo e depois retomaremos com a narração da Cleo.

Próximo capítulo:
Outro momento de traição.



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