Dépendance escrita por KarenAC


Capítulo 22
Capítulo 22 - Muralhas


Notas iniciais do capítulo

Eu sei, demorei pra caramba pra postar ;___:
Mas eu tenho um motivo (fora a vida que me consome D:)
Esse é um capítulo duplo e eu precisava escrever os dois juntos por motivos importantes de narrativa >—__<
O próximo já está pronto pra ser postado sábado, assim que eu terminar a revisão, então saboreiem!
Torço pra que a espera tenha valido a pena ^___^



Feliz aquele que reconhece a tempo que os seus desejos não estão de acordo com as suas faculdades.

Johann Goethe 

 

Adrien saiu do banheiro junto com uma nuvem de fumaça e ergueu a toalha pendurada nos ombros para a cabeça, esfregando os cabelos para secá-los. Sentia-se muito melhor depois da noite de sono tranquila, e melhor ainda após o banho. Ouviu no andar de baixo os burburinhos da conversa de Alya com Marinette e suspirou. Imaginava que o assunto da conversa era a presença dele ali, e tentou ignorar a culpa que começou a acumular dentro de seu peito. Sabia que poderia ter agido melhor com Nathanaël, mas não admitia que ele invadisse a vida de Marinette como se ele não estivesse ali. Ele a queria de volta, e lutaria por ela.

Andou pelo quarto de Marinette, olhando em volta, e percebendo como tudo estava mudado desde a última vez que estivera ali. As paredes ainda eram cor-de-rosa, mas o tom era mais pastel do que antes, como se todo o quarto tivesse amadurecido junto com Marinette. Caminhou até a escrivaninha e viu o porta-retrato com a foto que toda a turma da escola havia tirado durante a sétima série. Nos rostos juvenis, o sorriso estava presente com unanimidade, inclusive nos lábios dele.

Adrien passou a mão sobre a foto, onde viu seu rosto sorridente logo ao lado de Marinette que também sorria abertamente. Ele queria acreditar que a felicidade dela era por estar do lado dele, mas a verdade era que ela sorria daquele jeito o tempo todo, para todo mundo. Olhou de novo para a versão mais nova de si e passou os dedos sobre a imagem, quase não acreditando que aquela era uma foto dele mesmo. Não lembrava da última vez que sorrira daquele jeito, sincero, alegre, alheio a todos os problemas que nasciam e se expandiam à sua volta como uma espuma sufocante. Aquele era o último registro antes de ele saber de tudo o que estava acontecendo, antes de toda a maldita desgraça. Dali por diante, Adrien Agreste nunca mais seria o mesmo.

Ele sentiu uma presença atrás de si e viu Marinette parada à beira do alçapão, logo acima da escada. O rosto dela era sério, mas tranquilo, e ele estava pronto, esperando a piada que ela faria sobre ele estar mexendo nas coisas dela, quando a expressão no rosto da garota mudou completamente. As sobrancelhas baixaram sobre os olhos como se ele houvesse se transformado em algo que ela não reconhecia, e viu os pequenos pés recuando, a figura dela se aproximando da porta no chão que dava saída para os degraus. Ela ia cair, definitivamente ia cair.

Adrien atirou o corpo para a frente, as longas pernas impulsionando-o como se não houvesse amanhã. Esticou os braços para ganhar área, para chegar até ela com mais velocidade antes que ela caísse, mas notou que o corpo de Marinette se desequilibrou, os olhos azuis arregalando diante de si.

Marinette percebeu que um de seus pés chegou no limite do chão, perdendo a estabilidade, mas sua cabeça usava cada célula de energia para ativar sua memória e jogar um caminhão de informações para dentro de sua cabeça. Viu Adrien atirar-se na sua direção, mas os olhos dela não saíam do peito dele, da marca de quatro pontas que se assemelhava a uma borboleta.

A memória dela sabia o que via, sabia o que era aquilo. Mesmo que tivesse visto uma vez só, nunca mais esqueceria daquela cicatriz. Nunca esqueceria do sinal da Papillon no peito do homem morto no banheiro da Miraculous, da primeira vez que ouvira o nome da organização que espalhava destruição por onde andava. E agora a mesma cicatriz, o mesmo fantasma marcado a fogo estava no peito de Adrien, e aquilo só podia significar uma coisa. Só podia significar que ele trabalhava para a Papillon.

Ela sentiu Adrien jogar o corpo contra o dela, os braços agarrando-a como uma planta carnívora que segura sua presa firmemente, e sentiu-se ser puxada para a frente, notando que os movimentos dele haviam se assegurado de que ela não cairia da escada, mas o coração de Marinette parou dentro do peito como se algo muito pior tivesse acontecido a ela do que cair da escada. Ela estava nos braços de Adrien, mas não do Adrien que a fazia sentir-se segura, que fazia seu peito pular em timidez e alegria. Ela sentiu a cicatriz no peito dele pressionar contra sua testa e sentiu vontade de vomitar. Aquele Adrien era da Papillon, era um Adrien que estava ali para matá-la.

Ele sentiu Marinette firme, fora do perigo de cair, e expirou profundamente. Notou o corpo dela congelar dentro do seu abraço e ergueu uma das sobrancelhas. Estranhando a reação dela, baixou a cabeça para olhá-la, mas o rosto de Marinette estava pressionado contra seu peito e ele não conseguia distinguir a expressão que ela fazia. Ainda assim, vendo-a parada, os braços imóveis ao lado do corpo, algo lhe dizia que ela não estava com medo da queda. Estava com medo dele.

A mente de Marinette desativou instantaneamente, todo o sangue em suas veias sendo bombedo para seus músculos, apurando seus movimentos, reflexos e instintos de sobrevivência. Ela flexionou as pernas abaixo de si rapidamente, escorregando de dentro dos braços de Adrien e abaixando-se à frente dele. Sem esperar, empurrou o corpo dele com o seu, pegando-o de surpresa e fazendo-o cair sentado. Ela impulsionou o calcanhar do pé direito no chão, jogando-se para a esquerda enquanto rolava, tentando chegar à cômoda onde guardava seu ioiô.

Adrien percebeu que Marinette havia entrado em modo de defesa, mas seus sentidos só notaram isso quando seu quadril já batia contra o chão. Ele olhou rapidamente em volta, confuso, e quando seu rosto baixou para o chão, lembrou que estava sem camisa, e a cicatriz queimou em seu peito como brasas no mesmo instante, recordando-o de sua presença, de seu passado, de sua história. Marinette viu. Viu a prova de tudo. Um calafrio gelado desceu e subiu de seu estômago. Estava tudo acabado. Aquele era um caminho sem volta.

Adrien girou rapidamente no chão, arrancando a toalha do pescoço e segurando-a com as duas mãos à frente do corpo para bloquear o objeto que viu ser jogado em sua direção. Marinette estava do outro lado do quarto, a pose de ataque firmada sobre os pés, o ioiô retornando para as mãos levemente trêmulas, o olhar arregalado, porém firme, na direção dele. Ainda que sem uniforme, ele percebeu que ela não era mais Marinette. Ela havia se transformado em Ladybug bem em frente dos olhos dele.

“Marinette-“ Adrien começou atrás da toalha, mas ela não esperou.

Marinette lançou novamente o ioiô na direção dele enquanto corria para a direita, tentando flanqueá-lo, e Adrien falhou em bloquear o segundo ataque, recebendo o impacto do ferro no ombro e sendo arremessado para trás.

“Você está com eles!” ela gritou, puxando o ioiô e colocando um pé atrás de si quando notou que ele se encolheu ao receber o impacto do ioiô.

“Marinette, não é isso!” ele colocou a mão sobre o ombro direito, sentindo os músculos incharem sob os dedos enquanto latejavam em agonia.

Adrien sentiu os próprios pés recuarem, até suas costas encontrarem a parede gelada atrás de si. Ela conhecia o ambiente muito melhor do que ele, estava em vantagem. Ele não tinha equipamentos, não tinha proteção, e pior do que tudo, não queria feri-la. Se baixasse a guarda, ela iria acabar com ele antes de ouvir o que ele tinha a dizer.

“Você trabalha com eles!” Marinette rolou no chão e arremessou o ioiô com violência na direção de Adrien, que conseguiu atirar a cabeça para o lado bem a tempo de desviar, sentindo a rajada de vento raspar em sua orelha e um quadro quebrar na parede ao seu lado.

Marinette via Adrien e enxergava perigo. Quando dissera para Alya que não o reconhecia mais, não imaginou que a situação chegaria àquele ponto. Não imaginara que, pior do que um estranho, o enxergaria como inimigo. Algo pulsava dentro dela como raiva e incredulidade, alimentando cada um dos seus movimentos.

“Não, não trabalho!” ele bradou, vendo-a recuperar o ioiô nas mãos em um movimento rápido, e no momento em que suas palavras chegaram nos ouvidos de Marinette, a hesitância alcançou o olhar azul dela, mas ele a viu sacudindo a cabeça negativamente, a certeza voltando a preencher-lhe o rosto.

“Você está mentindo!” ela não se deixaria enganar, não de novo como havia acontecido no teatro. Não cairia nas armadilhas da Papillon, não importava quem eles haviam enviado.

Marinette pulou para trás, os pés apoiando-se no corrimão da escada que levava para o mezanino e finalmente, para a cobertura. Aquele lugar era apertado demais para lutar. Ela precisava sair. Precisava fugir dali e chegar até a Miraculous. Precisava avisar Chat Noir. Girou no ar, caindo com os pés sobre os degraus da escada, mas no exato segundo em que deu as costas para Adrien, sentiu-se ser agarrada com força.

“Marinette, para!” Adrien laçou o corpo dela com força, certificando-se de manter os braços dela junto ao corpo para que ela não o machucasse ou se soltasse.

“Me solta!” ela sacudia o corpo, sentindo as pernas serem erguidas no ar e balançando-as enquanto ele a puxava para trás.

Ela então apoiou os pés no corrimão, empurrando Adrien para trás e sentindo as costas dele baterem contra a parede ao lado da escada. Ele gemeu com a dor do impacto, e a pancada abrupta o obrigou a diminuir a força nos braços que a agarravam. Marinette conseguiu se soltar e empurrou o corpo para a frente, pronta para voltar a subir a escada, já com a mão no ar para lançar o ioiô contra o alçapão e jogar-se para fora quando algo agarrou a cintura dela com força e a arremessou na direção contrária para a qual corria.

Ela sentiu as próprias costas baterem contra a parede, a nuca atingindo um dos quadros com desenho de moda que estava pendurado, fazendo-o bater contra o chão aos seus pés. O som que ricocheteou pelo quarto indicava que o vidro tinha quebrado. Algo agarrou seus punhos e os apertou contra a parede acima de sua cabeça, enquanto suas pernas eram pressionadas abaixo de si. À sua frente, Adrien tinha as sobrancelhas furiosamente franzidas, o peito subindo e descendo em uma respiração ofegante, a ponta da orelha esquerda escorrendo sangue que descia pelo seu pescoço. Ela sacudiu-se, tentando se libertar, mas ele a pressionou contra a parede com mais força ainda.

“Sou eu!” ele gritou, os olhos verdes apertados e os dentes cerrados com força “Sou eu!” ele gritou de novo e sacudiu os punhos dela atirando-os novamente contra a parede.

Marinette sentiu os nós dos dedos rasparem contra o concreto atrás de si, ardendo, mas a maior dor que ela sentia não estava no seu corpo. Não estava nem perto da superfície de sua pele. Estava em algum lugar dentro do seu coração, fazendo-a sangrar profusamente, arrebentando-a, estraçalhando-a.

“Você é um deles!” Marinette cuspiu as palavras no rosto de Adrien, e atirou a cabeça para a frente tentando acertar sua testa na dele, mas Adrien jogou o próprio pescoço para trás, fugindo do golpe a tempo.

“Me escuta!” ele gritava, tentando levá-la de volta à realidade, mas todo o pavor que percorria cada canto do corpo dela a tornava uma bomba prestes a explodir, uma arma engatilhada pronta para disparar na direção dele “Me escuta.” ele baixou o tom de voz, aproximando os lábios da orelha dela “Sou eu. Eu sou o Chat Noir.”

Marinette parou de resistir no mesmo segundo. Sentiu o corpo quente de Adrien apoiado no seu, a respiração dos dois se confundindo em uma sinfonia de ofegância, os peitos encostando-se nas inspirações. Ela sentiu algo cercar seu coração e amassá-lo como uma bola de papel, uma forte náusea subindo pela sua garganta.

O peito de Adrien antes úmido do banho agora brotava suor, o sangue que antes manchava o pescoço dele agora sujando a bochecha dela. Ele estava cansado, muito cansado, mas não por lutar contra Marinette, e sim por lutar contra todos aquele segredos que o consumiam por dentro, corroendo-o e isolando-o de quem ele mais queria do seu lado.

“Eu sou o Chat Noir.” quando as palavras saíram novamente dos lábios de Adrien, ele sentiu algo dentro de si desmoronar, cair, e percebeu que a maior parede que havia erguido entre si e Marinette havia quebrado. Seu último segredo havia caído por terra “Sou eu.” ele murmurou e se afastou devagar, os olhos verdes hesitantes encontrando o azul aflito do olhar de Marinette.

“Você-“ Marinette tentou começar, mas não conseguiu terminar a frase. O ioiô caiu de sua mão direita cujo punho Adrien ainda segurava sobre a cabeça dela. O ferro bateu no chão em um baque surdo, mas nenhum dos dois piscou ou desviou o olhar.

“O seu ataque de pânico na garagem. O beijo no teatro. A sua máscara de Ladybug na Miraculous.” Adrien ofegava as palavras contra o ouvido de Marinette, provando cada detalhe que mais ninguém poderia saber a não ser os dois “Sempre fui eu.”

Marinette não conseguia piscar, não conseguia falar. Sentiu os dedos fraquejarem, mas Adrien não a soltou. Os olhos dele estavam fixos nos seus, e a respiração dos dois batia nas paredes do quarto, o calor da luta envolvendo os dois, transformando a fissura dos golpes em desejo na mesma intensidade. Cada segundo, cada momento, cada palavras trocada, cada beijo.

“Sempre fui eu.” Adrien sentia o coração bater enlouquecidamente dentro do peito, o ombro pulsando dolorido, algo na lateral de sua cabeça ardendo, mas nada daquilo o impediu de pressionar os lábios com força contra os de Marinette.

Adrien apertou as mãos ao redor dos punhos de Marinette e os lábios contra os dela, o beijo urgente, ofegante, atrapalhado. Os mesmos dedos de Marinette que antes queriam matá-lo, agora fechavam-se, a vontade de puxá-lo ainda com mais força contra si crescendo entre eles. As línguas dos dois se buscaram com ganância em uma dança de desejos e possessividade.

Marinette apertou o corpo contra o dele, a vontade de senti-lo acordando em cada canto com uma vontade arrebatadora, e Adrien percebeu, pressionando-a ainda com mais força contra a parede. Marinette gemeu com a sensação. Ela queria que ele largasse as mãos dela, que deixasse ela correr os dedos pelos cabelos dele, pelo peito nu que aquecia sob a camada de suor.

Adrien aprofundou o beijo, os lábios adormecendo enquanto roçavam um no outro, a sensação atigindo a cabeça dele como uma deliciosa vertigem. Sem perceber, ele diminuiu a pressão nos punhos de Marinette, e no mesmo segundo ela baixou os braços e enroscou os dedos nos cabelos da nuca dele, empurrando-o para a frente e girando-o nos calcanhares. No próximo segundo, ele era quem estava pressionado contra a parede, mas os lábios não haviam se largado e os olhos não haviam sido abertos.

“Marinette...” ele suspirou o nome dela com desejo quando os lábios dela soltaram-se dos seus para descer pelo seu pescoço.

“O quê?” ela perguntou em um murmúrio ofegante, mas não parou de beijá-lo. Os lábios dela desciam pelo pescoço de Adrien, chegando ao peito dele, enquanto suas mãos subiam e desciam pelas costas torneadas em músculos rijos.

“Marinette.” a voz de Adrien foi mais firme, mas Marinette ainda sentia os dedos dele em suas costas, deslizando para baixo, chegando à borda do seu quadril e arrepiando cada pelo que ela tinha no corpo. Ele a empurrou, os dois girando sobre os pés quando ele a pressionou contra a parede mais uma vez, colocando uma das pernas entre as dela.

“O quê?” ela perguntou de novo, os lábios inchados dos beijos pedindo por mais, os olhos azuis brilhando.

Adrien sentiu um gemido sair dos lábios ao ver a expressão de desejo no rosto dela. Desejo por ele. Só por ele. Ele queria ver mais, mais expressões, mais de Marinette. Ela era a coisa mais linda que ele já tinha visto, e ele teve vontade de despi-la com os dentes e tomá-la para si. Algo queimou como fogo em brasa dentro de Adrien, o calor no meio das pernas dela subindo pelo seu joelho, mas no momento em que os lábios dela se aproximaram de novo, Adrien inclinou a cabeça vagarosamente para trás, batendo as palmas das mãos na parede, uma em cada lado da cabeça de Marinette, fazendo-a voltar a si.

“A gente precisa parar.” Adrien murmurou para Marinette, a rouquidão de desejo contradizendo as palavras que ele pronunciava.

“Por quê?” Marinette perguntou e Adrien teve vontade rasgar a roupa dela ali mesmo.

“Porque se a gente continuar, eu não vou conseguir parar.” os olhos verdes dele se aproximaram dos dela, o olhar de um animal selvagem brilhando em verde, o hálito fresco e o aroma pós-banho juntando-se ao metálico do sangue que secava no pescoço dele “Nunca mais.”

Marinette sentiu borboletas batendo em seu estômago, mais vivas do que nunca, e a respiração trôpega sair de seus lábios, junto com palavras que ela não conseguiu pronunciar.

 

Então não para.

Nunca.

 

Adrien a olhou suplicante, quase implorando para que ela recuasse as mãos, para que parasse de tocá-lo. Um pouco mais, um segundo mais, e ele não conseguiria mais se segurar. Ele queria Marinette com todas as forças, mas não ali, não daquele jeito, com sentimentos confusos em um turbilhão de desejos e perguntas. Ele sabia que depois, quando os corpos esfriassem e as cabeças tomassem o controle de seus corpos, Marinette poderia se arrepender, poderia repensar aquela decisão tomada no calor do momento, e Adrien não queria que aquilo acontecesse nem em um milhão de anos.

“A gente precisa conversar.” Adrien sussurrou, os lábios inclinando-se para Marinette, querendo senti-la de novo.

“Precisa.” Marinette sussurrou de volta vendo-o se aproximar, os olhos semicerrando com a vontade de ter os lábios dele contra os seus de novo, mas Adrien baixou a cabeça e gemeu.

“Puta merda, Marinette.” Adrien gemeu as palavras, e Marinette franziu a testa sem entender “Puta merda.”

 

Como eu te quero, Marinette.

Só pra mim, toda pra mim.

 

Marinette viu Adrien tremular levemente, os dentes cerrados com força. Ela ergueu o braço direito e laçou a nuca dele, aproximando a cabeça dele de si e aninhando-a em seu pescoço.

“A gente tem todo o tempo do mundo.” as palavras de Marinette chegaram aos ouvidos de Adrien como música e algo no peito dele se abriu, jogando para fora todos os sentimentos e sensações que antes ele segurava. Ele sentiu lágrimas se acumularem nos olhos, mas mordeu o lábio inferior, contendo-as.

Marinette notou que Adrien se afastou dela devagar, desviando o olhar para o outro lado, como se não quisesse que ela o visse. Ela se aproximou e colocou a mão no queixo dele, puxando-o para olhá-lo nos olhos. Adrien não resistiu ao toque e girou a cabeça na direção dela, uma lágrima solitária descendo pelo rosto.

“Acabou.” Marinette falou e Adrien assentiu, sentindo o toque dela derrubando sua máscara.

Ele torceu o rosto em uma expressão de dor e um soluço alto pulou de seus lábios, afogando as palavras que ele não conseguiu dizer. Muralha por muralha, tudo foi desabando dentro dele, os tijolos de dor e agonia empilhando e se desfazendo em poeira. Ele apertou as duas mãos contra o rosto, quase sem acreditar que tudo havia acabado. Que ele poderia, finalmente, ser quem era de verdade.

 

Tanto tempo.

Demorou tanto tempo.

 

Marinette viu Adrien quebrar na sua frente, e lágrimas começaram a beliscar seus olhos. Todas as informações que havia juntado nos últimos dias foram se encaixando, as imagens de Adrien e Chat Noir se juntando em um emaranhado de histórias e respostas, quase todas horríveis demais para ela processar. Chat Noir perdendo os pais em um acidente. Adrien trabalhando na Farfalle. E em todas as histórias, lá estava ele, sozinho o tempo todo, enfrentando demônios que ela nem conseguia imaginar.

Adrien sentiu algo envolver seu corpo e notou que Marinette o abraçava com força, as pequenas mãos enroladas em suas costas, a respiração antes ofegante agora compassada e tranquila.

“Por quanto tempo, Adrien?” as palavras dela estavam embargadas, como se ela também estivesse prestes a chorar “Por quanto tempo você lidou com isso tudo sozinho?”

As palavras de Marinette apenas pioraram os soluços de Adrien, as lágrimas que antes ele conseguira conter agora descendo livremente pelo rosto, caindo sobre os cabelos negro-azulados da garota à sua frente. Ela estava ali, abraçada nele por vontade própria, a verdade exposta para quem quisesse ver. A verdade que dizia que eles pertenciam um ao outro, não importava quanto tempo passasse ou as desgraças que acontecessem, o destino seguiria unindo os dois como duas peças de um maravilhoso quebra-cabeças.

Após muitas lágrimas e muitos soluços, Marinette acabou se juntando a Adrien e deixando suas barreiras serem derrubadas. Adrien jogou os braços à volta dela, os dois em um abraço dolorido cheio de histórias não terminadas e perguntas não respondidas.

Adrien foi o primeiro a se afastar, os braços ainda ao redor dela. Passou as mãos no rosto, secando as próprias lágrimas e olhou para Marinette, o rosto úmido da garota fitando-o aflito. Ele sorriu tristemente, levando as duas mãos ao rosto dela e secando-lhe as bochechas com a parte de dentro dos polegares.

“Desculpa te fazer chorar.” Adrien fungou, e o sorriso triste deu lugar à timidez que Marinette não via há anos.

“Acho que a gente precisava disso.” Marinette suspirou fundo, sentindo os soluços se desmanchando embaixo de uma camada de alívio.

“É, acho que sim.” Adrien ainda passava os polegares no rosto de Marinette, mas lágrimas já não mais caíam. Ele só não queria desfazer o toque, não queria soltá-la. Sentiu então que ela ergueu os braços, colocando as mãos sobre as dele.

“Adrien.” Marinette estava séria, o nome dele sendo pronunciado com convicção “Você me deve quatro anos de história.”

“É, devo sim.” Adrien se afastou devagar e as mãos que antes estavam no rosto de Marinette caíram ao lado do corpo.

A hora havia chegado.

Os véus haviam sido rasgados em mil pedaços.

E Adrien abriu os lábios, deixando a verdade brotar entre as palavras.



Notas finais do capítulo

Me conte nos comentários se valeu a pena ;)
E preparem os corações pro próximo!