Dépendance escrita por KarenAC


Capítulo 23
Capítulo 23 - Dependência


Notas iniciais do capítulo

Chegamos ao momento tão esperado!
Capítulo gigante ♥



Não teme a morte quem conhece a escuridão.

Augusto Branco

 

“Mãe!” Adrien gritava de dentro do quarto enquanto fazia o nó da própria gravata em frente ao espelho.

Ele vestia um terno azul marinho com finas riscas de giz, a gravata preta terminando de ser atada sobre o colarinho negro ao redor do pescoço. Os cabelos loiros curtos estavam cuidadosamente penteados para trás, os olhos verde-claros ressaltados pela escuridão da roupa. Ele odiava usar roupa formal, mas sua mãe havia dito que aquele jantar era importante para seu pai, e ele não queria decepcioná-lo.

“Mãe!” ele gritou novamente, sentindo alguém abrir a porta do quarto.

“O que foi, Adrien? Não consigo nem terminar de me arrumar e o seu pai já tá me enlouquecendo porque não consegue escolher uma gravata!” ela adentrou o quarto vestindo um roupão, os cabelos presos em grampos, a maquiagem já bem trabalhada no rosto “Como se eu já não soubesse que ele ia escolher a prata no final das contas!”

Adrien virou nos calcanhares e olhou a mãe com um sorriso no rosto, ignorando as reclamações dela. Os lábios de Amélie Agreste entreabriram em surpresa e os olhos marejaram. Ele tinha apenas quatorze anos, mas ela notou, pela primeira vez, os traços masculinos e os ombros que começavam a se alargar com o crescimento. Adrien não era mais só um garoto. Ele havia virado um homem, um lindo homem que a orgulhava de todo o coração.

“Como você está lindo, meu filho.” Amélie levou as mãos à boca, mas em seguida as afastou, abanando os olhos para conter as lágrimas “Você vai me fazer borrar a maquiagem!” Adrien se aproximou sorrindo abertamente e ela deu um soco no braço dele, fazendo-o rir.

“Vai amassar meu terno, mãe!” Adrien continuava rindo e Amélie sorriu na direção dele.

“Você me chamou aqui só pra me fazer chorar?” ela olhou para Adrien de canto, que pressionou os lábios em uma fina linha tensa.

“Não, não.” Adrien baixou a cabeça e arrastou a ponta do sapato brilhante no chão “Esse jantar” Adrien começou “É sobre a conversa que nós tivemos no outro dia?”

Amélie olhou para o filho cabisbaixo e caminhou até a cama dele, sentando-se na beirada do colchão e dando dois pequenos tapas sobre a colcha que o cobria, sinalizando para que Adrien sentasse ao seu lado, o que ele obedeceu sem pestanejar.

“Adrien” Amélie começou, segurando as duas mãos do filho entre as suas “Esse jantar é provavelmente o mais importante da vida do seu pai, você sabe disso. E você já tem quase quinze anos, é hora de formar um futuro estável. A vida de modelo não dura para sempre, eu que o diga.” a mãe de Adrien repuxou o canto de um dos lábios em um sorriso triste.

“Não é o futuro que eu quero pra mim, mãe.” Adrien passou a mão nos frisos da calça social, sentindo que a sua vida era como aquilo, uma marca que não importava o quanto esfregasse, não conseguiria mudar com as próprias mãos.

Amélie suspirou pesadamente, levantando-se da cama e indo até o espelho, onde começou a retirar os grampos das mechas loiras, um por um, fazendo os cabelos caírem em graciosos cachos que tocavam os ombros.

“Adrien, o seu pai trabalhou muito para nos dar a vida que temos. Tudo o que você tem, absolutamente tudo, veio do sangue e suor do trabalho dele.” a voz dela era suave, mas as palavras eram duras como pedra “Você é o único filho dele e nós não somos mais tão jovens. Se você não ajudar seu pai nisso, todos aqueles urubus que ficam na volta dele vão tomar as ações pouco a pouco, e nós vamos ficar sem nada. Você viu o golpe que quase tirou o seu pai a presidência. Graças a Deus ele conseguiu demitir aquele vice a tempo.” Amélie terminou de desfazer o último cacho dos cabelos, e passou a mão entre eles com cuidado, olhando o filho pelo reflexo do espelho.

“Por que tem que ser agora? Eu não posso esperar pra decidir isso mais adiante?” Adrien sabia que o seu futuro já estava escolhido desde o dia em que nascera, sabia que não tinha escapatória, mas negociar ainda podia ser uma possibilidade.

“Infelizmente não, meu filho.” ela andou de volta à ele, sentando-se novamente na cama “O seu pai precisa de um vice-presidente ao lado dele, e se você não estiver lá, alguém vai tomar o seu lugar.” o olhar verde da estonteante mulher loira pairou sobre ele “E o de seu pai também, como quase aconteceu.”

“Eu sabia que toda aquela história de me emancipar tinha algum truque.” Adrien cerrou os dentes, lembrando de como ficara feliz quando o pai dissera que ele finalmente teria direitos de uma pessoa maior de idade muito antes de chegar à idade prevista.

“O seu pai nunca dá ponto sem nó. Você já deveria saber disso.”

“É, deveria.” Adrien rugiu as palavras.

“Eu tenho muito orgulho de você, meu amor, e o seu pai também.” Amélie aproximou o rosto de Adrien e deu-lhe um beijo na testa, esfregando o polegar na pele dele a seguir para retirar o excesso de batom varmelho que o marcou.

“Ele só precisa de uma muleta, mãe. Só se importa com a empresa dele. Nunca se importou com o meu futuro.”

“A BioSans é o seu futuro, Adrien.” ela se levantou da cama, olhando-o uma última vez antes de sair do quarto, a pose de final de conversa emanando de cada canto de seu corpo “É o futuro de todos nós.”

Mais tarde naquela noite, Adrien parava ao lado do pai no púlpito do grande salão, salvas de palmas enchendo o lugar enquanto alguém pregava uma fita azul com listras brancas no peito dele. Era apenas um pedaço de tecido, mas pesava como se tivessem pendurado o mundo no seu paletó, e ele teve vontade de arrancá-la e jogá-la no chão, mas limitou-se a colocar a mão sobre ela, lembrando-se de cada uma das palavras de sua mãe.

 

É o futuro de todos nós.

 

Adrien sentou-se em uma mesa, o coração caído no chão, o desânimo estampado na face, enquanto todos à sua volta riam e bebiam o champanhe dado de graça pela empresa de seu pai.

 

Pela empresa do meu pai.

Do meu pai.

 

“Parabéns, filho!” um homem de meia idade, com cabelos ralos e claramente acima do peso estendeu a mão para Adrien, fazendo-o erguer a cabeça para ver de onde a voz surgia, até dar de cara com o prefeito Bourgeois.

“Obrigada, senhor prefeito.” Adrien fez todo o esforço do mundo para sorrir e estendeu a mão de volta para o pai de Chloe, sentindo os dedos dele fecharem sobre os seus enquanto o homem se aproximava para lhe dar tapinhas nas costas.

“Por favor, me chame de André!” o prefeito gargalhou, soltando a mão de Adrien “O seu pai fez um ótimo trabalho com a BioSans. Essa empresa é o orgulho de Paris.”

“É, é sim.” Adrien sorriu nervosamente, puxando uma taça de champagne de uma das bandejas carregada por um garçom que passava por ele e tomando um gole. Talvez se mantivesse a boca ocupada, não precisaria manter aquela conversa ali, mas o homem parecia obstinado a prosseguir o diálogo.

“Como andam as aulas?” Bourgeois insistia na conversa, e Adrien sacudiu-se sobre os pés, desconfortável.

“Bem, está bem.”

“A Chloe fala muito bem de você!” o prefeito sorria “Você precisa ir lá em casa jantar com a gente como nos velhos tempos!” ele colocou a mão sobre o ombro de Adrien, pressionando os dedos com firmeza no ombro do garoto.

“Claro, uma hora vou sim.” Adrien tentava livrar-se das investidas de Chloe há anos, mas ver o pai dela com a mesma conversa o exauria.

Quando pequeno, o pai de Adrien o levava seguidamente à mansão dos Bourgeois para jantar e conversar sobre negócios, e como sempre ele acabava com Chloe e alguma babá em um canto, sendo obrigado a brincar de coisas que não gostava e a ter conversas que não o agradavam.

“Você sabe, já está chegando na idade em pensar no seu futuro, filho.” André bebericava o próprio champanhe e olhava para a frente, como se a conversa com Adrien não fosse assim tão importante para que precisasse olhá-lo nos olhos “Ter uma garota, montar família.”

“Senhor, eu tenho quatorze anos.” Adrien olhou para André como se ele tivesse criado uma segunda cabeça.

“E agora é o vice-presidente da maior corporação da Europa, não subestime sua idade.” Bourgeois inclinou a cabeça na direção dele, um sorriso brincando nos lábios finos “O seu pai se importa o suficiente com a BioSans para emancipar o filho de quatorze anos e colocá-lo atrás de uma mesa com praticamente todo o futuro farmacêutico da Europa nas mãos. E com o apoio certo” a voz do prefeito silvou antes de encostar a taça nos lábios “Nós podemos fazer isso acontecer por muito tempo ainda.”

Adrien baixou os olhos para o líquido dourado borbulhando dentro da taça em suas mãos, sentindo cada uma das palavras de André Bourgeois arrastar-se sob sua pele como milhões de insetos. Ele entendeu exatamente o que o homem a seu lado estava insinuando. Dizia que caso ficasse com Chloe e se casasse com ela, manteria a política ao lado de Adrien e ao lado da BioSans, assegurando-se que a corporação se manteria nas mãos certas. Claro que ao ficar com Adrien, Chloe teria direito à metade das ações BioSans e, no final, também o teria o próprio prefeito. Adrien arrepiou-se com a ideia.

“Sinto muito, senhor, mas com todo o respeito, eu acredito que a sua filha não gostaria de ser usada como um peão nos seus jogos de xadrez.” Adrien levou a taça aos lábios, sorvendo o líquido doce enquanto colocava a mão esquerda no bolso. Para o tango, precisa-se de dois, e Adrien não deixaria Bourgeois liderar a dança.

O prefeito riu no meio de uma tosse pigarreada, como se tivesse se engasgado com as próprias palavras, o largo peito pulando com o som, mas Adrien focou a visão adiante, terminando o champanhe e colocando a taça sobre a mesa.

“E com licença, que eu preciso ter uma conversa com os meus investidores.” Adrien deu as costas para o prefeito, sentindo o olhar do homem fuzilando-o nas costas.

Adrien podia odiar com todas as forças estar ali e ter que assumir um futuro que não havia planejado para si mesmo. Podia odiar o fato de seu pai tê-lo enganado e tê-lo emancipado como se fosse lhe dar liberdade para depois prendê-lo em uma jaula sem fechadura. Podia odiar sorrir falsamente e apertar mãos de pessoas que apenas o faziam por puro interesse, mas mais do que tudo, odiava pessoas manipuladoras, que usavam outras para benefício próprio.

Ele se aproximou de uma roda de conversa, onde viu o pai de costas gesticulando largamente como se explicasse algo extremamente importante. Adrien conhecia Gabriel Agreste o suficiente para saber do que ele estava falando, já que o assunto saía da boca de seu pai praticamente o tempo todo nos últimos meses.

“...a droga dobra a capacidade funcional do cliente, aumentando a regeneração das células neuronais e estabelecendo um novo padrão de excelência no tratamento de doenças neurodegenerativas.” Gabriel explicava, as mãos balançando no ar que baixaram levemente ao ver Adrien parar a seu lado com as mãos nos bolsos.

“Mas um aumento da capacidade funcional não gera desgaste celular?” um dos homens na roda perguntou enquanto ajeitava o nó da gravata vermelha no pescoço.

“Era exatamente o que eu estava prestes a perguntar.” um segundo homem começou “Isso diminuiria a sobrevida do cliente, ao invés de aumentá-la, e acredito que o objetivo das medicações que até então temos no mercado seria aumentar a expectativa de vida. As pessoas querem viver mais, Gabriel.” o homem de cabelos negros precisamente penteados para trás largou a taça de champanhe sobre uma das bandejas vazias que desfilavam no salão.

“Viver mais?” Gabriel sorriu de canto, e Adrien soube que ali estava o gancho que seu pai adorava puxar “O que você preferiria, Jean?” ele semicerrou os olhos acinzetados na direção do último homem “Sobreviver mais ou viver mais?”

Um silêncio intranquilo passou pela roda de conversa, alguns dos homens se olhando enquanto argumentos desapareciam no fundo de suas cabeças, e Adrien soube que, mais uma vez, seu pai havia vencido.

As pessoas não queriam viver suas vidas presos em uma cama, com suas consciências oscilantes enquanto o mundo do lado de fora de suas janelas virava dia e noite, correndo e seguindo sem elas. Elas queriam sentir, correr, cantar, beber, viver de verdade, não apenas serem vegetais plantados em um pote. E ali, era onde a droga da BioSans era muito melhor do que as outras. Ela podia não estender a vida das pessoas como as outras que estavam no mercado, mas ela assegurava que a vida que levassem, ainda que não tão longa, seria plenamente consciente e ativa.

“De quanto você precisa?” um homem que chegara na discussão pouco após Adrien ergueu o queixo na direção de Gabriel. Era assim que negociar funcionava. Você precisa parecer que está em vantagem, que é alguém necessário e útil, ainda que seja completamente insignificante para a vastidão dos zeros que a indústria farmacêutica lucrava.

“Dois bilhões de euros.” Gabriel Agreste pegou uma taça cheia de champanhe e deu um grande gole como se tivesse pedido por um punhado de balas de menta.

Os homens na roda riram e se remexeram, esperando Gabriel acompanhá-los, esperando o presidente da BioSans dizer que estava brincando, que aquele era um valor fictício e absurdo, mas a expressão no rosto de Gabriel era impassível. Ele falava sério, muito sério. E sabia que os resultados que sua droga haviam apresentado até então valiam cada centavo.

Adrien olhou o pai e ergueu a mão para dispensar o garçom que passava com uma bandeja cheia de graúdos camarões flambados. Imaginou se algum dia teria o sangue frio de fazer aquele tipo de negociação, de lidar com uma quantidade de dinheiro tão inimaginável como se estivesse falando de trocados.

“Nós aceitamos, em troca de metade das ações.” um homem asiático, de baixa estatura e tão magro que parecia que ia quebrar a qualquer momento disse em um forte sotaque japonês.

“Não.” Gabriel acenou negativamente com a cabeça “As ações permanecem na BioSans, a produção da droga não sai de Paris e não sai do controle de qualidade da minha empresa.”

“Você está pedindo mais do que pode oferecer, esse é um negócio completamente unilateral.” o japonês sorriu, mostrando os dentes amarelados e desalinhados, uma herança das duas carteiras de cigarro fumadas por dia “No meu país nós chamamos isso de fazer um acordo com o diabo, senhor Agreste. Akuma.” o pequeno homem sorriu, lançado a palavra no ar como se traduzi-la para Gabriel fosse torná-la mais poderosa, mas o pai de Adrien apenas puxou o canto de um dos lábios em escárnio.

“O diabo nunca ofereceu um acordo tão bom, senhor Miyamura.”

Gabriel Agreste colocou a mão no ombro do filho, o mesmo sorriso ainda flutuando nos lábios, e o puxou delicadamente para que saíssem da roda de negociações.

“Aproveitem a noite, senhores! Falemos mais de negócios amanhã!” Gabriel disse sem se virar, a mão ainda sobre o ombro de Adrien que o seguia lado a lado.

“Você acha que eles vão aceitar?” Adrien perguntou quando já estavam ao longe.

“O maior segredo das negociações, meu filho, é não duvidar.” Gabriel acenou para sua esposa ao longe, que trajava um longo vestido verde escuro, ressaltando os olhos claros e os cabelos loiros. “Mas mais do que isso, é fazer os outros duvidarem de si mesmos.” ele deu um último aperto no ombro de Adrien e saiu a passos lentos, procurando outros lugares onde pudesse semear dúvidas.

Menos de duas semanas depois, Gabriel Agreste havia conseguido todo o dinheiro que precisava para começar a produção em massa da droga, e o maior investidor havia sido justamente Hizashi Miyamura, o japonês que debochara abertamente de seu pedido de investimento.

“Nunca é difícil achar homens que estejam dispostos a fazer um contrato com o diabo. Akuma.” Gabriel Agreste ressaltou a última palavra com um silvo uma vez durante a janta de comemoração com Amélie e Adrien, e os três riram da situação. Dali em diante, ainda sem nome definido, a droga ganhou um apelido.

 

●  ●  ●  ●  ●

 

“Espera, espera um pouco.” Marinette interrompeu a história que Adrien contava, levando a mão à testa enquanto alcançava uma xícara de chá para Adrien, sentando-se no sofá da sala “O seu pai era presidente da BioSans?”

“Era.” Adrien murmurou, agradecendo mentalmente por poder fazer uma pausa na história.

“A BioSans? A empresa que produziu o Akuma?” Marinette arregalou os olhos, gesticulando nervosamente no ar.

“Sim.”

“Meu Deus, Adrien.” Marinette jogou o corpo para trás no sofá, uma leve vertigem a acometendo.

“Ela não era para ser uma droga ilícita. As doses testadas aumentavam a capacidade funcional e era extremamente segura, mas como toda droga, se usada de forma incorreta ou em uma dose errada, ela pode se tornar mais um veneno do que um remédio. É o que nós chamamos de índice terapêutico.”

Adrien desdobrou a perna e inclinou-se para a frente, largando a xícara de chá que segurava entre as mãos sobre a mesa de centro à sua frente e desenhando no ar uma linha horizontal imaginária com o dedo, a qual Marinette acompanhou com os olhos.

“O que fica abaixo, é o remédio. São os bons efeitos. Pessoas mantendo suas memórias intactas, caminhando, correndo, tendo energia para visitar quem amam, fazendo suas atividades normais, mas nem sempre esse efeito é o suficiente para manter todas as pessoas saudáveis, então aumentamos a dose mais um pouco” o dedo dele foi subindo no ar, chegando no limite da linha que ele havia desenhado “Isso aqui é a dose máxima que nós podemos usar. É o efeito benéfico máximo. A partir daqui...” o dedo dele subiu no ar um pouco mais, atravessando para cima da linha “...os efeitos colaterais tomam conta e o que antes fazia bem, passa a fazer mal. É isso o que a Papillon faz com a droga. Ela usa uma dose extremamente alta, às vezes letal, pra poder manter as pessoas sob controle.”

“Faz sentido.” Marinette apoiou a mão no queixo, olhando para um ponto ao longe, até que piscou várias vezes, algo cruzando sua mente como um foguete “Espera, Adrien.” ela esticou a mão na direção dele “Se você era vice-presidente e o seu pai não está mais vivo-”

“É, você tá olhando pro presidente da BioSans.” Adrien passou a mão no cabelo, como se dizer aquelas palavras o incomodasse.

“Então como você tá aqui? Você devia estar lá, onde é seu lugar!” Meu Deus, Adrien, dois bilhões de euros!” Marinette inclinou-se para trás novamente, sentindo o peso de uma quantidade de dinheiro que ela nunca conseguiria entender.

“Nove.” Adrien disse levando a xícara aos lábios.

“O quê?” Marinette perguntou sentindo-se engasgar com o chá

“A BioSans vale hoje nove bilhões de dólares.”

“Esse dinheiro...” ela disse e seus lábios ficaram entreabertos.

“As ações são todas da família Agreste.” Adrien apertou a xícara nas mãos “Todas minhas.”

Marinette arregalou os olhos para o chão, colocando as mãos no rosto e sentindo a ponta dos dedos gelarem contra a pele, a incredulidade crescendo a cada segundo mais dentro de si.

Adrien não era rico.

Ele era bilionário.

Ela ergueu os olhos na direção dele e o viu sentado no sofá de sua sala, a roupa amarrotada, os cabelos despenteados e o chá sendo bebido aos poucos da xícara de porcelana barata, e ela não conseguiu acreditar no que ouvia. Aquilo tudo parecia muito irreal para ela digerir.

“Esse jantar aconteceu aquele dia que nossa turma tinha planejado ir ao cinema e você não pôde ir, não foi?” ela recordava o dia com precisão.

“Nossa, você lembra?” Adrien ergueu uma das sobrancelhas, passando uma das mãos no cabelo. Até ele havia esquecido.

“É, lembro sim.” Marinette sorriu timidamente.

Ela não tinha como esquecer aquela noite. Passara dias escolhendo que vestido usar, e como deveria arrumar seu cabelo, para na véspera descobrir que Adrien não iria poder ir. Ela estivera tão nervosa pensando no que aconteceria caso sentasse do lado dele, ou se dividiriam uma pipoca, e no final até ela não tivera energia nenhuma para ver o filme que antes parecia o mais interessante do mundo. Ainda assim acabara indo para acompanhar Alya, e no final voltara para casa mais chateada do que se não tivesse ido.

“Então enquanto nós estávamos no cinema, vendo um filme e comendo pipoca-“

“Eu estava virando bilionário.” Adrien terminou a frase que sabia que sairia dos lábios de Marinette.

“Meu Deus, Adrien.”

“Para de fazer essa cara, Marinette.” Adrien remexeu-se no sofá, claramente desconfortável “Você já sabia que a minha família tinha dinheiro.”

“Mas não sabia que tinha tanto dinheiro. Você tem uma corporação inteira pra dirigir, o que diabos tá fazendo pulando de prédio em prédio em Paris, Adrien?” Marinette se referiu à vida de Chat Noir que Adrien levava e ele puxou o pé da perna dobrada que se apoiava em seu joelho para mais perto de si.

“Esse é o início de tudo Marinette. Eu achava que as coisas ali seriam difíceis. Eu era imaturo, não entendia o peso de verdade de tudo o que a BioSans carregava, mas pouco a pouco eu fui aprendendo.” ele respondia enquanto enroscava a ponta solta do cadarço no meio dos dedos “Como eu disse, é uma longa história.”

Marinette pegou mais uma vez a xícara entre as mãos e puxou as pernas para cima do sofá, apoiando a porcelana sobre os joelhos à sua frente enquanto sua mente viajava muitos anos antes, tentando acompanhar Adrien no que ele contava. Ela girou a cabeça para ele e o viu mexendo no tênis, o braço esticado cheio de marcas escuras que ela já percebera na noite anterior.

“Adrien...” Marinette murmurou, levantando-se de onde estava e largando a xícara sobre a mesa de centro, sentando-se ao lado dele.

Adrien acompanhou os movimentos de Marinette, e seus olhos abriram-se um pouco mais, sentindo as sobrancelhas serem jogadas para o alto, quando a viu sentar ao seu lado e tocar o braço dele, os dedos correndo sobre as marcas que agora ele carregava na parte de dentro do braço. O rosto dela estava abaixado e ela tinha uma fina ruga cruzando a testa em preocupação. Ele podia ver as perguntas sendo empilhadas na cabeça de Marinette. Não sabia quanto mais daquela história ela aceitaria sem rejeitá-lo. Não sabia quanto mais ela estava pronta para ouvir, mas ele já tomara uma vez a decisão de mantê-la fora de sua vida e de seu passado, e de nada aquilo ajudara nenhum dos dois.

“Pergunta.” Adrien disse, rezando para não se arrepender, baixando os olhos na direção dela no mesmo momento em que a viu erguer o rosto, os olhares ansiosos se encontrando no meio do caminho enquanto o toque delicado dela era sentido sobre sua pele.

“Isso aqui, você usou?” Marinette engoliu a seco depois de terminar a pergunta, não conseguiu organizar as palavras a tempo de dizê-las do jeito que havia planejado.

“Eles usaram em mim.” Adrien baixou o rosto para as marcas, fechando o punho que antes mexia no cadarço, fazendo os tendões saltarem sob sua pele.

“Eles...?” Marinette sussurrou a pergunta, a voz quase inaudível.

“A Papillon, quando eu trabalhei infiltrado.” Adrien franziu a testa, desviando o olhar de Marinette que agora lhe olhava fixamente “Eu não tive escolha. Eles ameaçaram o meu pai, Marinette. Ameaçaram toda a minha família, toda a minha empresa. Exigiram que a BioSans entregasse um carregamento de uma tonelada do Akuma por semana, ou matariam a todos.” ele notou que o toque da mão de Marinette descansou sobre sua pele, como se o encorajando a continuar “Nós tentamos de tudo, mas a Papillon toma conta da Europa como uma praga. Ficamos de mãos atadas, até o dia que meu pai resolveu ceder e fazer o acordo com eles.” Adrien franziu a testa e uma sombra de raiva atravessou o rosto de Adrien.

“Não foi culpa dele, Adrien. Ele não viu outro jeito.” Marinette tentou entender o lado do pai de Adrien.

“Ele não teve paciência, Mari! Não teve persistência!” Adrien jogou as mãos para o alto e esfregou o próprio rosto com elas “Eu falei pra ele não ceder, que ele não conseguiria voltar atrás, mas ele achou que depois que a Papillon conseguisse o dinheiro que queriam, eles recuariam. Só que tudo só piorou, cada vez mais.”

“E você decidiu se envolver pra resolver o problema.” Marinette juntava as peças, a voz baixa em entendimento.

“Eles me conheciam, sabiam quem eu era. Ter o presidente da BioSans dentro da Papillon era a maior carta que eles podiam guardar na manga, por isso precisei inventar o Chat Noir.”

“Você precisava agir contra eles, mas seria descoberto se fosse como Adrien.” Marinette completava as lacunas da história em voz alta.

“Eu não tinha mais nada a perder, Mari, a não ser a minha própria vida, e ela já não valia muito àquele ponto.” os lábios dele esculpiram um sorriso irônico e Marinette sentiu o coração quebrar com a visão “Mas eles destruíram a minha família, Mari. Eles quase quebraram a BioSans. Foi um caminho sem volta. E ainda é. E eu não vou parar até acabar com cada um deles.”

“Mas pra trabalhar pra eles, eles precisavam manter você sob controle, como os outros.” os olhos dela pairaram novamente sobre as cicatrizes na pele de Adrien “Então eles injetavam essa coisa em você.” Marinette torceu o rosto em uma expressão de dor.

“Toda semana.” ela sentiu Adrien tremer levemente, uma memória muito ruim dobrando as sobrancelhas dele sobre os olhos “Três anos, Marinette. Eu usei essa merda por três anos.” Adrien puxou o braço que Marinette tocava e esfregou o rosto, o cansaço tomando conta de seu corpo como se não dormisse há meses “Eu ainda sinto isso dentro do meu sangue, correndo nas minhas veias, como se meu corpo pedisse pra eu usar de novo, pra voltar àqueles dias. Você pode não acreditar, mas essa noite passada foi a única noite que eu dormi inteira sem pesadelos nos últimos três anos.”

Marinette, por um momento, esqueceu-se como era articular palavras e falar. Imaginou Adrien toda semana sendo controlado por pessoas que odiava, recebendo ordens de pessoas horríveis, apenas para poder manter protegidas pessoas que sequer sabiam o que estava acontecendo. Olhou para Adrien e, pela primeira vez em anos, o viu de verdade. O garoto de apenas dezoito anos que carregava o mundo nas costas, um peso que ela nem conseguia imaginar sobre os ombros jovens.

“Eu investi meses para fabricar um antídoto escondido. Todo dia, depois das missões na Farfalle, eu chegava em casa e tomava o antídoto. Então saía como Chat Noir pra boicotar as missões que eu mesmo tinha cumprido durante o dia. Na semana seguinte, eles me injetavam de novo. E foi assim por anos e anos.” Adrien gemeu, as palavras se tornando mais pesadas nos seus lábios “Mas o antídoto só limpa a última dose, não o excedente. Eu ainda tenho isso dentro de mim, Mari. E tem dias que eu sinto que estou prestes a perder o controle, prestes a fazer coisas que não quero, de novo.”

Em um reflexo, ela aproximou o corpo dele devagar, abraçando-o.

“Eu lembro de tudo, Mari. De absolutamente tudo.” a voz dele tinha tanta dor que Marinette quase conseguia senti-la “Eu fiz coisas horríveis, coisas que não me deixaram dormir à noite nunca mais. Aquilo me controlou, me consumiu.” Adrien tremeu embaixo dos braços de Marinette “Você fica lá, presente, mas suas mãos fazem coisas que você sequer imaginaria fazer consciente. É como assistir um filme de terror, o pior de todos, sem sequer poder fechar os olhos.”

“Ah, Adrien...” Marinette suspirou entre os lábios pouco antes de encostá-los no topo da cabeça de Adrien, beijando os cabelos loiros que cheiravam a xampu.

“Eu fiz coisas horríveis, Mari. Coisas imperdoáveis que-” as palavras de Adrien quebraram antes que ele pudesse terminar a frase.

“Não era você.” Marinette sussurrou contra os cabelos dele “Não era você.”

“E se era? E se aquele era quem eu sou de verdade?” as perguntas de Adrien puxaram na cabeça de Marinette a frase que ele dissera na noite anterior enquanto delirava.

 

Porque eu sou um monstro.

 

Marinette afastou-se rapidamente e pegou o rosto de Adrien nas mãos, forçando-o a encará-la. Seus olhos azuis ardiam em confiança e certeza, e Adrien sentiu os lábios entreabrirem em surpresa.

“Não é, Adrien. Você é quem é aqui, agora, comigo.” ela sentiu a voz falhar, mas não deixaria a timidez lhe tirar a chance de arrancar Adrien da escuridão “Você é quem se arrepende dessas coisas, é quem diz que elas são imperdoáveis. Não deixa eles fazerem você duvidar de si mesmo, Adrien.” os lábios de Marinette se fecharam em uma linha fina, a testa furiosamente franzida, os dedos mergulhados nos cabelos de Adrien, mantendo-o olhando para ela “Não deixa.”

Ela podia ter falhado com ele quatro anos antes. Podia não ter visto o que estava acontecendo, e ter deixado aquele mundo horrível carregá-lo para longe e sugar cada gota de energia do corpo dele, mas não mais.

Agora ela estava ali, e havia fixado os dois pés no chão.

Dali, ninguém a tiraria.



Notas finais do capítulo

Enfiei várias aulas de bioquímica e farmacologia pra vocês aí no meio, parabéns por aguentarem! Hiuahseiuaeh!
Me deixem favoritos e comentários na caixinha que me dá uma força danada saber o que vocês estão achando *-----*
E bom final de semana, a tia Karen ama vocês ♥