Dépendance escrita por KarenAC


Capítulo 10
Capítulo 10 - Instável


Notas iniciais do capítulo

Capítulo enorme, mas não se acostumem mal! Hiausehuiase!
Aproveitem ♥



Serás amado apenas quando puderes mostrar a tua fraqueza, sem provocar nenhuma força.

Theodore Adorno

 

Ladybug ergueu o corpo da cadeira e moveu a cabeça em volta, caminhando devagar pelo local e demorando o olhar nas paredes lascadas por furos de balas e arranhões de objetos cortantes. Ela lembrava de todas as vezes que estivera na Miraculous, que se demorara durante horas antes de precisar ir para casa. Noites tomando chá e comendo biscoitos com Tikki e ouvindo Plagg reclamar sobre uma coisa ou outra. Ela considerava aquela sua segunda casa, e Tikki e Plagg sua segunda família. Seu olhar caiu sobre a mesa de Tikki, onde vários sulcos irregulares estavam entalhados na madeira.

Ladybug colocou os dedos sobre a madeira, sentindo o toque subir e descer nas escoriações da bancada e percebeu que os olhos umedeceram. Ela só desejava que Tikki estivesse bem. Que ninguém a tivesse machucado. Fechou as pálpebras com força e trancou a respiração para segurar o soluço que estava prestes a explodir na sua garganta.

Chat Noir estava sentado olhando para a noite sem estrelas de Paris, mas sua cabeça estava presa na última vez que vira Marinette. Ele nunca imaginou que um dia ouviria tanta dor e ódio saindo dos lábios dela. Queria esquecer aquela noite, toda ela. Cada minuto. Sentiu os punhos cerrarem em reflexo, mas os relaxou quando percebeu que Ladybug levantou da cadeira e começou a caminhar pela agência. Ele a seguiu com o olhar em silêncio, e percebeu pela maneira com que ela se movia que sentia o mesmo que ele, como se tudo fosse um pesadelo terrível.

A luz fraca da rua rebateu no rosto de Ladybug enquanto ela olhava para a mesa, e Chat deixou os olhos descansarem sobre as feições dela. Algo na curvatura do queixo dela jogou-lhe um calafrio na nuca, arrepiando os cabelos sobre a pele. Aquela pequena inclinação do maxilar, logo na parte onde a rosto encontrava a entrada dos cabelos negros, era muito parecida com a de Marinette. Extremamente parecida. Ele suspirou fundo. Aquela noite estava mesmo mexendo com seus sentidos.

O olhar dela estava perdido sobre a mesa, e ele viu o momento em que lágrimas começaram a acumular e ela fechou as pálpebras com força. Ele sentiu o coração quebrar com a visão, mas não deixou palavras desrespeitarem a privacidade dela.

Um som agudo tirou os dois do transe, colocando-os de volta à realidade com um sobressalto, e Ladybug notou que o som pertencia ao celular dentro do seu uniforme. Ela puxou o aparelho e seu coração parou quando o nome na tela apareceu.

“Quem é?” Chat perguntou e Ladybug pulou com a voz dele.

“Tikki” a voz dela saiu como alguém que estava prestes a sufocar, e Chat levantou-se tão rápido que a cadeira caiu, batendo no chão com violência.

“Me dá o telefone.” ele disse, estendendo a mão, e percebeu que Ladybug não se movia enquanto olhava para a tela “Me passa o celular, Ladybug.”

Em um movimento lento, ela girou o corpo sem tirar os olhos do nome de Tikki piscando na tela e sentiu Chat tirar o celular do meio dos seus dedos em um movimento rápido. Ele puxou algo do bolso e o encaixou em uma das entradas do aparelho, apertando a tela com força e deixando-o virado para cima sobre a palma da mão aberta.

“Ladybug?” a voz do homem soou no viva-voz e rebateu pelas paredes da Miraculous. Ele não parecia muito velho, nem muito novo “Nós estamos com a sua amiga, mas somos pessoas compreensivas e por isso estamos ligando para sugerir uma troca.” o homem fez uma pausa, parecendo calmo, e quando notou que não houve resposta do outro lado, prosseguiu “O antídoto em troca da sua preciosa Tikki.”

Ouvir o nome de Tikki sair pelo telefone ferveu o sangue de Ladybug. Seja lá quem aquele maldito fosse, ele não tinha sequer o direito de pronunciar o nome de Tikki, e todo o medo que ela sentia diluiu embaixo de uma grossa camada de raiva que borbulhou até chegar a seus lábios.

“Seus desgraçados, o que vocês fizeram com ela?” Ladybug cuspia as palavras cheias de ódio.

“Nada ainda, mas até amanhã à meia-noite eu posso mudar de ideia. Esse é o seu prazo.” ela conseguia perceber que o homem sorria enquanto falava e ela cerrou os dentes com a reação dele.

“Onde faremos a troca?” Chat assumiu a conversa e Ladybug sentiu as sobrancelhas franzirem com o tom da voz dele, que parecia mais uma ordem do que uma questão. Ela mais uma vez invejou o auto-controle dele.

“Ah, você deve ser o parceiro. Como é mesmo? Chat Noir?” a fala do outro lado da linha disse em tom de escárnio “A troca deverá ser feita em frente ao Teatro de Marionetes do Campo de Marte, mas nós queremos que a Ladybug faça a troca. E que vá sozinha.” o homem adicionou a última parte com ênfase, fazendo Ladybug estremecer.

“Eu quero falar com a Tikki!” Ladybug aproximou o rosto do celular, bradando “Quero saber se ela está bem!”

Um silêncio soou do outro lado da linha, fazendo Ladybug e Chat se entreolharem apreensivos.

“Ladybug?” a fala de Tikki era um murmúrio cansado.

“Tikki, você tá bem? Tá machucada?” Ladybug começou a perceber que os olhos beliscavam com a chegada das lágrimas cheias de alívio e nervosismo.

“Eu tô bem.” a alegria sempre presente na voz de Tikki não estava mais lá, eles a haviam roubado de todos, e Ladybug nunca os perdoaria por aquilo. Menos de um segundo depois, Tikki falou firmemente do outro lado da linha “Não tragam o antídoto, Ladybug! Não deixem isso-“ e a voz dela foi cortada por um baque metálico.

“Tikki? TIKKI!?” Ladybug gritava a plenos pulmões.

“Você tem até a meia-noite. Não estamos de brincadeira, Ladybug. Se você não aparecer ou se mais alguém estiver junto, nós matamos ela.”

E então silêncio.

Ladybug sentiu toda a raiva estremecer seu corpo e as lágrimas que estavam acumuladas atrás das pálpebras começaram a transbordar incontrolavelmente, fazendo-a cair sobre os joelhos. Ela levou à mão até a cintura e agarrou o ioiô, golpeando-o contra o chão com força, repetidamente.

“É tudo por causa disso! Tudo por causa dessa merda!” ela sentia o ferro do ioiô bater contra o chão com estalos altos e seus dedos doerem com o impacto, mas algo segurou o braço dela, impedindo-a de continuar.

“Ladybug! Não! Nós precisamos disso!” Chat estava ajoelhado ao lado dela, agarrando-a pelo pulso.

“É tudo culpa disso! Se eu não fosse a Ladybug, nada disso teria acontecido!” Ladybug gritava tão alto que sua garganta ardia “Tudo minha culpa!” ela sentiu o corpo inclinar-se em direção ao chão e cedeu às lágrimas, soluçando “Tudo minha culpa.” repetia notando a raiva transformar-se em agonia dentro de seu peito.

“Não, não é.” ela percebeu que algo apoiou-se sobre suas costas e a envolveu com os braços, controlando os tremores causados pelos soluços, e notou que Chat havia aninhado o corpo contra o dela “Vai ficar tudo bem, não é sua culpa. Esse é um mundo horrível, cheio de pessoas que viraram monstros, my lady, mas nós estamos aqui pra que isso não continue acontecendo.” a voz de Chat soava calma, e ela sentia a vibração do peito dele contra as suas costas cada vez que ele falava “Nós precisamos ser fortes pela Tikki, e eu sei que você é capaz disso.” ela sentiu as lágrimas rolarem pelo rosto e respirou fundo, tentando controlar o choro “Vamos, fica calma, eu tô aqui.”

Ladybug apoiou-se sobre os braços e levantou devagar, pondo-se novamente de joelhos enquanto passava as mãos pelo rosto para secar as lágrimas. Olhou para Chat Noir que estendeu a mão devagar na direção do seu rosto, aconchegando-a na curvatura do seu pescoço e secando uma das lágrimas com o polegar. O toque dele era frio como a noite, mas familiar como o calor do sol e ela fechou os olhos deixando-se levar pelas sensações.

“Tudo isso é muito novo pra você, eu sei disso.” os olhos dele estavam levemente franzidos de preocupação “Mas eu sei tudo que você fez, e sei que você é capaz de muito mais.” ela já havia parado de chorar, mas ele não afastou a mão do rosto dela “Você é muito especial, Ladybug.” ele puxou levemente o canto de um dos lábios em um sorriso e ela sentiu-se sorrir de volta, segurando uma nova torrente de lágrimas “Não é pra chorar!” Chat riu e Ladybug o acompanhou.

“Olha aqui.” ele chamou-a de volta à realidade, tirando a mão do rosto dela e erguendo o celular, retirando o dispositivo que estava grudado em uma das entradas “Eles nunca foram muito espertos.” Ladybug notou que um sorriso despontava no rosto dele.

Ela aproximou-se, inclinando-se na direção dele e analisou os números azuis que piscavam no dispositivo, procurando na memória onde já havia visto valores parecidos com aquele. Sentiu os olhos semicerrarem e mordeu o canto do lábio inferior enquanto raciocinava.

Chat Noir segurava o dispositivo enquanto percorria os traços faciais de Ladybug, e algo apertou dentro do seu peito quando o olhar caiu sobre os lábios rosados dela no exato momento em que ela repuxou o canto inferior da boca com a ponta dos dentes. Ele lembrou de quanto havia encostado nos lábios dela com a ponta dos dedos e desejou tocá-la novamente, mas engoliu a seco, segurando os impulsos.

“Isso são coordenadas?” ela finalmente falou, erguendo os olhos na direção de Chat e percebendo que o rosto dele estava vermelho “O que foi? Você tá bem? Tá doente?” ela perguntou, preocupada, olhando-o de perto e erguendo a mão, repousando-a sobre a testa dele. Ele não parecia com febre.

“Não, não, eu tô bem.” ele se ergueu do chão, tentando distrair-se da sensação do toque dela e pigarreando para disfarçar “São coordenadas sim.” ele sorriu abertamente “E a melhor parte é que eu conheço esse lugar como a palma da minha mão. Amanhã, com certeza, vamos trazer a Tikki de volta pra casa.” ele riu satisfeito e o rosto de Ladybug se iluminou, fazendo-a erguer-se do chão em um pulo.

Chat Noir ouviu o riso de Ladybug e sentiu o coração aquecer. Sabia o quanto Tikki e a Miraculous eram importantes para ela, e o quanto toda aquela situação a estava fazendo sofrer. Ela era uma garota forte, mas tudo que ocorrera a estava derrubando pouco a pouco, e ele conseguia perceber no rosto dela o cansaço dos últimos dias claramente estampado.

“Eu acho que você precisa ir pra casa e descansar um pouco.” ele sugeriu.

“Eu não vou conseguir.” ela esfregou a mão no rosto. Sabia que ele tinha razão, mas não queria ficar sozinha com os próprios pensamentos.

“Mas precisa tentar. Você não tem aula pela manhã?” falou com um tom de recriminação.

Ladybug bufou. Aula parecia a coisa menos importante do mundo perto de tudo aquilo que estava acontecendo. Ela não tinha nem a vontade e nem a motivação para levantar pela manhã e sentar no meio de um monte de gente que não fazia a mínima ideia do que ela estava passando. E pior ainda, sentar ao lado de Adrien e olhar a cara dele debochando dela o dia inteiro. Ela sentiu um gemido vibrar suas cordas vocais e baixou a cabeça.

Chat Noir viu a reação dela e lembrou das palavras de Plagg lhe dizendo que aquele não era o momento ideal para contar tudo para Ladybug. Que ela estava passando por muitos problemas e que seria difícil mantê-la estável quando tudo viesse à tona. Chat sentiu algo apertar-lhe no peito e notou, pela maneira com que ela franzia a testa, que Plagg tinha razão, e ainda assim ali estava ela, lidando com a bola de neve de problemas que rolava e aumentava de tamanho a cada passo que eles davam.

“Vamos, vai pra casa.” ele insistiu “Você precisa estar bem para a noite. Nesse meio tempo, eu vou ficar por aqui e esperar o Plagg voltar para traçarmos um plano. Não precisa se preocupar, você não tá sozinha nisso.”

Ladybug sentiu-se sorrir ao ouvir as palavras de Chat. Mesmo com todos os problemas, ela sabia que podia contar com ele. E pensar que não fazia nem uma semana que ela havia sido contra a ideia de tê-lo na equipe.

“Mas você vai ficar aqui? Não vai descansar?” ela perguntou enquanto guardava o celular no bolso.

“Mais tarde. Vou esperar o Plagg aqui, então pode ir na frente. A gente se encontra aqui às oito da noite, pode ser?” ela sacudiu a cabeça em sinal positivo e caminhou até a cobertura da agência, percebendo que ele caminhava atrás dela, e os dois sentiram o vento gelado da noite atravessar seus uniformes quando chegaram ao lado de fora.

“O inverno vai ser insuportável esse ano.” ela franziu o nariz, olhando para cima e procurando estrelas que não estavam lá.

“Inverno é legal, você não gosta?” ele perguntou, segurando o riso com a careta que ela fez.

“Tá brincando? É horrível! Não importa quanta roupa você coloque, nunca esquenta, e as orelhas ficam sempre geladas, mal dá pra sentir os dedos das mãos e toda vez que você tenta falar os seus lábios racham.” ela gemeu, sacudindo o corpo para espantar os pensamentos, e ouviu Chat rindo.

“Você é uma figura, Ladybug.”

“Vou considerar isso como um elogio.” ela tirou o ioiô da cintura, arremessando-o sobre o prédio ao lado e olhando de volta para ele com um sorriso debochado nos lábios.

“Foi exatamente a minha intenção, my lady.” Chat fez uma reverência exagerada e Ladybug rolou os olhos, correndo sobre o prédio e arremessando-se noite adentro.

Chat Noir ficou observando-a se afastar, e somente quando a perdeu de vista que percebeu que ainda tinha um sorriso bobo cravado no rosto.

 

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O despertador tocou pela quarta vez quando Marinette finalmente escutou e o desligou conscientemente. Ergueu as cobertas e jogou as pernas para fora da cama sem abrir os olhos, bocejando a seguir e arriscando espiar por entre as pálpebras, falhando cerca de meia dúzia de vezes antes de conseguir focar a visão na luminosidade da manhã.

Aulas. Malditas aulas.

Jogou o corpo para fora da cama e foi até a cômoda, abrindo a última gaveta e tirando o fundo falso. Quando estava com o uniforme de Ladybug nas mãos percebeu que não era aquilo que ela queria. Fora ali para pegar uma muda de roupas limpas e acabara com o uniforme nas mãos. Os últimos dias estavam claramente deixando-a louca. Guardou o uniforme e abriu a segunda gaveta, escolhendo as roupas e levando-as no colo em direção ao banheiro para tomar banho e iniciar o que estava para ser, possivelmente, um dos piores dias da sua vida.

Marinette andou até a escola em passos rápidos para evitar chegar mais tarde do que o normal. O primeiro período era de língua francesa, e normalmente a própria professora já chegava atrasada, então seguiu pelas ruas até alcançar o colégio e atravessar o pátio de esportes, dirigindo-se à sala de aula. Para seu azar, a professora já havia chegado. Para sua sorte, ela estava virada de costas escrevendo no quadro, e Marinette pôde se esgueirar em silêncio até seu lugar.

Conforme foi chegando à sua classe, notou a cabeleira loira de Adrien antes de conseguir ver a expressão no rosto dele, então desviou o olhar lembrando do caos e do amargor das palavras da noite anterior. Ela sabia que havia sido dura com ele, mas não o queria perto de sua vida novamente, não depois de tudo o que havia acontecido, e não tinha outra forma de ter sido mais clara.

Ela sentou na cadeira e olhou para o lado, cumprimentando Alya, que sorriu animadamente para ela.

“Onde você esteve?” Alya sussurrou, abaixando-se.

“Trabalho de História. Trabalho na padaria. Trabalho por tudo.” a última parte referia-se à Miraculous, mas Marinette não podia entrar em detalhes. Era uma parte da sua vida que não podia dividir com mais ninguém, exceto Tikki, Plagg e Chat “E tem mais por vir.” suspirou ao terminar a frase.

“Tem algo com que eu possa ajudar?” Alya franziu a testa percebendo que Marinette parecia cansada.

“Quem dera tivesse, eu queria mesmo que você pudesse ajudar.” a sinceridade era tanta que seu peito chegou a doer “Mas por enquanto são coisas que só eu posso fazer. Não se preocupa que se eu precisar de ajuda não vou pensar duas vezes em pedir.” ela sorriu, sussurrando para a amiga ruiva.

Alya sorriu de volta e as duas olharam para frente, prestando atenção no restante das aulas, que se arrastou por uma eternidade.

O terceiro período consistia em uma aula de filosofia onde a professora começou a debater sobre a dor da perda em diversos âmbitos na vida. Morte. Abandono. Isolamento. Marinette sentiu-se perder na aula, e logo sua cabeça estava em um turbilhão de pensamentos e memórias que misturavam todas as últimas perdas que ela havia sofrido. Depois de tantos minutos dentro da própria cabeça, começou a perceber que, no final, ela sempre ela quem ficava para trás.

Não importava o que fizesse ou o quanto se esforçasse, de uma forma ou outra a vida sempre parecia querer que ela ficasse sozinha, e por um minuto se perguntou se aquilo não era o que deveria fazer. Se não deveria simplesmente aceitar o próprio destino e isolar-se de tudo e de todos. Não seria não ter ninguém a solução para não perder mais ninguém?

Todas as memórias do passado começaram a invadir sua mente em um looping horrível e incontrolável. Ela sentiu a respiração ficar acelerada e colocou a mão sobre o peito, tentando conter a percepção que lhe arrebatava. Notou que o estômago revirava e começou a sentir náuseas. Ela conhecia a sensação, até bem demais, mas há meses não sentia aquilo. Há meses não tinha uma crise de ansiedade.

Ela ouviu gritos e estampidos de tiros perto de sua cabeça. Ouviu a voz da Tikki pedir por ajuda. Ouviu Adrien gritar, dizendo que não a queria perto dele. Todos os pesadelos que tivera começaram a se misturar, mas sabia que eles não eram reais. Nada daquilo era real. O passado somado aos eventos da noite anterior estavam se fundindo em uma torrente de pânico. Ela fechou os olhos com força e cravou os dedos na madeira da classe para controlar os tremores.

“Hey...” ouviu a voz murmurar, mas tudo parecia muito distante. Quando virou o rosto, viu Adrien a olhando com os olhos arregalados e as sobrancelhas levantadas em espanto.

Ela não podia lidar com ele, não naquele momento. Não tinha condições emocionais. Apertou as pálpebras com força e tragou uma grande quantidade de ar.

“Professora, e-eu posso sair um pouco? Não estou me sentindo muito bem.” Marinette tentou controlar a voz o máximo que pôde, mas as palavras saíram trêmulas.

“Pode sim, Marinette.” pela maneira com que a professora lhe olhou, Marinette imaginou que realmente não deveria parecer bem. Notou, na visão periférica, que Adrien não havia desviado o olhar do rosto dela.

Marinette juntou os materiais e viu a expressão apreensiva de Alya sobre si. Ela não conseguiu falar nada. Se abrisse a boca para dizer qualquer coisa, desmoronaria ali mesmo, no meio da sala de aula, então fez um sinal com a cabeça, indicando que estava cansada, e forçou um sorriso, ao qual a amiga respondeu com um olhar preocupado, mas concordante.

Ela ergueu-se da classe e juntou os materiais, sentindo os dedos contraírem contra os livros nos braços e doerem, tamanha era a força que fazia. Todavia, naquele momento, qualquer dor era melhor do que a que parecia dilacerar seu peito.

Ela cambaleou pelos corredores da escola, olhando as placas de saída em cima das portas como se elas fossem capazes de salvar sua vida. Precisava sair dali. Precisava sair da escola. Da cidade. Do mundo.

“Marinette!” ela ouviu alguém lhe chamar, mas não quis se virar. A dor no peito começava a piorar, e ela sabia que mais um pouco mal seria capaz de caminhar. Ficava cada vez mais difícil respirar “Hey!” ouviu a voz lhe chamar de novo e algo lhe puxou o braço com força. Quando virou o rosto, Adrien a olhava com a testa franzida profundamente em preocupação.

Ela não conseguia falar. As palavras subiam até sua boca, mas sua língua não obedecia, então ela retribuiu o olhar enquanto tentava respirar normalmente.

“O que houve?” Adrien se abaixou para olhá-la nos olhos, segurando-a pelo antebraço. Percebeu que as pupilas dela estavam dilatadas e a respiração era ofegante. Ele já havia visto aquela reação. Já havia sentido aquilo na própria pele “É ansiedade? É pânico?” Adrien cerrou os dentes ao ver Marinette acenar positivamente com a cabeça.

Desde quando Marinette tinha crises de pânico? Ela sempre fora a garota mais positiva que ele conhecera. Ela sempre procurava o lado bom das coisas, e justamente por aquele motivo muitas pessoas se aproximavam dela, sendo atraídas pela alegria e energia que ela tinha. Mas ali, olhando para Marinette no meio do corredor da escola, só o que ele conseguia ver era uma garota perdida e com medo.

Adrien ergueu o braço para colocá-lo sobre o ombro dela e Marinette se encolheu, fechando os olhos como se estivesse se defendendo de um ataque. Ele sentiu o coração se despedaçar com a imagem.

“Eu não vou te machucar, Marinette.” ele engoliu as palavras junto com o gosto amargo da angústia que lhe preencheu o peito “Eu prometo que não vou.”

“Mari!” a voz retumbou pelo corredor da escola e Adrien virou-se para ver Nathanaël se aproximando em passos largos e rápidos. No momento em que Adrien baixou o rosto para olhar Marinette, sentiu-se ser empurrado com violência.

Adrien arregalou os olhos na direção de Marinette, e Nathanaël estava já estava ao lado dela, envolvendo-a pelos ombros com o braço direito.

“Dá o fora daqui, Agreste.” Nathanaël rugiu entre os dentes, juntando Marinette contra o peito.

Nathanaël vira as crises de ansiedade de Marinette no melhor e no pior, e ficara ao lado dela sabendo que todo o sofrimento pelo qual ela passara tinha como principal razão aquele cara. Nathan nunca tivera nada contra Adrien antes, muito pelo contrário, o garoto sempre fora educado e gentil com ele, mas conforme o tempo foi passando e Nathanaël vira o estrago que Adrien fizera na vida de Marinette, as coisas mudaram da água para o vinho. O resultado foi que Nathanaël não suportava mais Adrien.

Nathan assistira de longe enquanto Marinette se destruía tentando juntar os pedaços que Adrien perdia no meio do caminho, mas o ruivo não se sentia digno de interferir. Percebia o quanto Marinette se importava com Adrien, então achou que a melhor solução era observar de longe. Todavia, tudo mudou na noite em que voltava do cinema e vira Adrien envolvido em uma briga com dois caras que pareciam pelo menos uns 5 anos mais velhos do que ele.

Uma chuva fraca caía sobre Paris e Nathanaël estava esperando um táxi para voltar para casa, quando ouviu gritos não muito longe dali e uma comoção de pessoas se aglomerando. Nathan ergueu-se sobre a ponta dos pés para enxergar sobre o ombro das pessoas, e lá no meio estava Adrien enchendo o rosto de um garoto de socos consecutivos. As sobrancelhas do ruivo haviam se erguido enquanto viu o agredido cair desacordado e outro garoto levantar atrás de Adrien e pegar o loiro pelo pescoço, aplicando uma chave de braço. Mas em um movimento rápido, Adrien inclinara o corpo para frente e atirara o segundo garoto no chão com um baque surdo.

As pessoas à volta gritaram em comemoração, e quando viram que o único em pé era Adrien e que a luta estava acabada, todos se dispersaram. Nathanaël não conseguiu se mover. Ele via os ombros de Adrien sacudindo com a respiração ofegante e sangue escorrendo pelo punho direito dele, caindo sobre uma poça de chuva que se formava no chão. Notou Adrien se abaixar e agarrar a gola do último cara que caiu no momento em que ele gemeu de dor.

“Você não faz ideia no que está se metendo, cara.” a voz de Adrien era baixa, mas Nathan estava perto o suficiente para ouvir “É bom aquele carregamento chegar amanhã antes do meio-dia, ou eu vou voltar. E da próxima vez, eu não vou ter tanta paciência.” Nathan viu Adrien largar a gola do rapaz e atirá-lo de volta no chão.

“A droga n-não tá com a gente, cara.” o sujeito no chão se esforçava para falar. Nathan deu dois passos para trás. Ele sentia algo correr pelo rosto, mas não tinha certeza se era chuva ou se estava suando frio.

“Não me interessa. Se não está, vão dar jeito de conseguir.” Adrien falou e chutou o garoto no chão, virando-se para ir embora e dando de cara com Nathanaël que sentiu-se congelar com o olhar dele.

Adrien carregava uma expressão de ódio puro. Os olhos verdes tremeluziam no escuro da noite, refletindo a pouca luz dos postes na rua e Nathan viu o loiro colocar as mãos no bolso e passar por ele sem dizer nada. Será que Adrien não o tinha reconhecido? Virou-se apreensivo para olhar para trás, mas Adrien não estava mais lá.

E ali estava Nathan, no meio da escola, ajudando uma garota arrasada pelo passado a colocar um passo na frente do outro e caminhar sem quebrar em mil pedaços. Não ficaria mais em silêncio. Não deixaria Adrien chegar perto do coração dela e destruí-lo de novo.

Nunca mais.



Notas finais do capítulo

Espero muito que estejam gostando da história! ^___^
Lidar com tantos personagens ao mesmo tempo é bem trabalhoso, mas estou fazendo o máximo pra trazer tudo do universo de Ladybug para esse AU! ;3
Ah, se estiverem gostando não deixem de favoritar e comentar, me deixa muito feliz saber tudo que vocês estão pensando! ♥



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