Castelobruxo - Aliança Enfeitiçada escrita por Éden


Capítulo 2
Capítulo 2 - Jouvidulus


Notas iniciais do capítulo

Boa leitura!



 

 

O banquete do jantar já havia se esvaído para dentro do estomago dos jovens bruxos, também pudera, frango, quiabo, arroz temperado e feijão tropeiro aos montes, literalmente. Graças a cozinheira da escola, a Dona Tina, comer se transformou em uma divertida aventura no Havaí, com o arroz se tornando um vulcão e expelindo o feijão sobre uma floresta de quiabo com grandes pedras feitas de coxas de frango. Miguel ficou satisfeito logo no primeiro prato, assim como Maria, que já se tornava amiga intima da dupla. Rodrigo continuava remoendo os ossos e bebendo o caldo, segundo ele, sua espécie élfica tinha um metabolismo assustadoramente rápido e, por este motivo, andava tão magro. Maria Flor contava de sua vida. Ela era natural de Manaus, mas vivia em São Paulo com os pais, indígena, ela era uma espécie de princesa de sua tribo perdida e por isso não podia cortar os cabelos.

─ Atenção... ─ proclamava a simpática senhorinha Alba, ajeitando seus cabelos grisalhos para dentro do chapéu florido que usava. Todos olharam depressa para a varanda dos professores  ─ O banquete esta por encerrado, já que, a meu ver, estão todos estufadinhos. Logo, o professor responsável por sua casa vai formar uma fila e direciona-os a seus dormitórios. Recomendo que durmam bastante, amanhã terão um longo dia ─ e então, Alba acenou para os alunos e caminhou para a sala dos professores. Miguel ficou observando todo o trajeto da mulher, que durante o jantar não havia desgrudado os olhos do rapaz.

─ Preciso ir agora, vi a professora Aldrina saindo da varanda ─ disse Maria Flor, erguendo-se da mesa e caminhando até o grupo de Golfinos ─ Vejo vocês na aula de Feitiços! ─ gritou a garota, caminhando com o grupo de alunos.

─ Javalentes, atenção! ─ gritou um rapaz musculoso, de cabelo curto estilo militar. Miguel e Rodrigo saíram da mesa e foram de encontro ao homem ─ Sou Érico. Érico Papoula ─ a voz grave do professor, misturada a sua seriedade e beleza rústica, faziam as garotas suspirarem apaixonadas. Na camisa verde que usava, o brasão da casa onde presidia estava desenhado. Miguel não se surpreendeu, era padrão demais para atrair sua atenção ─ Diretor de sua casa e professor de Educação não-física. Minha família pertence a essa casa a muito mais tempo que a existência de seus bisavós. Não tolero bobagens que possam manchar o nome Javalente. Entenderam? ─ todos os alunos fizeram sim com o movimentar da cabeça, com exceção de Rodrigo, que, de braços cruzados encarava Érico ─ Eu perguntaria seu nome, mas esse seu sorrisinho petulante te denuncia, Pavanelli ─ exclamou o musculoso, encarando Carioca.

─ Papoula. ─ desafiou Carioca, com os olhos cerrados e a testa franzida.

─ Achei que tinham proibido sua trupe de procriar ─ disse o rapaz, cruzando os braços e fechando a cara ─, mas, só achei mesmo. Todo ano tem um Pavanelli para tirar a calma da escola. Seja ele o papai Pavanelli, ou a mamãe Pavanelli, ou os Pavanelli filho. Espero que se comporte, não vou tolerar brincadeiras esse ano! ─ gritou o professor, aproximando-se ao rosto de Carioca e bufando. Miguel percebia que as mãos de Erico estavam inquietas, prontas para acertar um doloroso golpe, mas o elfo não cedia. Continuava encarando sem dizer uma palavra.

─ Esta tudo bem aqui? ─ perguntou uma voz grave, acompanhada de passos se dirigindo para o grupo de Javalentes. Miguel moveu o rosto para ver quem perguntara e se surpreendeu ao ver um rapaz muito parecido com Rodrigo, com cabelo curto, corpo franzino, olhar profundo e um pouco mais alto que os alunos. Carioca sorriu de imediato, seguidamente empurrou Erico e correu para junto do Elfo.

─ Esta sim, Pavanelli filhinho mais velho ─ respondeu Erico, dando passos em direção do corredor ─ Venham Javalentes, deixem os dois orelhudos se entenderem ─ e então, o grupo de alunos seguiu o musculoso para fora do salão, com exceção de Miguel e Rodrigo.

─ Miguel, esse é o meu irmão, Rafael! ─ exclamou Rodrigo, eufórico. Rafael estendeu as mãos e chacoalhou suas orelhas.

─ Muito prazer, Senhor Miguel ─ disse Rafael.

─ Para com essa bobagem de formalismo ─ disse Rodrigo, dando um leve tapa nas costas do irmão. Miguel abriu um sorriso e deu uma leve gargalhada ─ Ninguém vai te dedurar para a Alba!

─ Tenho medo mesmo é da Aldrina ─ sussurrou Rafael, limpando o suor da testa ─ Aquela lá parece estar em todos os lugares.

─ Até nos sonhos? ─ perguntou Miguel, irônico.

─ Principalmente nos sonhos, quer dizer, pesadelos. Uma vex, quando ainda era bacuri e estava estudando, tive o sonho de estar beijando a Betina, que na época era aluna, aliás, não só aluna, mas também a aluna mais bonita da escola, e quando acordei, tive a desgraça de acordar na classe da Aldrina, com todos, inclusive a Tina, me encarando ─ Rafael suspirou, enraivecido ─ e, daquele dia em diante, quando o talarico do Erico descobriu quem eu amava, fez de tudo para conquistar a Tina.

─ Então é por isso que você não gosta dele, Carioca? ─ perguntou Miguel, recebendo um duplo “não” de ambos os elfos.

─ A desavença de Pavanelli e Papoula existe há séculos. Papoulas pertenciam a um grupo de bruxos malditos que caçavam, matavam e vendiam criaturas mágicas aos Peros, isso antes da Aliança ─ exclamou Rafael, pensativo ─ Acho que vocês deviam ir para o dormitório, esta começando a anoitecer e logo começa a patrulha noturna das caiporas. Amanhã vão ter tempo o bastante para conversar! ─ ponderou o Elfo, dando um leve e convidativo empurrão em Rodrigo e Miguel, que seguiram em frente, enquanto Rafael se dispersava na direção da varanda dos professores.

Cada torre da escola, com a exceção da principal, pertencia a uma das casas. Em sua parte superior existem dormitórios, salas de convivência e banheiros, separados por sexo. Na parte inferior, classes estudantis de professores que já frequentaram a casa na época de estudo, que abrigam todos os alunos da escola para suas aulas. Miguel havia decidido passar um tempo com os Javalentes, ainda não tinha muitos amigos em outras casas.

A torre dos Javalentes é a primeira que se avista do jardim. No alto, um lindo desenho de javali que, de acordo com o que ele ouviu de Carioca, ganha vida a noite e fica rodeando por toda torre, a procura de invasores ou fujões, e, caso encontre, solta um alarmante brado/uivo com som metálico.

Cada torre tinha assustadores dez andares por dentro, mas por fora não pareciam passar de cinco. De fato, aquilo era enorme, mas graças ao bom Deus, existia um elevador que conectava todos os andares. Ambos os rapazes não faziam a mínima ideia sobre qual andar ficavam os dormitórios, então, contando com a sorte, Miguel jogou no três. O elevador rodopiou, virou de ponta cabeça, chacoalhou e chegou ao andar, fazendo um delicado barulhinho de sino. Como golpe de sorte, o rapaz acertou em cheio, percebendo que ainda haviam alunos correndo para lá e para ca, a procura de quartos vazios. Apenas meninos ocupavam aquele lugar, era o dormitório correto.

─ Graças a deus esse é o lugar correto ─ disse Rodrigo, se levantando e estendendo a mão para ajudar Miguel a se levantar também. Depois, limpou seu uniforme e olhou ao redor a procura de algo ─ Cara, cadê nossas malas? ─ perguntou o elfo, assustado. Migel olhou dentro do elevador, não estavam lá. Depois, coçou o queixo confuso, enfim, percebeu que ninguém ali carregava malas, seria esse o motivo para tanta movimentação?

─ Não sei, mas algo me diz que eles sabem ─ respondeu o rapaz, tomando a frente e caminhando na direção da multidão agitada.

Os bruxos pareciam malucos! Corriam para um lado, para outro, entravam nos dormitórios e saiam, alguns brigavam, outros discutiam e muitos faziam cabo de guerra com as malas. Miguel comparava isso às festas que davam na comunidade que vivia, pessoas brigando desesperadamente pela comida servida, crianças fazendo cabo de guerra com brinquedos e adultos discutindo bobagens. Era óbvio que não se podia comparar uma coisa a outra, afinal, na comunidade eles tinham fome, crianças não tinham brinquedos e adultos não tinham ninguém para lutar por eles, completamente diferente da situação atual. Metade desses bruxos vieram de família rica, tinham o que queriam quando queriam, por que tanto alvoroço por malas? A situação era constrangedora, Miguel ficou parado no centro de tudo, enquanto Rodrigo correu para tomar sua mala de um Francês vindo da Guiana, que não entendia nada que o elfo falava.

Miguel estava pronto para explodir e gritar um estrondoso “Pare” quando viu um raio branco luminoso cortando a sala e se transformando em pequenos brilhos, que caiam sobre os bruxos, dando-lhes uma sensação de paz imediata, fazendo eles se acalmarem e encararem alguém que acabava de sair do elevador. Miguel, menos explosivo, virou o corpo e percebeu uma mulher gordinha, de cabelos cacheados, ombros largos e boca carnuda, acompanhada de uma criatura humanoide com cabelos de fogo e pés virados.

─ Oh minha Iemanjá! Pra que tanta correria? ─ perguntou a mulher, guardando a varinha dentro do pijama que vestia ─ Criaturas maravilhosas os Curupiras. São leais a seus amigos, protegem a natureza e pode apaziguar criaturas mágicas e animais em guerra... Quem dera esse poder pudesse ser usado em Pero. Brigada Acir, meu dengo. Pode voltar para patrulha. Eu tomo conta aqui! ─ disse a mulher. Acir chacoalhou a cabeça e correu para dentro do elevador ─ Pra quem me conhece um cheiro, para quem não conhece, Amara, aula de Feitiços, que, aproposito começa amanhã bem cedo para os alunos do primeiro ano. Meus negos, quantas vezes vou precisar explicar? É só escolher um quarto, sentar na cama e falar JOUVIDULUS! Com bastante convicção, não precisa nem de varinha, rapidamente sua mala vai aparecer.

─ Amara, a gente tenta explicar, mas esses “Fulaninhos” vindos de sabe-se lá onde, ficam desesperados, com medo de roubarem as porcarias Pero deles! ─ respondeu um aluno esnobe do segundo ano, tinha porte de rico e parecia ser do tipo que humilha aqueles que ele acha inferior. Amara torceu o nariz e franziu a testa, irritada.

─ Senhor Bernardo, não sei se soube, mas termos repugnantes como “Fulaninhos” se referindo a vossos colegas bruxos foram proibidos há um século ─ respondeu ela, atordoada ─ E conheço muito bem a ajuda que você e SEU grupo de amigos dão. Acha que me esqueci do menino do primeiro ano que VOCÊS penduraram sobre a estátua da Senhorinha Filomena? ─ ela fechou a cara e encarou Bernardo, que, junto de seus amigos caminharam para o primeiro quarto do lado direito, de caras amarradas ─ Melhor vocês irem também, começaremos amanhã assim que o galo cantar ─ disse Amara, observando os alunos se dispersando para os quartos, em especial Miguel, o qual ela não havia tirado os olhos até que ele entrou no ultimo dos quartos do dormitório, acompanhado de Rodrigo e outros dois rapazes. Depois que o ultimo se foi, a mulher foi caminhando para o elevador, se segurou e apertou o botão do quarto andar.

No quarto, Miguel se ajeitava na parte debaixo de uma das duas beliches, enquanto Rodrigo ficava em cima e os outros dois rapazes, Fernando, um sulista de Santa Catarina que parecia ter saído de um dos filmes adolescentes da Disney, loiro de olhos azuis, e Diego, um boliviano radicado no Brasil, dividiam a outra.

─ Yo soy boliviado, mas sei falar português muy bien! ─ exclamou Diego, falando propositalmente em espanhol. Depois, sentou-se na beira da cama, fechou os olhos e se concentrou ─ JOUVIDULUS! ─ proclamou, convicto. Depois, junto a sua mão direita, se materializou uma mochila no estilo aventureiro. Diego sorriu, agarrou a mala e correu para colocar suas coisas em sua cômoda. Fernando olhava tudo da escola com um carinho especial, sorria para os mais bobos truques de mágica, alguém que se surpreendia a cada momento. Se sentou na beira da cama e fechou os olhos.

─ JOUVIDULUS! ─ e então sua mala surgiu, envolta em sua mão direita, ele sorriu e jogou-a sobre a cama ─ Guris, não fiquem assustados com meu encanto por magia! Sou filho de humano, ou Pero, como falam aqui! ─ indagou, surpreendendo todos os colegas, que acreditavam que o amigo era filho de bruxos. Depois foi a vez de Rodrigou, que jogou suas pernas beliche a baixo, quase acertando Miguel. Fechou os olhos, mexeu as pontiagudas orelhas e abriu um confiante sorriso.

─ JOUVIDULUS! ─ enfeitiçou, confiante. Em pouco tempo sua mala se materializou, mas, próximo a agarrara, ela se abriu como uma explosão e lançou seus pertences por todo quarto, calças, camisas e cuecas, que literalmente, foram parar na cabeça dos amigos. Azar de Diego, que acabou tendo a ultima peça dita presa em seu rosto ─ Droga ─ ele disse, descendo da beliche, agarrando as roupas que se espalharam no chão e nos rostos dos colegas, que se debulhavam em gargalhadas. Depois que agarrou todas, se aproximou de sua cômoda e enfiou todas as peças lá, sentou-se ao lado de Miguel e esperou que ele fizesse o feitiço. O rapaz fechou os olhos, estendeu sua mão e se concentrou.

─ JOUVIDULUS! ─ ele gritou, e, instantaneamente, sua mala apareceu, mas não sozinha, acompanha de embrulhos, presentes, guloseimas e livros, todos endereçados a Miguel ─ Mas... o que é tudo isso? ─ perguntou, confuso.

─ Presentes. A Maria não disse que ser um infante te traria grandes privilégios? Todo querem ser seus amigos ─ perguntou Rodrigo. Miguel olhou ao redor e foi mexendo nos presentes, agarrou um livro de contos bruxos e foi ler a dedicatória:

Querido Maciel. Me chamo Daiana, você deve ter me visto na cerimônia das cuatro pontas, acho que podemos ser bons amigos, vendo que pertencemos a mesma clase social.

Te vejo qualquer hora Matiel

Daiana

─ Esse é da Daiana ─ Miguel fez uma expressão de surpreso ─ ela me deu um livro, mas quem anda precisando ler é ela... ─ comentou o rapaz, jogando o livro e outros presentes que ganhara sobre a cômoda, depois, ajeitou sua cama e se deitou. Rodrigo, Diego e Fernando fizeram o mesmo ─ De onde do Rio tu é, Rodrigo? ─ perguntou, tentando puxar assunto.

─ Volta redonda ─ respondeu. Miguel fez uma expressão de confusão e coçou a nuca.

─ Então você não é carioca ─ ponderou Miguel ─ Você é Fluminense!

─ Prefiro a morte! ─ gritou Rodrigo, estupefato ─ Sou Flamengo até o fim dos meus dias! ─ respondeu ele, convicto. Miguel deu uma gargalhada e bocejou.

─ Ta legal, Legolas ─ ironizou ─ Boa noite...

─ Boa noite ─ respondeu Rodrigo.

─ Boa noite ─ respondeu Fernando.

─ Mongoncuaes ─ disse Diego, assustando todos os colegas.

─ Que?

─ Que?

─ Que?

─ Ah, ele ta dormindo ─ disse Fernando ─ deve estar sonhando.

─ Supernormal falar Mongoncuaes quando sonha ─ ironizou o elfo.

─ Boa noite ─ respondeu Diego, ainda dormindo. E então todos os rapazes cobriram o corpo e fecharam olhos, pegando no sono facilmente.

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When it all falls, when it all falls down

I'll be your fire when the lights go out

When there's no one, no one else around

We'll be two souls in a ghost town

 

Assim que o dia clareava, a melodia Ghosttown, de Madonna, ressoava nos ouvidos de todos os alunos da escola, cantada por uma voz galinácea, mais pareciam gritos de alguém sendo esfolado que música. Aparentemente, aquilo que Amara disse sobre o galo cantar era bem literal, tinha uma ave cantando... Madonna!

Miguel já estava acordado minutos antes do galo cantar. Já estava de banho tomado e uniforme limpo, enquanto os colegas dormiam, ele admirava a enorme floresta amazônica, a qual detinha uma privilegiada visão da janela de seu quarto. Assim que o galo começou a tocar, o rapaz cantarolou a música, que era uma de suas favoritas do pop. Carioca, com o tremendo susto que levou, caiu da beliche de cara no chão, alarmando seus amigos. Como de costume, ergueu o braço e disse que estava bem. Fernando se levantou, foi até o banheiro e instantaneamente se trocou, voltando para o quarto a escovar os dentes. Diego se despiu e colocou o uniforme ali mesmo, não tendo vergonha de expor seus quilinhos a mais. Rodrigo simplesmente se pôs de pé, havia dormido de uniforme. Segundo ele, Elfos de sua espécie não ficam malcheirosos facilmente.

─ Sera que já estão servindo o café? ─ perguntou Rodrigo, com o estomago roncando assustadoramente alto.

─ Tomara, to faminto tchê! ─ proclamou Fernando, voltando ao banheiro para pentear o cabelo ─ mas acho que vou demorar mais um pouquinho...

─ Yo tambien! ─ exclamou Diego, passando creme pelo corpo ─ Minha pele fica seca muito facilmente... ─ explicou.

─ Eu já to pronto, bora Miguel? ─ perguntou o Elfo, esfomeado. Miguel saiu de perto da janela e bocejou.

─ Bora... ─ concordou, caminhando na direção da porta, Rodrigo veio atrás, observando que muita gente lutava contra a preguiça para levantar nos outros quartos, enquanto o galo continuava a cantar.

Chegaram em fim ao elevador, seguraram nas laterais e apertaram o botão do primeiro andar, mas, para sua surpresa, o elevador não chacoalhou ou virou de ponta cabeça, ele desceu normalmente, na vertical, chegando no primeiro andar e tocando o barulho delicado de sino. Sem entender o porquê da bipolaridade do elevador, Miguel e Rodrigo seguiram em frente, chegando ao pátio e encontrando a estatua da Senhorinha Filomena Pinto com um cartaz de “Vou te down uns tapas” preso em suas costas. Filomena, como a piada de mau gosto diz, tinha síndrome de down, fora a primeira bruxa a se formar na Castelobruxo tendo a sua síndrome. Por conta disso, era e ainda é, alvo de chacotas e brincadeiras malvadas.

Miguel ficou triste pela pobre estatua, que chorava e chorava, pensando que não gostavam dela.

─ Oi Dona Filomena... ─ disse o rapaz, atraindo a atenção da mulher, que parou de chorar e encarou o rapaz.

─ Você também veio para me zombar? ─ perguntou ela, com um ingênuo olhar estampado no rosto.

 ─ Por que eu faria isso?

─ Porque eu sou feia... ─ respondeu ela, com a voz chorosa.

─ Se for olhar bem, todos somos feios ─ respondeu, convicto ─ todos temos nossos defeitos, olha essas bochechas que eu tenho... Enormes, não são? ─ a estatua concordou ─ são reflexo de um eu muito bobo, que se deixou levar para a opinião maldosa das pessoas e mudou aquilo que eles diziam feio: emagreci. Te digo que não adiantou de nada, continuaram me criticando, mas dessa vez por conta das minhas bochechas. Sabe o que aprendi com isso tudo? ─ Filomena disse que não com a cabeça ─ Que eu, com meus quilinhos a mais e com minhas bochechas gordinhas, sou muito melhor que eles, simplesmente porque não preciso diminuir os outros para enaltecer a mim.

─ Tem razão ─ concordou Filomena, limpando os olhos. Depois, agarrou Miguel e deu-lhe um apertado abraço, que se durasse mais quebraria alguns ossos do rapaz. Depois, o bruxo arrancou o cartaz das costas de Filomena, acenou e caminhou em frente, junto de Rodrigo, que permaneceu em silêncio, com tamanha afirmação do amigo.

─ Afinal de contas, de onde você veio, bruxo salvador de estatuas? ─ perguntou Rodrigo, cortando o silêncio, quando eles já se aproximavam do refeitório.

─ Favela do Tamanco ─ respondeu o rapaz, entrado no salão, já com as mesas servidas de um café da manhã completo. Maria estava sentada sozinha, lendo, e, ao perceber os rapazes assoviou, ressoando o som por toda a sala e chamando a atenção dos amigos, que caminharam em sua direção e sentaram-se a seu lado.

─ E então, prontos para fabricar varinhas?





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