Ensemble escrita por _TheDarkMoon


Capítulo 2
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Notas iniciais do capítulo

Aqui, Émeline começa a se adaptar à sua vida. Alguém também lhe surpreende.
Espero que estejam gostando da narrativa. :)




O celular de Émeline tocou de dentro da bolsa bege que largara na mesinha branca da sala. Aliás, tudo naquela sala era branco e aquilo a incomodava profundamente. Ela pegara o aparelho telefônico e vira que se tratava de sua mãe. Hesitou.

– Não vai atender? – Gervais perguntou.

– Você pode atender para mim?

Ele assentiu e atendeu prontamente. Tratava a mãe de Émeline com tamanha atenção que parecia a sua própria, e Émeline se sentia grata por isso. Na verdade, ela só não queria falar com ninguém no momento e a pequena mentira de que ela estava no banho contada pelo seu recém-esposo lhe servia muito bem.

– Ela só queria saber se você estava bem. – o outro disse, devolvendo o celular à bolsa.

Gervais pegou um livro de algum autor desconhecido e sentou-se ao lado de sua esposa. Ela deitou sua cabeça no ombro dele.

Olhou para a bolsa com o canto do olho e visualizou o celular dentro dele. Não gostava de ligações. Deixou de gostar quando teve que fazer uma série delas. Responsabilizou-se por ligar para cada homem com quem tinha dormido e avisar de sua condição. Não bastava o peso da doença em suas próprias costas, não poderia deixá-los sem saber.

Começara sua vida sexual aos quatorze anos e costumava ser cuidadosa. Com o passar dos anos, acabou se descuidando. Dizia que tinha que mostrar confiança em quem amava. Mas era só uma desculpa para seu descaso e apenas agora compreendia isso. Gervais, como seu amigo, avisara-lhe disso inúmeras vezes. Ela nunca ouviu.

Depois da humilhação de avisá-los e ser xingada e rejeitada de inúmeras formas, solicitou que eles fizessem o teste e lhe avisassem do resultado. Alguns avisaram-lhe que estava tudo bem, de outros nunca mais teve notícia. De qualquer forma, um certo peso lhe fora tirado das costas. Principalmente quando viu que não havia transmitido nada a Gervais.

Eles não chegaram a se relacionar sexualmente sem preservativos, mas houvera uma vez em que, brincando de provocá-lo, ele acabou ejaculando nela. Fora uma situação constrangedora para ele, mas Émeline levara na brincadeira. Poucas semanas depois aquilo lhe trouxe preocupação em dois aspectos. Felizmente, não havia como ela transmitir o vírus para ele dessa maneira, mas daquela situação houve a possibilidade de Gervais ser o pai de seu filho.

Apesar disso, Émeline era quase grata por aquele momento, pois que abrira essa possibilidade. Não queria pensar que outro homem poderia ser pai de seu bebê.

– Quer que eu pegue um livro para você? – Gervais acariciou os ombros expostos pela blusa de alças da moça.

– Eu pego. Obrigada. – ela devolveu o carinho na mão dele e saltou do sofá, indo pegar um romance de época qualquer dentro de uma caixa de papelão.

Voltou para o sofá e deitou sua cabeça no colo dele confortavelmente. Começou a folhear as páginas, lendo as descrições do personagem principal. Um bonito homem com um sorriso malicioso que não queria se casar. Um belo clichê. Um belo clichê que lhe lembrava de alguém. Denis.

A última vez que lhe vira fora em uma maca de hospital. Seu rosto escavado pela doença iluminado pela luz branca do quarto de enfermiço. Não queria lembrá-lo daquela forma, mas aquela fora sua última imagem dele.

Ele era soropositivo e lhe escondera. Escondera de todos. Quase de si mesmo. Fora ele que lhe transmitira o vírus. Émeline poderia tomar-lhe toda a raiva, mas não conseguia. Fora responsabilidade dela também. Tinham que lidar com as consequências.

Denis não parava com uma mulher só, e ela não lhe exigia coisa diferente. Divertia-se com ele e seu jeito. Gostava de ver seu rosto, sentir seu corpo forte, ser desafiada por suas sobrancelhas grossas. Era só isso. Era para ser só isso.

Ele tinha condições financeiras suficientes para se tratar, para ter acesso aos melhores especialistas, mas escolheu definhar. A família dele sofrera um choque muito grande com a perda. Ela sofrera um choque muito grande.

Denis morrera quando Émeline completou um mês de gravidez. Ela decidiu não ir ao enterro, preferiu ficar em casa, refletindo. Uma semana depois a mãe de Denis lhe visitara, oferecera tímidas palavras, um abraço e uma carta.

Preciosa Émeline,

Sinto muito pelo que as inconsequências de meu filho lhe causaram. Sinto muito por minhas palavras não curarem.Quero que saiba que pode contar com todo o meu apoio, financeiro ou emocional. Quero lhe ajudar a viver o melhor que puder – o que também inclui seu querido bebê. Independentemente de sua paternidade, tê-lo-ei como um neto, se me permitir. Conheço-lhe pouco, mas já a admiro muitíssimo.

Peço que cuide de si. Você tem o direito de ter seu filho sob as melhores condições de saúde possível e não preciso de Direitos Humanos para me dizerem isso.Você deve ser protegida de toda a discriminação (que não deveria existir).Espero também que não cultive o medo de se envolver, e, portanto, estarei disponível para todo e qualquer diálogo que precisar ter. Aconselhar-te-ei a medida do meu possível para que possa lidar com os desafios. Tenho-te como um membro de minha própria família, como a filha que nunca tive.

Com toda a minha dedicação,

Denise Modeste.

A partir dali, desenvolveu um grande apego à senhora Modeste, e sentiu-se motivada a dar prosseguimento ao seu tratamento. Dessa forma, passou a tomar todas as medidas para reduzir a carga viral mesmo a níveis indetectáveis, melhorar as condições imunológicas, investigar suas condições imunológicas, lidar com suas condições psicossociais, e usar adequadamente os antirretrovirais (ARV) e outros medicamentos.

Ergueu-se do sofá e começou a revirar algumas caixas atrás de uma folha de papel e caneta. Puxou uma cadeira para a mesinha e começou a escrever uma carta para a senhora Modeste. Ela gostava mais de cartas do que de ligações.

Guardou a carta dentro da bolsa para enviá-la no dia seguinte e foi para a cozinha preparar alguma coisa para que jantassem. Gervais arrumava as compras no armário.

– Tem alguma ideia do que podemos comer? – Émeline perguntou com novo ânimo.

– A gente podia fazer algo bem fresco. – ele brincou enquanto separava queijos.

– Algo bem francês. – ela riu. – Vamos lá, a gente vive no país da culinária. Pense em algo.

– Tartine? – sugeriu.

– Vai sustentar a gente?

– Não sei, vamos tentar.

Gervais se levantou e separou os molhos, tomates e pães. Ele tentou ajudá-la, mas Émeline não deixou que interferisse muito, já que era uma tarefa um tanto específica para o trabalho de muitas mãos. Então, ele logo voltou para seu trabalho de guardar os mantimentos.

Assim que colocou as tartines no forno, ouviu batidas na porta. Émeline secou as mãos e foi atender.

– Ah, oi. – Chantal sorriu um pouco sem jeito. – Eu queria conversar um pouco...

– Entre, por favor. – deu passagem para a antiga amiga.

Ela havia comparecido no casamento e fora uma das madrinhas. Talvez por falta de opção. Não se falavam direito desde o incidente da festa.

– Émeline, por favor, me desculpe. Eu não tinha a intenção de me afastar. – Chantal começou quando se sentou no sofá branco. – Eu estava confusa e não entendia nada direto. Tudo mudou tão rápido.

– Se mudou rápido pra você, imagina pra mim. – respondeu um tanto seca.

– Eu sei. Fui tão idiota. E depois eu não soube como me aproximar. Eu precisava de você, sentia sua falta. Você é minha melhor amiga, Émeline. Fiquei muito feliz que, mesmo depois do meu comportamento, você tenha me chamado para ser sua madrinha de casamento. Eu queria ter te ajudado a se arrumar ontem e fazer mais pelo seu momento. Mas não pude. Não pude porque não sou a amiga que eu gostaria de ser. – olhou para os pés de Émeline, sentindo-se indigna. Depois, reuniu sua coragem e pediu olhando para o rosto da amiga. – Me perdoa, por favor.

Émeline não sabia muito bem como reagir diante do desabafo da outra. Mas, para dizer a verdade, ela também sentia muita falta da amiga, e ouvir que Chantal precisava dela fizera-lhe bem ao coração.

– Senti sua falta. – abraçaram-se e não se permitiram chorar. Já haviam chorado o suficiente.

– Ah! Trouxe um presente para o bebê. – Chantal disse cantarolando. Tirou um cachorro de pelúcia laranja com um paninho verde no pescoço de sua bolsa azul. – Achei uma gracinha.

– É lindo mesmo! Obrigada! – sorriu abertamente depois de muito tempo e imprensou levemente o bichinho contra o ventre em um abraço.

– Escuta. Eu ando pesquisando muito sobre a situação de um soropositivo, quero te ajudar de todas as formas possíveis. Não vou deixar que a minha ignorância me deixe fazer outras burrices como me afastar de você. Vou tentar compensar o tempo que eu passei longe te visitando e mimando seu bebê toda hora. Se não te incomodar, é claro.

– Não incomoda. – deu a mão para a amiga.

– Ah, que ótimo! – ela riu. Depois seu olhar caiu no relógio. – Ah, minha nossa, está quase na hora do jantar! Eu visitei vocês na hora do jantar no dia seguinte do casamento! Eu sou péssima mesmo!

– Não tem nada disso. Por que não fica para jantar com a gente?

– Nem pensar! Já atrapalhei demais! Desculpe por isso! Já vou indo. – abraçou Émeline e acariciou sua barriga. – Tchau, Gervais!

– Tchau! – ele acenou encostado no batente da cozinha.

Chantal lanço um último beijo no ar e saiu da casa. Émeline abriu a janela de madeira para acompanhar a amiga entrando em seu carro cinza e dirigindo rua acima, enquanto acenava. Émeline sorriu e foi até o quarto, onde, finalmente, forrou a cama, e depositou o primeiro brinquedinho que seu filho havia ganhado.

Sentiu, então, um estranho cheiro percorrer suas narinas.

– As tartines! – correu para a cozinha.

Gervais as havia retirado do forno e remexia com um garfo a parte central e menos queimada delas. Émeline fez o mesmo e fez uma careta ao sentir o sabor.

– Era melhor a gente ter feito hambúrguer mesmo. – ela disse.

Riram um pouco do primeiro drama familiar que tiveram na casa e sentiram-se mais leves. Então, fizeram alguns hambúrgueres e jantaram na mesinha branca de frente à janela de madeira aberta. O vento acariciava os dois enquanto conversavam tranquilamente sobre um assunto qualquer, como filmes dos anos 90 e aniversários. Era bom estar em casa.



Notas finais do capítulo

Se o apoio já é algo fundamental para tarefas simples, que dirá para lidar com algo que lhe compromete a saúde. A mão amiga estendida é uma ajuda insubstituível.
Comentem suas percepções sobre a história para que eu possa sempre melhorar minha escrita. Obrigada.



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