Ágda escrita por Maresia


Capítulo 23
A safira de Ódin


Notas iniciais do capítulo

Itálico significa flashback



                A jovem princesa sentou-se no seu leito, colocando uma das suas mãos na testa, pois uma grande e terrível dor assaltava o seu confuso espírito, vislumbrava Thor com profundo interesse e curiosidade, tentando compreender quem era, mas nada, nada de nada, apenas sabia que o reconhecia, mas de onde? Olhava de forma penetrante aquela antiga e requintada divisão, sabia que estava perdida algures num canto bem remoto do seu passado, que sítio era aquele, onde a tranquilidade, o silêncio e a paz brincavam através das brancas paredes de linho? O louro correu até ela, afastando com autoridade as leais servas que a ladeavam, o Aquário seguiu-o de perto, analisando cada expressão desenhada no doce rosto de Ágda.

— Como te sentes, minha querida irmã? – Perguntou Thor em tom baixo, tomando-lhe carinhosamente a mão trémula.

— Quem és tu? E porque me chamas de irmã? – Questionou a ruiva confusa, fitando admirada aqueles lindos olhos azuis. – Desculpa não quero ser indelicada, contudo eu não me recordo de ti. Sei que te conheço, porém não consigo dizer quem és, nem o que nos liga. – Explicou apressada, vendo o atraente rosto de Thor escurecer através do véu da mais negra tristeza.

— Não tens que pedir desculpa. – Tranquilizou-a o louro honestamente, olhando para Dégel pelo canto do olho. – E agora o que fazemos? – Perguntou, dirigindo-se ao dourado que encolheu os ombros, fora completamente apanhado de surpresa, sempre pensou que a ruiva ao ver Asgard se recordaria do seu passado, todavia tal não estava a concretizar-se.

— Senhor Thor, peço desculpa pela minha ousada intermissão, talvez se a menina Ágda for presente à estátua do senhor Ódin…

— Mas que ideia fantástica Valéria! – Aprovou o príncipe, fitando a velha e antiga ama de Ágda com o mais profundo respeito.

— Desculpem, mas eu não estou a compreender nada do que se está a passar! – Desabafou a jovem princesa.

— Tem calma, vai tudo correr bem, tenho a certeza disso. – Reconfortou-a Dégel.

                Daí a alguns minutos a ruiva, Thor e o dourado de Aquário caminhavam em silêncio através de um grandioso jardim pintado de brilhantes cristais de gelo branco, alguns criados e guardas que por ali deambulavam saíam do caminho à passagem do sagrado grupo, fazendo profundas vénias de respeito e devoção. Ágda olhava pasmada para uma imponente estátua que se erguia até ao firmamento prateado, até onde a vista jamais alcançará. Algo naquele incrível marco fazia o seu coração bater velozmente, embalado pelo forte sentimento de pertença, reconhecimento e saudade. Uma pequena e luminosa brecha abriu-se lentamente na sua mente.

 Lá estava ela, uma menina franzina, com uma vasta e esvoaçante cabeleira cor de fogo, trajando um bonito vestido azul céu, brincando alegremente com aquele lindo e forte rapaz louro, atirando deliciados diversas bolas de neve um ao outro, rindo como se não houvesse amanhã, os seus corações estavam unidos pela linha que separa o dever do carinho, a sua alegre alma almejava o firmamento distante onde milhares de diamantes ganhavam vida.

— Vamos Ágda está na hora de recolhermos! – Disse o jovem Thor sorrindo.

— Vá lá Thor vamos brincar mais um pouco, vá lá! – Pediu a doce princesa, fazendo uma nova bola gelada entre os dedos.

— Não já chega, amanhã brincamos outra vez, prometo. – Garantiu o louro cruzando os dedos.

— Então está bem! – Concordou a menina, atirando-se feliz nos braços do seu irmão.

— Parece perdida. – Comentou o jovem nórdico preocupado, observando a profunda abstração que dominava a alma da princesa.

— Talvez esteja mesmo. Talvez vagueie através das suas lembranças. – Sugeriu Dégel, vendo Ágda ajoelhar-se perante a estátua de Ódin.

— Meu querido pai, só a tua presença seria capaz de trazer alguma frescura a minha mente, algum alento ao meu espírito, algum conforto ao meu coração, agora sei quem sou. Contudo devo-te honestamente confessar que estou dividida, talvez seja pecado, mas sempre conduzi a minha vida através da verdade, seguindo os teus sábios ensinamentos, a decisão que cruzou o meu caminho arde-me no peito como fagulhas incandescentes, porém tenho consciência que o tempo escasseia, e as trevas prosperam no mundo, mas acredita o mundo é maravilhoso e cheio de luz e amor, apesar de tudo. A vida corre tranquila no seu reluzente leito e eu corro desesperada atrás dela, deixando-a fugir por entre os dedos, tentando capturar a decisão que tanto teima a escapar. Estou confusa, não sei o que quero, nem o que fazer, não sei se estou a errar, a pecar ou a atentar contra ti grande Ódin, preciso da tua humilde e sábia ajuda, ilumina o meu caminho, auxilia o meu coração. Sempre me incutiram que o tempo é o melhor e mais presado concelheiro, se ele assim quiser eu voltarei a Asgard e cumprirei a minha missão, protegerei o nosso reino em teu nome, até lá espera por mim, mantem-te forte, obrigada. – Ágda ergueu-se do manto de neve, encarando os dois rapazes que a observavam expectantes. – Thor meu querido irmão, perdoa-me pelas tormentas que estupidamente te fiz passar. – Pediu enquanto abraçava o louro.

— Nunca senti qualquer tipo de ressentimento em relação a ti. – Revelou Thor afogando-se em lágrimas de alívio, alegria e agradecimento. – Asgard sempre teve os seus sagrados braços abertos para ti, soube esperar pacientemente e tu retornaste. – Disse, acariciando os longos cabelos ruivos.

— Eu sei disso. – Assentiu a jovem, olhando o aristocrata. – Dégel, devo agradecer-te tudo o que fizeste por mim, se não fosses tu eu jamais reconheceria o meu passado, eu jamais seria eu. – Afirmou, largando o seu irmão e abraçando o dourado.

— Tu sempre foste tu, só que não sabias, eu limitei-me a mostrar-te a direção certa. – Constatou o Aquário emocionado. – E agora o que pensas fazer? – Perguntou em voz sumida, ansiando a resposta.

— Isso é óbvio, não é? – Questionou Thor convicto das suas incontestadas ideias. – Ela fica aqui, no lugar onde pertence, junto das gentes que a viram nascer, junto do povo que deposita todas as suas esperanças nela. – Afirmou orgulhoso.

— Não será bem assim, meu irmão. Muita coisa mudou nestes últimos anos, eu tenho outra vida, outras ambições, outras pessoas a habitar o meu coração, eu sou uma amazona ao serviço da Deusa Atena. – Explicou Ágda calmamente. – Eu tenho que voltar ao santuário, tenho que compreender o que as insígnias do infinito me reservaram, parece fácil, mas acredita que não o é. – Proferiu, vendo o rosto do príncipe endurecer. – Não posso simplesmente ignorar tudo o que vivi fora de Asgard, tenta compreender. – Pediu.

— Eu não consigo perceber, desculpa. Tu não podes ir, Asgard precisa de ti, eu preciso de ti. – Confessou o louro. – Tens que ficar, a barreira protectora de Ódin vai enfraquecendo a cada dia que passa, só tu podes colocar um ponto de retorno nesta situação.

— Acha justo colocar tanto peso sobre os ombros de uma miúda? – Inquiriu o cavaleiro irritado, olhando Thor com fúria. – Ela tem o direito de escolher qual o caminho que deseja percorrer, a decisão é dela, somente dela. – Disse em tom cálido.

— Não te metas cavaleiro de Atena. – Avisou o louro, personificando todo o gelo que os rodeava.

— Acho que não aprendeu nada com o que aconteceu. – Comentou Dégel com azedume a toldar-lhe a voz. – Acho que chegou a altura de a deixar crescer, de voar, de ser responsável pelas suas decisões, pensamentos e atitudes. – Barafustou.

— Eu não vou tolerar este comportamento rebelde por parte de um forasteiro, chega, vais-te arrepender por seduzires a minha irmã a rebelar-se contra o seu reino, irás pagar com a vida! – Gritou Thor com a fúria do trovão a percorrer-lhe as veias cálidas, enquanto colocava as suas mitológicas e lendárias luvas, bramindo com vigor o seu divino martelo, elevando o seu cristalino cosmo até à atmosfera.

— E julga que eu assentirei à sua vontade sem dar luta? – Provocou Dégel em tom frio, intensificando brutalmente a sua energia estelar.

— Não sejam ridículos, parem com esta discussão infantil! – Gritou Ágda estridentemente, colocando-se entre ambos.

— Ágda sai da minha frente, esse cavaleiro pagará pelos seus crimes! – Ripostou o Deus enfurecido, baloiçando perigosamente o seu martelo.

— Pára Thor, eu vou para o santuário e não existe nada que possas fazer para me impedir, a minha decisão está tomada. – Explicou a princesa do gelo determinada. – Vamos Dégel, por favor! – Pediu.

— Sim, vamos. – Assentiu o dourado, uma pequena réstia de esperança brotou do seu gelado coração incendiando o seu espírito, ela ainda poderia ficar perto dele, ainda poderia.

— Então vais mesmo, é uma despedida? – Perguntou o louro, finalmente tomando consciência do que estava prestes a perder, fruto do seu obsessivo controlo.

— Não é uma despedida, talvez seja um até já, uma coisa que aprendi com tudo o que aconteceu é que não existem pensamentos, ideias, valores ou decisões definitivas, tudo é alterável. – Afirmou Ágda em voz calma, olhando com carinho o seu irmão. – Se o tempo e Ódin assim permitirem, eu voltarei, até lá protege o nosso reino como sempre o fizeste, fá-lo por mim. – Pediu, derramando milhares de gotas platinadas.

— Eu farei, prometo. – Jurou Thor, tomando de novo a sua amada irmã nos braços. – Cuida de ti. – Pediu.

— Já sou crescida! – Ripostou a princesa, absorvendo todo aquele caloroso amor que emanava fervilhante do interior protetor do coração do seu irmão.

— Para mim serás para sempre aquela doce menina que brincava comigo às guerras de bolas de neve. Adeus minha irmã. – Despediu-se o Deus, virando costas, detestava despedidas, sabia que choraria ao ver Ágda desaparecer através do véu branco de Asgard, preferia guardar aquele radiante sorriso que enfeitiçava o mais gelado dos homens.

— Adeus Thor! – Gritou a jovem alegremente, não iria chorar, sabia que Thor odiava que derramasse lágrimas, iria ser forte como as eternas geleiras que decoram a velha Sibéria.

                A milhares de quilómetros dali, Albafica de Peixes vagueava perdido entre o campo escuro, a vegetação esvoaçante e perfumada e o rio calmo e vagaroso, observando o firmamento aveludado onde milhares de estrelas iluminavam a longínqua passerelle dos sonhos e da fantasia, olhou com mais atenção e lá estava ela, a lendária e sonhadora constelação de Cisne com o seu habitual sorriso doce a brincar-lhe na face rosada.

                Será este regresso ao santuário o epicentro que culminará na mais difícil decisão da vida da ruiva?





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