Ágda escrita por Maresia


Capítulo 24
Traição do destino




                Acompanhados pela misteriosa noite, Dégel e Ágda cruzavam os nobres portões que encerravam a mais sagrada das lendas, o Santuário de Atena, acompanhados pela prateada lua que jazia imóvel no firmamento, onde a poderosa Artemis dançava tristemente com a melancolia, acompanhados pela gelada brisa que atirava para longe os mais belos sonhos de amor, Morfeia acariciava-os com doçura, acompanhados pelas estrelas que os guiavam para lugar nenhum. A linda princesa escutou os latidos mimados do seu pequeno cachorro que ficara à guarda de Dokho, num impulso de felicidade e confusão, começou a correr, deixando o Aquário nas suas costas, imerso nos seus difusos e sofredores pensamentos, ele tinha consciência que o inesperado acontece quando menos se espera, saltando triunfante detrás do mais doce dos sorrisos.

Ao entrar na solitária casinha, Snow jogou-se ternamente nos braços da ruiva, lambendo-lhe incessantemente o rosto, um grande sentimento de saudade, perda e desespero almejou brutalmente o seu coração, com um peso que apenas Atlas sente ao carregar o céu nas suas costas.

— Albafica! – Pensou, enquanto olhava o dourado de Aquário mover-se silenciosamente nas sombras, entrando por fim na tranquila casa de Carneiro. Um profundo sentimento de esperança misturou-se com a saudade e a perda que derretiam cruelmente o seu coração, sabia perfeitamente onde deveria ir.

                Sentado sobre um fresco manto de areia, guardado por Gaia, Albafica de Peixes observava calmamente a lua, de onde Artemis e as suas leais Satélites lhe sorriam amavelmente. O dourado apanhou umas pedrinhas brancas, colhidas pela querida filha de Deméter, atirando-as sobre as águas cristalinas, sobre as quais o poderoso rei dos Mares, Poseidon, navegava ao sabor da brisa fresca dos campos Elísios.

— Albafica! – Gritou a doce ruiva alegremente, correndo até ele, segurando nos seus braços o branco cão filho do gelo e da tempestade.

— Por Atena, és mesmo tu! – Exclamou o cavaleiro, não cabendo em si de tanta alegria.

                Os dois amantes do universo estelar abraçaram-se, num abraço sem princípio nem fim. O peixes acariciou timidamente o cabelo de fogo da sua princesa, nunca mais a largaria, nunca mais a deixaria ir.

— Ângela, não quero acreditar que estás de novo comigo. – Confessou Albafica emocionado, derramando algumas gotas perfumadas sobre o manto campestre que sorriu com ar primaveril.

— Enganas-te. – Afirmou a ruiva tristemente, pegando docemente na mão justiceira do astro de Peixes. – Existem coisas que tenho de te contar. Coisas que mudarão as nossas vidas para todo o sempre, coisas que eu jamais poderia imaginar. – Revelou em voz sumida, como se o simples e duro facto daqueles pensamentos existirem lhe perfurasse o peito. Albafica vislumbrou-a confuso e apreensivo. – Senta-te Albafica, esta conversa será longa e muito difícil. – Preveniu, pousando suavemente como um cisne numa cascata de flores e areia, puxando o dourado para perto de si.

— Ângela, o que se passa? – Perguntou o guerreiro das rosas preocupado, nunca vira aquela expressão séria no rosto da ruiva, onde estava aquele doce sorriso pelo qual se apaixonou?

— Bem, como sabes eu fui numa missão secreta com o cavaleiro de Aquário, missão essa que me devolveu as memórias que perdera naquela maldita tempestade de gelo. Descobri, como já sabia, que o meu verdadeiro nome não é Ângela mas sim Ágda, cruzei-me com detalhes e pormenores do meu passado que jamais pensei serem possíveis…

                Os Deuses e Albafica escutaram a narrativa com a maior das atenções, no fim os seus rostos, os seus corações, as suas mentes estavam mergulhados na mais fria incredulidade, não era verdade, pensou Albafica melancolicamente, escondendo o atraente rosto com as mãos trémulas, conservando nos seus lindos olhos o fogo daquela paixão, protegendo aquele doce sorriso que derrotara a pesada solidão que sequestrara o seu coração, guardando nos seus lábios a mais bela e preciosa rosa que florira no seu jardim.

— E agora? – Perguntou em tom sufocante, quebrando alguns terríveis e cortantes minutos de puro e perfumado silêncio.

— Voltei para o santuário com o intuito de encontrar respostas, é isso que pretendo fazer, o destino é traiçoeiro, contudo pode ser alterado. Se o caminho for esse, eu estarei disposta a enfrentar qualquer consequência, privação ou obstáculo que cruzar a minha alvorada a teu lado. – Garantiu a jovem sinceramente, abraçando o Peixes que chorou no seu ombro.

— Se quiseres partir eu compreendo. – Afirmou o dourado sem convicção, erguendo os olhos para a constelação de Cisne.

— Só o tempo o pode dizer. – Disse Ágda simplesmente, seguindo o penetrante olhar do cavaleiro.

— Então rezarei a Cronos para que te guie na mais sábia e pura decisão. – Prometeu Albafica honestamente. – Queres ficar na cabana esta noite? – Perguntou esperançado, não sabia quanto tempo o Deus Cronos lhe daria, então tinha que aproveitar cada segundo como se fosse o último.

— Claro. – Assentiu a ruiva timidamente, beijando o cavaleiro nos lábios. – Vamos, já é muito tarde, estou cansada da viagem. – Pediu em tom sonhador.

                A pequena e pobre cabana estava intocável, encantada e fragilmente exposta aos caprichos dos astros, estava como naquela última vez, em que os dois dormiram sobre um berço de estrelas reluzentes, como se Cronos se tivesse esquecido de passar a varinha temporal por ela. Juntos vaguearam pela iluminada e celestial ponte do mundo dos sonhos seguidos de perto por Morfeu que encantava o ar, o mestre da lira tocava como nunca o seu fantasioso instrumento, a bela Afrodite desfilava uma passerelle de luz, perfume e desejo a seus pés, onde dançaram com as ninfas de Poseidon, Artemis criou uma perfeita e cantante cascata de onde jorravam milhares de rosas e cristais de diamante de um gelo quente e muito delicioso, subiram ao Olimpo nas asas reluzentes de Hermes, onde Zeus e Atena os aguardavam sorridentes. Um sonho lindo, prateado e impossível, que muito em breve transformar-se-ia numa realidade escura, fria e injusta, transportada pela mão do ardente Hades.

                Quando Apolo raiou nas inteligentes penínsulas gregas, Ágda agitou-se ligeiramente nos fortes braços do elegante cavaleiro, este ainda dormia tranquilamente, respirando tão fundo como o próprio oceano azul e inalcançável, a princesa de Asgard acariciou-lhe docemente o rosto bonito com os seus dedos de algodão branco e açucarado, como era maravilhoso que o tempo cessasse o seu habitual curso, refletia, enquanto via Albafica abrir preguiçosamente os olhos azuis.

— Bom dia! – Exclamou a ruiva energicamente, retirando uma mancha de cabelo do rosto do dourado.

— Bom dia, como dormiste? – Perguntou Albafica em voz baixa, tateando no interior dos cobertores procurando a mão da princesa.

— Bem, claro. – Respondeu a jovem sorrindo alegremente, absorvendo os primeiros raios de sol que entravam pela janela coberta quase na totalidade por hera seca. – Talvez seja melhor irmos, daqui a pouco dão pela nossa falta. – Preveniu responsavelmente, erguendo-se do fofo ninho de amor tecido pela Deusa Afrodite.

— Tens razão, vamos lá. – Assentiu Albafica, contornando os seus verdadeiros pensamentos.

                Os dois apaixonados deslizaram como suaves brumas temporais sobre a paisagem campestre, observados de perto pelo olhar escaldante de Apolo, caminharam de mãos dadas, presas por um fino cordão de arco-íris e neve, unidos pela verdadeira luz dos campos celestes, atrás dos quais se camufla a negra aurora das sombras.

— O que se passa aqui? – Perguntou uma voz mais gélida do que as eternas geleiras que adornam a velha Sibéria. Dégel de Aquário emergia sorrateiramente por detrás de um palpitante arbusto silvestre.

— Mestre Dégel! – Gritou Ágda amedrontada, estava tudo perdido, o dourado que protege a Décima Primeira casa da paz era demasiado inteligente para ser manipulado com uma qualquer mentira. – Isto não é o que parece! – Defendeu-se perante aquele olhar reprovador, repleto de gelo e repulsa.

— Como foste capaz? – Perguntou o Aquário colérico, dirigindo-se arrogantemente a Albafica que encarou aquele congelante olhar com coragem.

— Eu posso explicar. – Disse o Peixes em tom baixo. – Esta situação não foi premeditada, cresceu com o passar do tempo, sei que é condenada aos olhos das leis do santuário, contudo nas leis do coração ninguém manda. – Explicou honestamente.

— Mas que situação é essa? – Provocou Dégel furioso, o seu cosmo oscilava perigosamente, disparando dos seus frios olhos adagas cortantes.

— Eu e o Albafica estamos juntos. – Admitiu a princesa de Asgard sinceramente, não iria mentir mais, iria valorizar os manuscritos da verdade cravados no seu coração, a verdade que a tornara representante de Ódin na Terra.

— Como te atreves! – Gritou o dourado do gelo, avançando furtivamente na direção da ruiva, contudo Albafica barrou-lhe o caminho. – Tu sabias as leis, tu sabias, e mesmo assim ousaste desafia-las, como foste capaz? Manchaste o bom nome dos cavaleiros de ouro! – Berrava, à medida que diversos cristais de gelo gelavam o solo em sua frente.

— A culpa não é apenas dela. – Declarou o Peixes zangado, materializando uma perigosa rosa vermelha na sua mão direita. – Se eu quisesse podia ter evitado toda esta situação, no entanto não o quis, e o que pensas fazer agora? – Perguntou em tom calculista.

— De ti trato depois. – Cuspiu o Aquário com desprezo. – E tu tens duas escolhas: ou deixas esta relação patética e sem fundamento, ou serás punida do santuário, deixarás de ser uma amazona. – Esclareceu, apontando para a armadura de Cisne.

— Não podes fazer uma coisa destas, sabes que o meu futuro já está bastante confuso, não o compliques mais. - Pediu Ágda, tremendo ligeiramente perante tais injustas hipóteses.

— Tu não lhe podes fazer isto, onde está a tua integridade? Onde está o teu senso de humanismo? Onde está a tua compaixão? Vá lá cavaleiro, diz-me! – Questionou Albafica furioso.

— Não agraves mais a tua situação Albafica, o Grande-Mestre saberá certamente o que fazer contigo, não serei eu a ditar a tua sentença. – Avisou Dégel, controlado pela feroz espada do ciúme habilmente forjada por Hefesto.

— Por favor.– Implorou Ágda, ultrapassando a figura imponente do Peixes e encarando o feiticeiro do gelo, sabia o quanto era importante para Albafica o seu estatuto de Cavaleiro de Ouro.

— A decisão é tua, tens até ao fim do dia para decidires, até lá, fica na tua casa, não saias, não fales nem vejas ninguém. – Ordenou Dégel de forma imperativa. – Tu, volta para o templo de Peixes. – Impôs em voz julgadora, como era duro e gelado o julgamento do Aquário.

— Não vou sem ela. – Disse Albafica determinado, pisando com força o terreno branco que se estendia a seus pés.

— Vai, eu fico bem. – Pediu a bela representante de Ódin na terra, o caminho que futuramente iria percorrer era claro como a neve que cobre Asgard, sem dúvidas nem incertezas, seria duro, todavia o mais certo.

— Eu vou. Até sempre. – Despediu-se Albafica tristemente, começando a percorrer aquele penoso caminho, vendo no firmamento azul pintada aquela horrenda traição do destino, vendo um sagrado cisne branco voando na vela reluzente de um navio imaginário, sentindo o seu puro piar ressoar no seu espírito, cantando uma bela melodia sonhadora.



Notas finais do capítulo

- Artemis, deusa da Lua e da caça;

— Expressão usada em Saint Seiya Lost Canvas para definir o local para onde Sísifo de Sagitário foi enviado depois de Hades o ter acertado com a sua própria seta;

— Atlas, titã da mitologia grega que segura o céu como punição;

— Gaia, elemento primordial na mitologia grega que simboliza a Mãe Terra;

— Deméter, Deusa da agricultura, mãe de Perséfone, deusa das ervas, flores, frutos e perfumes;

— Satélites de Artemis são as guerreiras da Deusa Artemis em Saint Seiya Next Dimension;

—Poseidon, Rei e Deus dos Mares;

— Cronos, titã pai de Zeus, mas o nome Cronos também é mencionado na mitologia como sendo o deus do tempo;

—Morfeu, guardião da terra dos sonhos;

— Afrodite, deusa do amor e beleza;

— Hermes, mensageiro dos deuses do Olimpo;

— Apolo, Deus do Sol, da música e das festas;

— Hefesto, ferreiro dos deuses e deus do fogo.



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