Ecos escrita por Laís


Capítulo 1
Acidentalmente dois olhares se encontram


Notas iniciais do capítulo

"Estranhos passando na rua
Dois olhares se encontram
E eu sou você e o que eu vejo sou eu". Echoes - Pink Floyd.



Nenhuma história tem começo e nenhuma história tem fim. Começos e fins podem ser entendidos como algo que serve a um propósito, a uma intenção momentânea e provisória, mas são, em sua natureza fundamental, arbitrários e existem apenas como uma ideia conveniente na mente humana.

Caitlin R. Kiernan

A mensagem brilhava na tela do celular encontrado ao lado do corpo da vítima. Uma mulher em seus 30 anos, um único tiro na cabeça.

“Todas as noites eu desligo a luz

Esperando pela noiva de veludo

Irá o escamoso tatu

Encontrar-me onde estou escondido?”

Dois anos antes

Virginia não conhecia chuvas torrenciais, porém, naquele dia peculiar, o céu parecia desabar em Quantico.

Julia entrou na cafeteria e sentou em um dos cantos em que podia admirar a chuva obrigando pessoas a correrem desesperadamente de seus táxis com capas amarelas. No notebook a sua frente, as páginas em branco tripudiavam da sua incapacidade de concluir algo. Um dos benefícios de desemprego, como disse sua colega de quarto, é ter tempo para escrever um livro, plantar uma árvore ou redescobrir sua personalidade. Jessica tinha 22 anos e ainda passava pela fase em que tudo no mundo se resume a “descobrir seu eu” e, toda vez que pensava nisso, Julia sentia um desânimo com a própria vida. Ela tinha 29, encostando a ponta do dedão dos pés na casa dos 30 e ainda dividia um apartamento porque as coisas não seguiram seu roteiro cuidadosamente planejado.

Sartre seria o primeiro a rir da sua cara dizendo que ela é a única responsável pelos tropeços da sua própria vida. Mas, aliás, o que um filósofo existencialista morto há anos pode saber sobre Julia?

–Rossi, eu vou me atrasar um pouco. Sim... Tecnicamente, Virginia tem uma pluviosidade média de cerca de 104 cm e... Ok, até mais.

A voz atrapalhou completamente a crise existencial de Julia e ela se surpreendeu prestando atenção na conversa. Não que houvesse algo de especial naquela situação, ela sempre fazia isso. Andava com fones de ouvidos, mas a música estava sempre pausada. Gostava de ouvir discussões e diálogos aleatórios, observar desconhecidos na rua e imaginar o que estaria acontecendo em suas residências. Estavam tristes? Cansados? Pensando em desistir?

Quando o dono da voz olhou em sua direção e ela se viu em um daqueles estranhos – e frequentes – momentos em que seu alvo percebe que está sendo observado, teve uma fração de segundo para decidir se sorria ou virava o rosto.

Na dúvida, sempre vire o rosto.

~x~

Spencer Reid passou na habitual cafeteria e fez o seu habitual pedido para o seu não-tão-habitual dia. Trabalhar na BAU concedia aos membros da equipe uma completa imprevisibilidade de planejamento.

Ele sempre evitava fitar as pessoas ao redor quando estava em público, eliminando assim aqueles estranhos momentos quando você põe os olhos em alguém que já o observava antes. Na dúvida, sempre fite os seus pés como se eles fossem as coisas mais interessantes do mundo.

Quando um carro quase bateu em outro veículo na frente da cafeteria – e uma cacofonia de buzinas e vozes abafadas irrompeu no ambiente – sua atenção foi atraída para a mesa situada no canto do estabelecimento e ele pôde ver que a garota do dia anterior permanecia lá. Sentada, com fones de ouvido e encarando a tela de um notebook com a testa vincada como se sua vida dependesse disso. Desviou sua atenção para evitar uma segunda troca de olhares acidental.

~x~

Julia, que costumava observar tudo e notar quando as coisas não estavam no lugar, percebeu que o rapaz da ligação não estava lá naquele dia.

Nem no dia seguinte ou na semana seguinte.

O que incomodava profundamente sua pseudo síndrome de Asperger.

~x~

Estava apressada, andando com a mochila nas costas sentindo o peso do notebook e de alguns livros. Geralmente chegava à cafeteria 20 minutos mais cedo e temia que alguém tivesse roubado sua mesa. Julia tinha uma necessidade compulsiva de manter tudo ao seu redor em ordem e seguir rigidamente uma rotina, talvez isso se devesse ao fato de que não podia controlar o curso da própria vida, portanto tentava controlar seus hábitos.

Olhou pelo vidro e enxergou seu lugar ocupado. Frustrada, resolveu andar até a praça mais próxima.

–Ei! Você!

O grito carregava um autoritarismo tão grande que se viu obrigada a girar os calcanhares, mesmo achando improvável que estivessem falando com ela. Surpreendeu-se ao encontrar o rapaz de feições simpáticas olhando em sua direção com uma expressão nada amistosa.

–Posso ajudá-lo?

–Por que você está me seguindo?

Julia abriu a boca para responder, mas aquilo parecia tão absurdo que somente foi capaz de emitir alguns sons esganiçados.

–Responda a pergunta – ele não estava gritando, mas a rispidez das palavras possuía o mesmo efeito.

Depois de um momento de apatia, finalmente voltou a si.

–Você precisa de ajuda profissional.

Deu-lhe as costas e continuou andando.

~x~

Doze dias se passaram e ela continuava na mesma rotina de desempregada. Acordava para ir até a cafeteria e tentar escrever – essa era sua desculpa, mas na verdade só precisava de um tempo longe de Jessica e suas filosofias de boteco. Tudo era exatamente igual, exceto no dia anterior quando seu atraso fez com que perdesse a mesa e um desconhecido questionou sua provável perseguição. Realmente precisava arranjar um novo emprego. Seu prazo era quinze dias antes de tomar medidas drásticas. Três ainda estavam por vir.

–Olá.

Levantou o olhar e deparou-se com o sujeito que a abordara na véspera.

–Ah, não. Você de novo não. Escuta aqui...

–Não, desculpa, ahn... Estou aqui para pedir desculpas. Você sabe... Por ter insinuado que você estava me seguindo.

–Insinuar? – Julia fez um muxoxo, lembrando nitidamente de uma acusação e não uma insinuação.

–Eu geralmente não faço isso...

–Gritar com desconhecidas na rua?

–Sim, quer dizer... Eu...

Julia percebeu que ele estava nitidamente desconfortável e não conseguia parar de remexer na embalagem do seu pedido.

Ela começou a rir.

–Desculpa, mas de que forma exatamente isso é engraçado? – ele perguntou, franzindo o sobrolho.

–Calma, eu só estava brincando. A verdade é que eu realmente ando observando você de longe.

–O que? – a expressão dele congelou subitamente em algo sombrio e Julia quase se arrependeu da brincadeira – O que você quer?

–Minha vez de pedir desculpa. Isso foi claramente uma piada de mau gosto. Não estou seguindo você, ta bom? Não sei quem você é e nem quero saber – explicou.

–Sinto muito, eu só... Bom, foi um ano difícil. Só isso.

Naquele exato dia, os eventos que levaram ao assassinato de Maeve completavam um ano, trazendo sensações amargas à superfície.

–Não precisa se explicar para mim. Sinto muito se eu causei algum tipo de desconforto e...

–Por favor, não é preciso – interrompeu seu pedido de desculpa com um meneio de mãos.

–Tudo bem então.

Ele assentiu e permaneceu de cabeça baixa enquanto saía da cafeteria.





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