SeuSegredo. Com escrita por Panda Chan


Capítulo 16
Duas pessoas só guardam um segredo...


Notas iniciais do capítulo

Olá bolinhos ~~joga confete~~ Estão comemorando o carnaval?
Esse capítulo é a "parte um", foi uma inspiração louca que eu ive enquanto trabalhava.
Se a minha supervisora sonhar que eu escrevo mais fanfic que relatório, serei demitida kkkkkk
Espero que gostem.
Boa leitura.



É da natureza humana se achar acima de todos, inclusive de seus iguais. A escola é o local onde isso pode ser visto de forma mais clara, o que não sei dizer se é bom ou ruim.

— Ai! – Beth deixa escapar quando uma bola de papel acerta sua cabeça. Consigo ler a palavra “esquisita” escrita com marcador preto quando ela desdobra.

Jeremy e seus amigos riem.

Ninguém nota quando a Beth guarda, envergonhada, a folha no bolso da saia. Nem mesmo os outros números invisíveis.

O sinal toca e eu xingo baixo quando percebo que perdi a hora de guardar o material para chegar no banheiro feminino e ouvir o tagarelar incessante das garotas. Passei a aula inteira refletindo sobre a mensagem do Bill e os milhares de significados que ela pode ter. O número do qual enviaram a mensagem só dá desligado e mesmo com meus contatos, não tenho como saber quem comprou o chip ou rastreá-lo.

Os alunos se amontoam na porta lutando uns contra os outros buscando o caminho para a “liberdade” também conhecida como intervalo. Me dou conta de que apenas Beth e eu continuamos sentadas em nossos lugares.

Falei com Beth algumas vezes, menos do que gostaria. Ela é uma rata de livros e sempre têm ótimos títulos para recomendar, porém é introvertida demais e termina fugindo das pessoas quando começa a se empolgar.

Assim que a saída fica mais livre ela se levanta e corre para fora da sala sem perceber que a bolinha de papel com a palavra “esquisita” caiu do bolso. Apanho o papel e pego o celular da Secret no bolso.

Hora de proteger os números invisíveis.

— Isso é mentira! – Jeremy grita e sei que ele acaba de ler a nova postagem.

Meus lábios se curvam para cima institivamente.

— Por que ele está dando chilique? – Mabel pergunta.

Estamos nas arquibancadas e temos uma boa visão do banco onde Jeremy e alguns amigos passam o intervalo.

— Não faço ideia – digo com tom de desinteressada.

— Aposto que é algo da Secret – Clarissa sorri de forma sapeca e digita algo em seu celular – Ai. Meu. Deus! – ela grita e grita ao mesmo tempo o que atrai a atenção de algumas pessoas deixando Mabel e eu bem constrangidas.

— O que foi? – Mabel move a cabeça tentando ver a tela do celular da loira que não para de rir e move o aparelho nas mais diversas direções.

— A Secret postou que o Jeremy é broxou!

— Não acredito! – digo ao mesmo tempo que Mabel. Sabia que ela ia dizer isso.

A postagem é uma calunia e admito não ser a primeira que faço desse tipo, algumas pessoas merecem um pouco de mentira em torno de seus nomes. Sou alguém que luta pela verdade, isso é fato, entretanto sei que para atingir algumas pessoas tóxicas não bastam escândalos é necessário algo mais sutil.

Algo mais negativo.

Alguém mais fantasioso.

Em suma, uma mentira do bem.

— Será que é verdade? – Mabel sorri.

— A Secret não é de mentir.

— Do jeito que ele usa o amiguinho deve ter acontecido mesmo – mordo meu sanduiche controlando a vontade de gargalhar.

— Quero ver como a Kelly vai lidar com isso – Clarissa olha para Jeremy e os amigos babacas que agora zoam ele.

Espero que depois de ser zoado ele sinta mais empatia pela pobre Beth.

Por falar na garota, ela aparece com uma pilha de livros nos braços e caminha desviando sutilmente do banco onde os babacas estão. Seu plano de não ser vista por eles dá errado e Jeremy fala algo que faz o alvo da zoação mudar.

É oficial, minha fé na humanidade se acabou.

— Beth! – grito sem perceber e chamo a atenção do grupo.

— Quem é Beth? – Clarissa tomba com a cabeça para o lado, confusa.

— A garota que eles estão zoando – murmuro e aceno para a menina de tranças – Vem almoçar com a gente!

Posso ver a lâmpada se acender sobre a cabeça da Clarissa.

— Vem, garota – ela grita – Estamos te esperando!

Beth nos olha como se fossemos suas tábuas de salvação, de certa forma somos. Ela corre em nossa direção com as tranças balançando enquanto os garotos babacas resmungam entre si.

— Não precisa correr como se estivesse fugindo de um incêndio – Mabel sorri para ela, um sorriso gentil que serve para tranquilizar a recém-chegada.

— Muito... – ela ofega e tenta repor o folego – Muito obrigada por me chamarem, podem fingir que não estou aqui.

— Está maluca? – Clarissa pega um tomate-cereja de sua salada e eu a olho de forma repreendedora, ela nunca come o alface – Queremos conversar com você ou não te chamaríamos.

Algo no rosto de Beth se ilumina enquanto os lábios se inclinam para cima.

— Obrigada – ela murmura.

— Sente-se aqui – bato no lugar ao meu lado onde ela se acomoda.

— Fale um pouco sobre você, Beth – Mabel entrega um biscoito para ela – Estudamos juntas e nem te conhecemos direito.

O sol beija as partes expostas de nossas peles de forma agradável. Hoje é um dos poucos dias que o sol não está tentando queimar todo mundo e a brisa brinca com meus cabelos sem leva-los até minha garganta.

Todas as quartas-feiras deviam ser assim.

Será que Bill está sentindo o sol como eu? Será que está armando algo contra mim? Imagino que Cyber já tenha dado um jeito de contatá-lo para formar uma aliança. Será que Cyber já encontrou as barreiras novas no site e por isso não me atacou?

— Você conhece esse livro? – a voz de Clarissa me acorda dos meus devaneios – Eu amo essa história.

— Sim – Beth fica corada – Acho incrível a forma como o autor mostra que a busca desenfreada pela perfeição é, na verdade, uma forma de alienação. Não devemos odiar os outros pelas suas diferenças ou usa-las como desculpa para julgar alguém, esse tipo de ideia é resultado de um processo que dura anos e serve apenas para justificar o ódio gratuito que a parte mais desprovida de massa cinzenta possui.

Mabel e Clarissa balançam as cabeças freneticamente concordando com cada palavra, mas tenho certeza que não entenderam nada.

— Estão falando sobre a história com a utopia de pessoas bonitas? – espero elas confirmarem e prossigo – Também gosto muito, é maravilhoso ver uma sociedade onde cada diferença é bem aceita e todos comemoram isso. Você falou de forma incrível, Beth.

Mabel e Clarissa trocam um olhar confuso e sei o que elas estão pensando. Eu não sou de elogiar ninguém e também não sei por que sinto vontade de fazer isso com a Beth.

Talvez ainda haja um pouco de humanidade em mim.

— Obrigada – ela cora de novo – Meu sonho é ser uma grande autora e em todos os meus livros vou passar a mesma mensagem.

— Que seria? –a voz de Mabel é encorajadora.

— Suas diferenças são boas, não tem nada de ruim nelas. Você é único e isso o torna especial.

— Que sonho legal – Clarissa faz um cafuné na cabeça da pobre Beth que fica meio descabelada – Diria admirável, até.

— Por enquanto é apenas um sonho impossível.

— Só é impossível se você desistir – ela fala com confiança – Não tem nada de errado em sonhar um pouco, Beth. Você só precisa ter a coragem necessária para tornar seu sonho realidade.

Pela primeira vez vejo algo em Beth, alegria talvez, e sei que é isso que a faz ficar ao nosso lado durante todo o resto do intervalo.

“Horóscopo da tia Secret para amigos e inimigos.

Áries: Dizer que a sua vida está uma merda chega a ser eufemismo. Você precisa viver mais e deixar o ódio de lado. Que tal parar de destruir os sonhos dos coleguinhas e beber as lágrimas deles?

Touro: Nem a ciência consegue explicar como cabe tanta teimosia dentro de alguém do seu tamanho! E para de atacar os amiguinhos quando tentam te corrigir.

Gêmeos: Suas alterações de humor são irritantes. Bipolaridade é coisa séria, já mudar de atitude mais que de meia, não.

Câncer: Boatos me dizem que você está rodando mais que pratinho de micro-ondas. Lembre-se sempre que o posto de saúde entrega preservativo gratuito. Prevejo expansões na família.

Leão: Todo mundo sabe que você se acha a perfeição encarnada, mas querer entregar um quadro com sua foto emoldurada é um pouco demais. Espinhas irão aparecer no seu nariz se não mudar de atitude em breve.

Virgem: Você acha que está escondendo bem o que faz de errado, mas está enganado. Filmaram e até no YouTube suas merdas estão disponíveis.

Libra: Dica especial para você, libriano(a). Pegue uma moeda de qualquer valor, a parte com a cara estampada significa “sim” e a com o valor  “não”. Sempre que você ficar indeciso, jogue essa moeda e ela vai escolher o melhor pra você. De nada.

Escorpião: Lembra-se de quando aquela pessoa caiu na sua frente e você riu dela? A vingança se aproxima.

Sagitário: Problemas no seu relacionamento? Pare de culpar os(as) amigos(as) com seu ciúmes bobo.

Capricórnio: Se existisse um programa de TV sobre a sua vida, ele ia ter mais violência que UFC. Já pensou em ter aulas de ioga e relaxar?

Aquário: Sua mãe disse que você não é todo mundo e eu ressalto isso. Hora de tomar atitude e parar de seguir seus amiguinhos imbecis.

Peixes: Sabe a bruxa que rouba a voz da Pequena Sereia, a Úrsula? Pois é, até a mulher-polvo é mais simpática que você. Quero mais educação, meu povo!”

A última garota sai do banheiro e eu suspiro aliviada por poder ir embora.

As conversas de hoje se resumiram a Secret e Bill, a notícia do encontro e da guerra que declaramos dividiu os alunos.

É como se todos estivessem inseguros e usando a moral e a ética para refletir sobre o assunto e decidirem qual de nós é o “bonzinho”. Assustador.

Os corredores estão vazios e consigo caminhar por eles sem esbarrar em ninguém.

Encontro Beth encostada no muro que Bill sempre grafita.

— Beth! – ela olha para mim surpresa e depois sorri – Pensei que já tinha ido para casa.

— Eu... hum.. Gosto de ficar aqui para estudar – ela explica – Minha casa é bem barulhenta.

— Entendo.

Na verdade, não entendo. Estou tão acostumada a ficar só que na minha casa consigo ouvir até o som da grafite marcando a folha. Talvez eu deva chama-la para estudar comigo.

— Anna! – Ícaro grita e se aproxima de nós – E garota que eu não conheço – ele franze o cenho e estende a mão – Prazer, sou o Ícaro.

— Beth – ela murmura.

— Desculpe atrapalhar, Beth – ele sorri para ela – Mas preciso agradecer essa maravilhosa anã por ter me ajudado a estudar para a prova de história.

Reviro os olhos.

— Não sou uma anã!

— Claro que é – Ícaro dá uma piscadela – E graças a você, estou livre e posso curtir todas as festas do Jeremy.

— Você é amigo de-dele? – a voz de Beth é tão baixa que mal compreendo as palavras.

— Temos algumas aulas juntos – Ícaro dá de ombros e se vira para mim – Quer ir pra casa comigo? Podemos passar na sorveteria.

— Claro – olho para Beth – Até amanhã, Beth.

— Até.

Ícaro e eu começamos a caminhar.

— Droga – murmuro.

— O que foi? – ele pergunta.

A visão do meu livro de matemática abandonado no armário toma conta da minha mente.

— Esqueci meu livro – digo – Espere só um instante, eu já volto.

Corro para a escola e abro rapidamente o meu armário. O prédio parece bem mais assustador quando está vazio.

— Me solta! – ouço a voz feminina pedir.

O barulho vem de um corredor paralelo, caminho em direção a ele o mais silenciosamente possível. Eu sei que é idiotice, mas não consigo controlar minha curiosidade.

— Você falou não é? – a voz é de Jeremy agora.

— Juro que não – agora reconheço a voz da Beth, ela parece chorar – Eu não disse nada pra ninguém.

— Então por que as garotas te chamaram no intervalo?

— Elas querem ser minhas amigas.

— Iludida – o ouço rir – Ninguém vai querer ser amiga de uma esquisita como você e se contar para alguém o meu segredo...

— Não vou contar, eu juro – ela soluça – Ninguém vai saber que você gosta de meninos.

Puta merda! Jeremy gosta de meninos?

Levo a mão a minha boca e respiro fundo para não soltar a enxurrada de palavrões que desejo.

— Cala a boca! – ele grita – Eu vou foder com a sua vida se alguém descobrir. Juro que vou!

Ouço passos, talvez as ameaças do dia já tenham terminado.

Saio correndo antes que eles percebam a minha presença e passo reto por Ícaro, ignorando quando ele pergunta se estou bem.

Só quando chego em casa com as pernas doendo me dou conta do tamanho do segredo que descobri e como ele vai atingir um inocente se for revelado.



Notas finais do capítulo

O livro que "citei" na conversa das meninas se chamda "Feios" e é do autor Scott Westerfeld, recomendo a leitura dele para todos que gostam de distopias diferentes.
Carmba, o Jeremy que vive atrás de um rabo de saia gosta de meninos! E agora?
Será que a Anna vai tre o bom senso de não falar nada ou ela vai dar um jeito de ferrar com tudo?
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E não deixem de enviar as teorias de vocês!
Obrigada por ler a fic.
Beijos com amendoim jovem bolinho de amora.