Doce Outono escrita por Kaline Bogard


Capítulo 3
Capítulo 03


Notas iniciais do capítulo

Boa leitura! :D



Doce Outono

Kaline Bogard

Capítulo 03

Refez os passos até voltar ao lugar em que deixara Taiga, que continuava sentado no banco. Recebeu do outro um franzir de sobrancelhas desconfiado. A postura não desanimou Daiki, ele próprio desconfiaria da atitude se estivesse no lugar dele.

Não era bom em meneios e rodeios. Foi direto ao ponto, como lhe era característico.

Vem comigo, Kagami. Eu vou salvar o seu traseiro.

–--

A frase não teve o exato efeito que Daiki esperava, algo entre forte protesto e óbvia resistência. Ao invés disso, foi mirado com certa desconfiança.

— O quê?

— Vem ficar na minha casa esses três semestres que faltam. É melhor do que continuar na rua.

— Por que? — Taiga balançou a cabeça. No fundo, já esperava alguma coisa nesse sentido. Volta e meia recebia olhares compassivos por sua situação. Estava acostumado, ainda que fosse doloroso — Obrigado pela oferta, mas posso cuidar disso sozinho.

— Claro, está fazendo um ótimo trabalho — Daiki resmungou — Sei o que tá passando pela sua cabeça, Bakagami. Não vai ser incomodo algum.

—... — Taiga não pareceu convencido — Agora ele lê mentes.

— Vai me ajudar com as despesas também — usou o argumento para tentar convencer o outro.

Mas a frase teve efeito contrário, pois Kagami ficou ainda mais sério.

— Não tenho como ajudar, Aomine. Se tivesse como, não estaria desse jeito.

— Caralho, não tô falando de dinheiro, Bakagami — o outro girou os olhos. Ele compreendera tudo errado — Você disse que ganha a janta. Podemos dividir.

Taiga observou atentamente o ex-rival.

— E seus pais? — não entendeu porque levar a janta seria assim tão útil.

— Tô morando sozinho. O lugar é pequeno, mas cabe mais um lá — pensou no quarto sem uso — Meu pai banca o aluguel e me dá uma grana pra ajudar com a faculdade, o combustível, essas coisas.

A explicação fez sentido. Mas ainda assim Taiga não parecia convencido. Lembrava-se dos poucos encontros entre ambos e sempre saíra faíscas. Tinham personalidades parecidas, e, ao mesmo tempo, incrivelmente diferentes. Uma convivência não seria pacifica.

— Aomine, agradeço, mas acho que isso não vai dar certo.

Daiki respirou fundo. Acabou sentando-se no banco, um tanto cansado de olhar o outro de cima. Sempre haviam se mirado em pé de igualdade.

— Isso vai dar tão certo quanto você quiser que dê — acabou coçando a orelha com o dedo mindinho — Não estou fazendo isso apenas por pena. Eu não levaria um desconhecido pra casa, mas você não é um desconhecido. Se é orgulhoso demais para aceitar minha oferta não posso fazer nada, mas não vou ficar aqui implorando para te convencer.

— Que sermão! — Taiga ficou surpreso. O que ouvira não combinava em nada com a imagem que tinha de Daiki, aquele cara orgulhoso e arrogante, cujo lema era “apenas eu posso me vencer”. De onde saíra a inesperada maturidade?

— Baka.

— Então você mora sozinho? E tá sobrevivendo? — ele riu ao pensar em Aomine levando uma verdadeira vida de adulto.

— Sobrevivo muito bem, Bakagami.

O silêncio caiu sobre eles mais uma vez. Daiki podia ver a luta interna travar-se dentro do outro rapaz. Não o julgava, no fim das contas. Sua oferta era a mais inesperada possível. Nunca foram amigos ou íntimos. Chegar oferecendo um teto assim, do nada? Quem faria isso? Apenas alguém próximo o bastante.

O próprio Daiki se surpreendia com sua atitude. Ou não, se fosse bem sincero. Queria ser policial. Não um detetive ou alguém do alto escalão, que apenas se envolve com o crime após o fato, nunca o previne. Queria ser oficial. Sim, ficar na base; mas com liberdade o bastante para ajudar as pessoas. Não apenas remediar a situação e punir.

E ali estava uma chance de ouro: havia alguém que precisava de ajuda. Não um estranho qualquer, mas um jovem da sua idade que, de certa forma, fizera parte de seu passado. Não podia simplesmente virar as costas e fingir que não sabia de nada.

Também não podia obrigar Kagami a aceitar sua oferta. Ou mesmo ficar ali insistindo para que ele fosse ajudado. Tinha seu orgulho! E recorreria a outros métodos se fosse preciso.

— Vou dizer pro Tetsu que está passando por apuros... — insinuou como quem não quer nada.

— Oe! Não fode, Aomine!! — Kagami arrepiou-se todinho. A última coisa que queria na vida era seu antigo colega de colégio vindo ali e testemunhar sua triste condição!

Por um instante, fuzilou o outro com um olhar de rancor. Até dar-se conta, pelo sorriso zombeteiro, que Aomine não pretendia humilhá-lo. A ‘chantagem’ quase inocente era uma forma de ajudá-lo a tomar a decisão.

Engoliu em seco. Considerou os prós e os contras. Pelo que conhecia do antigo rival, tinham um temperamento bem parecido. Isso funcionaria como um facilitador na convivência diária. Ou não! Mas, por outro lado, precisava apenas de um teto para a noite, já que passava o dia todo praticamente na faculdade e no arubaito. Tal teto seria bem-vindo, principalmente pelo fato de o inverno estar chegando.

E, como último recurso à oferta inusitada, se fosse muito complicado dividir o teto com Aomine, Taiga sempre poderia voltar para o parque. Não temia essa opção.

— Eu só posso ajudar com o jantar... — Kagami disse para se certificar de que o outro sabia bem no que estava se metendo.

— Aa. É com a única coisa que eu gasto dinheiro. E com gasolina, mas isso não vai mudar estando você ou não na casa.

— Aomine, tem certeza? Você tá acostumado a morar sozinho e...

— Tenho certeza, porra — ele cortou, meio irritado — Ou nem teria oferecido. É pegar ou largar, Kagami.

O rapaz respirou fundo antes de balançar a cabeça.

— Eu aceito.

— Doeu?

— O quê? — Kagami pareceu não compreender.

— Doeu deixar de ser arrogante e aceitar ajuda?

— OE!

— Vambora logo, Bakagami. Eu moro longe daqui — Daiki levantou-se do banco e espreguiçou-se um pouco. Um profundo senso de dever cumprido o deixou leve. E um alívio quase esmagador. Mal se dera conta do quão apreensivo estivera enquanto aguardava a decisão do outro. Associou aquela preocupação ao seu senso de responsabilidade. Nada mais.

Em silêncio, seguiram até o Minica estacionado perto dali. Notou que Kagami só levava a mochila, mas não era de se surpreender que todas as suas coisas se resumissem ao que estava ali dentro. Talvez tivesse algo no armário da faculdade, vai saber. De qualquer forma, não quis perguntar nada sobre aquilo. Já se metera o bastante na vida do outro para atravessar o limite entre a boa vontade e a inquisição ofensiva agora.

O clima estranho persistiu por todo o percurso. O incomodo de Kagami era perceptível, mas Daiki sabia que, no lugar dele, também estaria do mesmo jeito. A posição de quem aceita ajuda nem sempre é de conforto. Talvez levasse algum tempo até que a naturalidade se tornasse fator comum entre eles.

— Bem vindo ao castelo — Daiki resmungou assim que chegaram ao prédio de quitinetes. Não pretendia impressionar, afinal a construção nem era lá essas coisas. Sua brincadeira viera com a intenção de quebrar o silêncio que durara o bastante.

— É perto da estação — Kagami deixou escapar. Provavelmente viera calculando o quanto a mudança influenciaria em sua vida em um panorama geral. Não apenas teria um teto sobre a cabeça, mas ganharia tempo para chegar à faculdade, fato que representava acordar um pouco mais tarde. Escolhera ficar naquele parque por ser perto do emprego, assim não precisava transitar tarde da noite.

— Essa área toda se transformou em um lugar para estudantes. É tudo mais fácil: o acesso ao metrô, o comércio, os serviços urbanos — foi dizendo enquanto achava a vaga e estacionava — Só não tem elevador.

Kagami assentiu com um gesto simples, seguindo o novo colega de residência rumo ao lance de escadas. Tão logo Daiki desviou para o corredor, pareceu lembrar-se de algo.

— Ah... eu não estava esperando visitas. As coisas estão meio fora do lugar.

O outro não disse nada. Não estava em posição de reclamar de bagunça, de qualquer forma. Mas a postura indiferente durou o suficiente para Aomine abrir a porta da quitinete e acender a luz. O queixo de Kagami foi ao chão e quicou duas vezes antes de voltar ao lugar com um estalo.

— Cacete! “Meio” fora do lugar?! — acabou exclamando diante da total desorganização que se descortinou aos seus olhos.

— Oe! É um estilo pessoal de arrumar a decoração — Daiki disse um tanto cheio de si, enquanto descalçava os tênis no genkan.

— Estilo “Faixa de Gaza”? Quantos mísseis caíram aqui antes de eu chegar? — Kagami perguntou, seu tom oscilando entre divertido e horrorizado, também tirou os tênis no genkan, tendo como opção ficar apenas de meias, já que ainda não tinha um surippa para si. Acabou levando um tapa dolorido na nuca.

— Um míssil só, chamado Aomine sama. Logo você se acostuma — ele resmungou, satisfeito com a piadinha sem graça que ouvira. Pelo menos Kagami não estava mais tão tenso, a ponto de conseguir brincar um pouco.

— Hum... — Taiga olhou em volta incerto. Acabou rindo baixinho de algum pensamento que teve e que Daiki sinceramente não queria saber.

— Aqui é a cozinha — o dono do lugar fez menção de avançar, saltando as coisas espalhadas pelo chão. Seguia um caminho já conhecido e seguro. Começou a apresentar a quitinete pelo corredor com dupla função. Apontou o canto da parede com o forno micro-ondas em cima de uma minigeladeira. Logo ao lado estava a pia, e abrindo as portas do armário sob a pia, exibiu um pequeno fogão de três bocas. A peça era retrátil, para usar bastava fazê-lo deslizar e ocupar uma parte do corredor.

Então atravessou o corredor e apontou um eletrodoméstico junto a porta a direita.

— Área de serviço. Banheiro — mostrou o espacinho em que fôra encaixada uma máquina de lavar junto com uma vassoura. Em seguida, apontou a porta imediatamente em frente, do lado esquerdo — Chuveiro e banheira. Meu quarto.

Por fim, indicou o espaço planejado para ser a sala. Apenas jogara um colchão ocidental de casal no canto, perto da televisão e vídeo game. Por fim, uma cômoda pequena com três gavetas com uma pilha de livros e cadernos sobre ela.

— Incrível. Você tá mesmo se virando — Taiga se deixou exclamar, pensativo. Só agora dava crédito de que seu antigo rival do colegial morava sozinho de fato. Sempre o achara um mimado e filhinho de papai. Pelo visto, até alguém arrogante como Aomine era capaz de evoluir.

Daiki lançou-lhe um olhar de esguelha, antes de apontar a parte superior do cômodo, um lugar próximo ao teto, que deveria servir de quarto.

— É incomodo usar aquilo pra dormir. Acho mais fácil deixar tudo aqui embaixo, não preciso de um espaço pra sala de estar — torceu o nariz.

Taiga entrou mais na sala-quarto e observou a parte superior. Já conhecia a estrutura quitinete, muito utilizada no Japão para quem precisava apenas de um lugar para dormir. O foco não era o conforto. Tudo remetia a praticidade e rapidez. A parte de cima, planejada para se ganhar espaço, não era um quarto comum, sequer era possível ficar em pé. Por outro lado, era ótimo para se dormir, isolado e privativo. Ainda que não pudesse caminhar, existia espaço o bastante para sentar, se movimentar, se fosse preciso estudar, ou qualquer outra tarefa desse tipo. E o melhor de tudo: era protegido da chuva, do vento e do frio.

— O futon tá lá em cima. Prefiro colchão ocidental.

— Parece ótimo.

— Diz isso sem ver... eu nunca limpei aquela parte — Daiki afirmou, sentando-se no colchão — Fique a vontade.

Kagami pegou a deixa. Usou a escadinha para espiar o que seria seu novo quarto, enquanto Daiki ligava a televisão em algum canal qualquer, ainda que prestasse atenção no que o outro fazia.

— Caralho... — Taiga resmungou baixo ao acender a luz da parte superior — Tá meio empoeirado...

— Eu avisei — a resposta não tardou a vir, impertinente.

Kagami soltou a mochila no chão e puxou o futon, trazendo consigo uma nuvem de poeira que impressionou até mesmo o residente proprietário.

— Vou bater isso lá fora.

— Heei, hei — Daiki concordou, espantando o pó flutuante com uma das mãos. Se todo o quartinho estivesse em iguais condições, seria impossível dormir ali naquela noite. Em silêncio, assistiu Kagami pegar a vassoura e sair do apartamento.

Ele retornou algum tempo depois, o futon já tinha uma aparência apresentável.

— Amanhã espano melhor — ele falou mais para si mesmo. Antigamente não consideraria usar algo que não estivesse devidamente higienizado. Mas a vida lhe dera varias lições, o bastante para não ser mais tão exigente com as coisas. Considerava o futon limpo o suficiente.

— Melhor ficar aqui embaixo essa noite — Daiki apontou o espaço vago que sobrava na sala. Não seria incomodo dividir a sala com o novo morador da sua casa, é uma solução muito mais digna do que fazê-lo se deitar no pó do quarto ou ter que limpar. Já estava tarde, ambos precisavam descansar. Na sua rotina usual já teria dormido a muito tempo atrás!

— Aa — Kagami concordou fácil daquela vez. Não tinha porquê criar caso, no fim das contas.

— Pode ficar a vontade. Eu já vou dormir — Daiki foi fuçar na cômoda, de onde tirou um lençol e arremessou sobre o futon. Fez uma nota mental de arrumar mais daqueles com sua mãe. O que usava como coberta estava sobre o colchão. Era um folgado que não se dava ao trabalho de ajeitar a cama pela manhã.

Enquanto se enfiava debaixo do próprio lençol, grato porque o aquecimento do prédio não era dos piores, discretamente assistiu a expressão um tanto perdida do outro rapaz. Kagami parecia deslocado, como alguém que esqueceu a simples rotina caseira.

Logo ele foi ao canto pegar a mochila e seguiu para o chuveiro. Em poucos minutos, Daiki ouviu o som de água corrente. Isso o fez sair da cama para colocar um pijama e apagar a luz de toda a quitinete, deixando que apenas a tela da televisão fornecesse alguma claridade. Então se acomodou de novo, programando o aparelho para que desligasse em meia hora. O som da água acabou. Logo Kagami estava de volta, trazendo consigo um agradável e desconhecido aroma de sabonete. Provavelmente guardava o seu na mochila.

Daiki resistiu a tentação de espiar e ver se o outro também tinha um pijama ou não, mas acabou mantendo a cabeça coberta. Ouviu os sons abafados do rapaz se ajeitando sobre o futon. Então um suspiro leve, que trouxe consigo algo a mais.

— Obrigado — Kagami disse baixinho, mas perfeitamente audível.

Daiki não respondeu. Não fazia aquilo esperando algo em troca, nem mesmo gratidão ou reconhecimento. Pelo que conhecia de Kagami, sabia como era orgulhoso e disposto a resolver tudo por si só, sem querer ajuda de ninguém. O fato de aceitar sua oferta e estar ali já era o suficiente.

continua...



Notas finais do capítulo

Hello pipou. Lembram dessa história? Espero que sim.

Eu tinha planos de fazer uma vivencia conturbada, mas conversei com a minha beta e a gente concluiu que não faz sentido, eles estão maduros e vão dividir pouco tempo na quitinete em si. Então as atribulações virão por conta de outros fatores. Vai ser uma fanfic bem slice of life :D

Até qualquer dia desses! ._.



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