Doce Outono escrita por Kaline Bogard


Capítulo 2
Capítulo 02


Notas iniciais do capítulo

Welcome back!

Agora que o desafio de outubro acabou posso dar mais atenção a essa fic. E a Daitai Love, alguém lembra dela? '-'



Doce Outono

Kaline Bogard

Capítulo 02

Daiki o observou por dois segundos, antes de olhar ao redor, em busca de algum prédio residencial, construção que não se lembrava de ver naquela área.

Por aqui? — se ouviu perguntando confuso.

Aqui, no parque.

– - -

Foi preciso quase trinta segundos para que Aomine desse acordo no sentido das palavras que ouvira. E mesmo assim pensou ter alucinado.

— “Aqui”? — indagou, incrédulo.

— Tive alguns problemas — o rapaz respondeu vago, sem se aprofundar em detalhes.

— Você mora aqui no parque? — Daiki ainda não conseguiu acreditar em seus ouvidos.

A resposta de Kagami foi ficar de pé e dar de ombros.

— Tenho que voltar a trabalhar.

O outro não respondeu. Apenas observou enquanto o ex-rival se afastava. Ainda ficou um tempo sentado na praça, refletindo no inusitado do que acabara de descobrir. Mil lacunas tornaram a compreensão algo impossível de acontecer.

O retorno para casa foi feito com a sensação letárgica de se estar mergulhado em um sonho. Um sonho dos mais sem sentido, por assim dizer. Pessoas com problemas financeiros faziam parte do cotidiano japonês, claro. Assim como no mundo todo! Mas era apenas um dado estatístico, algo que assistia nos noticiários e lia nas manchetes de Internet. Ouvia as porcentagens e sequer as associava a seres humanos. Em sua mente não passavam de números que ajudavam a falar mal do governo e dar Ibope para os meios de comunicação.

E tais pessoas sem teto eram como fantasmas às quais nem dava atenção, mal notava seus rostos ou sequer se lembrava de passar por elas. Pela primeira vez viu a terrível situação acontecer com alguém próximo. Não um amigo intimo, mas não um completo estranho. Não, simplesmente, mais um na multidão.

A descoberta acabou com o sossego de Daiki. O rapaz não teve concentração para mais nada, jogado no futon em seu pseudo-quarto, tentando folhear um livro sem sucesso. Quando leu o mesmo parágrafo pela quinta ou sexta vez, desistiu. Ainda quis se distrair com uma das preciosas revistas pornográficas, mas nem os peitões da Mai chan capturaram sua atenção. E os céus eram testemunha de que ele tentou com afinco se perder naquela adorada anatomia...

Não fazia sentido que um conhecido tivesse problemas a ponto de ter que morar na rua! Como Kuroko nunca comentara algo a respeito?

Analisando a questão, concluiu que Kagami não parecia o tipo de cara que ia despejar seus problemas em cima de um amigo. Pelo contrário, do pouco que o conhecia era fácil concluir que ele tentava se superar e melhorar por si só. Melhorar para então ajudar os outros, fator decisivo para entrar na Shin Zone. Justamente o contrário do que Daiki fizera até então, desprezando a amizade como algo desnecessário.

Soube que não teria paz enquanto não soubesse mais sobre aquilo e tomou uma decisão. Normalmente não metia o nariz em algo que não era da sua conta, mas naquele caso não conseguiria simplesmente virar as costas e continuar a vida como se nada tivesse acontecido.

Por isso esperou dar dez horas da noite, pegou o carro e voltou para o parque. Não teve problema algum em encontrar o gêmeo de esporte no mesmo banco em que estava mais cedo. A única diferença era uma mochila que levava nas costas.

Estacionou e caminhou até ele. O ar da noite estava um tanto mais frio, nada insuportável. Agradável o bastante para várias pessoas caminharem pelo parque sem agasalhos, coisa que mudaria gradativamente até a chegada do inverno.

Se Taiga ficou surpreso com a segunda ‘visita’ de Daiki em menos de vinte e quatro horas, não demonstrou.

— Pensei em tomarmos aquela cerveja hoje... — disse como cumprimento.

O outro o observou analítico por breves momentos. Travou uma pequena batalha interna, se decidindo, mas acabou por ceder.

— Está bem — concordou — Tem um bom pub no próximo quarteirão.

— Tô de carro.

Kagami girou os olhos diante da oferta.

— É perto. Não seja folgado.

— Oe!

Sem esperar resposta, ele ergueu-se do banco e avançou na direção do tal pub. Daiki coçou a nuca e suspirou inconformado. Onde estava se metendo? Acabou seguindo Taiga.

O pub em questão fazia jus ao nome, todo construído em estilo oriental. Tinha alguns clientes, que não prestaram atenção nos dois rapazes. Ambos se acomodaram no balcão e, depois de mostrarem as identidades, pediram cervejas.

Um bom tempo se passou. Apenas bebericavam das latinhas. Daiki se perguntando como podia começar a conversa. Também tentando adivinhar o que ia pela mente do outro, já que sua expressão de distante distração não revelava muita coisa. Entendia agora porque ele parecia tão abatido e cansado.

— Quanto tempo está assim? — a pergunta escapou de sua boca sem que pudesse evitar, uma exteriorização dos pensamentos que preenchiam-lhe a mente.

— Hn? — e lá estavam os olhos avermelhados fixos em sua face, tirados à força do devaneio.

— Quanto tempo está nessa situação? — repetiu.

— Quase um ano.

A nova informação foi ainda mais chocante.

— O que aconteceu?

Taiga estreitou os olhos na direção de Daiki.

— Por quê? Não entendo essa curiosidade.

Antes de responder, Aomine virou o resto da cerveja em um gole e pediu outra latinha. Ele próprio não sabia de onde vinha aquela curiosidade. Usou a espera pela nova cerveja para organizar a mente. Acabou sendo sincero:

— Não sei — deu de ombros — Não esperava encontrar um conhecido passando por dificuldade.

A sinceridade de Aomine pareceu convencer Taiga, foi perceptível suas barreiras baixando um tanto.

— É apenas provisório. Só até terminar a faculdade.

— E seus pais? — talvez fosse pior ainda e eles tivessem sofrido algum tipo de acidente. Vai saber.

— Estão nos Estados Unidos — Kagami respondeu. E emendou sem dar chance de Daiki se manifestar — Pare de me interrogar, Aho.

O apelido fez Daiki sorrir torto. Pelo menos os pais dele estavam bem. Nesse caso, por que não pedia ajuda a eles? Seria tão orgulhoso assim, preferindo passar por necessidades ao invés de recorrer aos próprios pais?

Não insistiu nas perguntas. O outro tinha razão, não estavam em um interrogatório. Por mais que inúmeras perguntas o perturbassem, não era de seu feitio meter-se tanto na vida alheia. Todavia admitisse desconforto com a situação do rapaz.

— Eu briguei com meu pai — Taiga acabou confessando quando o silêncio ameaçou se tornar opressor.

Daiki apenas o observou, ainda que não fosse mirado de volta. Aquilo explicava muita coisa. Se o pai de Taiga tinha tirado o apoio seria difícil mesmo se manter com as próprias pernas. Pelo menos antes de terminar a faculdade.

Voltou a ficar quieto. E notou duas coisas: a) Taiga estava enrolando com a primeira cerveja enquanto Daiki já pensava se devia pedir a terceira ou não, por estar dirigindo e b) quando não o pressionava, as informações vinham de boa vontade, pois ele continuou falando:

— Falta um ano e meio pra terminar a faculdade, depois disso é fácil conseguir um lugar pra morar. E um emprego melhor — disse isso de tal forma que Daiki teve impressão de que ele sempre repetia para se convencer com o argumento.

Fazia sentido.Pagar faculdade e aluguel com o salário de um arubaito era impossível. Sobreviver a um ano e meio nessas condições assustava. Há pouco tempo, Daiki estava pensando em como aqueles três semestres passariam rápido. Numa perfeita aplicação da Lei da Relatividade de Albert Einstein concluiu que o mesmo tempo, pra Kagami, seria como três eternidades.

— Por que não falou nada pro Tetsu? — deduziu o óbvio — Tenho certeza de que ele te ajudaria.

— Não quero caridade de ninguém — Taiga rebateu com mau humor — Não é nada que eu não possa dar conta.

— Não é caridade — Daiki rebateu — E se ele precisasse de ajuda?

—... — não tinha como contrariar o exemplo. Se um amigo estivesse no seu lugar, faria de tudo para ajudar. Todavia, não se sentia a vontade para ir atrás de alguém. A situação era complicada.

— Como você está vivendo assim?

— É mais fácil do que parece — Kagami falou como se não fosse grande coisa. Passava a maior parte do dia na faculdade. E depois no serviço. Entrara para o clube de basquete, por isso podia usar o vestiário, tomar banho. E, no restaurante, ganhava a janta todos os dias. Usava o salário apenas para pagar o café da manhã e almoço, o curso, comprar os livros e uma ou outra coisa que surgisse no percurso. Algumas vezes fazia hora extra para cobrir todas as despesas, mas não era algo cotidiano.

— Você não tentou uma bolsa com o basquete?

— Tentei, mas só o basquete não adianta. Eles analisam o desempenho no colegial também — nessa parte Taiga emburrou um pouco. Nunca tirara notas exemplares e na época não pensou que ia perder o apoio dos pais dessa forma.

Daiki meneou a cabeça. Suas notas não eram lá grande coisa, igualmente. Por isso nem considerou concorrer a uma bolsa de estudos. Passar nas duas fases do vestibular já podia ser clamado como milagre! Tanto que ganhara o carro...

Terminou a segunda cerveja e desistiu de pedir a terceira. Não ia combinar álcool e direção. Além disso, Kagami não parecia disposto nem a uma segunda. E naquela breve interação já concluiu que oferecer uma seria recebido como um gesto de caridade.

— Tenho que ir embora — o ruivo decretou. A conversa já parecia ter rendido tudo o que estava disposto a aguentar. Não fazia parte de seus planos ficar remoendo algo a que já se conformara.

— Aa — Daiki concordou, o dia seguinte seria atribulado para si também. Ouvira coisas surpreendentes, que pareciam saídas de um dorama. Mas não era ficção, era a dura realidade. Pela primeira vez dava-se conta de que na vida nem todos os planos se concretizavam, mas não aqueles sonhos infantis e utópicos. Planos que envolviam as necessidades mais básicas de sobrevivência. A constatação lhe trouxe a verdade nua e crua: tornar-se adulto significava encarar qualquer problema trazido pela vida.

Acabou com uma dúvida lhe pinicando a nuca: o que seria grave a ponto de causar uma ruptura na relação entre um pai e seu filho? Olhando para Kagami não podia ver nada que justificasse algo assim! Lembrava que o garoto era honrado, honesto, dedicado. Um tanto cabeça quente? Sim. Mas nada disso causaria uma expulsão, ser largado a própria sorte.

O retorno foi feito em silêncio. Não havia muito o que dizer. Daiki não se sentia no clima de recomeçar a conversar. Mal se deu conta de quando chegaram ao parque. Apenas ao ouvir a voz de Kagami que acordou pra realidade.

— Então até qualquer dia — o rapaz foi dizendo enquanto se sentava no banco.

— Até — Aomine respondeu breve, antes de dar as costas e se afastar.

Pensou se deveria ter dado algum conselho. Kagami não podia ser tão orgulhoso. Se falasse com Tetsu conseguiria um lugar pra ficar, os pais do ex-sombra eram gentis e possuíam bom coração. Não iam negar ajuda a um amigo do próprio filho.

Mas e se fosse ele a passar por dificuldades? Daiki não ia pedir ajuda a um amigo. Talvez nem precisasse, já que Satsuki era um verdadeiro radar de encrenca quando o assunto era Daiki. A garota se materializava do nada para socorrê-lo. Eram amigos de infância, quase irmãos.

Sua relutância não seria apenas por orgulho. Haveria uma grande dose de preocupação em se tornar um incomodo na casa alheia. Claro, Satsu e Tetsu eram o tipo de amigos que jamais considerariam alguém em apuros como um peso, um obstáculo. Ambos eram leais. A preocupação viria mais por parte de quem pede do que de quem oferece.

Chegou rápido ao lugar em que deixara o Minica. Já não havia mais carros ao redor. Conferiu o celular, passava das onze e meia. Ligou o motor desejando que o modelo tivesse pelo menos um aquecedor. Saíra de casa com um tempo agradavelmente ameno, agora beirava o frio.

O pensamento foi uma pontada no peito. Não podia reclamar de um simples acessório de luxo ausente, quando outras pessoas tinham muito mais com que se preocupar. A previsão era de um outono doce, fato que profetizava um inverno rigoroso.

Daiki gemeu e inclinou-se até bater a testa no volante. O que foi bem doloroso, considerando o material duro de que o volante era feito...

Respirou fundo, sentindo-se idiota, sem enganar nem a si mesmo.

Ainda que conhecesse aquele cara um mínimo (se somassem todo o tempo passado juntos não chegaria a 24h), já era o bastante para ser impossível engatar a marcha e sair dali! Estava prestes a arrumar uma grande dor de cabeça, bem o sabia; assim como sabia que seu destino estava traçado desde que pegara o desvio na terça-feira e passara pelo parque, reconhecendo o ex-rival de relance.

Talvez se não se guiasse pela curiosidade não tivesse mergulhado em um belo problema. Agora era tarde demais. Nem adiantava chorar o leite derramado. Deu um suspiro muito mais profundo e exagerado do que seria necessário, desligou o motor e saiu do carro.

Refez os passos até voltar ao lugar em que deixara Taiga, que continuava sentado no banco. Recebeu do outro um franzir de sobrancelhas desconfiado. A postura não desanimou Daiki, ele próprio desconfiaria da atitude se estivesse no lugar dele.

Não era bom em meneios e rodeios. Foi direto ao ponto, como lhe era característico.

— Vem comigo, Kagami. Eu vou salvar o seu traseiro.



Notas finais do capítulo

Importante: nessa fanfic se passou algo em torno de 5 anos após o anime. Eles estão mais velhos, lógico. Mas, em especial, o Kagami levou uns golpes da realidade e isso o fez mudar um pouco. Não estranhem as diferenças na personalidade. É uma questão de adaptação!

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Propaganda: meu desafio de outubro foi AoKa! :D
Passa lá:

https://fanfiction.com.br/historia/649888/100Palavrasparavoce/

Até mais! :3



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