A disputa pelo Grêmio Estudantil escrita por Lorde Barão


Capítulo 4
O temível Lorde Schadenfreude


Notas iniciais do capítulo

Bem, essa semana tem sido corrida para mim por conta da Semana de Engenharia que tá rolando na UFMA, mas mesmo assim arranjei um tempinho para atualizar essa fic.
Então vamo lá!!



Diário de Lucas Monteiro

(continuação)

Um pouco mais tarde naquele mesmo dia — O restante deste dia na escola foi relativamente agitado. Lorenzo confessou que se esqueceu de trazer uma muda de roupa e teve que continuar usando o uniforme de marinheiro até depois das aulas. Eita, foi uma confusãozona. Helena evitava olhar para o sujeito, que por sua vez tentava ser visto pela amiga sem nem saber o porquê das coisas. Durante o intervalo e a hora da saída, ele chamava a atenção de Barbara, que algumas vezes tropeçava por causa da distração, e acho que ele também chamou a atenção da Yakira Tanaka. Tipo, tenho certeza que ela estava o seguindo ao mesmo tempo que escrevia num livrinho, onde na capa havia escrito:

IDEIAS PARA FICÇÕES SHOTA

Não sei o que a palavra com “S” significa e acho que não quero descobrir. Aliás, no intervalo eu e Urbano terminamos de colar os panfletos que faltavam, mas não adiantou muito. Aparentemente quase toda a escola já havia decidido votar no Gary. Após o bater do sinal da saída, eu e minha turma fomos para a casa de Lorenzo.

Pouco depois ainda no mesmo dia — Uma vez lá, Helena ordenou que o otimista trocasse imediatamente de roupa. Depois nós almoçamos, descansamos um pouco e preparamos nossa próxima reunião. Tenho quase certeza que testemunhei Leônidas, irmão gêmeo mais velho de Lorenzo, costurando uma roupa de marinheiro igualzinha àquela dada por Cosme. Que ele tinha uma queda por Yakira não era novidade pra mim (e sinceramente, ele devia partir pra outra antes de começar), mas acho que aquilo foi exagero.

E então fomos para a sala de estar para discutir sobre as eleições. Eu, Lorenzo e Urbano sentávamos no sofá, e Helena estava de pé, ao lado de um quadro com informações aleatórias. Ela dizia:

— Pessoal, precisamos pensar seriamente num novo plano. Como sabemos, amanhã o jornal escolar vai entrevistar os candidatos ao longo do intervalo. Por isso eu pretendo fazer um ensaio aqui e agora, e vocês vão ajudar.

Do nada ela arranjou uma peruca, apontou para mim e disse:

— Você, vai ser a Gabi!

— O que? — protestei. — Por que eu?

— Porque tô mandando! — ela berrou. — Agora bote essa peruca!

Ela avançou para cima de mim com uma violência tão grande que nós dois fomos para o chão e por lá rolamos até que fui obrigado a interpretar a Gabi. Eu fiquei lá, sentado em um banquinho, usando uma peruca que simulava o penteado da responsável pelo jornal escolar, e meus amigos estavam lá, no sofá, olhando para mim e soltando uns risos pelos cantos. Minha vida é mesmo um inferno.

— Beleza — a brutamontes dizia enquanto se acomodava em outro banquinho. — Vamo fazer logo essa bagaça pra gente terminar logo com isso. Vai, você começa.

A princípio eu não conseguia começar. Apenas permanecia calado, encarando Helena com minha cara mais feia. E isso combinado à fofice da peruca que usava tornava a cena mais hilariante para Lorenzo e Urbano. Tive de juntar forças nas minhas entranhas para dizer:

— Olá, aqui é a Gabi Dias do Jornal da Escola, e hoje…

Não, não é assim que se faz! — gritou Helena, prestes a bater em mim. — Você não está colocando sentimento nessa merda de fala. A Gabi é bem mais energética que isso, quase igual ao Lorenzo.

— Ah é?! — eu retruquei. — Então por qual motivo você não o escolheu para interpretar a Gabi? Caramba, ele é bom em atuação, se esqueceu?

— Sabem — Lorenzo comentou —, não me importo em interpretar a Gabi. Se quiserem posso até usar as roupas que ela u…

— Não! — berrou Helena, aparentemente ainda afetada pelos acontecimentos de hoje. — Se quer interpretá-la, então só a peruca basta!

E assim fizemos uma troca: dei o papel de entrevistadora para Lorenzo e fui me sentar no sofá, enquanto que ele se acomodou no banquinho e colocou a peruca.

— Bom dia! — ele disse com um grande entusiasmo, afinando a voz para parecer uma garota. — Aqui é a Gabi Dias do Jornal da Escola, e hoje entrevistarei a incrível candidata a presidente do Grêmio Estudantil. Uma salva de palmas para Helena Guimarães.

Eu e Urbano batemos palmas, sem muito ânimo é óbvio. A senhora violenta respondeu:

— Obrigada, é uma grande honra estar aqui no estúdio.

— Ok, vamos começar com a entrevista — anunciou Lorenzo, fingindo segurar um gravador. — Helena, você gosta de coelhos?

— Uma vez comi um coelho assado show de bola — ela respondeu após lamber os beiços.

— E você gosta de ver filmes no cinema?

— Sim. “Ursos com metralhadoras” foi um de meus favoritos, mas eu também sou fãzona da série de filmes “Difícil de assassinar”. Meu favorito foi o quarto filme por causa da cena em que o cara joga um helicóptero no carro.

Naquele momento, decidi levantar minha mão e opinar:

— Licença, mas acho que a Gabi faria perguntas um pouco mais sérias, que tivessem relação com as eleições.

— Cala a boca Lucas, e não interrompa! — Helena gritou para mim. Logo em seguida, uma luz brilhou em cima da cabeça dela. — Ei, estava pensando. A Gabi faria perguntas um pouco mais sérias, que tivessem relação com as eleições. Lorenzo, tente fazer uma pergunta desse tipo.

E eu me incomodei mais uma vez, como mandava a tradição. Nosso colega que interpretava a entrevistadora perguntou:

— Helena, você acha que daria uma ótima líder?

— Sim — ela respondeu. — Eu já lidero três palermas, não deve ser muito difícil liderar no Grêmio Estudantil.

Lembrete: ela chamou a gente de palermas nas nossas caras! Lorenzo, que pareceu não se importar muito com isso, prosseguiu:

— Interessante. E só por curiosidade: como conheceu esses três adoráveis palermas?

— Bem Gabi — ela respondeu —, é uma história longa. A gente se conheceu na guerra.

Minhas sobrancelhas e as de Urbano se levantaram naquele mesmo segundo. Já fazia um tempo que ela não contava essa história 100% fictícia para as pessoas. Não queria acreditar nisso. Era impossível. Céus, era uma história muito idiota, tanto quanto aqueles filmes dos ursos, aquilo não podia estar acontecendo.

— O ano era 1940 — Helena começou, e eu me afundei no sofá tamanho era o desespero. — Sete helicópteros militares aterrissaram em uma base avançada no Vietnã. Eu desembarquei de um deles e fui direto a um laboratório. Lá eu conheci três patetas: Lorenzo, Lucas e Urbano. Um oficial superior me informou que daquele dia em diante eles seriam meus parceiros, e a princípio não fiquei muito contente. Mas tudo mudou quando a base foi atacada pelo maldoso exército GCN, Gorilas Cyborgs Nazistas. Estavam em maior número, não tínhamos chances de vitória. Mas o general revelou que o laboratório tava trabalhando num projeto secreto: um robô gigante e maneiro, com um montão de armas e uma espadona irada. Eu e meus parceiros entramos no robozão e demos uma surra naqueles desgraçados.

E por longos minutos ela continuou a narrar a história idiota, lotada de erros históricos e explosões. Sério, preferiria mil vezes assistir a um daqueles filmes retardados que Helena vez ou outra nos força a ver do que ouvir aquela estupidez. Enfim, ela chegava ao fim. Falou:

— E então tava lá eu, na Base Secreta dos Caras Maus, e tava lá ele, o cruel e impiedoso Lorde Schadenfreude. Ele era um homem estupidamente mau, tão alto quanto era alemão. Vestia um imponente uniforme negro com o maléfico símbolo nazista no braço, e usava uma máscara cinzenta que cobria seu rosto. Eu tentei dar um socão na cara dele, mas o mardito virou leite na hora, e pra cada vez que o golpeava eu me lambuzava de leite. Foi muito difícil, mas felizmente eu pensei numa ideia para derrotá-lo. Enquanto ele tava na forma de leite, eu rapidamente peguei meu apito de gato e chamei os bichanos, que como um relâmpago apareceram e beberam Schadenfreude todinho. E foi assim que a guerra acabou.

Eu queria morrer naquela hora. Urbano quase que entrava em um estado de coma. Lorenzo chorava de emoção.

— Essa foi a história mais linda que já ouvi na vida — ele disse.

— Já ouvimos essa porcaria um milhão de vezes — eu argumentei. — Além disso, essa história é cheia de erros históricos grotescos. Para começar, não havia mp3 ou smartphones em 1940.

— Foda-se! — Helena retrucou. — Minha história, minhas regras.

— Olá pessoas, como vão? — disse uma voz conhecida, mas que espantou mesmo assim.

Eu e Urbano quase saltamos do sofá, viramos nossos rostos para trás e vimos ele: Cosme. Outra vez ele tava lá, elegante e imóvel, com uma felicidade inusual no rosto.

— Olha, até que gostei do teatrinho de vocês — ele comentou.

E nas profundezas de minha mente, eu formulei a grande pergunta: “Há quanto tempo esse cara esteve por aqui, e quando foi que ele entrou na casa de Lorenzo?”.

— Oh, boa tarde Cosme — cumprimentou Helena, dirigindo sua atenção para o jovem de terno. — Como anda com o Marcotário?

— Ele está no papo — nosso aliado respondeu. — Marcos não representa nenhuma ameaça para você. O que me preocupa mesmo é o Gary, pois após a luta contra o dragão ele tá mais popular do que nunca, e temo que vai ficar mais ousado.

— Ousado? — questionou Urbano. — Meu, desde que o caboclo foi estudar na nossa escola eu o vi zanzando por aí, com um montão de gatinhas do ensino médio correndo atrás, e tudo isso durante o intervalo do fundamental. E hoje mais cedo uma limusine apareceu do quinto dos infernos, e dela surgiu um mordomo para entregar o devê de casa do Gary, previamente resolvido.

Cosme balançou um pouco a cabeça para os lados. Contra-argumentou:

— Não há limites para o Gary. De acordo com informações confiáveis, apenas duas pessoas no colégio inteiro pretendem votar em Helena. A propósito, esses dois votos foram graças às vestimentas usadas pelo Lorenzo. Acho que se ele vestir um outro uniforme que tenho aqui, talvez…

Ele quase tirou alguma coisa das profundezas do terno, mas Helena avançou em cima dele como uma fera da floresta. Ela gritou:

— Nem pense nisso!

E lá eu fiquei, visualizando com perfeição os nomes daquelas que nos apoiariam por causa da roupinha de marinheiro do Lorenzo: Barbara Van Schoorl e Yakira Tanaka. Não, não preciso perguntar pro Cosme para confirmar. Ele desistiu da ideia de dar uma outra roupa pro Lorenzo vestir e prosseguiu:

— Bem, como dizia, Gary vai ficar mais ousado e… — Parou um pouco para concentrar seu olhar em Helena, que mal sabia o que a aguardava. — Isso pode parecer um pouco perturbador para você, mas a verdade é que Gary nutriu uma paixão por você.

— Como é? — berrou Helena, que afastou-se de Cosme e andou para trás até o quadro com as informações aleatórias.

— Uou! — Lorenzo soltou uma interjeição. — Mas que notícia maravilhosa; Helena vai ganhar um namorado!

Ela não estava nem um pouco feliz com a notícia, era tão óbvio. A garota bufava com ódio; a impressão que dava era de que ela poderia bater em qualquer um de nós a qualquer instante. Eu já considerava a hipótese de puxar Urbano e Lorenzo para trás do sofá e rezar para que nada de ruim acontecesse com a gente. Mas Cosme se aproximou de Helena e a encarou. Disse:

— Sei no que tá pensando.

— Não sabe não — ela replicou. — Puta merda, tantos idiotas naquela escola e o bosta do Gary foi logo gostar de mim. Ele acha que pode simplesmente vir e se apaixonar pelas garotas como se não houvesse amanhã?

— Eu e você sabemos que sim, ele pode — respondeu Cosme. — Sabe o que mais ele pretende fazer? Provavelmente tentará ficar mais próximo de você e até tentará te abraçar. Ou mesmo arriscará dar umas beijocas no seu rosto.

— E ele vai apanhar antes mesmo de tentar. — Helena estalou os dedos e cerrou os punhos.

De repente, Lorenzo recordou das palavras de Barbara, junto com as desventuras de Ivan. Ele se levantou do banquinho e avisou:

— Helena, acho que isso pode ser arriscado. A monitora me disse que, por mais que Gary seja um babaca, ninguém pode contrariá-lo, ou a pessoa que o fizer sofrerá terríveis consequências.

— Droga Lorenzo! — Helena reclamou. — Eu nem tenho nenhum interesse amoroso naquele babaca.

Cosme nada disse, apenas olhou para cada um de nós. Depois encarou Lorenzo com grande seriedade e disse:

— As lendas diziam que Gary Evans Stewart Globes não tem fraqueza nenhuma. Isso é verdade?

— De acordo com Barbara — respondeu Lorenzo —, o grande defeito de Gary é que vez ou outra ele age como um babaca com os outros. Mas pelo o que entendi, todos o perdoam no final.

Cosme baixou a cabeça e aparentou estar um pouco deprimente. Eu e Urbano nos levantamos do sofá e chegamos perto do misterioso jovem, esperando alguma coisa a ser dita.

— Nossa esperança — ele falou — é continuar com a campanha e não mover um único dedo contra Gary. — Fitou Helena com grande seriedade. — E isso vale principalmente para você, Guimarães. Se no dia seguinte o Gary vir e tentar te paquerar, não revide, não contra-ataque, não faça nada, porque sofrerá terríveis consequências se o fizer.

Relatos de Cosme Dvoretsky

Terça - Feira — Hoje pus em prática meu plano de colar os panfletos do Marcos, e encontrei Lucas e Lorenzo. Sabiamente deduzi que os dois trataram de conversar com a monitora (e não é que Lorenzo ficou uma graça naquele uniforme?). Espero que ninguém leia essa passagem, pois tirei algumas fotos do jovem marinheiro sem que ninguém soubesse.

No intervalo, Yakira descobriu que uma das invenções de Fausto, um robô-urna, será usado para registrar e contar os votos. Curiosamente, ela ainda teve tempo de stalkear o menino de marinheiro.

Durante a tarde, compareci na reunião de Helena apenas para confirmar um temor meu: Gary é bem mais difícil de se lidar do que imaginava. Felizmente, nunca tive reais intenções de auxiliar Helena, pois tenho um plano secreto nas mangas. Ops, nem devia citar esse plano nesse caderno de relatos.

E-mail de Cosme Dvoretsky para Yakira Tanaka

(enviado terça-feira, por volta das oito da noite)

Cara Kira,

Tenho mais um servicinho para você. Independente do que ocorra nos próximos dias da semana eleitoral, preciso que, na meia-noite de quinta, invada o laboratório do Fausto e dê uma mexida no robô-urna. Providenciarei um pen drive especial para a tarefa e o entregarei para você na manhã de quinta. Também te darei as instruções.

E não se preocupe, no final você será recompensada pelos seus serviços.

Cosme

E-mail de Yakira Tanaka para Cosme Dvoretsky

(enviado terça-feira, por volta das oito e dezenove da noite)

Caro Cosme,

Farei o que pediu.

Mas é bom cê me pagar depois que mexer no robô idiota do Fausto, se não… >:(

Kira





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