O Calendário de uma Garota Problema escrita por Tatti Rodriguez


Capítulo 3
Capítulo 3 : A Ressaca


Notas iniciais do capítulo

Mais um capítulo pra vcs!!
Espero que gostem!
Me digam o que acham :3



Bonnie POV

Eu ouvia uma música ao fundo. Eu ouvia uma música e ela estava me despertando aos poucos. E eu não queria despertar. Eu sabia que assim que eu abrisse os olhos, o mundo me castigaria por ter sido uma garota má e ter enchido a cara sem pensar nas consequências.
Consequências essas que eu já começava a sentir até nos meus ossos.
Eu sabia o que viria a seguir. Tantas vezes ajudando Damon em suas noites pós-porre que eu havia aprendido muito bem a teoria.

A Ressaca, por Bonnie Bennett.

A ressaca é a consequência de uma noite totalmente louca em que decidimos nos afogar na bebida quando chegamos no limite de um determinado assunto.
Ela consiste em algumas etapas.

1. Negação.

Nessa primeira etapa, a pessoa se recusa a aceitar que acordou. Porque? Porque quando você acorda, a segunda etapa vem com força total.

2. Dores.
Ela é no começo bem leve, como algumas pontadas, mas logo depois ela te faz sentir como se estivesse sendo espancado e chutado.

3. Sensibilidade.
Na etapa três, você fica sensível a praticamente tudo.
Principalmente seus ouvidos, olhos e estômago.

4. Arrependimento.
Essa etapa consiste na pessoa se arrepender amargamente de ter recorrido a bebida.

5. Aceitação.
Você, nessa etapa, já aceita que foi um trouxa e que errou. Aceita as dores e todas as outras consequências como castigos e as encara.

6. Vergonha.
Nessa fase, você se lembra de todas as merdas que fez durante sua bebedeira. Sente vergonha porque ninguém é muito normal quando bebe.

7. Promessas furadas.
Essa é a última etapa. E você sempre promete que nunca mais vai fazer de novo. Mas quando se dá conta, já está virando o décimo copo de cerveja.

Eu estava no primeiro estágio, e eu sinceramente não queria passar para o segundo. Mas eu sabia que os outros 5 seriam inevitáveis.
Eu sentia o peso do meu corpo, eu sentia o peso do meu cérebro afundando em chumbo, eu sentia meus olhos lutando contra a claridade que entrava no meu quarto. Meu quarto que fedia bebida e roupas sujas. O que estava acontecendo?
Com toda a coragem e força de vontade que eu tive, eu abri os olhos. Mas a forte claridade me fez fecha-los rapidamente. Aos poucos eu os abria de novo. Com cuidado e lentamente eu me sentava.
Vislumbrei tudo ao meu redor e constatei na mesma hora que não estava no meu quarto, na minha casa.
Onde eu estava?
Me levantei combrusquidão, sentindo meu mundo rodar e a gravidade me puxar contra o chão. Mas me mantive em pé continuei a andar para fora do quarto, mas senti algo em meu bolso vibrar. Passei a mão e senti meu celular ali. O peguei na esperança de ser algum dos meus amigos, Abby ou chutando o balde... Que fosse Damon... Mas não era ninguém. Era apenas o alarme. Suspirei indignada. Como eu podia esperar alguma preocupação da parte deles? Eu sou muito otária mesmo! Eles nem se lembram que eu existo, eles nem pensam que posso estar precisando de ajuda ou de um abraço. Mas se eles precisassem de mim... Haha! Meu celular estaria lotado de mensagens e chamadas perdidas.
Como podiam ser tão cruéis? Que tipo de amigos são eles?
Mas também, é muita idiotice esperar o contrário. Como podiam esquecer dos amigos? Daqueles que sempre os ajudaram, colocaram a cara a tapa por eles? Como pôdem?
Eu jamais me esqueci deles! Em nenhum momento. Sempre colocando-os na frente! E olha como sou retribuída.
Sai a passos firmes daquela casa que nem sabia de quem era, ignorei completamente as dores de cabeça e nos músculos a cada passo que eu dava. Minha raiva e indignação era maior.
Mas... Por falar em esquecer... Eu sentia que estava esquecendo algo de muita importância... Mas o que era? Quando cheguei na esquina eu havia me lembrado!
Alaric!
Eu estava esquecendo-o.
Voltei a passos rápidos para dentro da casa e passei a procurá-lo. Na cozinha não estava, lá havia apenas um cachorro dormindo na pia, pessoas jogadas no chão e roupas espalhadas. Nos quartos não estava também. Na sala só tinha copos e garrafas de bebidas espalhadas pelo chão. Nos banheiros não estava, mas aproveitei para procurar algum analgésico. Encontrei e tomei. Logo a dor de cabeça passaria. Quando me vi no espelho quase tive um surto.
Meu cabelo estava um emaranhado de fios formando um ninho! Minha boca estava borrada com aquelas tintas fluorescentes. Lavei meu rosto e pareceu sair um pouco das tintas. Por ora estava bom.
Voltei a minha Caça ao Ric. Já havia procurado em todos os lugares. Só faltava o quintal.
Ele era espaçoso e tinha uma enorme piscina. Flamingos e hambúrgueres flutuavam sobre a água. Havia uma churrasqueira em um dos arbustos e pessoas espalhadas pelo chão, árvores. O que tinha acontecido? Era uma festa, ou um furacão?
Olhei em tudo, jardim, em baixo do carro e também em cima de uma das árvores. Mas Alaric não estava em nenhum daqueles lugares. E se ele tivesse saido sem mim? E se nos separamos? Eu nao sabia de quem era aquela casa. Eu não sabia onde eu estava. Estava assustada e desesperada.
– Alaric! - gritei e me arrependi no mesmo instante. Minha cabeça recomeçou a latejar.
Abaixei a cabeça e a virei, e então eu o encontrei. Dormindo abraçado a um gato no trampolim da piscina.
Sorri e fui até ele. O cutuquei mas ele não acordava.
– Alaric! - o cutuquei mais uma vez - Alaric!
O empurrei e ele caiu na piscina. Eu só pude ouvir seu grito de susto e dor.
O loiro colocou a mão na cabeça e no coração. Ele arfava e o gato que dormia abraçado a ele pulava para fora da piscina.
– Tudo bem? - perguntei preocupada e ao mesmo tempo não controlando a risada. Era hilário o ver daquele jeito. Ele tremia e parecia me olhar como se visse um et.
– Bonnie? - a voz era rouca.
– Sim, e seu nome é Alaric. Vem, vamos para casa. - estendi minha mão para ele e ele a pegou, o puxei para fora da piscina e ele saiu com muito custo. Deitou na grama e eu me sentei ao seu lado.
– O que aconteceu? - perguntou colocando o braço na frente dos olhos.
– Eu não me lembro bem. Você lembra de alguma coisa? - eu massageava minhas têmporas, quem sabe assim, elas param de latejar.
– Não... Onde a gente ta? - ele se levantou e olhou em volta.
– Não sei. Nem sei como chegamos aqui. - falei o puxando para fora da casa. Seguimos pela calçada até acharmos um comércio.
– Bonnie, você sabe onde estamos? - Alaric me perguntou com a voz arrastada.
Olhei a nossa volta e nada do que vi era familiar. Eu só tinha uma certeza: Não estávamos em Mystic Falls.
– Eu não sei. - confessei - Mas não podemos estar tão longe da boate. Estávamos bêbado demais para conseguir andar tanto pra tão longe de lá.
– Pode ter razão. A não ser que tenham nos trazido de carro.
Eu não havia pensado nisso, eu estava realmente tentando pensar no lado positivo das coisas. Até Alaric jogar um balde de água fria em toda as minhas esperanças.
– Nao acho que tenham feito isso. Não conhecíamos ninguém.
– Bonnie, estávamos todos chapados, você acha que ligamos pra isso?
Alaric era foda. Respirei fundo e então avistamos uma barraquinha de café expresso e nos dirigimos até lá.
– Oi, bom dia. - falei - Por favor, dois cafés extra forte, sem açúcar.
– Okay. - a atendente sorriu e começou a preparar os cafés.
– Ah, onde fica exatamente aqui? - perguntei e ela arqueeou uma de suas sobrancelhas ruivas - É que meu amigo e eu estamos perdidos. Estamos perto da Seven Sins?
– Ah, sim. Estão sim. Seguindo essa rua, vocês irão entrar a esquerda. Lá estará a Seven Sins.
– Obrigada. - peguei os cafés e paguei deixando um dinheiro a mais como gorjeta.
Alaric se levantou da calçada em que estava sentado e avançou em um dos cafés.
– A moça falou que estamos perto. Vamos.
O ajudei a se levantar e seguimos o caminho por onde a moça ruiva nos apontou.
– Hey, Bon, isso é um chupão?
– O que? Onde?
Alaric apontou em meu ombro e eu o vi. Uma grande marca escura. Só me faltava essa. Mas não podia ser um chupão, como eu havia conseguido ele? O apertei na esperança de ser um hematoma. Sem dor.
– Sim, é um chupão. - revirei os olhos e bebi mais um gole do meu café. O olhei e vi algo que me chamou a atenção.
– Alaric, sua boca está laranja, e você está coberto de glitter.
– Como é? - ele se aproximou de um carro e se olhou pelo vidro da janela. Ele começou a se avaliar e pareceu se lembrar de algo - O glitter foi na festa daquela casa. Estávamos jogando glitter e maquiagens uns nos outros. E esse laranja...
Ele apontou para mim e eu não entendi de começo.
– O que? Aí meu Deus! - cobri minha boca com a mão. - Nós...
– Aham... Quando saímos da piscina, se lembra?
– Não, ainda bem. Seria tão estranho... - bebi meu café nervosamente.
Alaric e eu havíamos nos beijado? Como era possível? Quer dizer... Estávamos bêbados e tudo mais, mas como podemos? Será que o chupão foi ele também?
Flashes da noite anterior invadiram meus olhos.
Alaric e eu dançando em cima das mesas, depois caímos na piscina. Rimos feito loucos e do nada começamos a nos beijar. Ele havia me pego em seu colo e me encostado na borda da piscina. Os beijos foram descendo por meu pescoço e ombros. Onde ele deixou o chupão! Depois disso alguém começou a nos molhar com uma mangueira e começou uma briga na lama.
– Ai! O que eu fiz?! - eu socava seu braço com força - Bonnie! Está louca?
– Como ousou deixar um chupão em mim?! - parei de soca-lo e antes que ele respondesse eu avistei meu carro mais a frente.
– Graças a Deus! - eu o ouvi. Alaric então destravou as portas e entrou no lado do motorista.
– O que você pensa que está fazendo? - perguntei o puxando pelo braço para fora do carro - Eu vou dirigir. Você não está nem um pouco bem.
– Ah, você tá ótima não é? - perguntou sarcástico.
– Melhor que você. Agora entra logo, a gente precisa de um banho.
Entramos e depositamos nossos copos de café nos descansos de copo. Liguei o carro e o manobrei. Abri o porta luvas e tirei dois óculos escuros. Dei um a Alaric e coloquei o outro. De repente um barulho irritante começou a soar.
– Alô? - Alaric atendeu o celular, tocou meu braço e eu encostei o carro - Matt? O que houve? Não! Ai meu Deus! Está brincando! Não, estamos bem sim. Relaxa. Ela está aqui do meu lado. Okay. Valeu. Té mais.
– O que aconteceu? - perguntei aflita. Meu coração estava batendo em minha garganta, será que algo aconteceu com Damon? - É algo com Damon não é? - liguei o carro e pisei fundo - Droga! Ele está bem?
– Não é com o Damon. Ele está bem eu acho. Relaxe.
– Com Caroline? Stefan? Fala logo Ric! - esbravejei e ultrapassei um carro vermelho.
– Bonnie! Vai devagar! - pediu assustado.
– O que aconteceu Alaric?! - Perguntei diminuindo um pouco a velocidade.
– Não é nada com eles. Não aconteceu nada. Não com eles.
– Como assim?
– Matt me ligou porque viu fotos nossas no Instagram.
– Fotos nossas no Instagram? - estranhei, peguei meu celular de meu bolso e dei para Alaric - Entre no meu.
– Okay. Oh meu Deus!
– Oh meu Deus! - me assustei também - O que você viu?! O que fizemos?
– O que eu fiz! - ele me mostrou o celular e freei o carro.
Peguei o celular e vi fotos nossas na boate já pintados com as tintas fluorescentes, uma selfie nossa com Jack em cima do bar. Havia uma foto minha e de Alaric pintando a enorme barriga de um cara com ketchup. Outra foto nossa com várias bebidas na mesa e sorrindo um para o outro. Havia vídeos também. Um vídeo nosso quebrando janelas de uma casa que parecia abandonada. Outro vídeo nosso correndo e dançando pela avenida. E o último vídeo era de Alaric e eu falando que iríamos parar de beber, mas depois tomando uma rodada de Tequila.
– Que... Merda...
Alaric pegou meu celular e eu voltei a dirigir em direção à Mystic Falls.
– Hey, Bonnie... - Alaric começou - Você é inacreditável.
– Porque? O que eu já fiz? Não me diga que roubamos um banco também. - me desesperei.
– Não, é que... Sabe, como você consegue se preocupar com eles depois de tudo?
Eu sabia de quem ele se refiria. E eu me fazia a mesma pergunta. Era por causa deles que eu estava tendo a pior dor de cabeça da minha vida, era por conta deles que estava com a pior ressaca da minha vida, era por causa deles que estava destruída. Era por causa deles que estava disposta a acabar com a minha própria vida.
– Porque apesar de tudo, eu os amo. Faria qualquer coisa por eles.
– Principalmente por Damon não é?
O olhei e sorri.
– Principalmente por ele.

Após deixar Alaric em casa eu segui para a minha. Estacionei o carro em frente a minha casa, mas eu não saí de imediato. Eu me recostei no banco e fiquei olhando o céu cinza atrás do enorme vidro. O céu estava prevendo chuva, com algumas nuvens escuras, as folhas e galhos das árvores balançavam conforme o vento queria. E eu queria poder sentir o vento bater em meu rosto, mas não como sempre senti. E sim como se fosse um pássaro. Voar e sentir o vento sobre meus braços, me flutuando... Queria poder ser livre, me sentir livre.
Queria poder fazer tantas coisas, queria poder ver tantas coisas, queria poder falar, sentir tantas coisas, mas principalmente viver.
Queria viver o que nunca vivi, queria experimentar tantas coisas, sem arrependimentos, sem pensar nas consequências.
Mas eu estava quebrada demais para pensar em viver, ou pensar em apenas eu.
Porém, eu queria ser apenas uma pessoa normal, que tem amigos de verdade, que não é vista apenas como escudo protetor, ou uma arma secreta contra inimigos que aparecem. Queria ser vista como uma garota que tem amigos verdadeiros, que é chamada porque quer apenas conversar.
Poucas as vezes que me chamaram porque se importavam, ou porque queriam apenas conversar... Sempre para pedir algo.
Bufei e saí do carro sentindo algumas gotas e corri para casa.
A primeira coisa que fiz foi tomar um banho demorado. Como estava frio eu decidi me agasalhar bem. Prepare meu chá de camomila e sentei na minha varanda e comecei a pensar em certas coisas.
Coisas que poderiam mudar minha vida.