Juntos Contra o Clichê escrita por VILAR


Capítulo 3
Diga-me teu nome que lhe direi quem és


Notas iniciais do capítulo

Tarda, mas não falha



Não sei em que aula estou, muito menos a matéria que é ensinada. A única coisa que me lembro é de ter me escondido a maior parte do intervalo do almoço, porque ainda não estou preparada psicologicamente para o jogo de perguntas que ele me lançará. Ele que se chamava Gabriel. Na primeira aula que acontecera eu estava no mundo da lua me torturando com o meu amor indo pelo ralo, porém voltei à mim quando a voz dele respondeu “presente” logo após o professor ter chamado o nome de Gabriel Medeiros. Medeiros, um sobrenome que soava bem para o nome escolhido para os nossos filhos...

Alguém me tire daqui.

É complica distinguir qual o sentimento que me dominava: decepção ou vergonha. Eu poderia me trancar no quarto e chorar durante cinco dias seguidos, mas também poderia ir diretamente até Gabriel e espancá-lo até que diga “eu te amo”, apesar de eu não conseguir mais olhá-lo nos olhos. Como um amor puro e verdadeiro como o nosso pôde ser jogado no lixo tão facilmente? Claro, não durou nem vinte e quatro horas, mas eu estou sofrendo mesmo assim.

Eu estava tão imersa em meus pensamentos que nem percebi que o sinal da última aula havia tocado. Ao averiguar o redor, assustei-me ao perceber que só restava três pessoas na sala: eu, uma menina que já estava de saída e ele. Nós trocamos olhares rápido, entretanto foi o tempo suficiente para ele esboçar um riso malicioso nos lábios.

— Eu finalmente te peguei, cordeirinha.

O tom da sua voz forçando um sarcástico me indicou que não era do seu usual, mas mesmo assim perfurou os meus tímpanos, triturou o meu cérebro e envolveu o meu coração em uma nevasca. Apesar da vergonha, me levantei o mais rápido que pude e me dirigi rapidamente para a porta. Gabriel, infelizmente, foi bem mais rápido que eu. Agora ele se encontra no meio da porta me encarando de cima com o mesmo sorriso idiota e com os braços cruzados, quase como se estivesse comemorando vitória.

— Vamos, me diga o quanto você quer para ficar de bico fechado. – disse ele, ríspido. O seu sorriso se foi e agora sobrou apenas apreensão, tão forte que eu poderia sentir à quilômetros de distância.

Toda a minha vergonha foi substituída por surpresa. A ficha ainda não caiu. Não posso acreditar que a pessoa que eu amei está tentando me comprar. Eu entenderia se quisesse brigar comigo por ter atrapalho seu momento particular, agora me subornar para ficar calada quanto a isso... A surpresa está acompanhada com a raiva, que acabou ganhando mais lugar no meu coração que ela. Ah, sim, Gabriel, que vontade de te socar. Uma porrada bem nada no seu olho direito, que só agora percebi que não é verde como imaginei, e sim castanho. Castanho combina muito bem com o roxo que quero deixar ai.

— Não me olhe deste jeito, garota. – pelo seu olhar, a fúria também crescia dentro dele. Infelizmente, não chega nem aos pés da minha. – Diga logo.

Nem pude perceber quantos segundos ou minutos se passaram conosco trocando olhares furiosos, estava ocupada demais tentando não perder o controle. Fechei meus punhos apertando as unhas contra a minha pele, porém nem tive tempo de raciocinar sobre a dor.

Gabriel suspirou, me tirando do transe de estresse.

— Ok. Dinheiro, não é mesmo? Ninguém pode negar uma boa quantia de dinheiro. – a irritação deixou seu corpo. Ele acreditava firmemente que finalmente achou algo que pudesse calar a minha boca. – Todo querem dinheiro, no fim. Me diga, querida, quanto você vale?

As balbucias de novelas das 21 horas chegaram até mim como uma cuspida. Não vou dizer que foi a primeira vez que eu fui humilhada na vida, porque, com certeza, eu já passei por uma coisinha ou outra pior do que ouvir porcarias de um mauricinho, entretanto eu cheguei no meu limite.

Sem pensar, lhe dei um soco onde eu já planejava. Gabriel cambaleou e tropeçou em seus próprios pés, desabando no chão com uma das mãos acariciando a parte machucada e a outra apoiada no chão, o segurando. Não fiquei para ver sua expressão de surpresa por ter sido atingido por uma garota de vinte centímetros a menos – uma pena, pois sei que riria para o resto da minha vida -, me retirei o mais rápido que pude dali. Já cansei de ouvir bobeiras como essa.

Eu já estava na metade do caminho de casa, passando pelo centro, a pior parte do longo caminho. A caminhada está sendo rápida, nem me toquei onde estava até e pisoteada e amassada por todas essas pessoas a minha volta. Estou bastante ocupada me torturando sobre o que eu fui fazer. Fala sério, eu podia ter aceitado o dinheiro. Não posso acreditar que deixar essa chance de ganhar uma grana fácil por ficar ofendida com todo aquele discursinho. Podia ter falado um valor que me ajudaria a pagar pelo menos metade do notebook que quero, já que estou juntando dinheiro há três meses e ainda estou longe de conseguir. Droga, Sophie, sua idiota! O que eu estava pesando, afinal? Que tudo aconteceria como os tramas mais previsíveis de todos os tempos? Que nos apaixonaríamos depois do galã subestimar a mocinha humilde e cabeça de vento? Pois é, minha cara Sophie, os galãs dessas histórias não são gays! Fala sério, eu não posso acreditar que agi por impulso.

Quando finalmente percebi que estava marchando ao invés de andar e apertando novamente minhas mãos, fui trazida de volta pela dor das minhas unhas atingindo os ferimentos causados antes de socar o rosto de Gabriel, que agora sangrava um pouco. Eu parei abruptamente, fazendo algumas pessoas mudarem o curso da sua direção para não esbarrarem em mim, causando algumas baixas reclamações. Ao pensar por alguns segundos, resolvi passar em uma farmácia e comprar alguns band-aids para não deixar pior do que já está.

A farmácia era no caminho de casa, felizmente, já que planejo chegar o mais rápido possível para afogar minha raiva em algum seriado que deixei de assistir ou um anime que deixei de ver dessa nova temporada, e que seja bem violento para imaginar aquele retardado no lugar de todas as mortes. Entrei e logo me perdi, a farmácia era imensa. Pedi informação para a mulher do caixa e adquiri meu objetivo sem muita demora – com exceção da fila para pagar, claro, que para variar estava grande.

Ao sair da farmácia meus pensamentos “agradavelmente” assassinos ainda me acompanhavam, mas saíram da minha mente assim que levantei meu olhar e fitei o outro lado da rua, completamente enfeitiçada. Os músculos da minha face relaxaram me livrando das curvas entre minhas sobrancelhas, e pude me esquecer de Gabriel. A pessoa do outro lado da rua é... é... Incrível. Seus cabelos castanhos caindo sobre a face suavemente, indicando que já era hora de cortar, se encaixavam perfeitamente com suas roupas casuais, combinada em uma calça jeans escura com uma camisa de malha vermelha de manga curta, que se destacavam muito em sua pele caucasiana. Tudo àquilo, não, ele encantava meus olhos, me impedindo de desviar a atenção. Só de observá-lo meus sentimentos se confundiram, sequer sei o que estou sentindo exatamente. Entretanto, de uma coisa eu tenho certeza: é ele.

Antes que eu pudesse raciocinar direito sobre tudo, eu já estava poucos passos de distância dele. Mesmo que exista uma multidão a nossa volta, só consigo observá-lo. Meus olhos o seguem fielmente. Eu preciso arranjar uma maneira de conhecê-lo. Demorei alguns minutos simulando várias situações até realmente fazer alguma, mas, sem hesitação, tomei atitude.

Chamei por diversos “eis” e “ous” até que ele enfim olhasse para trás, apenas para checar e, assim, eu pudesse inventar alguma pergunta sobre localização.

“– Me desculpe, senhor, mas você sabe onde fica o motel mais próximo?

— Não, tudo bem, senhorita. Bom, ele fica na rua blá-blá-blá, número blá-blá-blá.

— Onde fica essas coisas? Sinto muito, me mudei para cá recentemente. O senhor quer me acompanhar até lá?”

Mas nada disso aconteceu, já que ele não olhou para trás!

Desisti depois de ser encarada por diversos olhares estranhos e furiosos, me indicado que me achavam maluca. Parti para o plano B. Passei por ele o mais rápido que pude e, quando tomei uma distância segura o suficiente para que apenas ele pudesse me ajudar, me joguei no chão fingindo ter tropeçado em alguma coisa. Sem reação. Ele simplesmente me ignorou e continuou andando! Não posso acreditar. Continuei tentando, entretanto ele me ignorou todas as outras três vezes. Declarei o plano como fracassado assim que uma velhinha veio acudir me perguntando sobre o que estava acontecendo comigo, mas me livrei dela inventando uma desculpa de estar um pouco tonta e que logo chegaria em casa.

Já perdi a noção de quanto tempo estou o seguindo, pois estou ocupada demais planejando outras formas de ataques. Tudo vem dando errado. Esbarrei nele “acidentalmente” e afim de fazê-lo parar para pedir desculpas, porém ele continua andando e ignorando – isso aconteceu todas as cinco vezes; parei bruscamente na sua frente para atrapalhar sua passagem e fazê-lo esbarrar em mim, mas ele desviava rápido e ignorava – desisti depois sesta vezes; gritei euforicamente, como se tivesse visto algo extremamente assustador, isso me rendeu vários olhares assustados e algumas reações de fúria, todavia ele ignorou do mesmo jeito. Felizmente, consertei tudo gritando novamente que apenas esqueci meu celular e não tentei mais.

Eu já estava estressada o bastante para ir lhe dar um soco e só depois perguntar seu nome. Não consigo acreditar que alguém pode agir com tanto desdém deste jeito. Comecei a rodar a sacola de plástico que continha os band-aids freneticamente afim de aliviar uma parte do meu estresse – esperando, no fundo do meu coração, a hora que alguém entra no desfecho e fale que estou rodando bolsinha na rua, porém nada disso vai acontecer, já que geralmente sou eu que faço esse tipo de piada –, mas isso de transformou em uma ótima ideia. Arremessei com toda a minha força a sacola em sua cabeça.

Ele parou.

Olhou para trás.

Já esperava que ele apenas ignorasse essa vez também e nem planejei nada para dizer. Congelei. As pessoas ao meu redor sumiram e apenas restou eu e ele, a pessoa que me fitava com raiva. Não conseguia desviar meus olhos dos seus belíssimos olhos castanhos escuros, é como um feitiço extremamente poderoso que aumenta cada vez mais conforme os segundo passam. Ele não precisou procurar pelo culpado, assim que se virou para trás já deduziu que fosse eu. Queria acreditar que fosse nosso destino de almas-gêmeas, mas minha expressão totalmente surpresa deve ter me entregado facilmente. Agora que pude observá-lo melhor pude notar o quanto era alto, chegava fácil a um metro e noventa centímetros. Seus ombros largos e robustos, seu físico com poucos músculos e até seu olhar furioso era belo. Observando mais, notei uma tatuagem de nota musical em sua nuca, que também era fascinante. Ah, tudo nele é tão interessante.

Me livrei do transe com o susto que tomei quando ele revolveu agachar e pegar a sacola que havia atingido sua cabeça, e me apavorei mais ainda quando ele caminhou em minha direção. Parou, abruptamente, poucos centímetros de distância com uma postura relaxada e olhar em desdém. Com a proximidade percebi ainda mais os vinte centímetros maçantes de altura que temos de diferença, pois ele me olhava de cima.

— Acho que você deixou isso cair. – sua voz levemente rouca fizeram meus tímpanos se apaixonar, se é que isso é possível. Seu sotaque era um pouco forte, mas o que a deixava ainda mais cativante.

— Ah, me desculpe. – soltei uma leve risada para indicar que tudo foi um acidente, e não um incidente. – Escapuliu da minha mão.

— E foi parar na minha cabeça?

— Eu sou forte.

O cortei rapidamente com a minha frase curta e seca, mas com o mesmo sorriso falso para esconder meus reais motivos. Isso o silenciou por pouco tempo. Ficamos trocando olhares por alguns segundos, que poderiam ser minha eternidade de agora em diante.

Aproveitei essa chance para dar mais uma olhada em seu belo rosto. Isso funcionou bem porque a cada vez que passava os olhos em seus detalhes eles se tornavam mais atraentes. Seu nariz, boca, olhos e até mesmo suas orelhas, que usavam... fones de ouvido. FONES DE OUVIDO! Agora eu entendo o porquê de ter sido ignorada todas essas vezes! Eu não esperava ter que fazer um papel de trouxa tão forte quanto esse, ainda mais em meio a tantas pessoas.

O meu novo deus grego cortou meus pensamentos esticando um dos braços me devolvendo a sacola, que havia me esquecido da existência. Eu a peguei relutante, pois a atitude me indicava o fim da nossa curta conversa. Antes que eu me desse conta, ele já havia se virado e continuado a caminhar sabe-se lá para onde.

— Espera! Co... Como você se chama?

Eu devo ter gritado, porque eu o vi retraindo levemente os músculos, assustando-se, mas eu não consegui perceber a tempo; estou submissa a seu feitiço ainda.

Ele demorou um pouco para responder, porém virou a cabeça levemente, me mostrando apenas seu perfil, e disse:

— Leonardo. – para me provocar mais ainda, esboçou um sorriso torto.

Se minha vida fosse transformada em desenhos por artistas japoneses, ilustrariam essa parte com um sangramento nasal intenso capaz de encher o Cantareira novamente.

Leonardo já havia voltado a caminhar antes de eu me libertar do novo transe, mas reuni forças o suficiente para retribui-lo.

— Sophie! Meu nome é Sophie! – gritei.

Sem atenção. Leonardo não deu sinal indicando ter ouvido minha fala, então minhas dúvidas a respeito de ele ter me escutado estavam altas. Não tentei mais, um sinal divino me alertava que ele tinha, sim, ouvido, o que me tranquilizou um pouco.

Só se cura um amor com outro amor!





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