Juntos Contra o Clichê escrita por VILAR


Capítulo 21
Onde há fumaça, há Sophie


Notas iniciais do capítulo

Estou aqui mais cedo do que deveria. O capítulo está pronto há alguns dias, mas estava me segurando para postar apenas na próxima semana. Acabei não aguentando, aushakauhka.

Boa leitura c:



A terça-feira passou rápido, sem maiores problemas. Nós três não tocamos no assunto da visitação de sábado, apenas conversamos sobre banalidades. Gabriel era o estressado de sempre, arranjava coisas para reclamar e criticar, mas havia algo de diferente com Maria Luiza. Suas palavras eram ainda mais raras, quase não olhava em nossa direção. Jogávamos assuntos na mesa, esperando que continuasse a conversa, porém só obtínhamos como resposta um breve aceno ou um “é” perdido. Até Gabriel, geralmente alheio com o que estava acontecendo conosco, demonstrou notar a diferença. Maria Luiza parecia uma cópia de Gigante, o membro retraído da Alvorecer Rubro.

Na quarta-feira Maria Luiza me esperou novamente na entrada, ignorando tudo e todos que lhe lançavam olhares indecentes. Tirei-a dali animada, fazendo o possível para minha felicidade a contagiar. Ao chegarmos ao corredor de nossas salas, entretanto, percebi que de nada adiantou. Hoje ela parecia ainda mais distraída, pensando em tudo, menos em meus dizeres.

Quando deu o primeiro passo para entrar em sua sala, sem ao menos se despedir, agarrei seu fino pulso de leve, puxando-a para um abraço apertado. – Até daqui a pouco, Malu! – o gesto súbito não deu chances de fuga.

Mas, quando meus braços apertaram o local próximo a sua cintura, Maria Luiza me empurrou enquanto soltava um gemido de dor, curvando o corpo levemente para a esquerda. Cambaleei para trás com o espanto da reação sem tirar os olhos dela. Permanecemos em silêncio fitando uma a outra; eu, confusa, e Maria Luiza com perfeitas incógnitas nos olhos redondos arregalados. O único barulho a nossa volta eram dos cochichos indecifráveis dos alunos que perceberam a nossa cena.

Abri os lábios, pronta para sanar minhas dúvidas, porém Maria Luiza foi mais rápida. – Eu... – começou ao mesmo tempo em que dava um passo para trás, ainda com os olhos vidrados nos meus. – Me desculpe! – disse baixinho, correndo para dentro da sala, dando as costas para mim.

Comecei a andar para dentro, preocupada com sua reação, mas uma senhora desconhecida passou por mim com passos rápidos e curtos. E, ao ver pousando o material que carregava na mesa extensa, percebi que era uma professora. Não avancei mais. Procurei por Malu rapidamente, esperançosa em achar alguma explicação em seu olhar, contudo, assim que a encontrei em uma das últimas carteiras, ela não olhava em minha direção. Cogitei interromper sua aula para pedir um tempo para dialogar com a minha amiga, mas, antes que pudesse falar, a professora baixinha me lançou um olhar fatal através dos óculos quadrados vermelhos. Mandou-me de volta para a minha sala, expulsando-me de sua porta. Como diabos ela sabe que não sou desta sala?, pensei, a muxoxos, vendo meu plano ir por água abaixo.

A aula de literatura passou sem que eu percebesse, pois estava ocupada demais trocando mensagens com Gabriel. Contei-o sobre o que aconteceu e perguntei, desesperada, se ele sabia sobre o que estava acontecendo. A resposta, obviamente, era um não. Não um “não” qualquer, e sim um ao seu estilo, repleto de rudeza e ressaltando o quanto era estúpida por pensar isso. Como de praxe, ignorei os insultos. Arrisquei algumas mensagens para Maria Luiza, em vão.

Quando o sinal do recreio soou puxei Gabriel para imediatamente irmos ao encontro de Maria Luiza. Ao chegarmos à porta da sua sala, entretanto, percebemos que ela já não estava mais ali. Gabriel, mais aceito pelos alunos, perguntou sobre o paradeiro da garota, sendo obrigado a usar o apelido Princesa do Gelo, já que ninguém ali parecia saber seu nome. Nada. Nenhum dos alunos nos deu um local exato. Caminhamos pela escola os trinta minutos de intervalo, procurando pela nossa colega perdida. Gabriel perguntava sobre Malu para os seus admiradores a cada corredor que virávamos, mas as respostas sempre eram as mesmas. Ninguém nunca sabia onde ela poderia estar.

Depois de sermos forçados a voltar para a sala pelo barulho dos sinais continuamos conversando por mensagem. Entre o nosso intervalo de mensagens aproveitava para mandar mais algumas para Maria Luiza, apesar de não estar obtendo resposta. Gabriel até me confessou que mandou duas, já que também estranhou sua fuga.

“Você deve ter feito merda”— respondeu Gabriel em sua última mensagem.

E, insegura, repassei os últimos dias. Maria Luiza estava normal na segunda quando me esperou na entrada. Não se importou quando a puxei pela escola e até nos respondia melhor. Marcamos de sair no sábado e, mesmo que tenha se demonstrado contra a princípio, não reclamou mais. A única coisa estranha que aconteceu foram as sobrancelhas tremulas quando citei a Alvorecer Rubro, mas, como sugeriu Gabriel no dia, era por causa de ser uma fã. Terça-feira ocorreu à mudança radical, antes mesmo de começar a falar com ela.

“Não me lembro de ter feito nada fora do comum”— respondi-o quando cheguei à conclusão de que minha barra estava limpa.

“Vai ver que para ela, assim como para mim, sua própria existência é fora do comum. Deve ter se cansado de brincar com você.”— retornou em breves segundos.

Pensei, pensei e pensei. No fim, fazia sentido Maria Luiza querer se distanciar da gente por minha causa. Ela era calma, sempre tranquila, e eu era o oposto. Gostava de agitação. Talvez ela realmente tenha desistido de andar comigo pelo cansaço que Gabriel julgava que eu causava.

“Mesmo assim perguntarei diretamente para ela”— foi minha última mensagem da aula.

 Depois de fazermos alguns exercícios, fomos liberados. Gabriel caminhou até minha carteira com a mochila nas costas, apressando-me. Descemos os dois lances de escadas comentando sobre o que poderia estar acontecendo. Gabriel, é claro, formulando mil ideias sobre como eu poderia ter ferrado tudo enquanto eu pensava em outras coisas.

— Ela pode estar com diarreia e por isso foi embora mais cedo. – comentei, cortando sua fala sobre o quanto estava feliz por ela por ter se distanciado de mim.

— Isso não explica o empurrão. – resmungou, revirando os olhos escuros.

— Pode ser que eu tenha apertado sua barriga. – continuei, alegre por ter achado uma solução. – Sim, só pode ser isso! – empurrei seu braço, desequilibrando-o.

— Essa é a explicação mais estúpida que eu já vi! – gritou, estressado, voltando para o lugar.

Ao chegarmos ao primeiro andar, prontos para passarmos pela porta de vidro, uma voz feminina chamou por Gabriel, interrompendo minha comemoração por ter entendido o problema de Maria Luiza. Virei junto a meu amigo para ver a garota, mas não a conhecia – não estudava em nossa sala. Ela não se aproximou, fez um gesto para Gabriel ir a seu encontro e continuava a gritar seu nome. Antes de seguir para sua direção fez questão de não disfarçar os seus olhos revirando junto a um muxoxo, despreocupado por estar longe o bastante para a garota perceber. Esperei-o encostada da parede bege, pois queria continuar a nossa conversa. Quando meu amigo se aproximou fez questão de exibir um brilhante sorriso, como se há poucos segundos não estivesse fazendo uma expressão de puro desagrado. Sorrisos certamente deve ser a especialidade da família, já que Leonardo parecia ter o mesmo problema, apesar de mantê-lo por mais tempo.

Tornei a voltar a pensar nos acontecimentos de sábado ao lembrar-me dos sorrisos de Leonardo. Estava ansiosa para descobrir o que havia acontecido com Pedro, mesmo depois da nossa briga. Deveria ter pedido o número de Jô, assim poderia finalmente matar a minha curiosidade. Farei isso no sábado, quando nós três chegarmos para uma visita.

Pensava sobre diversas coisas quando, ao virar-me para porta de vidro a fim de observar o tempo, uma figura encostada no portão escuro, de costas para mim, me chamou a atenção. A combinação dos cachos cheios e a postura inclinada para frente só poderiam pertencer à pessoa que estávamos procurando a manhã toda. Virei para alertar Gabriel, mas ele, juntamente a garota desconhecida, desapareceram. Provavelmente os encontraria no pátio traseiro, em outra porta de vidro ao lado da escada para o segundo andar, entretanto não quero perder tempo. Corri em direção à Maria Luiza.

— Malu! – gritei, próxima ao portão, chamando a atenção dos poucos alunos sobraram a sair. Antes que desse tempo de dela virar, parei ao seu lado, escorregando ao fazer a curva fechada entre ela e o portão.

Maria Luiza pousou as órbitas negras em meu rosto preocupado, sem demonstrar quaisquer sentimentos. Ficamos alguns minutos apenas nos fitando. Ainda com as sobrancelhas trêmulas, Malu abria e fechava os lábios diversas vezes.

Ao ver que não começaria a falar, arrisquei primeiro. – Você está com diarreia, não é? – indaguei, séria, colocando uma das mãos em seu ombro. Maria Luiza abandonou a tremedeira das sobrancelhas, agora levemente franzidas acompanhadas de olhos confusos. – Não precisa se desculpa por causa disso. Acontece. – reconfortei-a, apertando os dedos em seu ombro. – ‘Tá tudo bem! – voltei a sorrir, mas não fui acompanhada.

— Não é nada disso. – falou, sem desviar o olhar. Em dois dias, esta é a primeira vez que, ao falar, não virava o rosto para outra direção. Era a minha vez de franzir as sobrancelhas. – Eu fiquei... – a voz baixa mal chegava aos meus ouvidos, mesmo a um único passo de distância. – Eu fiquei para me desculpar. – tornou a repetir, desta vez com a voz um pouco mais alta. Continuei em silencio, tentando assimilar. – Me desculpe. – falou, finalmente, ao perceber que continuaria quieta.

Afastei minha mão de seu ombro, deixando meu braço cair ao meu lado.

— Se não era diarreia, o que você tinha então? – pendi a cabeça para o lado, curiosa.

Maria Luiza engoliu em seco, sem ousar desprender a ligação de nossos olhos. O silêncio mais uma vez se instaurou por longos dois minutos. Seus lábios tornaram a abrir e fechar, sem coragem para deixar qualquer som sair.

— São apenas dias ruins. – chiou, sem que eu precisasse interromper primeiro. Mas, enquanto pronunciava a frase, suas sobrancelhas tremeram. Começava a pronunciar, preocupada, sobre o que poderia ter acontecido quando ementou, às pressas: – E não quero falar sobre. – recuei um curto passo, dando-a espaço.

Entendo que não temos obrigação de contar tudo para os amigos, ainda mais quando nos conhecemos há tão pouco tempo. Certamente não é algo confortável. Entendo. Mas mesmo assim não consigo evitar ficar chateada com a falta de confiança. Vê-la diferente, escolhendo passar por seja lá o que for sozinha me deixa... incomodada. Gostaria de sacudi-la, gritar para me contar tudo neste momento, contudo confiança não se ganha desta maneira. Teria que respeitar. Teria que entender seu silêncio.

Maria Luiza demonstrava um visível desconforto por tocar no assunto, sequer olhava em minha direção. Dei um passo para o lado direito, ficando bem na sua frente, e abri o meu maior sorriso. – Tudo bem, Malu! – confortei-a, animada, quebrando sua expressão cabisbaixa. Assim que seus olhos encontraram os meus voei para frente, passando os braços para trás de seu pescoço e colocando nossas bochechas. – Estarei aqui se precisar conversar, ‘tá bom? – seus cachos negros faziam cócegas em minha face.

Hesitante, Maria Luiza depositou as mãos em minhas costas, retribuindo o abraço de um jeito fraco.

— Obrigada. – a palavra saiu trêmula, como se estivesse pronta para chorar. Apertei mais os braços em sua volta. – Muito obrigada. – abafou os dizeres em meus ombros, em um tom quase inaudível.

Ficamos algum tempo assim. Maria Luiza não disse mais nada e nem derramou uma lágrima sequer. Depois de já quase estar engolindo seus cachos, nos separamos. Ao notar seus olhos marejados, reforcei o sorriso.

— Podemos ficar assim até que tenha desabafado. – ajeitei uma mecha que estava grudada em minha bochecha atrás da orelha.

Maria Luiza abriu os lábios, pronta para negar, mas a voz a entrar em meus ouvidos não foi a sua.

— Emocionante. Certamente emocionante. – a voz grossa, carregada de deboche, assustou-nos.

Esquerda. Não pude o ver se aproximando. Ele estava a minha esquerda.

Antes que pudesse virar meu rosto para observar quem estava nos intimidando, uma mão enorme agarrou a gola do meu uniforme, puxando-me para sua direção. Minhas mãos imediatamente voaram de encontro a sua, forçando para que me soltasse. Em reflexo olhei para cima, procurando o dono violento. Sobrancelhas grossas, olhos pequenos e um nariz espaçoso; não me era familiar.

— Quanto tempo, vadia. – sua face estava a milímetros da minha. O seu bafo me fazia arrepiar. – Sentiu falta do papai aqui? – gotículas de sua saliva aterrissavam em meu rosto. Nojo. Deixei uma mão cair, restando a esquerda apertando meus dedos em seu punho.

Repassei novamente suas características em minha mente, estranhando sua fala. Continuei sem reconhecê-lo. Franzi as sobrancelhas, sem deixar sua atenção ir para outro lugar. Ele estava sozinho. Devagar, usei a mão direita, que estava atrás de mim, para alertar Maria Luiza. A abanei para trás, sinalizando para voltar para a escola, calmamente. Não consegui ouvir seus pés arrastando para trás, o que me fez suspeitar que ela continuasse estática.

— Você é... – iniciei, forçando uma expressão aterrorizada. O grandalhão parecia satisfeito. – Quem é mesmo? – cuspi as palavras, despreocupada, desmanchando o terror rapidamente. Continuarei mantando sua atenção apenas em mim.

— Filha da puta. – o homem, visivelmente irritado, me sacudiu violentamente enquanto gritava na minha frente. Meu uniforme certamente alargou pelo barulho estranho que atingiu meus ouvidos. – Não me faça perder a paciência, vagabunda. – voltou a aproximar os nossos rostos. – Você sabe quem eu sou. – afirmou, retornando a cuspir gotículas de saliva em minha face.

— Realmente não sei. – permaneci sem demonstrar medo. Precisava de tempo até achar alguma saída. Saber quem ele era não fazia a menor importância.

Possesso, o grandalhão levou o outro braço, empurrando-o contra os meus olhos uma mancha preta. – Lembrou agora?

— Está muito perto. Não consigo ver nada. – tentava permanecer séria, mas a minha fala me fez lembrar o pica-pau, que estava em uma situação parecida e falou uma frase semelhante. Abafei uma risada, sem querer arriscar deixa-lo mais irritado.

O homem apertou os dedos na minha gola, fazendo outro barulho no tecido. Se continuar deste jeito serei forçada a voltar para casa sem blusa. Revirei os olhos. Em gestos bruscos, usou a mão que me prendia para me empurrar para trás. E foi aí que percebi.

— E agora?! – rosnou.

A tranquilidade deixou o meu corpo. O nervosismo deixou minhas pernas bambas e trêmulas. Por um lado estava agradecida por ele estar me segurando, senão certamente teria percebido o meu desarme total. Minha expressão mudou e o grandalhão pareceu apreciar a minha seriedade. Ainda não afastou o braço musculoso que ostentava a tatuagem de um lobo negro ouvindo para a lua. Noite Prateada. Pensava que apenas era um cara que havia confundido a pessoa ou alterado por algum tipo de droga, mas isso deixava tudo complicado e extremamente alarmante. Era de uma gangue. Uma gangue de cor.

Os dizeres de Jô invadiram minha mente: “Os Pratas é um grupo sorrateiro”. Comentou também do último ataque deles e do quanto foram baixos. E agora, totalmente despreparada e com alguém para proteger do lado, estava compreendendo na pela o quanto eram covardes.

Remexi o corpo, tentando me soltar, mas o grandalhão retribuiu puxando-me de volta para perto ao mesmo tempo em que gargalhava.

— Hoje não tem aquele puto para te salvar, princesinha. – tornou a aproximar nossos rostos. Precisava ficar na ponta dos pés para não rasgar minha blusa. O vento batendo em minha barriga indicava que estava quase despida. – Preciso te levar para um lugar, mas posso muito bem falar o quanto você resistiu e te dar um trato como vingança. – seus lábios a poucos milímetros de distância deixou tudo ainda mais assustador. Não pude deixar de tremer.

Ele era enorme e repleto de músculos. Poderia, sim, arriscar uma luta, mas sabia o quanto estava despreparada. A porcentagem de derrota era altíssima, entretanto a minha vontade de tentar espanca-lo estava vencendo. Para me manter sã, Maria Luiza estava aqui. Precisava pelo menos deixa-la intacta. A rua onde seu motorista fica estava atrás do grandalhão. Se tentarmos passar por ele é muito provável que seus braços longos alcancem uma de nós duas rapidamente. Poderíamos virar e entrar no portão da escola, porém a mesma possibilidade me assombrava. A curva próxima poderia fazer com que ele conseguisse agarrar a que ficasse para trás e puxasse para outro lugar. Tínhamos que ir para trás. Em linha reta. Ele deve ser lento por conta da altura. Com sorte, encontramos uma rua movimentada e gritamos por ajuda, obrigando-o a parar de nos seguir se não quiser problemas com a polícia.

Tinha que tentar.

Agi o mais rápido que pude. Finquei meus dentes na mão que estava próxima a meus lábios, a mesma que me obrigava a olhar para cima e segurava minha gola. Senti o gosto de sangue em minha boca. Com a dor súbita o grandalhão largou meu uniforme e, jogando meu corpo para cima de Maria Luiza, desviei por pouco da sua outra mão que buscava me agarrar. Agarrei seu pulso e parti para trás usando toda a minha velocidade.



Notas finais do capítulo

Clássica frase do pica-pau, haha. Saudades do desenho.



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