Where flowers grow wild escrita por Marie


Capítulo 20
Capítulo 20 - As palavras que nunca foram ditas




Dorian não conseguia se lembrar da ultima vez que estivera tão bem. Gabriele se mostrou uma aluna excelente e seu riso fácil era tão contagiante que ele não conseguiu resistir em lhe dar um presente antecipado de aniversário: um bonito potro que havia nascido há poucas semanas, coisa que fez a menininha gritar de alegria e lhe agradecer aproximadamente mil vezes. Uma vez para cada protesto da irmã.

—Você não pode dar um cavalo a ela! Por Deus, quem dá um cavalo a uma criança de oito anos?— Nicole reclamou mais uma vez seguindo Dorian que fingia descaradamente não estar escutando enquanto caminhava tranquilo pela casa.

—Você poderia ter pelo menos a decência de olhar para mim?

O tom irritadiço da garota fez Dorian rir e girar sobre os calcanhares para ficar de frente para ela.

—Sou todo olhos e ouvidos para você, Nicole— ele respondeu revirando os olhos dramaticamente— mas sinceramente não compreendo a preocupação. O cavalo que dei é perfeito para o tamanho dela e além do mais você viu como ela se saiu perfeitamente bem hoje.

Nicole bufou cruzando os braços firmemente sobre o peito e o conde aproveitou-se disso para agarrá-los e trazê-la para perto de si de modo que praticamente não sobrasse muitos espaço entre um e outro, ficando satisfeito com o fato dela não tentar se afastar e até mesmo parecer relaxar um pouco em seus braços. Por um momento Dorian se permitiu devanear se ela não estaria tão ansiosa por ser tocada quanto ele estava em fazê-lo.

—Ganhei meu primeiro cavalo aos oito anos também. Eu adorava montar...— Ele contou com certa nostalgia e uma doce empolgação infantil, mas logo seu olhar passou de sonhador para penetrantes e recaíram sobre a face da mulher que tinha presa em seus braços. Ele tinha crescido afinal, e por mais que ainda sentisse muito prazer em cavalgar, também tinha tomado gosto por uma atividade um pouco diferente dos cavalos.

Ainda sem desviar o olhar do dela, que também parecia subitamente hipnotizada, permitiu que os dedos elegantes descessem por suas costas, percorrendo toda a linha das fitas que fechavam lhe o vestido verde pálido, adorando como sua pele corada se arrepiou e os lábios entreabriram-se suavemente num suspiro que o fez desejar desfazê-la de todos aqueles laços e fechos alí mesmo onde estavam bem no meio do corredor.

—Por que precisa ser tão relutante com tudo em relação a mim?— ele perguntou finalmente quase sem reconhecer o som da própria voz— Apenas deixe-me agradar você...— ele murmurou inclinando-se perigosamente em direção aos lábios dela, mas desta vez Nicole não permaneceu tão quieta e desviou o rosto no exato momento em que os lábios deveriam se encontrar fazendo Dorian depositar-lhe um beijo no maxilar e não no local onde era seu intento, o que o fez dar uma risadinha baixa e maliciosa.

Sem se dar por vencido segurou-a com ainda mais vontade e virou-lhe o corpo de modo que ficasse com as costas coladas na parede e só então entrelaçou os dedos em seus cabelos soltos e continuou a distribuir-lhe beijos desde o maxilar até o pescoço, aspirando seu perfume flores, encantado com o calor de sua pele macia, desejoso de ir muito além quando a ouvir suprimir um suspiro sem muito sucesso.

No entanto, do mesmo jeito que antes ela pareceu derreter sob seu toque subitamente seu corpo tornou-se novamente rígido e as mãos pequenas apertaram os braços que a seguravam numa mensagem silenciosa de que parasse. E ele parou apenas para olhá-la um pouco frustrado. Não conseguia compreender o porquê de continuar negando algo tão bom e que por uma estranha razão parecia tão certo.

—Está bem, já sei. Suas respostas...— ele resmungou de má vontade antes que ela dissesse qualquer coisa— me acompanhe até meu escritório então... Acho que existem mesmo muitas coisas que você realmente precisa saber.

Enquanto se dirigia ao escritório Dorian sentiu-se um tolo por achar que poderia simplesmente esquecer tudo que tinha se passado e seguir a vida a partir daquele ponto feliz em que estava. Sabia que sua esposa não era o tipo de mulher passiva que antes ele havia desejado que fosse. Ela era viva, inteligente e espirituosa demais para deixar passar facilmente qualquer tentativa de distração que ele viesse a oferecer e por mais que naquele momento essa personalidade lhe parecesse muito penosa ele não desejava de modo algum que fosse diferente. Comparadas a Nicole, as outras mulheres com que tivera a oportunidade de conviver começavam a lhe parecer verdadeiramente insípidas e entediantes. Ele só precisava esclarecer as coisas e depois estariam ambos livres para continuaram de onde haviam parado.

Entraram na saleta em silencio, cada um com seus próprios pensamentos, mas então bastou que a porta fosse fechada para que o conde se pusesse a falar como se as palavras estivessem saltando de sua boca sem qualquer controle. Contou-lhe tudo desde o começo; falou sobre a falência que o estivera assombrando, sobre como tinha se aproximado dela por causa do dinheiro que os Dashwood possuíam, falou sobre a origem do boato que a obrigara a casar e em seguida explicou o que o fizera agredir Lorde Ashton na festa. Por fim cada detalhe do que acontecera em Londres sem omitir nada do que descobrira.

Nicole ouviu todo aquele monólogo sem interrompê-lo nenhuma vez e quando terminou continuou encarando-o em silêncio. Por mais que as informações tivessem sido atiradas como flechas em sua direção havia compreendido tudo muito bem e a sensação que aquelas palavras provocaram nela atordoaram-na completamente. Nem precisava olhar um espelho para saber que estava empalidecendo a media que ele ia contando a história.

—Agora não tenho qualquer segredo para você— ele murmurou, deixando os ombros caírem derrotados numa pose longe de ser altiva.

Ela apenas o continuou encarando com uma expressão que ele nunca havia visto antes em seu rosto. Não havia raiva, surpresa, nem mágoa. Sua fisionomia só delatava resignação e talvez um pouco de tristeza.

—Diga-me alguma coisa— ele se viu pedindo depois de mais minutos em silêncio.

—O que espera que eu diga?— ela começou finalmente num tom muito calmo, unindo as mãos e entrelaçando os dedos— que sinto raiva? Que me magoa você e seus amigos terem me colocado exposta desta maneira por dinheiro? Muito bem, estou magoada, mas também não posso dizer que isto me surpreende.

Como Dorian não pareceu compreender ela continuou explicando com toda a calma de alguém que já tinha refletido muito sobre o assunto.

—Seu egoísmo sempre foi o seu maior defeito.

—O que fiz foi pela minha mãe...

—Foi por você— ela o interrompeu — Foi para salvar a si mesmo. E agora eu posso ver que o que faz por mim também só o faz por você.

—Isso não é...

—antes de casarmos— ela o interrompeu de novo— antes que eu tivesse qualquer “relevância” para você, pelo menos alguma vez pensou em como suas decisões afetariam a mim? Alguma vez pensou que eu pudesse estar planejando uma vida diferente da que estava me impondo? Não ser vista por todo mundo como uma meretriz? Casar por amor? Ter filhos?

Dorian abriu a boca para falar, mas não produziu som algum diante da verdade daqueles argumentos. O que mais iria dizer a ela? Que poderia fazer a maledicência parar? Que lhe daria os filhos que ela desejara? Nunca lhe tinha passado pela cabeça ser pai de nada nem de ninguém. Não iria correr o risco de ser um genitor tão ruim como o seu havia sido. Também nunca tinha lhe ocorrido que ela tivesse sonhos e desejos antes que ele passasse a considera-la em sua vida e aquilo lhe doeu não só por ter sido mesquinho o suficiente por roubar aqueles sonhos dela sem qualquer hesitação, mas porque pela primeira vez ele se deu conta que gostaria de fazer parte deles nem que fosse só um pouquinho.

—Eu sinto muito— foi tudo que conseguiu dizer, mas ela não respondeu. Parecia muito cansada e o rosto mostrava-se ressentido como no dia em que a vira bêbada na biblioteca.

—Você nem mesmo se preocupou em saber como era minha vida, não é? Quem eram meus amigos ou parentes...

Ao dizer isso ela desviou o olhar para o chão como se tivesse tomada por um tipo de pesar ou uma memória muito triste e Dorian se deu conta que mais uma vez ela estava certa. Ele nunca tivera a preocupação de saber quem eram as pessoas de quem ela gostava mais além do pai e da irmã e não fazia a menor ideia de quem eram seus amigos.

—No dia do nosso casamento Lady Agatha Crawley veio me fazer uma visita— Nicole contou mudando de assunto e caminhando lentamente até a janela de onde se podia ver a fonte de mármore bem em frente a mansão e por estar de costas para o marido não pode ver quando o brilho de reconhecimento tomou a fisionomia do jovem. Ele conhecia Lady Agatha muito mais profundamente do que atualmente gostaria graças a uma aposta que havia feito com Edward alguns anos antes e o que na época tinha lhe parecido uma brincadeira divertida agora lhe parecia uma coisa muito estúpida.

— Ela me falou bastante sobre o que pensava de mim. Acho que foi a primeira vez que alguém me tratou com crueldade genuína— Nicole voltou a olhar para o marido que permaneceu calado— Ela me falou a seu respeito também, algo sobre lady Edith que ao que parece é a neta dela.

—Lady Edith não é a santa que ela faz pensar ser— Dorian se defendeu rapidamente. E poderia ter argumentado mais dizendo que a neta da duquesa já era experiente antes que ele visitasse seus aposentos, mas preferiu guardar para si aquela informação diante do olhar mortal que Nicole lançou a ele.

—Ela me disse que eu não havia sido a primeira a quem você desonrava e que não seria a última.

Dorian ficou calado. Desta vez não havia qualquer argumentação válida que pudesse usar, pois não poderia lhe dizer aquilo com certeza levando em conta os termos daquele casamento ao qual estavam presos. As palavras de Edward voltaram a sua mente como um lembrete macabro.

“Você será um bom amante, Dorian, mas nunca um bom marido. E quando sua luxuria passar nem mesmo um bom amante poderá ser”.

Nicole deu a ele um sorriso fraco e se encaminhou para a porta. Pela primeira vez desde que aquela conversa havia começado ela se mostrou um pouco nervosa.

—Nicole, eu...

Mas ela ergueu a mão num gesto que indicava que não estava disposta a ouvir mais.

—Sabe o que me magoa Dorian?— Ela perguntou finalmente demonstrando alteração— É que no fundo eu sabia que seria infeliz perto de você e mesmo assim eu fui tola o suficiente para me deixar apai...

Ela parou de falar de súbito, levando a mão na boca como se esperasse conter algo que não deveria dizer.

As palavras dançaram no ar como plumas de um travesseiro rasgado e o tempo pareceu congelar em volta dos dois. No entanto, ela foi mais rápida em sair daquele torpor e sem acrescentar qualquer coisa deu meia volta e deixou-o para trás preso no mundo das palavras que jamais seriam ditas.



Notas finais do capítulo

Oi gente! Desculpem a demora para postar. Estava com um bloqueio pavoroso esses dias além de alguns probleminhas pessoais que me reduziram a quase nada o tempo para escrever. Me desculpem por isso.
O importante é que estou de volta e finalmente consegui postar! Espero que tenham gostado do capítulo e que não deixem de comentar!
Beijo para todos e até o próximo! :*



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