Em Chamas - Peeta Mellark escrita por Nicoly Faustino


Capítulo 27
Capítulo 27




Droga. Como eu não raciocinei sobre isso antes? Só quando estou tomando banho, que me dou conta de que o que fiz, pode recair diretamente sobre Katniss também. Mas, na hora, eu estava apenas com raiva. Não é possível que eles vejam alguma diversão real nos jogos, e a morte de Rue foi tão... dolorosa. Eu queria chocá-los, quem sabe até, fazê-los sentir um pouco de dor, comoção, ou arrependimento. Mas aposto que meu ato deve ter soado rebelde, e mesmo que seja algo bom chamar a atenção para mim, eles podem querer descontar na arena, e lá Katniss estará comigo. O que eu fui fazer. Termino meu banho muito atordoado, e torcendo para que eu não tenha os enfurecido o bastante. E, não precisa ser muito esperto para saber que para algo me atingir, tem que estar diretamente ligado a Katniss. Droga.

Quando chego a sala de jantar, todos parecem tensos. Katniss ainda não chegou, e eu gostaria de contar a Haymitch o que fiz, e se ele acha que eu poderei pagar caro por isso mais tarde, mas Katniss chega, e todos começamos a comer, num silêncio agoniante.

— Tudo bem, então, como suas sessões privadas foram? – Haymitch pergunta, me tirando do meu estupor.

Dou uma revirada em minha sopa, e troco um olhar com Katniss, que está ao meu lado parecendo tão nervosa quanto eu. O que ela pode ter feito, afinal? Acredito que nada pior do que o que eu fiz.

— Você primeiro — ela diz. — Deve ter sido algo realmente especial. Eu tive de esperar por quarenta minutos para entrar.

— Bem, eu... eu fiz a coisa da camuflagem, como você sugeriu, Katniss — eu hesito, me sentindo envergonhado demais para revelar minha atitude. —Não exatamente camuflagem. Quero dizer, eu usei as tintas.

— Para fazer o quê? — pergunta Portia, com curiosidade no olhar, assim como todos.

— Você pintou algo, não foi? Uma imagem – Katniss pergunta.

— Você viu? — pergunto, assustado com a possibilidade de ela ter visto.

— Não. Mas eles realmente tentaram cobrir.

— Bem, esse seria o padrão. Eles não podem deixar um tributo saber o que o outro fez. O que você pintou, Peeta? — Effie pergunta, parecendo um pouco confusa. — Foi uma imagem da Katniss?

— Por que ele iria pintar uma imagem de mim, Effie? — Katniss retruca, impaciente.

— Para mostrar que ele vai fazer tudo que pode para te defender. Isso é o que toda Capital espera, de qualquer forma. Ele não se voluntariou para ir com você?

— Na verdade, eu pintei uma imagem de Rue — respondo, para cessar a discussão. E é como se um peso tivesse saído de minhas costas. — Como ela ficou depois que Katniss tinha a coberto de flores.

O silêncio paira na mesa. Sinto muitos olhares recriminadores em minha direção.

— E o que exatamente você estava tentando fazer? — Haymitch pergunta tentando mascarar sua irritação.

— Não tenho certeza. Eu só queria responsabilizá-los, mesmo que só por um momento. Por matar aquela garotinha – respondo, de cabeça baixa.

— Isso é terrível — Effie grita. — Esse tipo de pensamento... é proibido, Peeta. Absolutamente. Você vai apenas trazer mais problemas para você e para Katniss.

— Eu tenho de concordar com Effie dessa vez — diz Haymitch.

Todos parecem desapontados, e quando olho para Katniss, ela é a única que parece aprovar o que fiz.

— Acho que essa é uma má hora para mencionar que eu pendurei um boneco e pintei o nome de Seneca Crane nele — ela dispara.

Todos os olhares antes cravados em mim, vão para Katniss, com uma descrença enorme. É disso que eu gosto em Katniss. Ela é imprevisível, e sempre consegue surpreender as pessoas. Nem sempre de um jeito bom. Mas ela é assim, o que se pode fazer? Estamos ferrados, penso, mas meus lábios teimam a se curvar para cima.

— Você... pendurou... Seneca Crane? — Cinna repete.

— Sim. Eu estava mostrando minhas novas habilidades com nós, e ele de alguma forma acabou no final do laço.

— Ah, Katniss — diz Effie, agora chorando. — Como você sabia sobre isso?

— É um segredo? Presidente Snow não agiu como se fosse. Na verdade, ele parecia ansioso para que eu soubesse.

Effie se levanta, e abandona a mesa. Isso deve tê-la aborrecido muito, pois ela nem pediu licença, antes de levantar.

— Acho que eu preocupei a Effie. Devia ter mentido e dito que eu tinha atirado algumas flechas.

— Teriam pensado que nós planejamos — digo, e dou um meio sorriso á ela.

— Não planejaram? — pergunta Portia.

— Não — ela responde, olhando para mim como se estivesse me vendo de um jeito diferente. Como se houvesse uma ligação ainda maior entre nós. —Nenhum de nós nem sabia o que iríamos fazer antes de entrarmos.

— E... Haymitch? — digo, para completar esse momento. — Decidimos que não queremos outros aliados na arena.

— Bom. Então não vou me responsabilizar por vocês serem mortos por qualquer um dos meus amigos com a sua estupidez.

— É isso que estamos pensando — Katniss diz, encerrando a conversa.

O jantar continua em silêncio, e em seguida temos que assistir á pontuação das sessões privadas. Não tenho muita certeza se quero assistir, mas não tenho outra escolha. Cinna acompanha Katniss, enquanto caminho ao lado de um Haymitch muito irritado.

Para a surpresa de ninguém, os mais pontuados são os vencedores dos distritos 1 e 2. Finnick do distrito 4 também tem uma alta pontuação. A classificação vai de 1 a 12. Desconfio que este ano Katniss e eu iremos fazer história ganhando um

zero. Johanna Mason conseguiu um 9, e eu me pergunto o que eles estão considerando já que ela me disse que iria apenas tirar a roupa e mandar eles se foderem. Chaff que deve ter bebido todo o estoque de vinho da capital ganhou um 10. Algo me diz que as pontuações não estão certas. E eu só confirmo minhas suspeitas, quando as nossas notas são anunciadas, e Katniss e eu ganhamos 12, a nota máxima. Ninguém comemora.

— Por que eles fizeram isso? — Katniss pergunta perplexa.

— Para que os outros não tenham escolha além de mirarem vocês — Haymitch responde, apenas confirmando o que eu já desconfiava. — Vão para a cama. Não posso suportar olhar para nenhum de vocês.

Caminho com Katniss em direção ao seu quarto. Tem tantas coisas que eu gostaria de dizer a ela. Mas eu não sei por onde começar. Dou passos lentos, na intenção de prolongar o curto caminho que resta até a porta do seu quarto. Mas quando inevitavelmente chegamos ao seu quarto, me vejo obrigado a me despedir e encarar mais uma terrível noite longe de Katniss. Quando abro a boca para lhe desejar boa noite, ela me surpreende mais uma vez, passando os braços ao redor da minha cintura, e colando seu rosto em meu peito. Imediatamente retribuo o seu abraço, passando a mão por suas costas, roçando meu rosto em seus cabelos. Nesse momento, sinto que não preciso dizer palavra alguma, que tudo que está preso aqui dentro de mim, está sendo dito, através desse abraço.

É Katniss quem rompe o silêncio.

— Desculpe-me se fiz as coisas piores — ela diz.

— Não piores do que fiz. Por que você fez aquilo, de qualquer maneira? – pergunto, me afastando só um pouco de seu corpo, afim de ficar de frente para ela, e olhar em seus olhos, que tanto me fascinam.

— Não sei. Para mostrar a eles que somos mais do que uma peça nos seus Jogos? — ela diz.

Não consigo evitar sorrir, me lembrando de quando disse isso para ela, há um ano atrás, quando estávamos prestes a ir para arena. E agora, entendo que o que fiz, foi de certa forma, por esse mesmo motivo.

— Eu também — confidencio. — E não estou dizendo que não vou tentar. Levar você para casa, quero dizer. Mas se eu for perfeitamente honesto sobre isso...

— Se você for perfeitamente honesto sobre isso, você acha que o Presidente Snow provavelmente deu ordens diretas para que nós morramos na arena — ela interrompe.

— Isso passou pela minha mente. Mas mesmo se isso acontecer, todos vão saber que nós lutamos, certo?

— Todos — ela responde, e se enrosca em mim mais uma vez.

Katniss me deu uma perspectiva diferente das coisas, que agora irá me afligir ainda mais. Não basta lutarmos contra os outros vencedores. Se o presidente quiser a nossa morte, ele simplesmente poderá nos matar. Basta alguns bestantes, algumas bolas de fogo, ou qualquer outra coisa. Ele pode interferir diretamente a respeito de quem deve ou não vencer esse jogo. Na verdade isto é mais responsabilidade do idealizador chefe, que não passa de um mero fantoche nas mãos do presidente também. Seneca Crane pagou caro por nos deixar vivo. Plutarch não cometerá o mesmo erro. Afago os cabelos de Katniss, e encosto o meu rosto no seu. Meu coração acelera, pelo fato de constatar que qualquer esforço, por maior que seja, pode ser inútil.

— Então o que deveríamos fazer com os nossos últimos dias? – ela sussurra em meu ouvido.

— Eu só queria passar cada minuto possível do resto da minha vida com você — respondo, com meus lábios tão próximos dos dela, que é possível sentir o calor de sua boca na minha.

— Vamos, então — ela diz, e me puxa para o seu quarto, tornando real, tudo que eu mais desejei nesses últimos dias. Eu sei que isso só torna as coisas mais difíceis para mim, mas enquanto ela se aninha ao meu corpo por baixo das cobertas, sinto que essa é a única coisa certa, no meio desse caos. E é também, uma espécie de último desejo, aquela última coisa que você precisa fazer antes de partir. Fico feliz por isso estar me sendo cedido. Sinto os cantos de minha boca doerem, devido ao sorriso que teima em permanecer em meus lábios. E enquanto o sono vem aos poucos entorpecendo minha mente, penso em como é contraditório, eu me sentir feliz, nas dadas circunstancias. Mas seria impossível não sentir essa plena felicidade, enquanto Katniss passa a mão por meu peito e eu sinto seu coração batendo acelerado, pela primeira vez, por mim.