Stay With Me escrita por Fenix


Capítulo 31
Palavras





Desço a escada e pego meu prato de comida na cozinha. Sento quieto a mesa, não levantava meu olhar nem para assistir ao programa na televisão. Enquanto minha Mãe tentava puxar assunto, eu luto para a comida não se entalar na minha garganta seca.

– Você já viu seu e-mail hoje? - Minha Mãe pergunta.

– Não, acabei de acordar!

– Você ta me enrolando, Felipe, não ta nem ai pra procurar emprego.

– Eu já vou abrir meu e-mail, Mãe - Respondo tentando manter a calma.

– Não quer nada, só quer saber de ficar ai fazendo essas histórias sem futuro, precisa acordar pra vida, você já tem 19 anos, ta na hora de fazer alguma coisa.

Levanto-me tão depressa que bato meu joelho na mesa. Pego meu prato e copo de bebida, dirijo-me até a cozinha e ponho tudo na pia. Sem demora volto rapidamente para meu quarto e bato a porta, deixando que minha Mãe reclame sozinha na sala. Jogo-me na cama. Não sei se choro, se sumo ou se finjo que estou bem. Era nessa hora que eu pensava em Zac e tudo ficava bem, e toda a dor saía de mim, mas agora não... Agora a dor só aumenta. Ninguém nunca ficou comigo por muito tempo antes. Eu só me lembro de coisas boas que aconteceram com a gente. Quando eu olhava pra ele, estava em casa, eu me sentia em casa. Eu só não queria que você fosse embora. Eu não quero te esquecer.

Algumas pessoas podem pensar que o que tínhamos estava enfraquecendo quando ele se mudou para São Paulo, mas a distância sempre me impedia de estar perto dele, de toca-lo, de senti-lo… Mas nunca me impediu de ama-lo.

Só queria que tivesse como fazer tudo isso ir embora. Essa dor é demais para qualquer um aguentar! Seguro forte o travesseiro que abafa meu grito, aquele que no final arranha um pouco a sua garganta, mas que alivia um pouco a sua alma. Eu já deveria ter me acostumado com a ideia de que ninguém vai ficar na minha vida pra sempre, mas não dá, a cada partida é uma dor diferente, mais intensa.

Queria sim poder dizer minhas últimas palavras, poder dizer que eu o amo e poder olhá-lo nos olhos e beijá-lo como nunca tivesse beijado antes, como se fosse o nosso primeiro beijo. Hoje será o velório de Zac, não posso ir, não tenho dinheiro e nem quem me leve. Além de não ter sido convidado pela família. Todos os amigos que ele fez no Rio de Janeiro foram convidados e puderam estar lá para se despedir, e eu apenas posso olhar para o céu e imaginar se você está bem onde está. Quando perdemos alguém, que amamos muito, um pedaço do coração vai junto.

Eu não conseguia ouvir mais nada no mundo além de você. E, naquele momento, estava tão frio e tão silencioso… E eu te amava tanto. Meu peito doía, minha cabeça latejava que já não aguentava nem ficar com os olhos abertos, é como se tivessem tirado o caos do mundo e guardado dentro de mim. E o pior de tudo é que quando achei que eu fosse ficar assim por algum motivo, alguém estaria do meu lado e eu poderia contar com o apoio da minha família. Mas isso ficou apenas em minha imaginação!

Recebo mais mensagens de Narayani perguntando como estou e então resolvo respondê-la, sei que está preocupada comigo e também sei que me afastar agora não resolveria nada. Não demorou muito depois da minha resposta e ela me ligou. Conversamos por horas, minha cabeça encostada na janela gelada que esfriava meu rosto. A dor do choro já não doía mais como antes, era como se minha alma já estivesse indo embora de vez e aceitado que ele não voltará mais. De fato, ele não voltará!

– Você vai ficar bem?

Tantas respostas para uma pergunta tão simples e eu apenas queria dizer que "não".

– Sim! Não esquenta com isso - Respondo enquanto enxugo as lágrimas que escorriam. Me faço de forte, finjo que nada me afeta. Acredite, eu apenas finjo porque aqui dentro doeu e ainda esta doendo.

Lembro-me quando o olhei pela última vez, e ficamos nos encarando por um tempo, sem dizer se quer uma palavra. Acho que entendi o que ele queria dizer. Talvez quisessem saber, mas o que dissemos um ao outro, com os simples olhos, não se escreve no papel, não se pode repetir ao ouvido. Uma confissão misteriosa e secreta, feita de um a outro coração, que só ao céu cabia ouvir, porque não eram vozes da terra, nem para a terra.

No fundo, no fundo… A gente só quer encontrar alguém que não desista da gente, e Zac não desistiu de mim, ele não desistiu nem quando eu mesmo desisti. Não vou dizer que minha vida foi difícil, além de ainda estar começando, nunca me faltou nada, ao mesmo tempo nunca foi fácil, faltava um pouco de carinho e compaixão, mas bastava só lembrar daqueles olhos verdes para que eu conseguisse sorrir. E eu sorria.

Quando a noite chegou, continuo deitado na cama, com a televisão ligada para tentar disfarçar o clima frio e pesado que se fixou no quarto. Alguém ficou me dizendo que não tinha problema sentir, não importa o quanto isso machucasse. Que nossas emoções nos tornam humanos, bons ou ruins, e para nunca perder a esperança, mas como posso manter minha esperança se tudo que eu faço se vira contra mim? Eu não tenho mais pelo o que lutar se no final tudo da errado. Que droga de destino é esse que por mais que você tente ser feliz, ele está tentando te derrubar a todo custo? Não entendo e nunca vou entender como esse mundo funciona, como essas coisas agem, mas sei que eu faria qualquer coisa para tê-lo de volta, Deus como eu faria!

De fato, algumas pessoas não nasceram pro amor... Estou começando a acredita que sou uma delas. Sinto-me tão sozinho agora, sem ninguém por perto, perdido, não sei que direção tomar, que caminho percorrer. Mas a gente se sente sozinho quando não estamos com quem queríamos estar.

Carla me liga algumas vezes seguidas. Não era pra ser assim, não era pra eu me afastar, é só meu jeito estúpido de me defender. Não consigo ser totalmente eu com ninguém, porque quando ainda não tinha que usar uma máscara, era um verdadeiro pesadelo, e então fui obrigado a achar um modo de não deixar que os outros me machuque de forma tão grave. Entenda, eu não sou assim, eu me tornei isso! E agora mais do que nunca eu só quero ficar comigo mesmo, só eu entendo o que estou passando, só eu sei a dor que sinto, e não, ninguém pode me ajudar agora.

Ouvir o quanto você queria me ajudar não é realmente ajudar, é a mesma coisa que eu perguntar o preço de um doce para a moça da loja e então sair dali. Poupe-me de suas lamentações, eu já ouvi o bastante durante o dia, se quer mesmo me ajudar, não ligue, venha aqui, me faça companhia, é tudo o que preciso agora. E não de um celular no meu ouvido e sua voz dizendo que sente pena de mim e está preocupada.

Queria tanto tê-lo por perto agora. Poder chorar em seu ombro e sentir seu calor esquentando meu rosto. Nunca senti isso com mais ninguém, pois quando estava com você, não há nenhum outro lugar que eu preferia estar.

O dia chega e acordo com um telefonema de Carla. Levei um tempo para encontrar o celular debaixo do meu travesseiro e então o atendi.

– Oi Fê, tudo bem?

– Oi! - Respondo com a minha voz levemente roca.

– Como você está?

– ... Não muito bem!

– Eu preciso que você me encontre hoje à noite.

– Por quê? Olha, eu realmente não estou com animo para sair de casa.

– Eu tenho que lhe entregar uma coisa.

– Uma coisa? - Sento-me devagar na cama enquanto coço os olhos - E o que seria essa "coisa"?

– Onde podemos nos encontrar?

– Na praia aqui perto da minha casa, mas o que é?

– Então nos encontramos lá às sete. Por favor, precisamos muito conversar!

– Ta bem. Até mais!

– Até!

Levanto-me como se tivesse um elefante em minhas costas, mas era apenas a dor que eu ainda carregava aos ombros. Passo a mão na cabeça, caminho pelo quarto em silêncio, a inquietação começa e não tem mais como pará-la. Não é fácil parar de pensar. Não é fácil parar de amar. Não é fácil destruir um sentimento que um dia já foi maior do que você. Como deixar de lado alguém que você quer ao seu lado?

O problema é conviver com o depois. Como será depois? Sei que eu penso demais, minha cabeça dá voltas, imaginação fica a cem por hora. Mas queria saber como será depois. Mesmo. Como vou viver depois que, finalmente, te colocar num lugar distante? Como vou me sentir depois que eu tiver que forçar a memória pra me lembrar dos nossos beijos, nossas brigas, nossas conversas? Eu não sei. Simplesmente não sei. O que machuca é saber que esse dia chegará. E o que me dói é saber que eu nunca mais serei o mesmo.

Essa história de que “você colhe aquilo que você planta” é mentira. Por que eu só plantei amor. Então, por que hoje eu vivo com essa dor?

– Felipe, você tem blusão ai, certo? - Minha Mãe pergunta entrando no quarto.

– Tenho, eu acho, por quê?

– O casamento da Fernanda é nesse final de semana, preciso saber se você tem roupa pra ir ou não.

– Eu não to muito a fim de ir! - Digo me encostando na mesa do computador.

– Ué... Vai ficar aqui sozinho?

– E o que tem? Já fiquei tantas vezes.

– Sai um pouco de casa, fica sempre enfurnado nesse quarto.

– Isso só porque eu não quero ir ao casamento de uma garota que é da família, mas eu não lembro nem a cara dela?

– Não, é porque você não faz mais nada da vida a não ser ficar dentro de casa e sair pra faculdade - Ela pega algumas roupas que estavam jogadas na cadeira em frente a mesa do computador e sai um pouco irritada do quarto.

Não esperava nada diferente disto, não sei se algum dia alguém vai entender o que é perder subitamente aquela pessoa que você desejava passar com ela toda sua vida. Queria poder conversar com todos sobre isso, mas não posso. Então resolvi procurar ajuda. Sento-me em frente ao laptop e procuro sobre grupos de apoio LGBT, e minha nossa, como é difícil achar um grupo de apoio no Rio de Janeiro. Praticamente eles não existem!

Depois de algumas horas procurando e sem sucesso, entendo que estou por conta própria. Se eu algum dia pretendo conversar sobre isso com alguém...? Aprendi que é melhor manter algumas coisas em segredo. Não quero que pensem que estou tão mal a ponto de procurar alguma ajuda experiente para me mostrar que apesar de tudo isso, eu posso continuar a tentar e talvez... Talvez, eu seja feliz algum dia!

Depois de um tempo, descobri mesmo o que era dor. Dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e depois levar pontos. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela… Sem poder contar para ninguém.

O dia vai passando e como minha Mãe disse, eu fico enfurnado no quarto todo o tempo. Meu almoço foi tão pouco que não mataria a fome de nem uma formiga. Sinceramente eu não tenho fome. Tenho isso de errado, sempre que estou triste ou algo me abala muito, eu perco a fome. Não sei, acho que é um jeito de me punir por algo que talvez não seja minha culpa, mas... Eu tenho esse erro comigo!

Estou precisando muito ficar bem longe, onde ninguém possa me atrapalhar, ficar numa ilha deserta, ouvindo os ruídos dos pássaros, o som do mar, e deitado no chão vendo as estrelas e ouvindo aquela música favorita no seu fone de ouvido e esquecer o mundo.

Preciso de algo para me acalmar um pouco, peguei uma folha de caderno e uma caneta. Queria escrever sobre muitas coisas, mas principalmente sobre a saudade. Então descobri que seu nome cabe oito vezes numa mesma linha.

Queria pode escrever uma história, poder me distrair um pouco, porque sinceramente não sei até quando vou conseguir ficar nessa. Eu quero escrever, mas não tenho vontade, parece que estou vazio... E quando eu parei de escrever, notei que eu realmente me perdi, que de fato eu morri por dentro. Perdi o ânimo, perdi a empolgação, perdi as certezas, perdi noites de sono, perdi a vergonha, perdi a razão… Perdi as palavras, perdi não, na verdade eu sou um acúmulo delas. Mas já não tem porque dizê-las. Eu perdi muito tempo e o tempo não volta.

Não precisava ser assim. Não precisava doer como dói. Eu não podia apenas sorrir quando me lembrasse de você?

Achei que a noite não fosse chegar nunca, já não sabia mais como me distrair, como me fazer parar de pensar um pouco sobre o assunto. Isso está me enlouquecendo, ainda desejo que tudo isso fosse um pesadelo, eu não me importaria de acordar agora aos berros e me debatendo na cama, porque eu sabia que depois do susto, você estaria lá para me acalmar.

Fico parado debaixo do chuveiro, olhando para o vidro do box se embaçar com a fumaça. Essa reação não me assusta mais, já estou acostumado em deixar minhas emoções transbordarem aqui. Afinal, esse é um dos poucos lugares onde eu posso chorar tranquilo sem ter medo que alguém entre. Levanto meu dedo indicador devagar e toco no vidro um pouco frio do box. Desligo meu dedo, a cada curva era como um corte feito em meu coração, isso me doía tanto... Então me afasto devagar e observo o nome de Zac sumindo do vidro gradativamente.

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Aguardo Carla chegar no local combinado. Sento no banco e respiro fundo, já não ouvia mais aquela voz na minha cabeça que sempre estava lá quando eu ficava sozinho. Essa pequena voz foi quem me fez companhia por um tempo e agora até ela se foi. Já não conversava mais comigo mesmo. Agora eu apenas existia, já não vivia mais. Viver não tem mais significado, do que adianta você viver e saber que tem que lutar eternamente para ter um curto momento de felicidade? Isso porque fará você relaxar até um outro problema maior aparecer. Eu simplesmente não entendo.

– Oi! - Carla diz baixinho enquanto se sentava ao meu lado. Antes que eu pudesse responder, recebo um abraço reconfortante , não esperava por isso, sinto que apesar dela querer dar-me um abraço, foi um pedido. Podia sentir meu coração desacelerar.

– Oi! - Respondo então levantando meus braços e abraçando-a. Não sei quanto tempo ficamos assim, dois minutos... Ou três, mas esse foi meu primeiro abraço em dias. Sentir que alguém está aqui por mim, sentir que não estou sozinho, eu preciso disso e principalmente precisava desse abraço.

– Eu sinto muito... - Ela diz ainda me abraçando.

Mantenho-me calado, com os olhos fechados e tentando controlar minha respiração, sem deixar que o choro me domine novamente. Afastamos-nos e podemos nos olhar e notar o quanto estamos tristes. Nunca a vi com olheiras, sem batom e com a calça levemente amarrotada, parecia que carregava uma dor enorme dentro de si. Eu sei disso porque eu carrego a mesma dor em meu peito. Seus olhos já não tinham mais aquela alegria, suas palavras perderam o sarcasmo que a mantinha viva por dentro. Acho que no final das contas, um pedaço de nossas almas também morreu.

– Como você está? - Pergunto com a minha voz tremula. Me esforço ao máximo para não deixar uma lágrima escorrer por meu rosto. Carla precisava de alguém tanto quanto eu, ela o acompanhou desde criança, são amigos há tanto tempo que eu nem me lembro mais quando ele me contou. E agora estamos aqui, a melhor amiga e o garoto que o amava incondicionalmente, tristes e sozinhos, sentindo falta de uma única pessoa em comum, lamentando por ele não estar mais entre a gente.

– Não... Eu sei o que está tentando fazer... Para!

– O que?

– Olha, eu sei que você quer me ajudar... Mas você sempre ajuda todo mundo, olha em sua volta, você está sempre querendo saber os problemas dos outros, sempre querendo... Sei lá, fazer da vida deles o melhor, e sempre se importando com tudo. Mas Fê, só uma vez... Apenas uma vez, eu queria ver você se importando com você mesmo... Eu sei que não está sendo fácil, está realmente longe disso, mas precisa deixar que os outros também te ajude. Eu vim aqui por você, porque assim como você, eu também tenho isso de querer ajudar as pessoas - Ela segura minha mão e respira fundo antes de olhar em meus olhos afogados em lágrimas - Vamos fazer assim... Você me ajuda a te ajudar!

– Eu vou ficar bem - Respondo.

– Vem, vamos comer alguma coisa! - Ela levanta e estica a mão pra mim - Qual é? Não me faça te arrancar desse banco.

Levanto com um leve sorriso de canto. Não sabia que eu ainda conseguia sorrir. Caminhamos pela orla da praia, conversamos sobre algumas coisas. Pela primeira vez eu abri meu coração para ela, contei por tudo que eu já tinha passado e tudo o que eu sentia por Zac. Não me segurei, chorei rios de lágrimas enquanto conversávamos. Foi então que eu soube que Zac também não tinha uma vida tão boa quanto ele demonstrava ter. Minhas suspeitas e meu medo se confirmaram. Das vezes que eu o vi com hematomas no corpo não era apenas pancadas em móveis, Zac era agredido pelo Pai desde o dia que conto que era homossexual. O Pai não se importava com os machucados, e Zac foi forte o bastante para aguentar tudo, pelo menos por um tempo.

– Ele só continuou por você! Felipe, você era praticamente o mundo dele, eu ficava horas no telefone com o Zac enquanto ele falava o quanto o dia foi maravilhoso com você ou o quanto ele queria te ver. Eu estou de prova do amor dele por você... E acho que de qualquer jeito isso talvez fosse inevitável. Ele era um rapaz incrível... - Abaixo minha cabeça chorando sem parar, ela toca em meu ombro falando baixinho em meu ouvido - Não foi culpa de ninguém. Quando ele foi para São Paulo, não aguentou a pressão que recebia dos Pais... Eu posso imaginar o quanto ele estava sofrendo... Estava longe dos amigos, da pessoa que ele amou com todo o coração... Pense que agora ele está num lugar melhor, está em paz!

– Eu ainda o amo tanto... - Digo ao meio de tanto choro, minha voz custou para sair - Tá doendo. Tá ardendo. Não tem um só dia que não doa algo. Quando não é o coração com saudade, é a cabeça com as lembranças. O que eu vivia de amor, hoje morro de saudades. - Olho para o mar e sinto a brisa gelada bater contra meu rosto - Mesmo sabendo que um dia a vida acaba, nunca estamos prontos para perder alguém.

– Eu sei, mas... Pense nos bons momentos que passaram juntos.

– Quer saber, dos nossos planos é que eu tenho mais saudade... Droga, eu... Eu queria tanto poder dar o mundo a ele e... E eu não consegui retribuir metade do que ele fez pra mim.

– Não, fala assim - Ela deita sua cabeça em meu ombro e alisa o outro devagar - Você não precisava dar o mundo para ele, porque você já era o mundo dele!

Fecho meus olhos soltando aquela forte respiração pela boca, meu peito fica completamente sem ar. Por muito pouco não retiro a minha alma, que agora não seria uma má ideia. Estou sempre tentando ser forte e me mostrar bem para todos em minha volta... Tenho o hábito de nunca deixar claro o que estou sentindo e acabar dando por entender que não sinto nada, quando na verdade sinto tudo.

– Eu... Preciso lhe entregar isto - Carla retira um pequeno envelope de carta do bolso da jaqueta e estende sua mão a mim.

– O-o que é isso? - Meu coração dispara ao olhar. Eu sei o que seria, mas não é possível, não pode ser o que eu penso que é.

– Não sei o que tem aqui dentro... Respeito muito vocês dois e sei que seja lá o que estiver aqui, é apenas para você! - Ela diz pondo o envelope em minha mão - Zac me pediu para lhe entregar isso.

Minhas lágrimas escorrem sem parar, uma dor imensa se espalha por meu peito, agora tão vazio e tão cheio de sentimentos. Não tenho forças nem para abrir o envelope, minhas mãos não param de tremer. Uma lágrima cai no envelope, forçando-me a limpá-la.

– Calma! - Carla toca em minhas costas agitadas com os soluços do choro.

Não posso abrir isso aqui... Quero saber quando eu estiver sozinho, onde eu possa senti-lo comigo novamente, pela última vez. Que Deus me dê forças para aguentar, porque na verdade eu não sei se eu aguento sozinho... Ao menos não mais!

Ela tentou me fazer sentir melhor e conseguiu me acalmar por um tempo. Volto sozinho pra casa, com as mãos enroladas no bolso do casaco e o envelope que parecia estar colado em minha mão. O capuz me reconfortava dos olhares alheio, me fazia sentir invisível, o que eu almejava quando criança e agora é o que preciso. Talvez tudo seria mais fácil se eu não estivesse aqui... Pense bem, seria mais fácil para meus Pais, eles estariam felizes com as duas filhas que eles teriam. Poderiam ser a família tradicional que tanto querem. Sinto como se só trouxesse problemas a eles... Convivo com essa sensação de que não sei acertar, mesmo que eu me esforce.

Passo em frente a um restaurante com as paredes envidraçadas e observo sutilmente pelo canto do olho, uma família reunida na mesa. Um homem com bigode branco e careca, presumo que seja o Pai da família, já que é o mais velho dos outros três rapazes a mesa. Dois deles sentados ao lado de belas jovens, e o do canto sentado com a jovem mais deslumbrante do local, e posso avistar suas mãos dadas em cima da mesa, perto do prato. A Mãe da família estava conversando empolgada e todos pareciam tão felizes. Eu não lembro a última vez que minha família parecia tão feliz em uma reunião simples assim. Ao menos não comigo por perto! Estão sempre tão preocupados com minha vida amorosa que esquecem que eles ainda têm a deles e com isso acabam esquecendo de ser mais felizes.

Eu só quero poder seguir minha vida normalmente, porque o fato de ser homossexual tem que representar tanto para algumas pessoas? Porque não podemos simplesmente tentar sermos felizes do jeito que somos e parar de julgar os outros?

Meu maior desejo já foi tanta coisa, já foi ser um grande escritor, já foi conhecer minha cantora favorita, já foi ser um cineasta, mas agora... Agora meu grande desejo é não ter mais medo do que eu sou, é poder ser feliz e sem que isso cause a tristeza dos outros, é conquistar tudo que sempre sonhei e ao mesmo tempo poder me orgulhar da pessoa que me tornei ao longo do tempo.

Quando chego em casa mal consigo cumprimentar quem estava na sala. Meus olhos se fixam no vazio diante de mim. Sigo assim até meu quarto, tirando minha mão do bolso do casaco e sentando na cama com o olhar no envelope. De repente lembro-me de cada segundo que passamos juntos, é bom e ao mesmo tempo estranho você conseguir sentir exatamente o que sentia, eu ainda me lembro como era bom olhar para você. Ninguém entende de verdade o que eu sentia por Zac, acredito que nem eu entendo direito. Era algo tão intenso, como quando você ouve um bebê sorrir pela primeira vez, uma sensação tão única e gloriosa que se espalha por todo o seu coração, iluminando sua alma. Mas agora tudo que tenho são apenas lembranças... O que sinto agora? Não é sono, não é falta de tempo, não é dor física, muito menos depressão. Só vontade de me desligar do mundo por alguns segundos.

Abro o envelope, retiro uma carta de dentro e respiro fundo com os olhos fechados. Em minhas mãos estão suas últimas palavras a mim, e isso é como um ponto final em nossa história, eu não sei se quero um ponto final. Eu me sinto como se estivesse em um grande precipício, sem ninguém para me segurar. Ninguém que se importasse ou que percebesse. Eu estou sozinho, agora mais do que nunca.

Desdobro o papel devagar, antes de começar a ler, meus olhos analisam brevemente o longo da carta e retornam para o topo. Leio então com a sua caligrafia "Oi Lipe...", inevitavelmente fecho os olhos chorando, minhas mãos tremulam que balançam o papel. Posso ouvir sua voz lendo as palavras para mim. E assim começa a minha última conversa com Zac.



Notas finais do capítulo

Bom pessoal, como todos sabem, eu fui convidado no Domingo, 19, para um evento no Rio De Janeiro. A finalidade do evento sobre livros e filmes, era para eu falar um pouco sobre 'Stay With Me' e outros projetos, além de uma entrevista exclusiva para a organizadora do evento, Alexandra Cristina, dona do blog popular 'The Best Words'.
Tudo ficará disponível no blog da mesma e no Youtube.
Quem quiser ver as fotos do evento, algumas já estão disponíveis aqui "http://tudosobreashistoriasdefenixemuitomais.blogspot.com.br/2015/07/felipe-divulga-fotos-do-evento-no-rio.html".

Quero agradecer a todos que estão lendo essa história incrível, que tem me ajudado bastante comigo mesmo e o melhor de tudo, é saber que de alguma forma também estou ajudando vocês!
Obrigado também a Alexandra pelo convite para o evento e todos do blog 'The Best Words'.

O próximo capítulo será postado o quanto antes! =)



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