O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 95
O Herói da Fênix




Primeiro Andar do Pandemonium, “Mundo de Pedra”...

CHAMAS SE ESPALHAVAM A CADA MOVIMENTO DE JOMBAEK, queimando forte como se quisessem consumir o próprio mundo, mas mesmo tendo de lidar com essas chamas quentes e poderosas de frente, Bokuto não demonstrava sinal de fraqueza. Cada vez que a lâmina de fogo de Cleus se movia contra ele, as espadas de Bokuto se moviam para bloquear o golpe, e sempre que ele via uma abertura na guarda de seu oponente ele era rápido em atacar. Esse cara... ele não tem o título de Ascendente por nada. Bokuto não havia mostrado nenhuma técnica excepcional ou particularmente destrutiva até agora, mas a habilidade com a espada que ele estava demonstrando até então era digna de mestres, e a velocidade e força que ele mostrava em sua guarda e ofensiva eram bem além dos limites humanos: a simples facilidade com a qual ele estava lidando com os golpes de Cleus provava isso. Ele está ganhando essa luta. Mesmo que ele ainda não tenha conseguido acertar um golpe, ele está poupando suas forças bem mais do que Cleus. Se as coisas continuarem nesse ritmo, ele será o vencedor.

O Pássaro-de-Fogo via isso também, e era claro que isso lhe irritava. Cada vez mais podia ver os movimentos de Cleus se tornarem mais brutos e furiosos, o balançar da sua lâmina ser carregado de mais força e seus ataques sendo progressivamente mais frequentes... e isso culminava diretamente em falhas na sua guarda. Falhas para as quais Bokuto não era cego. Em dado momento, quando Cleus jogou sua lâmina para trás e moveu-a em um corte transversal visando cortar Bokuto ao meio, o cavaleiro se abaixou rapidamente para deixar a lâmina flamejante passar inofensivamente acima de sua cabeça, e depois que o movimento foi executado e a guarda de Cleus ficou aberta ele rapidamente ajustou as duas espadas em suas mãos e avançou com elas em uma única investida. As pontas de ambas atingiram o mesmo local, criando um buraco na armadura de Cleus e fazendo sangue jorrar da sua mais nova ferida enquanto o Fênix era jogado para trás pela força da estocada.

Aquilo por sua vez deu outra chance para Bokuto. O cavaleiro levantou-se rapidamente e correu como um gato, cruzando rapidamente a distância que seu golpe havia criado entre eles e saltando contra Cleus enquanto brandia ambas as suas espadas. O Pássaro-de-Fogo mal teve tempo para tocar o chão com um de seus pés antes que se visse forçado a erguer sua lâmina para bloquear um golpe duplo de Bokuto, poderoso o suficiente para fazer com que as chamas de Cleus centelhassem como faíscas ao redor dos dois, causando uma deslocação de ar que Syd pode sentir de onde estava. Os dois guerreiros se encararam com feições fechadas, ambos concentrados e focados na vitória, Cleus parecendo furioso e Bokuto parecendo compenetrado, até que Cleus colocasse mais força por trás do seu braço da lâmina e afastasse Bokuto, forçando o cavaleiro a saltar para trás e estabelecendo uma nova e frágil distância entre os dois.

– Maldição... – uma veia de irritação era visível na testa de Cleus e seus dentes rangiam enquanto ele encarava Bokuto, um contraste curioso com a calma e a serenidade que o cavaleiro exibia enquanto voltava a apontar ambas as suas espadas contra Cleus, assumindo novamente sua postura de batalha. – Por quê? Por que vocês insistem em ficar no nosso caminho?! Você é um cavaleiro, Bokuto! O trabalho de vocês é proteger a paz e os homens, não é?! Então por que vocês insistem em lutar por um demônio?!

– Eu não devo justificativas a você, Pássaro-de-Fogo – retrucou friamente Bokuto – e de qualquer forma, eu não estou lutando por um demônio, mas por um dos meus. Não gosto particularmente de Kastor, mas ele é um cavaleiro, e nós somos unidos. Se você meche com um de nós, você meche como todos nós.

– Ele é um demônio, isso é o que ele é! – Esbravejou Cleus, arregalando os olhos em incredulidade e brandindo sua lâmina de fogo com fúria pelo ar, espalhando mais chamas pela sala. – Será que vocês não entendem?! Kastor tem dentro de si o Coração Azul, um dos cinco demônios mais fortes que o mundo já viu! Um demônio poderoso o suficiente para matar os Deuses, mesmo com a Ignorância deles, mesmo com o seu poder, mesmo com as ordens angelicais ao seu favor! Você tem noção de que tipo de poder é necessário para fazer algo assim?! Você acha que temos alguma chance de nos opor a um demônio como esse caso ele ressurja?! Eu não tenho animosidade nenhuma para com o cavaleiro, mas pelo bem da paz mundial e do futuro dos homens, Coração Azul deve morrer, e se isso significa que Kastor deve morrer também, ele então será um sacrifício pelo bem mundial!

– É essa a sua justificativa? – Questionou calmamente o cavaleiro, inclinando sua cabeça para o lado enquanto falava. – É isso que você sussurra a si mesmo enquanto mata inocentes, Cleus do clã Jombaek?

A forma como o rosto de Cleus se contorceu numa careta enfurecida ao ouvir aquilo seria divertida, se não fosse tão absurdamente medonha. Veias se tornaram visíveis por todo o seu rosto, e as chamas que formavam suas garras, lâmina e asas se tornaram muito mais furiosas, queimando com uma intensidade ameaçadora. E então, subitamente, seus joelhos se dobraram e ele disparou contra Bokuto impulsionado tanto pela sua força, quanto pelas suas chamas, quanto pelas suas asas. Ele alcançou Bokuto em uma fração de segundos, e sua lâmina desceu contra o cavaleiro em um golpe que fez com que o mundo ao redor deles parecesse estremecer quando ela colidiu contra a espada da mão direita de Bokuto. Ele... ele ficou mais forte?! Antes Bokuto estava sendo facilmente capaz de bloquear os golpes de Cleus sem nenhuma dificuldade aparente, mas uma careta de esforço surgiu no rosto do cavaleiro quando ele se defendeu daquele golpe, e segundos depois Syd começou a ver os primeiros sinais de fraqueza da parte dele.

Aparentemente a fúria de Cleus havia aumentado o peso dos seus golpes a um ponto em que nem mesmo Bokuto estava sendo capaz de suportá-los completamente agora, e Syd não queria nem começar a pensar no que isso significava para o resto da luta.

– Vocês estão todos sempre falando dos inocentes – resmungou Cleus, encarando intensamente Bokuto com uma fúria incontrolável enquanto falava. – Sempre fazendo questão de jogar na nossa cara o dano que fazemos, as pessoas que prejudicamos. Vocês acham que não sabemos disso? Acham que esquecemos? Não esquecemos! Sabemos muito bem que o que fizemos prejudicou muitos no passado, sabemos os nomes e os rostos de cada uma dessas pessoas! Mas isso é algo necessário! Não ferimos inocentes por ganância ou sadismo, mas por necessidade! Para alcançar o nosso objetivo e prezar pelo bem da maior parte, acabamos tendo que ferir alguns que são inocentes! Fazemos isso com corações pesados, sem tirar orgulho ou prazer das nossas ações, mas temos que fazer isso pelo bem de muitos! Para prezar pelo bem da maioria, alguns tem de ser sacrificados!

– Tem? Eu não acho que traficar escravos ou matar soldados rasos fez dano a algum demônio, Jombaek! – As palavras de Bokuto também vieram calorosas, deixando claro que apesar das aparências, não era só o sangue de Cleus que estava fervendo ali. – Eu não vou dizer que me importo com cada pessoa que sofre pelas suas mãos, eu não sou algum tipo de moralista que clama chorar lágrimas de sangue pela morte de alguém que não conhece, mas você e a sua laia me irritam com essa maldita hipocrisia! Façam o que quiserem da forma que quiserem, mas não tentem pintar isso como algo nobre! Dizer que essas pessoas sofreram como um sacrifício ao bem maior para tentar enobrecer a sua causa é cuspir no túmulo de cada uma delas! Se você é um monstro, ao menos tenha a decência de reconhecer isso! Pare de fingir que você e seu grupo são uma liga de heróis incompreendidos, Pássaro-de-Fogo!

Os olhos de Cleus brilharam em fúria ao ouvir aquilo. A intensidade de suas chamas dobrou de uma hora para a outra, e com ela dobrou também a força por trás de seu golpe. Bokuto afundou em uma pequena cratera para dentro do chão, e embora ele esteja fazendo o seu melhor para ficar de pé, era óbvio que ele mal estava aguentando aquilo. Seus joelhos estavam começando a tremer e estremecer, como varetas perto de quebrar.

Nós somos heróis! – Declarou Cleus avidamente, gritando com um vigor, uma fúria e uma determinação imensuráveis, fazendo com que sua voz ressoasse por toda a sala. – Talvez não os heróis ideais, mas os heróis que esse mundo tem! Nós somos os que se ergueram no momento de necessidade, os que estão dispostos a sacrificar qualquer coisa pelo bem maior! Nós somos os que surgiram para suprir a falta que esse mundo viu com a ausência de heróis, uma vez que aqueles que deveriam ser os heróis desse mundo fraquejaram! Pessoas como você, Bokuto! Você e os cavaleiros do Salão Cinzento deveriam ser heróis, os campeões da humanidade, mas vocês falharam nisso! Com o tempo vocês se tornaram arrogantes demais, elitistas, tolos que se atém a padrões inalcançáveis e se consideram bons demais para fazer o que é necessário! São vocês que deveriam estar fazendo o que fazemos, mas o tempo fez com que vocês cavaleiros fossem ao topo do Monte Moralidade, e de lá de cima vocês são cegos às necessidades do mundo! São vocês que deveriam defender a humanidade, mas em sua arrogância vocês estão ocupados demais vivendo da sua glória e do seu prestígio passado, e por isso coube a nós fazer o seu trabalho! E nós abraçamos a causa e nos dedicamos a ela de corpo e alma, com muito mais do que vocês um dia sequer pensaram em dedicar! Então, cavaleiro, não ouse me vir com isso! Vocês são os que abandonaram a sua missão, então não ouse falar comigo como se fossem heróis!

Ao som das suas palavras, as chamas da espada de Cleus brilharam mais intensamente e tornaram-se muito mais quentes. Quente o suficiente para cortar através de aço como se ele fosse manteiga, pois foi exatamente isso que aconteceu. Sua lâmina flamejante atravessou a espada de Bokuto em um instante e seguiu para cortar o corpo do cavaleiro, deixando uma trilha de chamas por onde passava. Do ponto superior direito ao ponto inferior esquerdo o torso de Bokuto foi cortado pela lâmina flamejante, um corte tão quente que as feridas foram cicatrizadas quase que imediatamente, o que apenas fez aumentar ainda mais a dor que o cavaleiro sentiu. De olhos esbugalhados, com sangue escapando de seus lábios, Bokuto parecia completamente abismado por aquilo.

E isso deixou a sua guarda aberta.

As garras da mão livre de Cleus se fecharam um punho, e sem perder tempo ele lançou um soco com todas as forças direto no rosto de Bokuto – um soco que o cavaleiro não pode esperar bloquear naquele estado. O som do impacto do golpe foi como se alguém estivesse batendo um aríete contra um portão de ferro, e o corpo do cavaleiro foi jogado para trás pela força monstruosa dele sem que pudesse fazer nada contra isso. Ainda no ar, Bokuto teve uma reação rápida; forçando seu corpo a girar ele conseguiu se recuperar bem do golpe, aterrissando de joelhos já dobrados no chão, embora ofegante, com sangue escorrendo da boca e do nariz e com uma nova cicatriz no peito.

Cleus não lhe mostrou nem sombra de misericórdia. Avançou novamente contra o cavaleiro sem pensar duas vezes, brandindo sua lâmina com todas as forças, e dessa vez Bokuto se viu saltando para o lado para evitar o golpe de seu oponente. Isso não deteve Cleus, entretanto; liberando um rápido “tch” em irritação, o Pássaro-de-Fogo ajustou sua postura com garras e asas para voltar a se lançar contra seu oponente, investindo novamente contra Bokuto, forçando o cavaleiro a desviar de novo e de novo. Não demorou muito para que isso se tornasse quase que uma estranha espécie de dança, com Cleus avançando com tudo na tentativa de acertar Bokuto enquanto o cavaleiro saltava desesperadamente de um lado para o outro, tentando desviar dos golpes de seu oponente da melhor forma possível. Ele está sendo pressionado, compreendeu Syd, temeroso. Meros minutos atrás ele havia visto Bokuto se desempenhando maravilhosamente bem na luta, mas agora as coisas haviam mudado completamente. Se ele antes parecia estar com a vantagem, agora parecia que era uma questão de tempo até que ele fosse acertado e derrotado. Eu preciso fazer alguma coisa. Se a luta continuar assim, ele vai ser morto, e se ele morrer, o próximo sou eu!

Mordeu o lábio inferior, já sabendo o que estava por vir. Eu não posso lutar desse jeito, e mesmo se pudesse, eu provavelmente só seria um estorvo em uma luta desse nível. Só existe uma coisa que eu posso fazer para tentar lhe ajudar, e isso é distrair o seu oponente. E só sabia de uma forma certa de distrair Cleus...

– Por que toda essa insegurança?! – Gritou Syd com todas as suas forças, e suas palavras ressoaram.

A luta parou de uma vez no momento em que suas palavras foram ditas. No momento em que elas soaram, Cleus parou o avanço que estava fazendo e ficou completamente parado aonde estava, imóvel como se dezenas de correntes o segurassem no lugar. Bokuto, que estava a essa altura preparado para esquivar de um novo golpe, ficou confuso; primeiro ele olhou Cleus com descrença, antes de arriscar mover um de seus olhos para fitar Syd com uma sobrancelha erguida com ele.

– Insegurança? – Repetiu a voz de Cleus, e a cabeça do Pássaro-de-Fogo virou em direção a Syd. Seus olhos encararam o mercenário com uma fúria fria, e soube então que a fúria do homem estava sendo redirecionada para ele. – Está falando comigo, Sydwel?

Tentou engolir em seco, mas um bolo em sua garganta o impediu. Oh, merda, isso não vai prestar, nem um pouco. Depois do que havia sofrido nas mãos dele, uma das últimas coisas que Syd queria era enfurecer Cleus, mas ao mesmo tempo ele sabia que essa era a sua única escolha. Se eu ficar calado ou der pra trás agora, ele vai simplesmente voltar a atacar Bokuto, e então vai ser apenas uma questão de tempo para que o cavaleiro seja derrotado. Eu iria morrer nesse caso. Com suas pernas naquele estado, Syd sabia que ele não tinha esperança nenhuma de tentar escapar: sua única chance de viver estava diretamente ligada a Bokuto, e por isso ele tinha que ajudar o cavaleiro o melhor possível. Isso é perigoso. Esse cara pode me matar num piscar de olhos se ele quiser. Mas essa é a minha melhor chance. Eu posso morrer com isso, mas eu com certeza vou morrer sem isso.

– S-sim, estou falando com você mesmo! – Respondeu Syd em uma voz trêmula, sem conseguir esconder o medo abismal que sentia em fazer algo assim. Respirou fundo rapidamente para tentar se acalmar um pouco, mas sabia que não podia parar agora. – Você... você fala tudo isso. Fala sobre como vocês tiveram que fazer as coisas ruins que fizeram, como vocês prezam pelo bem maior, como vocês fazem as escolhas difíceis e se dedicam pelo bem maior. Mas mesmo assim... sempre que você fala... eu sempre sinto uma hesitação. Uma certa insegurança. Por que isso? Por que tanta insegurança?

– Não fale besteira! – Declarou furiosamente Cleus... embora em meio a fúria dele tenha detectado algo mais, um traço de insegurança. O.… o quê? Aquilo não era algo que esperava, mas aparentemente as suas palavras estavam afetando o homem de forma mais profunda do que apenas irritá-lo. Aparentemente... aparentemente elas estavam realmente abalando o emocional dele. – Insegurança... eu não tenho nada assim!

– Nã-não, isso é errado! Você tem sim! Sua voz, sua linguagem corporal, até mesmo o brilho dos seus olhos, todos indicam ela! – As palavras vieram com mais convicção do que esperava, parecendo completamente honestas apesar de serem basicamente um grande blefe. – Você é inseguro, incerto! Você... você fala tanto sobre o que vocês fazem e tudo mais, mas você mesmo está incerto sobre isso! Você mesmo tem dúvidas, não é mesmo? Dúvidas sobre o que estão fazendo, sobre o seu modo de agir... dúvidas se o caminho que vocês estão trilhando é realmente o certo, se vocês realmente estão prezando pelo bem da humanidade!

– Calado! – A voz de Cleus trovejou com ainda mais força do que antes, embora isso apenas deixasse a insegurança nela ainda mais perceptível. Ouvindo aquela voz e olhando para a expressão no rosto do Pássaro-de-Fogo, Syd não teve mais dúvidas. Ele está conflitado. Ele está conflitado! Essas minhas palavras... elas estão indo direto na ferida! Eu estou abalando as convicções dele com o que digo! – Eu não vou aturar questionamentos de um rato covarde como você! Cale-se agora, Sydwel, ou eu irei calá-lo!

– Rato covarde? Sim, você está certo! Eu sou um rato covarde! Raios, eu sou o Campeão dos Covardes! Eu sou um fujão, um medroso, um dos primeiros a colocar o rabo entre as pernas e sair correndo quando as coisas ficam feias! Mas sabe de uma coisa? Eu assumo o que eu sou! Eu não finjo ser algo mais do que eu realmente sou! E EU NÃO MATO INOCENTES, NEM JUSTIFICO A MORTE DELES! – Cada vez mais sua voz ganhava mais energia e suas afirmações se tornavam mais e mais ousadas. A essa altura, nem estava pensando que falava. Apenas abria a boca, e as palavras fluíam por conta própria. – Você não é burro, Cleus, você sabe a verdade! Você sabe, melhor do que ninguém, que o que vocês estão fazendo é errado! Você sabe que, independente do objetivo final, o sofrimento que vocês causam é injustificável, imperdoável! Você se que vocês não tem o direito de fazerem as decisões que vocês fazem, que vocês não tem o direito de tirar vidas por medo, pois é exatamente isso que vocês fazem! Vocês temem algo que pode vir a acontecer num futuro distante e que não aconteceu em centenas de anos, e por isso vocês começaram uma cruzada destrutiva, sob a justificativa de estarem prezando pelo bem mundial, mas só colaborando para a miséria e o sofrimento no mundo até o dia de hoje! Você sabe, e muito bem, que o que vocês estão fazendo é errado, mas você se ilude em teimar em pensar que vocês são os mocinhos aqui!

CALADO! – As chamas de Cleus queimaram em uma verdadeira explosão flamejante. Suas asas, garras e lâmina se expandiram com criações monstruosas de um inferno ardente, e o peito do guerreiro de expandiu. Seus olhos foram consumidos por chamas, e num movimento ele disparou contra Syd com tudo, jogando sua lâmina para trás. – CALADO!

– Por quanto tempo você pretende continuar com isso, Cleus Jombaek?! – Sabia bem o perigo claro que estava vindo contra ele, e aquilo lhe deixava completamente aterrorizado, mas não conseguia parar. Estava chorando de medo naquele exato momento, aos prantos como uma criancinha, mas as palavras continuavam a vir, fortes e decididas como nunca. – POR QUANTO TEMPO VOCÊ PRETENDE INSISTIR NESSE ERRO?! VOCÊ É O DESCENDENTE DA LINHAGEM DOS HERÓIS! AJA COMO TAL!

Um brilho flamejante lhe cegou, e Syd tinha certeza que aquele era o momento da sua morte. Mas não morreu. O brilho lhe cegou e depois se apagou, e quando recuperou a visão, Syd viu algo que nunca esperou ver. Cleus Jombaek estava bem diante dele, perto o suficiente para lhe alcançar se esticasse a mão, mas ele não tinha chama nenhuma ao redor dele. Suas asas haviam desaparecido, suas garras tornaram-se membros normais e sua lâmina havia voltado a ser Flamberge, e mais do que isso, ele estava de joelhos.

Em frente a Sydwel Ostrower estava Cleus Jombaek, o Pássaro-de-Fogo, de joelhos e cabeça baixa, com Bokuto atrás dele, pousando a lâmina da sua espada sob o seu ombro.

– Você está certo – murmurou Cleus simplesmente, em uma voz infinitamente serena.

– ... Hã? – Entendeu bem o que ele havia dito, mas não sentia como se fosse realmente esse o caso. Mas... o quê? Como? Quando? Onde? O que diabos aconteceu?!

– Você está certo – repetiu Cleus, erguendo um pouco sua cabeça para poder olhar nos olhos de Syd. – Eu... eu tenho insegurança, sim. Ou, mais precisamente, a incerteza que você tinha mencionado. Quando eu conheci Balak e os outros e o grupo foi formado com o nosso objetivo, eu fiquei extasiado. Parece tolice, eu sei, mas uma das coisas que eu sempre quis foi proteger o mundo. Fazer algo em prol da humanidade, em prol do nosso futuro. Me dedicar a derrotar demônios lendários, erradicar de vez a existência deles para proteger a humanidade... isso é algo no qual eu me joguei de cabeça, um objetivo para o qual eu me dediquei totalmente.

“Mas não demorou para que começássemos a fazer coisas mais desonráveis. No começo isso foi relativamente pequeno; pequenas operações de contrabando, transportando ilegalmente mercadorias de uma cidade para outra. Nem eram mercadorias ilegais, para ter uma ideia; eram apenas mercadorias que alguns mercadores queriam mover, mas que tinham que evitar os canais legais para que o lucro da sua venda não fosse perdido com as tarifas e impostos absurdos que alguns governadores impunham em estradas e transações. Mas não ficamos só nisso. Eventualmente começamos a contrabandear mercadorias ilegais também, e depois chegamos ao ponto de traficar bebidas e drogas, até chegarmos a entrar no próprio tráfico humano. Isso abalou a minha convicção na nossa causa, lógico que abalou, mas eu me mantive na causa mesmo assim. Eu disse pra mim mesmo que isso era uma necessidade, que isso era devido a nossa necessidade de fundos para alcançar o nosso objetivo, disse que essas pessoas que estavam sofrendo e o mal que nós estávamos causando era pelo bem maior.

Eventualmente, chegou ao ponto em que matamos o primeiro hospedeiro. Uma garotinha. Uma criança! Nós tivemos que a matar, e nem sequer conseguimos matar o demônio dentro dela! Tivemos que aprisioná-lo em uma urna mais segura, uma urna que impedia que esses demônios pudessem exercer qualquer influência sobre o mundo externo, mas ainda assim uma urna! Tínhamos tido todo esse trabalho e matado uma criança só para aprisionar novamente aquele demônio, numa forma que era supostamente mais segura! Você tem alguma ideia do quanto isso abalou a minha convicção? Mas eu continuei na causa ainda assim! Eu disse pra mim mesmo que isso era o melhor, que enquanto nos hospedeiros os demônios podiam transformar seus hospedeiros em monstros, mas que presos naquelas urnas eles não podiam fazer mais anda, que era como se eles estivessem mortos! E eu segui em frente.

Mas com o passar dos anos e da nossa trajetória, eu fui vendo muito disso, muito sucessivamente. Escravizamos milhares de pessoas e as vendemos por dinheiro, e matamos milhares de outros em nome dessa cruzada. A Batalha do Salão Cinzento é um exemplo disso. O número de mortos nela e a destruição causada naquela batalha foi a maior que já fizemos, mas essa não é a primeira vez que fizemos algo assim... e se as coisas continuarem desse jeito, não será a última, também. E eu não posso mais ficar justificando isso. Eu não posso simplesmente fechar os olhos, dizer que esses são sacrifícios pelo bem maior e seguir em frente. Escravizar é errado! Matar é errado! Conduzir atos de tamanha destruição, sair por aí caçando pessoas que nunca fizeram nada de errado por algo que está completamente fora do controle delas, ficar criando alianças com as pessoas mais desprezíveis da sociedade ... tudo isso é infinitamente errado, e não há nada que vale a pena por isso tudo! Independentemente de qual seja o nosso objetivo, nada justifica todo o mal que causamos, principalmente não por puro medo de uma possibilidade! As nossas ações, elas não são as de heróis, mas as de vilões, e eu não posso mais simplesmente fechar os olhos para isso!”

O rosto de Cleus se virou levemente em direção a Bokuto ao dizer aquilo, e o cavaleiro ergueu uma sobrancelha em resposta a isso. Não pode ver o olhar que os dois trocaram graças a sua posição, mas de alguma forma isso pareceu falar com Bokuto. O cavaleiro recuou dois passos para trás e retirou a sua espada, embainhando-a novamente, e assim que o som dela encaixando completamente em sua bainha foi ouvido, Cleus se levantou.

– Eu lhe agradeço, Sydwel. Por abrir meus olhos. Eu precisava ouvir palavras como as suas para acordar. Não fosse por elas eu continuaria de olhos fechados, vagando pela escuridão. – Seus olhos pousaram sobre Syd, calmos e serenos, trazendo um ar de respeito no olhar que Syd só havia visto direcionado a ele muitos anos atrás, quando ainda era um estrategista genial no exército da sua nação. – Me.… me desculpe por chama-lo de covarde. Você teme a luta, é verdade..., mas um homem capaz de abrir meus olhos dessa forma não é nenhum covarde. Eu sei que isso não vale muito, mas você tem o meu respeito, Sydwel, e a minha mais sincera admiração. Se um dia você precisar da minha ajuda, chame o meu nome e eu irei me erguer em sua defesa.

Subitamente as chamas que antes cercavam Cleus voltaram. Suas asas, garras e lâmina de fogo se mostraram de volta num único instante como se estivessem ali desde sempre, e mesmo elas estavam mudadas agora. Enquanto antes as chamas eram intensas e queimavam violentamente, quase como se estivessem furiosas, elas agora pareciam calmas, amenas. Não diria por nada no mundo que elas não pareciam quente, mas agora elas pareciam... controladas.

– O quê... o quê você planeja fazer? – Fez a pergunta com uma voz incerta, ainda sem saber exatamente como deveria reagir a tudo aquilo. Pelo que Cleus havia dito e pelas ações que ele havia tomado, era claro que ele não iria voltar a ataca-lo, mas isso não explicava muito sobre as ações dele.

– O que está feito está feito. Ninguém, nem mesmo os Deuses, pode mudar o passado. Os meus pecados existem e nada que eu faça vai apaga-los, mas isso não significa que não há nada que eu possa fazer – respondeu o Pássaro-de-Fogo, virando-se em direção a saída enquanto Bokuto dava alguns passos para o lado para sair do seu caminho. – O que foi feito não pode ser desfeito, mas o futuro é meu para ser escrito. E eu pretendo escrever um conto de redenção. Eu passei tanto tempo caçando os hospedeiros dos Corações e fiz prejudiquei tantas pessoas... nada mais justo do que que eu comece a me redimir ajudando essas mesmas pessoas. – Brandiu sua lâmina e dobrou os joelhos, se preparando para avançar. – De agora em diante, luto por Strauss e pelo Salão Cinzento.

A investida que Cleus realizou ao dizer aquilo foi absurda. Tal como o que ele havia feito contra Bokuto, ele se impulsionou usando um misto da sua força, suas asas e suas chamas, mas com uma potência muito maior do que a antes. Em um instante ele já havia desaparecido completamente, deixando apenas um rastro de fogo para trás, avançando por além da passagem de entrada da sala para Deus-sabe-aonde. É.… é só impressão minha ou... baseado na velocidade desse avanço dele, ele ficou ainda mais forte depois disso? Supunha que o emocional interferia no desempenho de alguém, e que portando o estado abalado e instável de Cleus antes pudesse significar que ele não estava sendo capaz de usar seu poder total em batalha, mas mesmo assim... era assustador imaginar que aquele homem era ainda mais poderoso do que havia demonstrado até então. Bom... creio que isso significa que é uma boa coisa que ele está do nosso lado agora.

– Bom... esse certamente foi um desenvolvimento bem inesperado – comentou Bokuto, estalando seu pescoço para a direita enquanto apoiava sua espada remanescente no ombro, olhando na direção para a qual Cleus havia seguido. – O Pássaro-de-Fogo é forte, bem mais forte do que eu pensei. Ele está definitivamente no nível de um Ascendente, talvez até um pouco além. E eu fiquei mais fraco depois que perdi Muramasa. – Os dentes de Bokuto rangeram ao dizer aquilo, como se o pensamento lhe irritasse, e por mais que Syd não soubesse o que deveria ser essa tal de “Muramasa”, ele também não era burro o bastante para perguntar. – Eu preciso me dedicar a treinamentos mais severos de agora em diante. Eu não posso me dar ao luxo de ficar fraco.

– Infelizmente, você não vai ter a chance de treinar.

A voz que disse aquilo foi masculina, e bem próxima. Os olhos de Syd dispararam para ver um homem que havia surgido do nada ao lado de Bokuto, mas não teve nem tempo de pousar seus olhos sobre esse antes que Bokuto sacasse sua espada e cortasse o homem com um único movimento. Mas seu corte não espalhou sangue, ou sequer cortou de verdade. No momento em que a lâmina da espada de Bokuto atingiu o que deveria ser o corpo do homem, esse se desfez numa multidão de borboletas que voaram em todas as direções, fazendo com que Bokuto erguesse uma sobrancelha em confusão.

E foi então que o corte veio. Súbito e rápido, uma espada cortou através das costas de Bokuto, espirrando sangue pra todo lado e fazendo com que o cavaleiro vacilasse um passo para frente, uma careta de dor surgindo em seu rosto por um instante, apenas para ser prontamente substituída por uma de fúria. Bokuto girou enquanto brandia cegamente sua espada contra seu oponente, mas novamente ele não pode atingi-lo. Quando o seu golpe veio, seu oponente já havia se afastado saltando para trás.

Foi então que pode ver quem era ele. Um homem alto, vestido em roupas escuras que seriam normalmente associadas a um padre ou monge, de ombros largos e corpo musculoso. Seus cabelos eram longos e prateados, e em seu rosto ele trazia uma cicatriz em forma de “x”... ou, melhor dizendo, uma cicatriz que parecia ter tido um dia a forma de um “x”. Apenas a metade direita do corpo daquele homem era humana, enquanto a metade esquerda dele era completamente mecânica. Puro aço altamente desenvolvido, peças resistentes e de formas perfeitas – um trabalho que seria digno de Tiamat, não fosse pelo fato de que Syd sabia que o Rei Louco não podia ter feito algo assim. Ele não iria deixar de se vangloriar de ter feito uma operação como essa caso tivesse o feito. Em cada uma de suas mãos o homem trazia uma espada bastarda, manuseando-as com destreza e habilidade enquanto encarava Syd e Bokuto com um olho humano e um olho artificial que brilhava em vermelho.

– Eu sempre soube. Desde o primeiro momento em que eu pousei os olhos sobre ele eu soube que ele um dia iria trair a causa. A fé sempre foi fraca naquele – resmungou o homem em um tom condescendente cheio de desprezo. – Bom, de qualquer forma, não importa. Eu irei lidar com vocês, e depois mato ele. – Cruzando os braços o homem dobrou os joelhos, se preparando para investir, e em resposta a isso Bokuto praguejou e assumiu uma posição de guarda com sua espada. – Sydwel, o mercenário. Bokuto, o cavaleiro. Meu nome é Ibur Caelum, Padre do glorioso Deus Caelum. Que meu Deus tenha misericórdia de vocês, porque eu não terei.





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