O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 82
Pó de Fada




Segundo Andar do Pandemonium, “Labirinto Eterno”...

CORREU OS OLHOS PELA ESPAÇOSA SALA QUE LHE CERCAVA DE FORMA APREENSIVA, cheia de cautela. Não posso abaixar minha guarda, nem por um minuto. Estou em território inimigo, e tudo pode acontecer aqui. Depois de ter perdido um de seus braços na luta que havia tido com Zaniark no Mercado dos Escravos, a situação de Anabeth havia se tornado bem mais complicada. Não necessariamente por ela ter perdido poder – isso havia acontecido, mas ela havia criado formas de contornar isso com a ajuda de Valery – mas pelo fato de que isso lhe deixava muito vulnerável. Agora que só tenho um braço, um inimigo pode simplesmente buscar imobilizar o meu braço remanescente de alguma forma e eu ficaria completamente indefesa. Ou ele poderia atacar pelo meu lado sem braço e obter uma vantagem nesse ataque. As possibilidades eram imensas, e por isso ela tomava o cuidado de se manter sempre atenta aos seus arredores, pronta para reagir a qualquer ameaça que pudesse vir em sua direção.

Mas para sua surpresa, isso se mostrou completamente desnecessário, pois sua oponente veio pela frente.

– Mais um oponente, hum? Eu devo ter tirado o mais curto dos palitos. – A mulher falou aquilo em uma voz tranquila e contemplativa enquanto caminhava calmamente em direção a Anabeth, mantendo uma mão sobre a empunhadura de sua espada a todo momento em sinal de guarda, mas sem exalar nenhuma intenção hostil. Sua aparência era um tanto quanto andrógina, ao ponto de fazer com que a maga apenas consegue identificar o seu sexo pelo tom da sua voz; seus cabelos castanhos eram relativamente curtos, mal chegando a altura de seus ombros, e seus seios eram pequenos o bastante para não mostrarem qualquer sinal, mesmo com ela usando trajes militares que haviam claramente sido feitos para um homem. – Bom, suponho que devo ficar feliz com isso. Um oponente para mim significa um oponente a menos para os outros.

Outros? Desde pequena Anabeth havia sido uma mulher atenta ao que acontecia ao seu redor, e isso sempre permitiu que ela compreendesse melhor as coisas. Aquela situação não era uma exceção. Hm.... pelo que ela acabou de falar, suponho que é justo afirmar que ela deve ter um espírito de camaradagem mais forte. Mercenários em geral não se importam muito com outras pessoas, então eu só posso imaginar que ela está associada a algum grupo aqui. Isso dito, não podia acreditar que uma mulher como ela fosse membra do Olho Vermelho, e isso só deixava uma alternativa.

– Eu suponho que você deva ser parte do grupo do Juggernaut, não é? – Perguntou Anabeth, estalando os dedos de sua mão, preparando-se mentalmente para a batalha que estava por vir. Se ela está com alguém como Jiazz, ela deve ser bem forte. Não posso subestimá-la. Tinha que esperar por uma chance agora, um momento no qual ela abaixasse sua guarda para que pudesse lançar seu ataque. E a melhor maneira de incitar alguém a abaixar a guarda é falando constantemente com essa pessoa, mantendo-a distraída. – Diga-me, qual o seu nome? E por que alguém como Jiazz se aliou a um grupo como o Olho Vermelho?

– Meu nome? O meu nome real foi perdido há muitos anos, mas pode me chamar de Saber. Saber, a Amaldiçoada. – Ao atingir uma certa distância de Anabeth a mulher parou todos os seus movimentos, permanecendo firme aonde estava enquanto encarava a arqueira ruiva. Oito metros as separavam. Para guerreiros normais essa seria uma distância folgada, segura... mas para pessoas do nível delas, isso significava menos do que nada. – Quanto à Jiazz... em primeiro lugar, ele nunca se aliou ao Olho Vermelho. Ele está trabalhando para essa guilda. Há uma grande diferença entre essas coisas. E de qualquer forma, os interesses de Jiazz são os interesses dele. Eu não me preocupo com isso.

– Oh? Isso significa que você é o que chamamos de “pau-mandado”, alguém que apenas faz as vontades dele como uma cadelinha obediente? – Se certificou de ser bem irônica ao dizer aquilo, mirando direto nos nervos da mulher. Em geral não era a maior fã de recursos como provocações, mas tinha que admitir que eles eram bem úteis, e seria uma grande tola se não usasse todas as vantagens possíveis para enfrentar uma mulher como aquela.

– Se você quer me considerar uma “cadelinha obediente”, vá em frente. Não perco sono pelo que as pessoas pensam de mim. – Aquelas não eram apenas palavras da boca para fora; olhando para Saber e prestando atenção ao tom de voz que ela usava, era claro que ela estava sendo bem sincera no que falava, não demonstrando qualquer sinal de estar minimamente incomodada por aquele insulto. – Eu sou a espada de Jiazz, e uma espada não precisa saber as motivações de seu mestre. Aonde quer que Jiazz vá, se ele quiser que eu lhe acompanhe, eu andarei ao seu lado e defenderei o seu nome.

– Mesmo que ele mate inocentes e se oponha aos bons? – Questionou Anabeth, erguendo uma sobrancelha. – Você sabe que isso não é saudável, não sabe? Ter essa confiança cega em seu líder.

– Cega? Não, a minha confiança é de olhos abertos, bem abertos. Muito mais do que os seus. – O som de aço raspando em couro ressoou pela sala a medida que Saber foi retirando lentamente sua espada, desnudando aço ao mundo enquanto mantinha seus olhos travados nos de Anabeth. – Você fala sobre matar inocentes e se opor aos bons... eu poderia começar a dissecar esse argumento com perguntas tão simples como “o que é um inocente?” ou “o que é um bom?”, mas vou lhe dar uma resposta um pouco mais direta. Jiazz nunca irá matar alguém que ele acredita ser inocente, nem se opor a alguém que ele considera como bom sem uma boa razão. O simples fato de você estar cogitando uma possibilidade como essa demonstra o quão pouco você sabe dele, o que, francamente, a coloca no mesmo patamar dos outros. As pessoas olham para Jiazz e veem um gigante bruto e sanguinolento. Mas eu... eu consigo ver além disso. Eu consigo ver um homem de coração puro e gentil, de alma corajosa e espírito indomável. O homem que eu admiro, e o homem no qual acredito.

Mal aquelas palavras terminaram de ser ditas e Saber sumiu em pleno ar sem deixar rastros, fazendo com que os olhos de Anabeth se arregalassem. Mas o qu-? Nem teve tempo de concluir seu pensamento antes que a lâmina de um sabre afiado brotasse subitamente bem diante dos seus olhos, movendo-se em direção a ela com uma velocidade descomunal. A sua surpresa diante daquilo foi tão grande que quase vacilou; foi só no último momento que conseguiu inclinar seu corpo para trás o suficiente para que a espada passasse rente a ele sem a ferir, cortando apenas alguns poucos fios rubros que ficaram para trás. Ela é rápida, muito rápida! Da posição em que estava conseguiu olhar para frente e ver o rosto da sua oponente por baixo do quepe – os olhos frios, os traços duros, a expressão completamente impiedosa. Essa mulher... ela é muito perigosa.

Assim que seu golpe passou por Anabeth, Saber não perdeu tempo em girar rapidamente o sabre em suas mãos e movê-lo rapidamente em um novo golpe contra Anabeth, mas a arqueira já estava preparada para isso; assim que ela viu uma brecha nos movimentos de Saber ela tratou de saltar rapidamente para criar espaço entre elas. O cenho da Amaldiçoada franziu diante daquilo, tornando a avançar contra sua oponente tão rápido quanto pôde: não tinha tantas informações sobre Anabeth, mas pelo que havia descoberto quando tentou se informar sobre os membros conhecidos da Era Dourada, ela era originalmente uma arqueira. Já que ela não tem um braço, ela não deve mais ser capaz de lutar da sua forma tradicional, mas se ela está aqui, ela deve ter aprendido algum tipo de técnica que lhe permite fazer algo similar ao seu estilo de luta. Se estivesse realmente certa quanto a isso, então o principal era que não deixasse sua oponente criar espaço entre elas. Se eu me manter na ofensiva e conservar o espaço de luta relativamente pequeno, a vitória será minha.

Investiu contra Anabeth com uma estocada, mas a arqueira sapateou para o lado e deixou que sua espada atingisse o ar. Girou seu pulso e moveu-a novamente em sua direção, mas ela se abaixou rapidamente, e quando tentou um corte diagonal para se aproveitar disso ela saltou com a agilidade de uma lebre. Ágil... eu devia imaginar. Um arqueiro nunca vai se deixar ser atingido facilmente. Em alto ar com as pernas ainda recolhidas como haviam ficado com o salto, Anabeth encarou Saber nos olhos com um olhar determinado. Mas tudo bem. Se é esse o caso... então eu só tenho que usar isso!

Runas do Raio Negro! – Gritou Saber, e no momento em que ela disse aquelas palavras em voz alta ela ativou suas runas, fazendo com que toda a manga que cobria o seu braço direito fosse rasgada em pedaços de pano pelos raios negros de eletricidade que o envolveram. Os olhos de Anabeth se arregalaram em surpresa ao ver aquilo, e isso só contribuiu ainda mais para o que estava fazer; jogou seu braço contra ela com todas as forças, e quando sua mão apontou para a arqueira, uma esfera de energia elétrica negra já havia se concentrado ali.

O disparo foi tão poderoso que teve de firmar bem seus pés no chão para que não fosse jogada longe por ele. Uma rajada de plasma negro foi disparada da palma de sua mão como se ela fosse um dos canhões de guerra de Carcino, atingindo em cheio Anabeth e jogando-a até o outro lado do cômodo com violência, esmagando-a contra a parede. Ele só durou alguns instantes, mas isso foi o suficiente; quando ele se foi, o corpo dela caiu do teto ao chão como se fosse uma boneca quebrada.

E, no entanto, aquilo não foi o suficiente para matá-la. Não demorou nada para que visse o corpo de Anabeth se debatendo; seu peito havia sido queimado pelo ataque ao ponto de ter fumaça preta saindo dele, e suas costas estavam coberto em sangue graças ao impacto dela com a parede, mas ainda assim Anabeth aparentemente ainda tinha forças o suficiente para ao menos se manter consciente depois daquilo, estando agora lutando para tentar se levantar. Impressionante dela... e francamente, decepcionante da minha parte. Aquilo havia sido de muitas formas um teste da sua habilidade com runas, e um que tinha se mostrado bem insatisfatório. Embora ele não tivesse queimaduras muito graves e ainda estivesse em condições de ser usado por ela, aquele ataque havia lhe deixado chamuscado ao ponto de senti-lo pulsar. Seria doloroso tentar lutar usando ele, e podia desistir de bloquear qualquer golpe mais pesado agora. Eu devo ter feito alguma coisa errada em meu ataque, e isso fez com que a força dos raios fosse menor do que deveria, bem como que o meu braço acabasse nesse estado deplorável. A bem da verdade, era vergonhoso pensar que tinha sido tola o bastante para cometer um erro como aquele. Mas já que eu o cometi... o melhor que posso fazer agora é evitar que cometa outro.

Dobrou rapidamente suas pernas e, jogando sua espada para trás em preparação para um novo golpe, saltou em uma nova investida para finalizar Anabeth. A arqueira viu sua aproximação, mas mesmo com todo o medo que brilhou em seus olhos e com todos os esforços que ela fez para tentar se levantar, o corpo dela simplesmente não respondeu. Que pena, Anabeth. Mesmo que o meu ataque não tenha sido tão forte quanto deveria, você ainda é uma arqueira – não tem o vigor ou a resistência necessária para continuar lutando depois disso. Por um momento chegou a considerar parar sua investida, mas pensou contra isso no último instante. Isso é uma guerra. Eu não posso me dar ao luxo de ficar poupando meus oponentes. Mesmo que eu não tenha nada contra eles, mesmo que eu não ache que eles merecem morrer... eu devo mata-los, pelo bem dos outros!

Em um movimento rápido sua espada desceu, cortando através do pescoço de Anabeth e deixando que a cabeça da arqueira caísse ao chão.

Mas essa cabeça nem chegou a tocar o chão antes que tanto ela quanto o corpo de Anabeth se transformassem em um pó dourado, bem na frente de Saber.

Seus olhos se arregalaram ao ver aquilo, e a expressão em geral estoica que ela normalmente mantinha em luta se quebrou para dar lugar a surpresa e incredulidade. Mas... o quê?! O quê é isso?! Tinha certeza de que tinha acertado sua oponente com seus últimos ataques – ela havia sido queimada e sangrado, e isso não era algo que podia ser fingido de forma tão simples – mas aquele pó que se espalhava pelo ar parecia zombar disso. O que diabos é esse pó? Aonde está a verdadeira Anabeth?! O que raios está acontecendo aqui?!

Pó de Fada. – Ouvir a voz de Anabeth fez com que Saber se virasse imediatamente em direção a ela. A arqueira de fogo estava há cerca de dez metros de distância de Saber, e ela estava ferida. Tal como havia visto antes, o corpo dela sangrava e o seu torso em geral trazia marcas das queimaduras que seus raios haviam criado. Mas ao contrário da Anabeth que havia acabado de cortar, a arqueira não parecia estar sentindo tanta dor perante aos seus ferimentos. Pela postura que ela mantinha e a expressão em seu rosto, os ferimentos podiam muito bem serem picadas de mosquito. – Esse é um pó especial, criado por magos usando sua própria mana como “base” em uma magia de transmutação. Quando colocados sobre feridas, eles ajudam em uma cicatrização mais rápida e impedem infecções. Quando usados em plantações, as plantas crescem mais rápido e de forma mais saudável, necessitando de menos água. Quando usado na culinária, você consegue criar pratos deliciosos com produtos simples, usando um tempero praticamente perfeito. – A medida que ia ouvindo aquelas explicações jocosas de Anabeth, Saber sentia seus nervos ficarem cada vez mais a flor da pele, sua paciência ficando cada vez mais curta. Ela deve ter notado isso também; sorrindo de forma provocativa, Anabeth ergueu sua única mão e gesticulou com ela enquanto falava. – E claro... se você associar esse pó à alguma magia, você consegue aumentar ampliar bastante o poder dessa. Sem ele, provavelmente seria um pouco mais difícil para mim te enganar.

Um ampliador mágico? Tch. Isso é problemático. Não era tola a ponto de assumir que tudo que aquela mulher estava lhe falando era verdade assim de imediato, mas isso não mudava o fato de que provavelmente era uma péssima ideia continuar perto daquele pó. Eu tenho que fazer alguma coisa quanto a isso primeiro. Depois eu me foco nessa mul-

Antes que pudesse concluir seu pensamento, Saber foi surpreendida ao ver uma flecha de fogo vindo subitamente em sua direção em alta velocidade. Movida por seus instintos ela balançou sua espada, e para sua nova surpresa, ela conseguiu cortar a flecha com seu sabre. Fogo sólido? Não, isso não é importante! Havia descoberto com suas pesquisas que aquele tipo de projétil era uma das marcas registradas de Anabeth, o que significava que só podia ser ela que disparou aquilo. Mas como ela fez isso com apenas uma mão? Que tipo de magia ela está usan-

Novamente os pensamentos de Saber foram interrompidos, mas dessa vez o que fez isso foi uma explosão. Uma nuvem de fumaça negra envolveu a área na qual a Amaldiçoada estava por não mais do que alguns segundos antes que a própria fumaça se dissipasse o suficiente para que a espadachim fosse visível novamente. Suas vestes militares haviam sido estragadas por aquilo; seu segundo braço agora estava descoberto também, e embora ela tivesse sofrido danos muito menores do que qualquer pessoa normal sofreria com aquilo, pequenas queimaduras eram visíveis em seus braços e rosto e a ponta de seus cabelos havia sido chamuscada. Que problemático.... Pelo que parecia, aquela mulher não só havia desenvolvido uma habilidade para disparar suas flechas mesmo sem um braço como também havia ampliado o poder dessas, fazendo com que elas agora fossem capazes de explodir. Essa explosão foi em pequena escala, mas ainda assim, ela foi mais poderosa do que a maioria das do seu tipo. Uma delas estava longe de ser o suficiente para lhe causar algum dano grave..., mas olhando para as dezenas – talvez centenas – de flechas de fogo que planavam no ar ao redor de Anabeth, Saber sabia que ela tinha um grande problema em mãos.

– Parece que você não é poderosa apenas por ser forte ou rápida, mas tem resistência também. Que bom pra você. Vai precisar muito dela se pretende me enfrentar. – Com movimentos suaves Anabeth gesticulou com seus dedos para que Saber olhasse ao redor, e mesmo sabendo que aquilo era em geral uma péssima ideia, foi isso que Saber fez. À sua direita, à sua esquerda e às suas costas, o pó de fada que havia visto quando cortou o “corpo” de Anabeth era visível no ar por toda a parte da sala na qual ela estava impregnando o ambiente quase como se fosse algum tipo de névoa. Demorou um instante para que Saber compreendesse o que isso significava, mas quando o fez, seus olhos se arregalaram imediatamente. Impossível...! – Eu te disse que o Pó de Fada aumenta o poder das minhas magias, correto? Uma coisa que eu esqueci de dizer também, no entanto, é que ele também é inflamável. Em outras palavras... se eu usar uma magia de fogo em meio a ele, o efeito será três vezes mais potente que o normal.

Isso foi algo que ela compreendeu imediatamente, e por isso não perdeu tempo em tentar escapar dali, mas à altura que suas pernas começarem a se mover, duas flechas de fogo já haviam sido disparadas em sua direção. Elas foram muito mais rápidas do que a última, alcançando Saber e explodindo ao seu lado antes que ela pudesse se mover de onde estava. Esses ataques... eles não foram lançados para me ferir!, compreendeu Saber de imediato, cobrindo seu rosto com um braço enquanto olhava para as explosões que não haviam chegado nem perto de representar uma verdadeira ameaça para ela. Eles foram apenas para parar os meus movimentos. Essa maldita arqueira está brincando comigo! Só pensar naquilo foi o suficiente para que sentisse uma veia pulsante de irritação surgir em sua testa.

– Pelo que eu já vi da sua resistência, você certamente é forte o suficiente para resistir a algumas explosões diretas dessas, espadachim – comentou Anabeth, mostrando um fino sorriso maldoso em seu rosto enquanto erguia preguiçosamente sua mão. – Mas diga... quantas dessas minhas 600 flechas você pode suportar?

Mais uma vez os olhos de Saber se arregalaram, mas ela não teve tempo de fazer mais nada dessa vez. O braço de Anabeth desceu tão rápido quanto se ergueu, e com aquele movimento todas as centenas de flechas que ela havia criado foram disparadas de uma única vez. Aí vem elas! Saltou para a direita para desviar de algumas que vieram mais rápido, mas mal teve tempo de ter seus pés tocando novamente o chão antes que se visse forçada a tornar a saltar, dessa vez mais alto e na direção contrária. Essas flechas podem ter sido todas disparadas ao mesmo tempo, mas o avanço não é uniforme! Algumas estavam na frente das outras, algumas estavam acima das outras e todas elas tinham uma velocidade diferente entre si. Ela deve ter feito isso para tentar quebrar qualquer possível barreira que eu possa erguer para me proteger ou coisa do tipo, mas a verdade é que isso é extremamente benéfico para mim! Se todos aqueles ataques tivessem sido lançados de forma uniforme ela não teria como desviar deles, mas naquele ritmo... se as coisas permanecessem naquele ritmo, então ela tinha uma chance de desviar.

Ou ao menos, foi isso que ela pensou até as explosões começarem.

Tão focada que estava em tentar desviar das flechas que vieram em sua direção, Saber tinha se esquecido da capacidade delas de explodir, mas se lembrou disso bem rapidamente assim que as explosões começaram. Alto no ar como estava, as explosões não conseguiram causar dano a ela, mas o impulso e a movimentação de ar causada por elas foi o suficiente para abalar completamente o equilíbrio da espadachim, forçando-a a aterrissar antes do planejado, dentro de uma nuvem de fumaça. Maldição! Aterrissou de joelhos no chão e começou a correr com tudo de imediato, mas não conseguiu dar nem três passos antes que uma explosão ocorresse a sua frente enquanto outra ocorria simultaneamente atrás dela, ao longe. Droga, eu não consigo ver as flechas com toda essa fumaça! Aquilo era ruim, uma das piores coisas que poderia acontecer com Saber. Maldição, esse é um problema tão básico, mas isso não o torna fácil de resolver! Se tentasse saltar alto às cegas iria acabar sendo simplesmente atingida por flechas e explosões, e seu destino provavelmente seria o mesmo se tentasse correr para a direita ou para a esquerda. Mas então o que eu devo fazer! Ficar parada não vai me fazer favor nenhum! Tinha que pensar num plano de ação, e rápido.

Mas não teve tempo para isso, pois logo após aquele pensamento passar pela sua cabeça, cinco flechas de fogo cortaram através da fumaça e emergiram bem diante dos seus olhos.

As explosões sucessivas criavam uma sinfonia da destruição que ressoava docemente aos ouvidos de Anabeth, mas não tinha tempo para apreciar aquilo. Enquanto todas as suas flechas explodiam uma atrás da outra, Anabeth mantinha sua guarda erguida e seus olhos correndo rapidamente por toda a área de efeito delas, atenta e pronta para reagir a qualquer movimento de sua oponente. Com tantas explosões assim o meu bom-senso me diz que ela deveria estar em pedaços a essa hora, mas com base nos danos que ela sofreu depois da minha última explosão, eu apostaria que ela é bem mais resistente do que aprece. Não posso subestimá-la. As suas chances de vitória eram boas com aquele ataque, mas tinha que se manter atenta mesmo assim. Essa é uma oponente bem perigo-

Um grande corte abriu seu peito do canto inferior direito até o topo do seu ombro esquerdo, cortando através dos pensamentos de Anabeth e fazendo com que a arqueira caísse de joelhos no chão quase imediatamente. O quê... o quê foi isso?! Sentiu sangue fresco inundar sua boca, sentiu escorrer pelos seus lábios e depois sentiu-o esguichar da sua ferida. Sua mão foi até o ferimento, apalpando-o para tentar determinar melhor o tamanho do estrago, e quando a afastou novamente ela estava empapada pelo líquido vermelho. Como? Ergueu seus olhos, e para a sua surpresa ela viu um grande túnel em meio a fumaça, um buraco formado por algo que emergiu de dentro dela para fora em alta velocidade. Eu estava atenta. Eu estava prestando atenção para algo assim. Como? Como ela conseguiu passar despercebida por mim?!

– Não me subestime, Anabeth Di Gregori. – A voz de Saber ressoou mais uma vez pelo ambiente, mas ao contrário de antes quando ela falava com a mais absoluta calma e sem trazer qualquer rancor em seu tom, sua voz agora trazia uma fúria clara ainda que contida, acompanhada de uma promessa de vingança. – Eu sou Saber, a Amaldiçoada, membra dos Asas Livres. Eu não irei cair tão fácil assim, então não ouse me subestimar.

Atrás de mim, compreendeu Anabeth, e com alguma dificuldade ela moveu corpo e rosto para olhar na direção da qual vinha a voz de sua oponente. O que viu fez com que sua boca se abrisse e seu queixo fosse ao chão. Todas as explosões haviam causado um dano considerável sobre Saber, fazendo com que seu corpo sangrasse de vários pontos e chamuscando ainda mais seus cabelos, mas não era isso que havia chamado a atenção de Anabeth. Com as explosões, a parte superior do uniforme militar que Saber usava havia sido destruída, e isso revelava o peitoral completamente arruinado que a mulher possuía. Mas o que... o que diabos aconteceu com ela? O peitoral de Saber era um emaranhado de carne deformada e cicatrizes, com ferimentos marcando praticamente toda a sua extensão e pequenos buracos ocos localizados em alguns pontos próximos de seu umbigo. Seus seios literalmente não existiam, e no lugar em que eles deveriam estar ela tinha uma grande marca óbvia de costura e sua pele deformada, como se algum profissional de quinta categoria tivesse tentado costurar um ferimento ali mas tivesse ferrado todo o processo, fazendo com que tudo infeccionasse e as coisas ficassem ainda piores. Essa cicatriz... é como se tivessem feito uma cirurgia para remover seus seios. E considerando as outras marcas de ferimentos que ela traz em seu corpo e o estado disso, não acredito que ela consentiu com essa cirurgia.

– Mas o que são todas essas cicatrizes? – Não conseguiu impedir que a pergunta escapasse de seus lábios, nem tão pouco conseguiu controlar o tom de sua voz. Sabia bem o quão humilhante isso devia ser durante uma batalha, mas não conseguia deixar de sentir uma pena imensa de Saber por suas feridas. – O que aconteceu com você?

– A crueldade dos homens. Uma crueldade que marcaria a minha alma até hoje se não fosse pelo que eu admiro, o homem que me salvou da crueldade e me mostrou a gentileza. – Era incrível como a voz da mulher havia mudado em um único instante. Se antes ela soava furiosa e vingativa, agora a sua voz soou mais serena, comovida e cheia de respeito e idolatração, uma voz que deixava claro os sentimentos dela em relação a quem ela se referia. Entendo, então é isso. Realmente, isso explica a sua motivação... lutar por dinheiro ou por algum benefício pode motivar alguém, mas isso não se compara à determinação de alguém que luta pela pessoa que ama. O corpo de Saber voltou-se totalmente em direção à Anabeth, e o sabre ensanguentado que ela trazia girou em suas mãos, reluzindo por um momento antes que ela o segurasse firmemente em uma posição de esgrima, apontando-o para a arqueira. – Em nome do meu Mestre, Jiazz o Juggernaut, você irá cair pela minha espada, Anabeth!





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