O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 68
Leis Naturais


Notas iniciais do capítulo

Você pode enfrentar um homem.

Você pode enfrentar uma mulher.

Você pode até enfrentar um exército, uma nação, ou até mesmo um ideal.

Mas como você enfrentará as próprias leis do mundo?



Segundo Andar do Pandemonium, “Labirinto Eterno”

UMA DAS SOBRANCELHAS DO DEMÔNIO SE ERGUEU QUANDO VIU A FIGURA QUE AVANÇAVA CONTRA ELE. O corpo de Zephyr estava em condições até muito boas para um homem morto há mais de uma semana, apesar de que seu pescoço continuava quebrado como Balak havia deixado no fim da sua luta, pendendo sempre para o lado como se sua cabeça pudesse cair a qualquer momento. Um cadáver... bom, eu suponho que deveria imaginar que algo assim iria acontecer. Bem que pensei que seria estranho que um necromante como Octo Gall não tentasse reviver um único corpo em meio aos tantos que estavam no campo de batalha. Ainda assim, era curioso que ele tivesse escolhido reviver justamente alguém como Zephyr dentre todos os outros. Meus conhecimentos sobre as artes humanas da necromancia não são tão avançados quanto poderiam ser, mas acho que me recordo de uma ou duas leis que dizem que os corpos revividos não são capazes de usar mais do que as habilidades físicas que tinham em vida. Magias e Aloeiris requerem Mente e Alma, respectivamente, e essas são coisas eu um morto já não possui mais. A Aloeiris que Zephyr possuía enquanto vivo era extremamente poderosa, mas as habilidades físicas dele? Patéticas, na melhor da hipótese.

– Talvez Octo Gall tenha pensado que sendo um Primeiro Cavaleiro, Zephyr teria um corpo forte, independentemente de suas habilidades. Talvez ele seja apenas um charlatão amador e não tem noção de algumas das leis mais básicas da sua arte. No fim das contas, não importa. – Retirou suas mãos do bolso e dobrou um pouco as pernas, travando seus olhos em seu oponente. – O zumbi do homem que perdeu um mano-a-mano para um mago não é nada para mim.

Seu avanço foi rápido como um disparo. A sala em que havia se encontrado com Zephyr não era muito grande, o que era uma vantagem a mais para ele. Sendo um zumbi, táticas convencionais não devem funcionar com ele. Provavelmente vou ter de ser um pouco mais criativo. Esmagar o coração ou crânio de Zephyr provavelmente não faria muito efeito, mas duvidava que ele fosse capaz de fazer algo depois que arrancasse seus braços e pernas.

Era isso que intencionava fazer quando sentiu aquela dor. Uma dor súbita e forte que veio de uma vez em seu peito. Suas pernas congelaram assim que a sentiu, fazendo com que o momento levasse seu corpo ao chão, e Mefisto estremeceu de imediato. Mas o que é isso?!, pensou ele, debatendo-se de dor no chão enquanto via Zephyr lhe observando com aqueles olhos mortos. Essa sensação... isso é definitivamente um infarto! Mas como? Ele não deveria ter acesso as suas Aloeiris depois de morto! A alma se separa do corpo para se juntar novamente ao ciclo das almas, e sem alma não há Aloeiris! Aquilo não fazia sentido... mas “sentido” era a menor de suas preocupações naquele momento.

Usou sua habilidade, e com a ajuda dela conseguiu negar o seu infarto, fazendo com que recuperasse uma condição decente de seu corpo. Os mesmos olhos mortos de Zephyr continuaram a lhe fitar enquanto ele se levantava, sem exibirem nada, mas apenas acompanhando seus movimentos.

– Isso foi... “Lei de Dez”, não é? – Comentou Mefisto consigo mesmo enquanto limpava um pouco de baba que havia escorrido depois daquilo. – Pelo que imagino, uma Lei que me faz ter um infarto depois de dez passos ou coisa do tipo. Algo similar ao que você usou para matar aqueles soldados do Olho Vermelho durante a Batalha do Salão Cinzento.

Disse aquilo para buscar ver se o homem tinha alguma relação a isso, mas ele permaneceu imóvel e indiferente. Nada, hum? Como eu pensei. Já que por algum motivo Zephyr estava sendo usar sua Aloeiris, isso também podia significar que os zumbis tinham a habilidade de usar magia, mas por mais que apenas isso não fosse o suficiente para tirar uma conclusão de verdade, era ao menos uma boa indicação de que Zephyr não devia ter acesso a sua mente. Isso significa que ao menos magias estão fora do jogo. Bom. Não acho que esse homem tenha acesso a esse tipo de coisa, mas os outros podiam ter problemas com algo assim. Agora que havia tirado essa conclusão, o que ele tinha de fazer era pensar numa forma de reagir. Vejamos... primeira coisa, tenho que tomar cuidado com essas “leis” dele. Por mais que eu possa negá-las, isso consome muita energia, e pelo que me lembro, Zephyr pode criar múltiplas leis, desde que apenas uma de cada vez e apenas uma de um determinado tipo por dia.

O que significava que, agora que havia lidado com aquela leia de movimentação, ele não podia voltar a usá-la.

Isso lhe fez sorrir. Perfeito. Não podia remover a alma de alguém, mas se quebrasse o crânio dele e arrancasse seus membros, nem mesmo alguém como Zephyr seria capaz de fazer algo contra ele. Foi isso que teve em mente quando começou a dobrar seus joelhos para avançar novamente, mas não teve nem sequer a chance de fazer isso; quando deu a ordem ao seu corpo para que se movesse, ele não obedeceu. O... o quê? Tentou de novo, com mais força, mas continuou a não ter sucesso. Maldição... não pode ser possível! O que eu fiz para ser afetado por isso?!

Não sabia como nem porquê, mas de alguma forma, em algum momento, uma das leis de Zephyr havia lhe afetado, e essa lei aparentemente fazia com que ele não pudesse mover seu próprio corpo.

Talvez fosse capaz de superar essa imobilização se insistisse o suficiente, mas Zephyr não lhe deu a chance de fazer isso. Antes que pudesse tentar fazer qualquer outra coisa, Mefisto sentiu seu lábio se rachar quando uma joelhada lhe atingiu em cheio no rosto com uma força descomunal, lançando-o para longe com facilidade. Que tipo de força é essa? Havia visto as lutas de Zephyr no Salão Cinzento e tinha certeza absoluta de que a força dele não chegava aos pés daquilo, mas isso não mudava o fato de que a força por trás de seus golpes era facilmente grande o bastante para competir com a de muitos guerreiros focados nisso... e aparentemente sua velocidade também não era de se subestimar, considerando que o cavaleiro morto conseguiu mover-se rápido o suficiente para alcançar novamente Mefisto antes que ele chegasse a colidir com qualquer coisa, acertando o demônio com outro chute – esse direto na boca do estômago – que o lançou contra o teto em um instante. Isso está começando a ficar problemático, pensou Mefisto, rangendo os dentes. Eu tenho que dar um jeito nele rápido.

Quando seu corpo estava voltando a cair, tentou mover seus braços novamente. Conseguiu fazer isso sem nenhum problema, como se nada tivesse lhe atrapalhado antes. Entendo... então a condição que ele havia estabelecido antes deve ter sido algo que me fazia ficar imóvel por dez segundos ou algo do tipo, certo? De qualquer forma, não importava; o que importava era que agora podia se mexer de novo, e isso lhe dava a chance perfeita de revidar. Vindo de baixo, Zephyr tentou lhe acertar com um chute voador giratório, mas mesmo com o seu aumento de força e velocidade, ele não tinha a menor chance de competir contra Mefisto quando o demônio podia se mover livremente. Bloqueou o golpe dele com facilidade usando apenas um de seus braços e revidou com um único soco carregado com força o suficiente para lançar o cadáver ao chão de uma forma que criou uma cratera abaixo dele. Aterrissou por cima dele logo em seguida, pisando com força em seu peito afim de imobilizá-lo, e em seguida ergueu novamente seu punho. Primeiras coisas primeiro: eu esmago a cabeça desse verme!

Mas quando seu punho se moveu em direção ao rosto dele, o golpe de Mefisto foi atrapalhado por uma dor súbita vinda de dentro do seu corpo, uma dor que o forçou a se curvar e fez com que vomitasse sangue e bílis sobre o corpo do cavaleiro caído.

Meus órgãos...! Mal era capaz de acreditar naquilo, mas a sensação não deixava dúvidas. Esse cara... ele de alguma forma fez uma lei que esmagou os meus órgãos internos. Coração, pulmões, rins... não sentia mais nenhum, e sentia o interior do seu coberto cheio de sangue e outros líquidos resultados dos danos que eles sofreram.

Não demorou para que ele caísse no chão, incapaz de continuar a se sustentar de pé depois de tudo o que sofreu. Caiu como um saco morto, parecendo ainda mais com um cadáver do que o próprio zumbi, sangue escorrendo constantemente de sua boca como se fosse baba. Não deixou que isso durasse muito, entretanto. Sabia que a cada minuto que passava as coisas ficavam cada vez mais complicadas para ele, e por isso não perdeu tempo em usar novamente sua Aloeiris para negar a destruição de seus órgãos com ela... e fez isso bem a tempo de se defender do pé de Zephyr que descia contra sua cabeça naquele exato instante, pronto para esmaga-la.

Segurou-o com ambas as mãos e então o torceu com tudo, virando o pé em cento e oitenta graus e em seguida o empurrando de volta para o seu dono. Tal como era de se esperar, conseguiu fazer com que o cadáver perdesse um pouco o equilíbrio e bambeasse um pouco para trás, quase caindo no chão... embora, apesar disso, ele não exibisse nenhum sinal de ter sofrido nenhum dano real com aquilo. Apesar de que creio que eu não deveria me surpreender com isso. Zumbis não são necessariamente famosos por terem um senso de dor apurado. O que, talvez, poderia ser algo que ele pudesse usar ao seu favor...

Balançou sua cabeça; podia se preocupar com isso depois, mas fazer isso agora seria implorar para que algo desse errado. Antes que Zephyr pudesse voltar a fazer alguma coisa, avançou rapidamente contra o zumbi e lhe acertou a na altura do pescoço com um chute. O pescoço dele já não estava em um bom estado graças às sequelas da luta contra Balak, o que permitiu que arrancasse a cabeça dele com aquele golpe, lançando-a contra a parede com tanta força que ela explodiu como uma melancia ao bater nela. O cheiro de podridão tomou conta das suas narinas quase que de imediato, fazendo com que uma careta surgisse no rosto de Mefisto. Pelo visto é só o exterior dele que parece bom... que asqueroso. Tudo que queria era distância de algo tão nojento quanto aquilo, mas engoliu seu nojo e continuou seu ataque, lançando um soco no peitoral esquerdo de Zephyr que abriu um buraco na carcaça do cadáver e sujou todo o seu punho de sangue podre. Tch... eu vou precisar de um banho dos bons depois que terminar aqui. Mas pelo menos isso vai melhorar as coisas para mim. O que estava fazendo agora era um teste; não sabia se o zumbi estava sendo controlado remotamente por alguém ou se ele tinha algum grau de autonomia, nem tampouco se ele tinha algum uso para órgãos ou membros em específicos do seu corpo. Isso dito, se Zephyr está possui ainda qualquer nível significativo de dependência dos seus sentidos para fazer alguma coisa, ele não será capaz de fazer muitas coisas agora que eu destruí seu crânio. Incluindo usar essa Aloeiris problemática dele.

Infelizmente, se deu conta de que esse não era o caso no momento em que seu segundo punho se moveu contra o cavaleiro morto, apenas para que seus ossos se quebrassem em pedaços quando esse colidiu com o peito deste, como se eles fossem todos feitos de vidro. Nem se incomodou com a dor, embora não tenha sido capaz de deixar de fazer uma careta ao ver que seu plano não havia dado certo. Tch... então não é tão simples assim? Bom, que seja. Essa habilidade iria custar uma quantia exorbitante de energia de Mefisto, mas era melhor gastar toda essa energia de uma vez para se ver livre de um problema do que tentar ser mesquinho com ela e ter de ficar negando ferimentos de novo e de novo.

Com sua habilidade, primeiramente fez questão de aplicar a negação sobre o seu oponente, afim de lidar logo com o que era o maior problema. Foi só depois de fazer isso e verificar que ainda lhe sobrava energia o suficiente que usou essa mesma habilidade para concertar seu braço. Depois disso ele considerou por um momento avançar novamente contra o zumbi, mas acabou por apenas sorrir e colocar as mãos nos bolsos. Depois de tudo o que passei, mereço ver esse pequeno espetáculo.

Era incrível. Se dissessem isso para alguém, essa pessoa certamente iria achar que se tratava de algum tipo de brincadeira sem graça, mas a verdade era que até mesmo conseguia dizer muitas coisas. Se não com palavras, com gestos, principalmente os mais... involuntários. Apesar de que creio que isso pode ser atribuído mais a quem controla o fantoche do que o fantoche em si. De qualquer forma, divertiu-se bastante ao ver o pânico nos movimentos do zumbi quando ele tentou usar sua Aloeiris, apenas para ver que não podia mais contar com ela.

Foi então que decidiu agir novamente. Um chute rápido no meio da cintura levou o zumbi ao chão, e assim que as costas dele bateram com o solo Mefisto não perdeu tempo em subir em cima dele. Esse primeiro chute não foi muito forte, sendo mais focado em apenas derrubar seu oponente, mas o segundo em compensação veio com uma força muito maior, abrindo um buraco na barriga dele. O cheiro de podridão novamente subiu às suas narinas, e por um momento ele teve quase certeza de que pôde ver vermes rastejando para fora do seu interior, mas ignorou isso. O momento era muito bom para que perdesse algo dele com besteiras.

– Eu sei que você me ouve, marionetista, então nem tente fingir o contrário – avisou Mefisto, colocando apenas um pouco mais de pressão em seu pé, movendo levemente pelo interior das tripas do corpo morto. Não poderia causar dor a um zumbi, mas isso servia como uma distração mesmo assim. – Talvez seja de seu interesse abandonar esse brinquedinho. Você certamente já notou, mas deixe-me deixar isso bem claro; esse fantoche não vai mais atuar. Posso não ter cortado os fios dele, mas seu uso... bem, digamos que ele é um pouco limitado agora. – Sorriu, imaginando qual deveria ser a expressão no rosto do mago negro naquele momento. Lhe divertia pensar que o homem deveria estar se contorcendo de raiva naquele exato instante. – Minha Aloeiris não diz respeito a você e não tenho intenção de lhe explicar o funcionamento dela, mas permita-me colocar em mesa a seguinte carta; caso eu queira, minha habilidade permite que eu também brinque um pouco com as regras do jogo. Seu fantoche ditava as consequências que alguém sofreria caso infringisse determinada regra. Eu, por minha vez... eu crio regras que não podem ser quebradas.

Deixou um tom misterioso em suas palavras propositalmente, apenas para atiçar um pouco a curiosidade do seu verdadeiro oponente. Em verdade, o que havia feito tinha sido algo muito simples. A minha habilidade é a de “Negação”. Em geral, eu a uso para negar algo que já aconteceu e reverter os efeitos disso, mas nada me impede de usar esse mesmo poder para negar que algo seja feito no futuro. Ou, no caso, negar que alguém consiga usar sua Aloeiris. Claro, tinha alguns problemas nisso; negar possibilidades futuras era mais difícil do que negar acontecimentos passados, o que fazia com que tivesse de dedicar uma quantia muito maior de energia para isso do que gastava normalmente. Uma quantia considerável o suficiente para que quase nunca usasse essa habilidade. Mas existem ainda as situações em que isso ganha uma boa utilidade. Como essa.

Esperou um pouco para ver qual seria a resposta de Octo. Duvidava que o Mago Negro pudesse se comunicar com ele diretamente através do corpo de uma marionete – e duvidava também que ele fosse fazer algo assim mesmo que pudesse – mas ainda podia aprender um pouco por movimentos corporais e afins, e estava curioso para ver qual seria a reação do outro ao que havia feito. Sem Aloeiris, o corpo de Zephyr é praticamente inútil. Ele deve saber disso. A pergunta é, o que ele fará agora? Será que ele vai abandonar esse corpo afim de favorecer algum outro? Ou talvez ele vá tentar fazer ainda alguma coisa?

Sentir o pé do zumbi lhe acertar um chute sem muita força nas costas foi resposta o suficiente, e isso fez com que Mefisto sorrisse abertamente. Muito bem então! Seu corpo se dobrou um pouco e uma de suas mãos logo disparou para segurar um dos braços do zumbi, e firmando o corpo deste com sua mão ainda livre, Mefisto não hesitou em puxá-lo com toda a força, arrancando-o do corpo com a mesma facilidade que alguém rasgava um filé. Isso vai demorar um pouco mais do que deveria, mas considerando o que ele já me fez nesse tempo, eu vou me divertir bastante com isso. Se você não pode matar um morto, você o desmembra!



Notas finais do capítulo

FATOS INTERESSANTES!

*As quatro leis usadas pelo zumbi de Zephyr foram as seguintes.

1) Os dez primeiros a darem dez passos pelos próximos dez minutos irão sofrer um infarto fatal.

2) Os dez primeiros a respirar dez vezes nos próximos dez minutos ficarão completamente paralisados pelas dez horas seguintes.

3) Todos os órgãos internos dos dez primeiros a realizarem ataques com malícia nos próximos dez minutos irão se auto-destruir imediatamente assim que essas condições forem cumpridas.

4) Os dez primeiros golpes que acertarem o criador dessa lei irão culminar na quebra de todos os ossos do membro usado para esse golpe.



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