O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 21
Joia do Fogo


Notas iniciais do capítulo

Yo!

Esse capítulo tem palavras.

Muitas palavras.

Palavras pequenas e grandes.

Palavras simples e complicadas.

Palavras palavreadas.

Cuidado com as palavras.



Lançou a espada em suas mãos contra seu oponente rapidamente, e tal como esperava, o lanceiro teve uma reação rápida; girou sua lança à frente de si, fazendo com que o cabo dela golpeasse a espada e a jogasse para longe. Mas isso também cobriu sua visão por um momento, e isso foi tudo que Zenon precisava para agir.

Levou suas mãos para trás e esticou seus dedos, tocando a mesa atrás dele com eles. Sua magia agiu rapidamente ali, transmutando a forma da mesa e fazendo com que o seu material se transformasse em duas espadas do tamanho de um gládio em suas mãos. Avançou assim que as teve a sua disposição, aproveitando-se da visão obstruída de seu oponente para mover ambas as armas em direção ao pescoço dele... mas não chegou nem perto de acertar seu golpe. Seu oponente tinha uma lança, e ele sabia como usá-la; apesar da pequena distração de antes, ele foi rápido em recuperar-se e lançou dois rápidos golpes contra Zenon, aproveitando-se do tamanho de sua arma. Bons reflexos, mas isso não vai funcionar! Por mais que os reflexos daquele homem fossem bons, os de Zenon eram melhores, permitindo que o Recipiente se abaixasse rapidamente e apenas sentisse a ponta da lança passando acima dele. Posso não ter o ângulo necessário para cortar seu pescoço com isso, mas o corpo humano possui muitos pontos fracos, e eu sei como explorar cada um deles. Não tinha problema em não conseguir acertar o pescoço de seu oponente; duvidava que ele fosse continuar vivo de qualquer forma depois que rasgasse sua barriga.

No entanto, novamente, o lanceiro conseguiu lhe evitar. Os passos e o raciocínio dele eram bem rápidos pelo que podia ver; com aquela proximidade era simplesmente impossível para que ele bloqueasse seus golpes com uma lança, e por isso o que ele fez foi dançar, deslizar para trás com facilidade, evitando por completo o alcance de seu ataque. Hum. Bem feito. Sua esperança era que ele desviasse de um golpe como aquele movendo-se para os lados, e no momento em que fizesse isso Zenon iria lhe acertar com um chute; sua esperança era que esse chute conseguisse lhe atrasar por tempo o suficiente para que o Recipiente rasgasse sua garganta, mas aparentemente o homem tinha miolos o suficiente para prever seus movimentos. Bom, parece que isso ao menos não vai ser fácil demais.

Pensou que o homem iria aproveitar-se da situação favorável que tinha ali para tentar lhe empalar com sua lança, mas ao invés disso o que ele fez foi saltar rapidamente para trás, criando novamente uma distância entre eles. Esperto. Sendo um Recipiente, Zenon seria capaz de sobreviver tranquilamente a qualquer golpe que o homem pudesse lançar contra ele; mesmo se seu corpo fosse atravessado por uma lança, isso não seria nada mais do que um contratempo momentâneo. Se ele fizesse algo assim, perderia tempo e abriria sua guarda o suficiente para que Zenon pudesse lhe finalizá-lo. Ao saltar para trás, ele não apenas está se afastando de mim o suficiente para sair da minha área de ataque como também está se colocando em uma posição ideal pra ele. Com sua lança, o alcance que o lanceiro tinha era muito maior do que o de Zenon. Sabendo manuseá-la bem o bastante, ele poderia manter o Recipiente distante demais para conseguir atacar-lhe, ao mesmo tempo que poderia lançar ataques pequenos; não muito fortes, mas efetivos o bastante.

Mas se ele planeja manter um combate a distância, então tudo que tenho de fazer é aumentar o alcance dos meus próprios ataques.

Juntou ambas as suas mãos com as espadas ainda nelas ao mesmo tempo em que pisava sobre a espada que havia arremessado antes contra seu inimigo. Sua magia começou a agir, e seu corpo serviu como um condutor pra ela; derreteu os três recipientes até que se tornassem uma substância quase que líquida, e juntando a substância que tinha em suas mãos ao mesmo tempo em que conduzia a da espada na qual pisava antes até a massa por seu corpo, formou uma única espada, muito maior do que as outras, similar à uma zweihänder. Isso irá servir perfeitamente, pensou Zenon, apenas uma momento antes de balançar a espada contra seu oponente.

Tal como esperava, o homem não foi burro o suficiente para tentar desviar daquele ataque; com o imenso alcance que sua espada tinha, tentar desviar dela era praticamente pedir pra morrer. Suas únicas escolhas eram se abaixar ou bloquear, e ele simplesmente não podia se abaixar enquanto trouxesse uma lança consigo. Isso dito, o bloqueio dele foi algo bem frágil; nem havia investido tanta força assim em seu ataque, e ainda assim o homem parecia estar tendo uma dificuldade imensa em bloqueá-lo. E aí está sua fraqueza. Por mais rápidos que fossem os reflexos e o pensamento daquele homem, ele era fraco, e essa seria a perdição dele naquela luta.

Ou ao menos foi isso que Zenon pensou, um momento antes de ver um sorrisinho surgir no rosto de seu oponente, quase ao mesmo tempo em que ouviu o chão do chão abaixo de si começar a rachar.

Tentou reagir de alguma forma àquilo, mover-se para fora daquela área antes que fosse tarde demais, mas simplesmente não teve a chance de fazer isso; o chão sob seus pés quebrou-se como se fosse feito de vidro, deixando que Zenon desmoronasse para o andar inferior. De alguma forma conseguiu girar no ar e recuperar controle o suficiente sobre si mesmo para aterrissar sob um joelho, mas isso fez muito pouco para aliviar a irritação que sentia agora. Maldito seja esse homem! Quando? Quando foi que ele fez algo assim? Supunha que havia se distraído algumas vezes durante a batalha para usar sua habilidade e forjar suas armas, mas ainda assim, não havia sido por tanto tempo, e não havia sido tão absurdamente descuidado para não notar ataques lançados contra o chão. Não, ele definitivamente não lançou ataque nenhum. Mas então, como é que ele conseguiu fazer algo assim? Sem o uso de força bruta, a única forma de se fazer algo desse tipo seria através de ma... Desgraçado! Subitamente, compreendeu muito melhor as coisas ali; tudo fazia sentido. Eu sempre pensei que ele havia sido acompanhado por algum tipo de mago para cumprir seu dever aqui, mas nunca considerei o mais óbvio e correto. Não havia um mago com ele; ele é o mago! Um mago-guerreiro!

Voltou sua cabeça para cima rapidamente. Se esse homem é realmente um mago, então não posso me dar ao luxo de tirar os olhos dele nem por um momento! Magos eram terrivelmente traiçoeiros e naturalmente bons em tirarem vantagem de cada situação que encontravam. Se tiro os olhos dele por tanto tempo assim, então o homem certamente vai bolar alguma forma de lidar comigo nesse tempo!

E tal como havia pensado, quando voltou seu rosto para cima, a primeira coisa que viu foi a ponta da lança do homem, avançando direto em direção ao seu rosto em grande velocidade, praticamente a centímetros de seus olhos.

Até mesmo para alguém como Zenon, foi simplesmente forçado à admitir que o que lhe salvou daquele ataque foi praticamente um milagre. De alguma forma ele conseguiu evitar aquela lança no último momento, saltando para lado apenas a tempo o suficiente para que ela não lhe perfurasse, cravando-se no chão ao invés disso. Isso dito, não havia conseguido evitar um ferimento. O corte que tinha no rosto agora era algo violento e grotesco, um ferimento que estaria sangrando litros caso ele tivesse sangue em seu corpo.

Miserável... A esperteza daquele seu oponente era algo ao mesmo tempo admirável e extremamente irritante. Ele só viu minhas habilidades naturais uma vez, e ainda assim isso foi o suficiente para que ele criasse toda uma estratégia a partir disso? No início de tudo aquilo havia sido atingido por trás, a lança de seu oponente atravessando seu corpo; claro, isso não havia lhe matado, mas aparentemente, isso havia sido o suficiente para dar ao homem ao menos uma boa ideia de como as coisas funcionavam com um Recipiente. Imortalidade, regeneração... essas habilidades são muito uteis, mas elas significam muito pouco quando você não pode sequer mover-se. Com aquele golpe, a intenção de seu adversário havia sido empalar Zenon, atravessar o corpo do Recipiente com sua lança e finca-la no chão de forma a neutralizá-lo de uma maneira alternativa. Maldito seja ele, as coisas não estão ficando boas pra mim.

– Droga, eu podia jurar que iria lhe atingir com esse ataque – comentou o lanceiro, sua voz soando como se ele estivesse um pouco chateado com aquilo. Poderia até chegar a acreditar que era realmente esse era realmente o caso, não fosse o sorriso que ele trazia no rosto, um sorriso confiante e triunfante, bem satisfeito consigo mesmo. – Bom, não importa. Se eu fosse você, Recipiente, começaria a correr. Syd Ostrower não é chamado de “Invicto” por nada, e você está prestes a descobrir o porquê dessa alcunha com o seu próprio corpo.

... Nunca ouvi nada sobre nenhum “Invicto”, nem tampouco sobre alguém chamado Syd Ostrower, mas creio que nada disso importa no momento. Aquele homem podia estar sendo honesto ou contando alguma mentira, isso não fazia diferença. O fato é, ele é problemático de qualquer forma. Pelo que havia visto, a força daquele homem não era realmente nada preocupante, certamente nada no nível da força física que o próprio Zenon possuía, mas os reflexos e o pensamento dele eram rápidos demais, e isso chegava até mesmo a ser preocupante. Eu preferiria se eu não tivesse que usar essa habilidade, mas se isso pode fazer com que eu derrote meu oponente mais rapidamente, então estou mais do que disposto a usá-la.

Fechou seus olhos para se acalmar e se concentrar, e sentiu a transformação começar a ocorrer em seu corpo.

Seu terno foi rasgado em pedaços pela violência dela. De seus antebraços e suas costas surgiram suportes para armas, espaços nos quais podia colocar lâminas para seu uso. Sentiu um rabo surgir de sua cintura, batendo no chão com tanta força que esmagou o concreto dele com facilidade, reduzindo-o a pó com um único movimento. Vários suportes para armas também existiam em seu rabo, prontos para serem preenchidos com armas e aumentarem ainda mais o poder destrutivo dele. Tratou logo de preenche-los. A espada em suas mãos derreteu-se, o líquido que veio disso passando por seu corpo até chegar aos suportes que haviam surgido nele, preenchendo-os com pequenas lâminas de ferro. Não tenho o suficiente ao meu dispor para fazer as lâminas ideais, mas não faz mal. Isso basta. Se seu inimigo tinha inteligência o suficiente para conseguir fazer frente à superioridade em poder de Zenon, simplesmente tinha de aumentar o seu próprio poder até que essa diferença ficasse grande demais para ele poder compensar.

– Desculpe-me pela demora – disse Zenon, estalando seu pescoço ainda de olhos fechados, tentando acostumar-se um pouco com as mudanças. Sofrer uma transformação daquele nível tão rapidamente não era necessariamente algo confortável. – Vamos continuar agora, “Syd”. Hora de colocarmos a teste essa alcunha de “Invic-

O próprio Zenon foi forçado a subitamente parar suas palavras quando abriu os olhos. Simplesmente não podia continuar a falar depois de ver o que viu diante de seus olhos. Havia achado estranho o fato de não ter sido interrompido pelo homem em momento algum, o fato de ter feito algo tão demorado quanto sua transformação sem que ele tentasse lhe atacar de alguma forma. Agora via bem o porquê disso. Syd estava ocupado demais correndo para fazer qualquer coisa. O homem ainda trazia sua lança consigo, mas ele não parecia nem um pouco disposto a lutar contra Zenon; corria em direção a porta que dava para o corredor com todas as suas forças, e se havia alguma dúvida quanto ao motivo disso, as palavras que Syd dizia deixavam tudo muito claro.

– Opa, opa, opa! Enfrentar um raio dum estegossauro não estava no contrato! Eu não sou pago o suficiente pra isso! – declarou ele, sem parar de correr. – Valeu pessoal, mas eu tô vazando agora, tchau pra quem fica!

E dizendo aquilo, Syd deu uma ombrada na porta a sua frente em uma tentativa de arrebentá-la. Falhou miseravelmente. A porta ficou firme aonde estava e ele foi forçado a recuar, gemendo um pouco de dor. Acariciou seu ombro com sua outra mão e calmamente abriu a porta normalmente pela maçaneta... para logo em seguida voltar a correr de forma louca para fora dali.

Enquanto tudo isso acontecia, Zenon não fez nada. Não podia fazer nada além de observar tudo aquilo mudo. O quê? ... O que raios ele pensa que está fazendo? Será que depois de tudo aquilo, depois de todo o trabalho que ele havia lhe dado naquela luta e todo o confronto entre eles, o homem planejava realmente simplesmente fugir de forma tão covarde como aquela? Isso... deixa um péssimo gosto na minha boca.

Suspirou para se acalmar. Não era um humano, mas sim um Recipiente, e um extremamente racional. Nunca agia baseado em suas emoções nem nada do tipo, mas sim movido por pura racionalidade. Não iria ser agora que iria contra isso. Devo agir logicamente aqui... e é exatamente por isso que devo ir atrás. Um covarde ou não, Syd era claramente um inimigo, e não fazia sentido nenhum deixar com que um inimigo corresse livremente por sua base.

NÃO VAI ESCAPAR! – anunciou Zenon com um rugido, partindo em perseguição ao lanceiro logo em seguida. Quando eu colocar minhas mãos em você, Syd Ostrower, você não será mais “o Invicto”, mas sim “o Mutilado”!

=====

O monstro de quatro braços foi arremessado para longe pelo chute de Duke, quicando no chão com tanta força que seu impacto criou uma pequena cratera até que ele atingisse a parede. O outro – mais leve e rápido – se aproximou de Duke pelas costas, tentando cravar uma adaga na nuca do Titã. Tolo imbecil! A lâmina quebrou-se em duas quase que instantaneamente e a mão de Duke rapidamente envolveu a cabeça de seu oponente. O rosto desse foi esmagado contra o chão com força e brutalidade, explodindo para todos os lados... mas Duke sabia bem que isso não seria o suficiente para matar aquele homem, e por isso ele segurou-o pelo braço, arrastou-o pelo concreto e arremessou-o contra a parede com toda a sua força. Nem bem havia terminado de fazer isso, entretanto, e viu o monstro voltar a se erguer, parecendo bem animado para voltar à luta. Maldição, isso não tem fim! Maldita seja a habilidade regenerativa dessas porras!

O monstro tentou soca-lo diretamente com seus braços superiores, algo com o qual Duke nem sequer se preocupou. Idiotas. Nenhum de vocês possui a força física necessária para me ferir aqui. Não fez nem sequer o esforço de tentar defender-se daquilo; apenas deixou que seu oponente lhe atingisse e sorriu quando viu os punhos dele literalmente se quebrarem ao baterem no diamante.

O que lhe deixou preocupado, no entanto, foi o sorriso que viu no rosto do monstro apesar daquilo.

Os dois braços inferiores desse monstro se esgueiraram, envolvendo o corpo de Duke e travando-o no que parecia ser um abraço. Tentou escapulir disso, mas ao contrário de seu companheiro, o monstro tinha uma grande força física; parecia-lhe até que quanto mais ele tentava escapar das garras de seu oponente, mais forte e firme ficava o aperto dele. Estava prestes a gritar para ele o soltasse, que não jogava naquele time, mas antes que tivesse a chance de fazer isso, a voz do cara das adagas ressoou.

– Muito bem Eon. Muito bem mesmo! – disse ele, aparentemente se aproximando. Virou o rosto para ver aquilo. O homem já estava completamente recuperado dos ferimentos que Duke havia lhe causado momentos atrás, mas essa não foi a coisa que chamou a atenção de Duke. Não, o que chamou sua atenção foi a arma que ele trazia em uma de suas mãos; uma adaga vermelha, idêntica a primeira que ele havia usado contra Hozar, com sua lâmina parecendo brilhar e tremer. – Mantenha ele assim. Ele pode ser um “Titã de Diamante”... mas até mesmo os poderosos Titãs um dia hão de cair.

Ele planeja me golpear? Era essa a impressão que tinha pelo que ouvia, mas parecia-lhe difícil acreditar nisso. Ele não me parece ser algum tipo de idiota. Ele deve saber muito bem que não existe um ataque dele ou de seu companheiro que possa me ferir. O modo do Titã de Diamante lhe deixava mais lento, consumia uma boa quantia de energia e prejudicava sua visão, mas se havia uma vantagem nele era que a defesa de Duke se tornava praticamente perfeita. Devido a minha manipulação e a influência da minha magia, meu corpo agora é ainda mais duro do que diamantes normais. Seria necessária uma quantia extremamente absurda de força para passar por minha defesa nesse estado. Deveria ficar tranquilo em relação a ataques com aquela carta em mãos... mas a forma como aquele homem olhava para ele de forma confiante simplesmente não deixava sua alma ter tranquilidade.

Não demorou muito para que compreendesse exatamente o motivo do sorriso de seu oponente.

No momento em que viu o homem golpear sua própria mão com sua adaga, pensou imediatamente que ele era louco, mas logo algo estranho começou a acontecer ali. A adaga do homem começou a realmente brilhar, espalhando um brilho rubro por toda aquela sala. Com um sorriso no rosto o homem puxou-a de uma vez, e quando o fez, a lâmina dela havia ganhado cerca de noventa centímetros, simplesmente por estar agora envolta em um estranho líquido vermelho borbulhante que parecia ser ao mesmo tempo líquido o suficiente para ser extremamente maleável e sólido o suficiente para formar uma espada. Isso é... sangue?

– Isso não é sangue, se é isso que você está pensando – comentou o homem com um sorriso no rosto, como se estivesse lendo os pensamentos. – Schmerz é uma arma um tanto quanto diferente, sabe? Essa lâmina que você vê não é feita de sangue, nem tão pouco de algum tipo de metal. Não, não... essa lâmina que você vê não é nada mais do que uma manifestação física da “dor”.

Uma manifestação física da dor? Não entendia o que o homem queria dizer com aquilo, mas pelo nome sabia que não queria nada com isso. Dobrou seus esforços em tentar libertar-se do aperto do monstro, e dessa vez pareceu-lhe que estava tendo algum sucesso com isso. Persistiu naquilo, focou todas as suas forças ali, e no fim das contas, mesmo com todos os esforços que seu inimigo fazia para lhe segurar, libertou-se, afastando as mãos dele o suficiente para que pudesse respirar em paz de novo. Finalmente! Os olhos de seu oponente se arregalaram, fitando Duke como se não pudessem acreditar que ele tivesse feito aquilo; a resposta do Titã a isso foi apenas sorrir de forma confiante e golpeá-lo logo em seguida, acertando um soco diretamente no peito de seu oponente. O monstro branco pareceu tentar resistir aquilo, firmou seus pés com força no chão e tentou suportar a força por trás de seu ataque, mas não teve sucesso nisso; apesar de todos os seus esforços, o monstro foi arremessado pelo ar até a parede do outro lado da sala.

– Haha, bem feito! – vangloriou-se Duke, mostrando o punho para seu oponente. – Isso é o que você ganha por tentar me de-

Interrompeu subitamente sua frase ao lembrar-se de algo. Espere aí, eu não tenho tempo para me vangloriar! O outro ainda está em combate aqui! Virou-se rapidamente à procura do homem, e não precisou de muito esforço para encontra-lo; em meio ao ar, gargalhando, o homem movia sua espada contra Duke, como se almejasse decapitá-lo. Ergueu seu braço para bloquear o golpe, mas algo incrível ocorreu; a espada simplesmente passou reto por seu braço, sem feri-lo, e passou direto também pelo corpo de Duke, sem deixar nenhum ferimento. Mas... o que diabos? Não entendeu o que era aquilo, não compreendeu o que tinha acontecido.

E então veio a dor.

Súbita e forte, essa dor forçou Duke a cair de joelhos quase que imediatamente. Tentou se controlar, mas foi incapaz de impedir que gemidos de dor escapassem de seus lábios com aquilo – raios, nem sequer conseguia encontrar força de vontade o suficiente para se erguer. Que merda é essa?! Sentia dor intensa por todo o seu corpo, em cada nervo, cada músculo, cada pequeno fragmento de seu ser. Maldição, isso é como se tivesse esfolado toda a minha pele e me banhado em sal! Estava de joelhos ali, mas nem mesmo isso era o suficiente; sentia seus músculos fraquejarem, ameaçando ceder e deixar que seu corpo caísse por completo no chão, e tudo que podia fazer ali era manter-se de joelhos.

Ergueu seus olhos com dificuldade para olhar o homem à sua frente. O Recipiente estava sorridente, girando sua arma entre os dedos enquanto olhava para Duke como quem admira uma obra de arte, sem fazer esforço para esconder o deleite que tinha em ver o Titã sofrendo. Quando notou que o olhar de Duke estava sobre ele seu sorriso se alargou ainda mais, e então ele se pôs a falar.

– Agora você deve compreender melhor o que eu disse antes, não é, Titã de Diamante? – questionou ele, falando com zombaria. – Eu digo e repito; essa lâmina de Schmerz é nada mais do que a manifestação física da dor. Ela não corta, ou melhor dizendo, não corta nesse estado. Na forma de adaga ela funciona como uma arma normal, sendo capaz de cortar e perfurar como qualquer outra adaga. É só quando ela causa a dor que suas verdadeiras habilidades vêm à tona; ela assume sua verdadeira forma nessa altura, e a partir daí seu funcionamento é completamente diferente. A partir do momento em que ela assume sua verdadeira forma, Schmerz para de cortar e passa a agir diretamente nos sentidos e nervos do oponente. Não existe defesa capaz de pará-la nesse mundo, Titã. Você pode ter um corpo feito de diamante, mas nem mesmo o mais duro dos diamantes pode parar a dor.

Nem mesmo o mais duro dos diamantes pode parar a dor, não é, filho da puta? Mas eles podem causar muita dor, e eu vou te mostrar bem isso quando eu esmagar essa sua cara no chão. Ou ao menos, era essa a vontade de Duke, mas nem mesmo ele estava confiante de ser capaz de fazer aquilo naquela situação. Maldição... é simplesmente tanta dor! Suas mãos se fecharam em punhos com tanta força que arrancaram parte do concreto do chão, não em fúria ou irritação, mas numa tentativa de conseguir alguma coisa na qual se apoiar para suportar aquela dor. Miserável... se eu tivesse alguma coisa parar lidar com essa dor, você iria ver! Se eu tivesse alguma coisa...

E foi então que uma ideia veio a sua cabeça.

Ocupado em sua satisfação sadista, o homem nem sequer prestava atenção em Duke. Isso era bom. Isso tornou as coisas fáceis. Ele nunca chegou a ver o gancho que o Titã lhe acertou, mas tinha certeza de que ele o sentiu; a parte inferior da mandíbula dele foi arrancada pela brutalidade do golpe e lançada ao ar, enquanto o resto daquele homem foi jogado para cima como se fosse uma seta, metade de seu corpo atravessando a teto e ficando preso nele, tamanha a força investida naquele ataque. A dor não havia desaparecido por completo, mas o fato de ter conseguido fazer aquilo foi tão satisfatório que Duke simplesmente não foi capaz de não sorrir.

– Muito obrigado por me explicar como seus poderes funcionam, otário! – gritou ele, apenas para provocar aquele homem. – Sabe, de certa forma, eu devo lhe agradecer. Se meu oponente fosse alguém um pouco mais inteligente, essa sua arma seria a minha derrota, mas os Deuses gostam de mim e acham por bem me dar um retardado como inimigo! Essa sua explicação sobre poderes foi perfeita; ela deixou bem claro e simples o que eu tinha de fazer. Algo tão óbvio, mas no qual eu não iria pensar se não fosse por você.

O corpo do homem caiu do teto de volta ao chão, a metade superior dele quase que completamente destruída pelo impacto que havia sofrido. A essa altura, Duke não se importava mais com isso; enquanto o corpo do homem começava a se regenerar, Duke continuou a falar.

– Lembra-se do que eu havia mencionado antes? Sobre ser capaz de manipular as propriedades dos materiais? Pois bem, meu chapa... aqui vai uma notícia pra você; meu corpo, tecnicamente, é um material. Isso deveria ser óbvio depois que eu havia usado parte do carbono nele para criar esses diamantes, mas de alguma forma não pensei nisso antes. Se eu posso manipular as propriedades do meu corpo afim de fazer uma armadura de diamante para mim, então eu também devo ser capaz de alterar as propriedades dele afim de criar substâncias capazes de me ajudar em batalhas, não concorda? Substâncias que podem me tornar mais rápido, mais forte, incentivar minha regeneração... ou, até mesmo, mexer nos meus nervos para impedir que eu sinta dor. Substâncias como... analgésicos.

A parte superior do homem havia acabado de se regenerar naquele momento, e quando a cabeça dele se refez, pareceu até que ela já havia surgido com uma expressão de surpresa estampada nela, tão rápido que essa surgiu.

– Não pareça tão surpreso, você deveria saber disso desde o começo – sorriu de forma confiante, ignorando a dor que ainda sentia. Os analgésicos estão aliviando a dor à um ponto suportável, mas nem mesmo eles são capazes de me livrar por completo dessa dor. No entanto, aquilo era o suficiente; havia aguentado bem pior do que aquilo durante praticamente toda a sua vida, podia suportar uma dorzinha dessas durante uma luta. – Não importa o quanto você se esforce, não importa o quanto você tente, você nunca vai me derrotar. Eu sou Duke, o mais macho dos homens, e pedaços de merda como vocês nunca vão me deter!

=====

Segurou firmemente sua adaga entre os dedos, analisando a velha à sua frente. Bom, Blair, aqui estamos nós, pensou a jovem mercenária consigo mesma. Atrás dela, conseguia ouvir os sons da luta entre o servo da velha e seu Ogro, mas não se preocupou com isso. Esse Ogro é um monstro de duas estrelas. Não é necessariamente o tipo mais forte que posso invocar, mas deve bastar. Podia ter invocado um monstro mais poderoso, claro – talvez até mesmo um Cerberus – mas monstros mais poderosos gastavam mais mana para invocar e para manter sob seu controle, e aquela era uma luta de resistência mais do que um combate que media suas forças. Só preciso que o Ogro segure o outro enquanto cuido dessa velha. Se as coisas ficarem feias, posso sempre invocar mais algum monstro, embora isso vá deixar as coisas um pouco mais complicadas para mim, creio eu. Sim, as coisas eram muito simples ali, no fim das contas. Só preciso cortar o pescoço dessa velha e tudo acaba. E no entanto...

Não sabia dizer exatamente o que era, mas algo ali lhe incomodava mais do que podia expressar em palavras. A postura daquela velha, o jeito dela... tão pequena como ela era, com aquele roupão ao redor de seu corpo e a postura calma e serena que ela tinha, era difícil acreditar que aquela velha era uma criminosa tão procurada. Mas não há dúvidas quanto a isso. Ela é Annie Adamas, a Dama de Ferro. Uma mulher que cria Recipientes feitos de ferro e aprisiona almas dentro deles. Com suas habilidades, aquela mulher havia criado um exército praticamente perfeito; cada Recipiente era praticamente imortal, e todos eram incondicionalmente leais a ela. Todos eles também eram almas de homens e criaturas que aquela mulher matou e aprisionou para servi-la. Não devo ter pena dela. Sou uma mercenária, certo? Hora de agir com sangue frio aqui. Só que, ainda assim, algo lhe parecia muito errado ali...

– Qual o problema, criança? – perguntou a velha, em um tom que seria inocente se não fosse tão venenoso. – Pensei que você planejava me matar. Será que você mudou de ideia? Ou... será que você perdeu seu nervo ao perceber que não é forte o suficiente para matar alguém como eu?

Rangeu os dentes um pouco ao ouvir aquilo, embora tentasse também não demonstrar isso. Muito bem, aqui está uma razão para matar essa velha; pessoas tão velhas assim não deveriam ser tão arrogantes. Forçou um sorriso venenoso aos seus lábios também e respondeu com sarcasmo àquilo.

– Sinto, mas normalmente não costumo temer os mais velhos por nada mais do que a capacidade que eles têm de entrar em reminiscências eternas sobre os tempos em que eram jovens – disse isso e deu de ombros para demonstrar que não se importava com aquilo. Girou sua arma em sua mão, tudo enquanto mentalmente pensava em qual seria a melhor rota para um ataque. – Talvez seja você que está com medo na verdade, velha. Eu não lhe culparia se fosse esse o caso. Mas, ei, olhe pelo lado bom! O seu assassino poderia ser um brutamontes estúpido e sem senso de humor, mas ao invés disso, sou eu! Uma linda garota esperta e bem humorada! Existem muitas pessoas que lutariam para morrer pelas minhas mãos, sabe?

A resposta da velha foi gargalhar, parecendo bem divertida por aquelas palavras.

– Hahahaha! De alguma forma, me parece difícil imaginar que tantas pessoas assim queiram morrer, independente de nas mãos de uma garota bonita ou não – disse ela, sorrindo.

– Ora, isso só mostra que você não conhece tanto das coisas quanto deveria. Eu sou uma excelente assassina, sabe? E não falo apenas no quesito de matar meu alvo. Eu sou divertida, sou delicada, sou gentil... eu não faço coisas exageradas quanto rasgar a garganta de uma pessoa da direita a esquerda ou arrancar sua cabeça. Uma única punhalada na parte de trás da cabeça, direto no cérebro, e voalá! Você não sente nada, juro, e é fácil de esconder a ferida. Ideal para se ter um funeral depois. Além do mais, ter o rosto de uma garota tão linda quanto eu como última coisa a se ver é sempre um bom extra! – piscou ao dizer aquilo, como que para demonstrar seu ponto, e isso fez com que a velha gargalhasse de novo. Já esperava por isso; na verdade, estava torcendo por isso. Essa é minha chance.

No momento em que a velha gargalhou, Blair partiu para o ataque.

Não esperava que a gargalhada dela fosse ser uma distração o suficiente para que pudesse dar fim à velha; tudo que intencionava com aquilo era conseguir uma vantagem, conseguir dar o primeiro passo, o primeiro ataque. Mas nem mesmo isso ela conseguiu. Assim que começou seu avanço, a velha quase que imediatamente demonstrou uma reação. Ela praticamente saltou de onde estava, girando no ar, misturando agilidade e força ao seu movimento para fazer um avanço extremamente rápido. Tudo que Blair pode fazer foi usar de seus bons reflexos para saltar para o lado, evitando aquele ataque. Ainda assim, teve uma boa visão do que aconteceu. A perna da mulher desceu sobre o lugar aonde ela antes estava com uma velocidade assombrosa, e a força por daquele golpe foi o suficiente para esmagar o concreto como se ele fosse nada, quebrando-o e lançando fragmentos dele pelo ar. Para uma velha de oitenta anos, ela certamente é bem forte. Mas forte ou não, Annie iria morrer ao fim daquele dia de qualquer forma; disso tinha certeza. Girou uma última vez sua adaga em sua mão, e segurando o cabo dela com ambas as mãos, moveu-a em direção à cabeça de Annie. Uma única punhalada na parte de trás da cabeça, direto no cérebro!

A velha reagiu rapidamente novamente, no entanto; no último momento, quando Blair estava prestes a finalizá-la, suas mãos seguraram os pulsos de Blair, impedindo-a de concretizar seu ataque. Raios, não! Você não vai me parar – não agora! Exerceu pressão sobre sua adaga, colocou força em suas mãos, mas Annie pressionou contra ela ao mesmo tempo, e para a sua surpresa, ambas as mulheres estavam empatadas no fim das contas; por mais que se esforçassem, a adaga não se movia nem um centímetro para lado nenhum, permanecendo aonde estava quase que imóvel.

– Você é uma garota muito forte, para alguém com braços tão finos – comentou Annie, mostrando-lhe um meio-sorriso.

– Você é uma velha muito forte, para alguém com um pé na cova – respondeu Blair, retribuindo o sorriso.

As duas ainda continuaram disputando forças em uma tentativa de conseguirem dar fim uma a outra, até que finalmente ficou claro que não iriam conseguir nada com aquilo. Quando isso foi compreendido, ambas reagiram praticamente ao mesmo tempo; as pernas de ambas se chocaram com força, fazendo com que uma pequena onda de choque corresse por aquela sala, parecendo abalar a própria estrutura dela. Blair não ficou nem um pouco satisfeita com aquilo. Isso não é bom, isso não é nada bom. Estarmos empatadas assim não é nada bom pra mim. Sendo uma batalha de resistência como aquela era, mesmo poupando sua mana ao usar um Ogro, Blair estava em grande desvantagem; cada minuto pelo qual a luta se estendia era um minuto a mais de vantagem que sua oponente obtinha. Tenho de acabar com isso o tão rápido quanto possível. Quanto mais demoro aqui, maior é o risco pra mim.

Foi por isso que, em uma aposta, aproveitou-se de sua posição ali para subitamente arremessar a adaga para cima. A arma foi lançada aos ares, girando, cintilando... e dando-lhe a chance perfeita de agir ali.

Essa aposta voltou contra ela, no entanto, tal como a primeira que havia feito com Syd no início de tudo aquilo. A velha viu o que aconteceu, e a reação dela foi muito mais rápido do que Blair havia imaginado; ao invés de ter sido a maga que se aproveitou daquilo, a velha moveu-se extremamente rápido para alguém da sua idade, atingindo Blair com um golpe de mão aberta direto em seu peito. No momento em que o golpe colidiu, a maga sentiu como se todo o ar fosse expulso de seus pulmões; sua boca se abriu, tentando emitir um som de dor mas sem sequer conseguir fazer isso, e um instante depois sentiu a força do ataque arrancando seus pés do chão, prestes a lançar-lhe para trás. A única coisa que conseguiu fazer antes que isso acontecesse foi esticar sua mão e com ela agarrar sua adaga, ainda no ar.

Foi lançada por cerca de dois ou três metros antes que seus pés conhecessem qualquer coisa similar com o chão de novo, e mesmo quando isso aconteceu ela não teve folga. Mal havia acabado de aterrissar, voltou seu rosto rapidamente para olhar à sua frente e viu a velha vindo em sua direção, sua perna se movendo em um chute direto contra seu rosto. Inclinou a parte superior de seu corpo para trás instintivamente ao ver, inclinando seu corpo o suficiente para que visse a perna seguir rente ao seu rosto, pouco acima de sua cabeça. Não perdeu a chance que se mostrou aos seus olhos. Segurou firmemente a adaga com ambas as suas mãos e moveu-a com força para cima, perfurando o joelho da velha com a lâmina de aço e arrancando um gemido de dor por parte de Annie.

A posição na qual haviam se metido com tudo aquilo era no mínimo complicada, mas não podia se dar ao luxo de ficar escolhendo. Já foi um sacrifício e meio simplesmente conseguir atingir essa mulher. Agora que o fiz, só devo me focar em fazer tanto dano quanto possível! Puxou sua adaga com força para o lado, buscando propositalmente ser tão brutal e agressiva quanto possível nisso, e a lâmina deixou a perna da velha apenas depois de abrir um violento corte em sua perna, atravessando carne e osso de forma que deixava com que apenas metade de seu joelho continuasse a aguentar ali, o sangue desse corte tendo respingado um pouco em Blair, sujando seu rosto. Saltando apenas em sua perna boa Annie recuou para trás, apoiando sua perna ferida tão rapidamente quanto pode no chão e lutando para conter uma exclamação de dor que tentou tomar conta de seu rosto ao movê-la. As mãos dela foram quase que imediatamente para o seu ferimento, cercando como se estivesse tentando segurá-lo a distância, e quando viu o brilho esverdeado que veio delas, Blair soube imediatamente o que ela estava tentando fazer. Tentando se curar, não é? Bem, tente o quanto quiser; enquanto eu estiver aqui, não irei deixar isso acontecer!

Dobrou suas pernas, preparando-se para tornar a avançar contra aquela velha, mas antes que pudesse fazer isso teve uma sensação de perigo, uma sensação que levou-lhe a saltar para o lado ao invés de atacar. Não compreendeu no momento o porquê daquilo, mas quando olhou na direção aonde ela antes estava e viu o tridente de Aurum cravado no lugar aonde estava minutos atrás, tudo isso ficou bem claro.

Correu uma mão pela bochecha, limpando o sangue que começava a surgir ali de um fino corte que o ataque do Recipiente havia criado em seu rosto. Isso foi rápido. E inesperado. Havia pensado que teria a chance de lutar contra Annie sem interrupções, mas aparentemente havia superestimado a força de seu Ogro; pelo que podia ver, o corpo dele estava bem além de Aurum, caído no chão de uma forma tão tranquila que ela poderia até mesmo pensar que ele estava simplesmente dormindo, não fossem os buracos que o tridente havia feito sobre seu crânio maior visíveis e a poça de sangue abaixo dele tão chamativa. Essa não é a situação ideal, mas bem, dificilmente qualquer situação é para uma mercenária como eu. Pelo menos contava com algumas vantagens ali. Com o ferimento que havia causado nela, Annie deveria estar fora de combate, o que transformava aquela luta em um combate razoavelmente justo, embora seu oponente agora fosse claramente muito mais forte do que a velha. Talvez eu possa invocar outro monstro para me ajudar.... mas não, não estou certa se isso seria realmente uma boa ideia. A facilidade com a qual seu Ogro havia sido derrotada sugeria que um monstro do seu nível não seria páreo para Aurum, e invocar um monstro mais forte do que ele seria algo bem custoso; podia até o fazer, mas isso tornaria bem fácil para ela perder as forças que lhe restavam e ficar totalmente esgotada. Pelo menos ainda não. A não ser que isso seja absolutamente necessário, prefiro não.

– Velhota – disse o Recipiente, sua voz soando pesada e séria, claramente irritada pelo que Blair havia feito ali. – Você está bem?

– Estou bem, Andorinha; não há porquê se preocupar com isso – respondeu Annie, calmamente. Estalou a sua língua e preparou-se para questionar à velha como ela considerava que quase perder uma perna era algo com o qual alguém não devia se preocupar, mas quando viu aquilo ela simplesmente não pode dizer nada; Annie estava com sua perna no chão, calmamente, tranquilamente, sem demonstrar dor alguma em seu rosto e com o sangramento em sua perna totalmente estancado. Não é possível. Ela... ela já curou-se da ferida que causei? O pensamento de que aquela mulher tinha habilidades de cura tão elevadas lhe assustou bastante, mas felizmente logo compreendeu que estava simplesmente se precipitando ali. A ferida ainda está aberta. Ela não sangra mais por algum motivo, mas ainda está aberta. Além do mais, apesar do que havia pensado em um primeiro momento, Annie não demonstrava “não sentir dor alguma”; a dor ainda estava presente em seu rosto, embora ela realmente estivesse muito menor agora e a mulher parecesse estar tentando ocultá-la. A situação ainda é ruim, mas melhor do que eu imaginava. Ter de lidar com dois oponentes certamente era algo bem diferente do ideal para ela, mas o fato de um deles (o mais importante) estar ferido lhe dava uma certa vantagem. Se eu jogar minhas cartas bem, talvez ainda dê pra ganhar o jogo aqui.

Foi praticamente ao mesmo tempo que esse pensamento cruzou sua mente que aquilo ocorreu.

Não teve ideia do que havia causado aquilo, mas antes que qualquer um dos três pudesse fazer qualquer coisa as portas que levavam até aquela sala foram arremessadas para longe, jogadas pelos ares como se fossem penas. Elas passaram por cima de sua cabeça, e no momento em que isso aconteceu ela pode ver que o outro lado delas estava queimado, como se tivessem lhes explodido, apesar de que não havia ouvido o som de uma explosão em momento algum. Maldição... mais inimigos? Se fosse realmente o caso, então ela estaria perdida; tinha alguma chance de obter a vitória lutando contra um oponente em bom estado e um outro oponente ferido, mas não podia esperar ter o mesmo sucesso com três oponentes simultâneos.

... Isso dito, uma luta dois contra dois era uma conversa diferente.

– Finalmente. Tivemos trabalho demais para chegarmos até esse ponto – disse uma voz forte e imponente, parecendo ao mesmo tempo calma e irritada, no momento em que uma figura emergiu do lugar aonde antes estavam as portas. Um homem alto veio dali, vestido em uma rústica armadura de ferro ou aço cinzento, com cabelos que também eram em sua maioria cinzentos, com apenas alguns fios castanhos se destacando neles. A armadura que ele usava era um modelo pesado e bruto, quase que digna de um bárbaro, mas mesmo assim a musculatura elevada dele era clara para qualquer um que olhasse. Seus olhos estavam afiados, e esses olhos correram por Aurum e Blair, antes de finalmente pousarem sobre Annie. – Você. Você é a líder desse grupo inimigo, correto?

Por um momento Annie demonstrou em seu rosto a surpresa que sentia em ver aquilo, chegou até mesmo a parecer temporariamente incerta da situação, mas ela logo se recuperou. A calmaria voltou a reinar sobre seu rosto, e se não soubesse melhor, até pensaria que ela não estava nem um pouco perturbada por aquilo.

– Hozar Royes, o Deus da Fúria – disse ela, com um sorriso fino enigmático no rosto. – Devo dizer... desde que o Olho Vermelho me informou que deveria ser você um dos invasores, eu sabia que iriamos nos encontrar. Zenon e os outros são capazes, muito capazes, mas você? Eu li os jornais, vi do que você é capaz. Sua participação no Torneio de Valhala deixou bem claro para mim que não seria fácil detê-lo. – os braços da velha se cruzaram, o sorriso ainda reluzindo em seu rosto. Honestamente, não sabia dizer se esse gesto era arrogante ou desafiador. – Então, Hozar... sim, sou a líder desse grupo. E o que isso significa para você? O que você vai fazer?

O homem não deu uma resposta, ao menos não imediatamente. Ao invés disso o que ele fez foi fechar os olhos e enfiar sua mão por dentro de sua armadura para os bolsos de suas calças. Fuçou ali por algum tempo, aparentemente procurando por algo, até retirar de lá algo que não era nada mais do que um maço de cigarros. Cinco desses foram retirados calmamente do maço e colocados um por um na boca do cavaleiro. Só depois disso foi que a mão do Deus da Fúria passou afrente dos cigarros, e imediatamente todos eles se acenderam. Os olhos de Hozar voltaram a se abrir, e quando eles o fizeram, Blair foi capaz de jurar que viu verdadeiras chamas queimando dentro deles.

– O que isso significa pra mim? Isso é óbvio. Isso significa que você é uma inimiga – respondeu ele, simplesmente, apontando para a velha com um de seus dedos. – E o que eu vou fazer é igualmente simples. Farei o que faço com todos os meus inimigos. Quebrarei seus ossos e queimarei você às cinzas.

=====

Teigra saltou para o lado rapidamente para evitar a corrente que sua oponente lançou em sua direção, sem nunca tirar os olhos da Recipiente que enfrentava. Com o uso de sua habilidade, Kat havia conseguido com sucesso manter a luta em um combate a distância, algo que era extremamente beneficiador para ela e tremendamente ruim para Teigra. Sou uma cavaleira, não uma maga como Kyanna ou uma arqueira como Anabeth. Não conto com um bom poder de batalha à distância. Naquela situação, sendo forçada a lutar de longe, praticamente tudo que Teigra podia fazer era tentar desviar dos golpes de sua oponente, e isso não era algo do qual ela gostava.

– Qual o problema, cavaleira? – questionou sua oponente em tom provocante e desafiador. – Você não vai me derrotar se ficar apenas correndo por aí. Vamos! Se você disse que vai lidar comigo, você deve ser mais forte que isso. Pro seu próprio bem, é melhor que você seja mais forte que isso!

Não prestou atenção a essas provocações. Prestar atenção em provocações como essa é uma boa forma de perder uma luta. Ainda assim, não pode deixar de ranger os dentes. A situação realmente não está boa. Preciso pensar em uma forma de mudar o rumo dessa batalha logo ou acabarei sendo derrotada. E pensar assim fez com que seus olhos fossem levados aos seus bolsos.

Neles estavam suas gemas, suas joias, peças fabricadas pela própria mão de Teigra com o auxílio de seus conhecimentos sobre alquimia. Se conseguisse usá-las, então a vitória era praticamente sua, mas o problema era que precisava de tempo para poder usar itens como aqueles, e sua oponente não parecia disposta a lhe dar esse tempo. Um minuto, é tudo que preciso. Um minuto é o tempo que necessito para virar o rumo dessa luta. No entanto, um minuto era justamente o tempo que lhe faltava.

Surpreendeu-se quando, subitamente, Kat avançou em direção à ela. Havia imaginado que sua adversária era uma guerreira de longa distância por tudo que havia testemunhado ali até então, mas isso provava justamente o contrário das suas expectativas. O que ela planeja?

Descobriu isso em breve, e quando o fez, desejou não o ter feito.

A cerca altura em seu avanço Kat saltou contra Teigra, erguendo sua perna como que em um chute. No entanto, o golpe que ela desferiu era algo muito diferente de um chute. Um chute era, fundamentalmente, um golpe com a perna, e o que atacou Teigra não era uma perna; no momento em que Kat saltou, a massa dessa perna pareceu transformar-se, modificar-se diante dos próprios olhos de Teigra, tornando-se nada menos do que uma pura lâmina de ferro, como a que você esperaria ver em uma verdadeira espada. A surpresa que sentiu ao ver aquela mudança foi tão grande que por um instante Teigra até mesmo se esqueceu de desviar, o que fez com que ela tivesse de evitar aquele golpe rapidamente no último momento, inclinando-se para que a lâmina não a atingisse, apesar de que isso não impediu que um pequeno corte surgisse em seu pescoço, nada realmente sério, mas um bom sinal de que ela não deveria se deixar distrair naquela luta. Pensou em afastar-se um pouco mais para que tivesse tempo de reavaliar a situação, mas a mulher não lhe deu a chance de fazer isso; teve de agir simplesmente movida por seus instintos para evitar o próximo ataque de Kat, que agora movia o que antes era um braço transformado em lâmina em sua direção. Abaixou-se rapidamente para evita-lo e rolou para o lado tão rápido quanto pode parar evitar o ataque que se seguiu da perna-lâmina. Foi só depois disso que ela se arriscou a levantar-se, e mesmo assim fez isso enquanto sempre mantinha um olho sobre Kat, atenta a qualquer movimento que a mulher fizesse.

– Eu não sabia que você possuía uma habilidade de modificar seu corpo assim – murmurou Teigra. Normalmente não era muito de falar durante batalhas, mas naquela situação em específico isso era vantajoso para ela. Não só uma conversa lhe dava tempo para pensar, mas havia notado que sua oponente tinha uma certa tendência a falar muito; se lhe desse o incentivo necessário, talvez ela lhe falasse algo sobre sua habilidade, e se ela fizesse isso, então talvez Teigra pudesse pensar em uma forma de contra ataca-la.

– As Maçãs do Meio-Dia me dão a habilidade de controlar a forma do metal – explicou a mulher de forma esnobe, admirando a forma de lâmina que seu braço havia tomado antes de finalmente voltar-se para Teigra. – O corpo dos Recipientes não é feito de tecido orgânico como o de vocês, humanos. Annie fez nossos corpos com ferro, e ferro é um metal. Sendo assim, controlar a forma do meu corpo pra mim não é nada diferente de controlar a forma de uma corrente ou algo assim.

Um corpo de ferro? Aquilo era no mínimo estranho, mas supunha que fazia sentido... de alguma forma. Bom, não faz sentido questionar isso agora. Não tinha nenhum motivo para pensar que a mulher estava mentindo, a aquilo de certa forma explicava o que havia acontecido ali nos últimos momentos. Recipientes certamente são oponentes bem chatos, pelo que estou vendo. Regeneração, habilidades estranhas... me pergunto se Hozar e Duke estão bem lá dentro. Balançou a cabeça assim que esse pensamento veio a sua mente, tentando afastá-lo. Não, não pense nisso. Não adianta pensar em algo assim. Os dois eram capazes – se ela estava bem, então o mesmo valia para eles sem sombra de dúvida. Tudo que devo fazer aqui é fazer minha parte.

Sua mão alcançou a espada em sua cintura. Isso não é o ideal para mim, tal como não é o que quero realmente fazer, mas acho que vou ser forçada a usar a espada de fogo novamente. Não gostava disso. Sua arma era poderosa, sim, mas considerando que aquela mulher tinha aparentemente a habilidade de controlar chamas, não sabia se essa seria uma boa ideia. A chance de que isso me ajude é tão grande quanto a chance de que eu esteja dando outra vantagem a ela, e mesmo caso eu consiga usar a espada de fogo, não há garantias de que isso será o suficiente. Dizer que sua situação ali era complicada seria uma atenuação. Uma grande atenuação.

Subitamente, a mão ainda humanoide de sua oponente estalou os dedos, e instantaneamente após isso ser feito uma pequena caixa surgiu em frente a ela; uma pequena caixa em forma de maçã de cor preta-arroxeada. Simplesmente ver aquilo foi o suficiente para que Teigra colocasse um pé para trás, preparando-se para o que estava por vir. Uma curta risada educada veio dos lábios de Kat ao ver aquilo, como se isso o divertisse.

– Não se preocupe, cavaleira; não pretendo usar todo o meu poder contra você... ainda. – disse ela, sorridente, apesar de seus dedos se moverem para a caixa, cercando a tampa dela como se se preparando para abri-la, para somente então pararem. – Verdade seja dita, eu não preciso usar meu poder total para te derrotar. Se a situação continuar nesse nível, a sua derrota virá em breve. No entanto... que graça teria isso? Você não está usando todo o seu poder. Eu não estou usando todo o meu poder. Se essa luta tiver a sua conclusão nesse estado, isso será extremamente desapontante. Não, não, não posso deixar isso acontecer. E é por isso que lhe sugiro o seguinte; eu sei que você tem uma cartada na manga, um trunfo que pode lhe dar a batalha. Use ele... e ao mesmo tempo, eu usarei o meu poder total.

Não conseguiu impedir que uma de suas sobrancelhas se erguesse ao ouvir aquelas palavras. Não estava simplesmente surpresa com o que ouviu; estava completamente abismada. Ela está me dando uma chance de lutar com todo o meu poder? Por que ela faria isso? Pelo que aquela mulher havia falado, a vitória dela estava garantida se a luta continuasse naquele ritmo – e por mais que Teigra não queria admitir isso, esse pensamento não estava errado. Sendo assim, por que ela me daria a chance de usar todo o meu poder? Por que ela correria esse risco?

– Que tipo de armadilha você esconde, Kat? – questionou seriamente Teigra. – O que você sugere é completamente sem sentido.

– Você se superestima se acha que eu preciso de uma armadilha para derrotar você, cavaleira – retrucou a mulher, sem nunca perder o sorriso. – Se pensa que é estúpido da minha parte fazer o que sugiro, então você não compreendeu muito bem as coisas aqui. Eu me regenero; você, não. Partindo do pensamento de que você consiga superar minha força e me destruir, o que não é certeza, isso não muda nada. Eu irei me regenerar e regenerar, voltar sempre a luta com força total, enquanto você irá ficar progressivamente mais e mais fraca. Em outras palavras, se eu não vencer por meu poder, vencerei por resistência. Só que antes disso, eu quero enfrentar você com todo o seu poder, assim como quero lutar com todo o meu poder. É por isso que lhe ofereço essa chance. Sinta-se livre para negá-la, se quiser – disse Kat, retirando rapidamente a tampa da caixa em forma de maçã e deixando que uma névoa preta-arroxeada saísse dela, sendo aspirada pelas narinas da mulher. – Eu irei com tudo!

Quando viu aquilo, Teigra soube que ela não tinha mais opção. A terceira caixa. Isso significa que ela vai usar todo o seu poder agora. Qualquer hesitação que ela pudesse ter não tinha mais lugar ali. Qualquer pensamento, qualquer temor... nada disso importava mais. Agora só tenho uma escolha: usar meu poder total e vencer!

Retirou rapidamente a Joia do Fogo de seu bolso e engoliu-a por inteiro.

=====

O resultado não foi imediato. Por um momento, tudo o que Kat viu foi Teigra ali, parada, com apenas seus cabelos caindo um pouco sobre seu rosto, cobrindo seus olhos. Chegou até mesmo a se desapontar, pensando que aquilo era inútil ou que sua oponente havia escolhido suicídio ante a derrota iminente.

Esses pensamentos desapareceram quando o peito de Teigra explodiu em chamas.

Logo em seguida, os pedaços da armadura da cavaleira flamejantes e derretidos caíram no chão, seguidos por pedaços da roupa dela. O corpo de Teigra estava nu diante de seus olhos, e isso possibilitou que ela visse bem o que estava acontecendo ali. Os cabelos da cavaleira transformaram-se em chamas, puros fios de fogo que queimavam incessantemente, e ao mesmo tempo em que isso aconteceu a pele de Teigra começou a brilhar, vermelha. Uma crosta dura e negra como lava vulcânica fria começou a encobrir o corpo de Teigra, com linhas vermelhas como fogo líquido correndo por entre as fendas dessas crostas. Haviam apenas duas exceções para isso: a primeira eram os pés e mãos de Teigra, que haviam assumido uma forma que faziam com que eles mais lembrassem as garras de algum grande animal selvagem, completamente vermelhos como se fosse incandescente, e a segunda exceção eram os próprios olhos de Teigra; as órbitas haviam desaparecido por completo, e tudo que Kat podia ver agora eram duas bolas de fogo que brilhavam de forma incessante. Mas... o que é isso? Em que tipo de monstro essa mulher se transformou?

Subitamente, as duas garras que antes eram as mãos de Teigra se fecharam em punhos e socaram o chão. Estava distante, mas mesmo de onde estava pode sentir a onda de choque que veio desse ataque. O chão se quebrou e abriu diante da força da monstruosa mulher, e por entre suas fendas Kat conseguiu ver pura laiva, queimando de forma ameaçadora. O rosto de Teigra voltou-se para a Recipiente, e no momento em que caíram sobre ela, Kat foi capaz de jurar que os olhos dela brilharam.

– Você não tem ideia do quanto vai se arrepender disso, Recipiente! – rugiu Teigra, sua voz soando muito mais grossa e alterada agora, como se ela fosse algum estranho tipo de monstro mitológico.

Isso é mal, pensou imediatamente Kat, movendo seus dedos rapidamente enquanto concentrava o poder que havia recebido da terceira caixa. Agora eu realmente preciso do meu poder total. Preciso lutar a sério, ou serei completamente aniquilada! As correntes que antes envolviam seu corpo se juntaram. As chamas que invocava se juntaram. Todo o ferro e aço e metal daquilo que antes foi uma estufa se juntaram e se manipularam, e um instante depois, um grande dragão de metal rugiu. As Maçãs do Anoitecer vão me dar a vitória! Não sei quão forte ela se tornou agora, mas ela não vai superar esse poder.

ATAQUE! – ordenou Kat, e o dragão não pestanejou em cumprir sua ordem. Rugindo alto esse dragão avançou contra Teigra, abrindo sua grande boca como que para engoli-la por completo de uma única vez.

A cavaleira não reagiu até que ele estivesse bem diante de seu rosto. Quando isso aconteceu, também, a reação dela foi simples. Abriu ambos os seus braços e com suas mãos incandescentes ela segurou a boca do monstruoso dragão. A besta persistiu em seu avanço, arrastando Teigra por metros por entre a terra e a rocha, mas isso não durou muito também. Logo os pés de Teigra se fixaram no chão, e por mais que o dragão forçasse ele simplesmente não conseguia fazer com que ela cedesse nem um único milímetro. Sem opções, o monstro de metal liberou chamas direto no rosto dele, mas mesmo enquanto via a mulher sendo engolida por chamas, Kat sabia que isso não seria o suficiente.

E tal como imaginava, depois que o mar de chamas enfim parou e Teigra se mostrou novamente, ela estava perfeitamente bem, sem parecer minimamente afetada por aquilo.

– Você tenta me matar com fogo, dragão de metal? – questionou ela, e Kat podia jurar que apesar de tudo havia uma dose de escárnio na voz dela. – Isso não vai funcionar. Nesse momento, eu sou o fogo!

E como que para demonstrar o que queria dizer com isso, ambas as mãos de Teigra brilharam com uma intensidade mil vezes maior que antes, fazendo com que chamas surgissem dessas e seguissem diretamente para dentro do dragão, infiltrando-se no corpo desse diretamente. O cinza-escuro que aquele dragão foi lentamente desaparecendo, sendo substituído por uma mistura de vermelho e laranja ardente como o de metal em forja. Isso durou apenas um instante, no entanto, pois logo em seguida o dragão explodiu, espalhando seus pedaços por todos os lados.

Teve de cobrir seus olhos ao ver aquilo, tamanha a intensidade da explosão, e logo compreendeu bem que isso foi um erro gigantesco. Sentiu algo quente perfurar rapidamente seu peito, e logo em seguida sentiu como se fogo corresse por dentro de si. Uma explosão vermelha arremessou-a longe, para fora da estufa, fazendo com que ela batesse na entrada da mansão e destruísse-a com seu corpo, os destroços disso caindo sobre si e lhe cobrindo completamente.

Quando finalmente seu corpo se regenerou o suficiente desse ataque para que pudesse ao menos começar a jogar esses destroços para fora de si, a primeira coisa que viu foi Teigra, avançando calmamente em direção a ela, cada passo da cavaleira deixando um rastro flamejante no chão preenchido com fogo líquido.

– Você diz que você pode sempre me derrotar por resistência – contemplou Teigra enquanto se aproximava. – Talvez isso seja verdade. Mas deixe-me lhe dizer uma coisa; eu lhe prometo que, sendo isso verdade ou não, você vai desejar não ter sua regeneração. Quando eu terminar com você, você vai desejar ter morrido.



Notas finais do capítulo

Sim, eu estou sem criatividade alguma para o que colocar nas notas mas não quero deixá-las vazias, calados vocês.



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