O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 119
Sanctus Corona




Quinto Andar do Pandemonium, “Elísio”

 

— SANTA UNÇÃO! – A partir de dois dedos dobrados Balak liberou uma rajada de energia branca e pura que avançou contra Kastor numa velocidade inimaginável. Estava voando ao redor dele tão rápido quanto podia, e mesmo assim não conseguiu evitar o ataque; a energia lhe atingiu em cheio no meio do peito, e a força dela foi o bastante para arrancar um grito de dor da sua garganta e fazer com que ele fosse jogado para trás.

Desde que ele havia usado sua Aloeiris, Balak havia lutado muito melhor do que antes. Embora antes o mago mostrasse ser um oponente formidável, Kastor sabia que aquilo provinha da sua flexibilidade, maestria sobre a magia e das estratégias e táticas que ele era capaz de usar em batalha. Mas agora as coisas não eram mais tão simples; pelos golpes e pelas técnicas de Balak, Kastor não tinha a menor dúvida de que o poder bruto dele estava ao menos comparável ao dele em sua forma demoníaca, e isso se ele não fosse ainda mais forte. Esse cara... já estava sendo complicado o bastante tentar lidar com ele quando ele era mais fraco! Como diabos eu devo derrota-lo agora?!

Enquanto o cavaleiro debatia mentalmente sobre isso, Ekhart aproveitou-se do fato dele ter sido afastado para lançar seu próprio ataque. Uma das suas garras negras foi se erguendo lentamente, e à medida que ela ia se erguendo o chão abaixo dele se tornava negro como a mais escura noite. Não demorou para que pequenos tentáculos negros começassem a surgir dessa escuridão, movendo-se como se fossem a cauda de alguma grande besta, dançando como se tivessem vida própria... até o momento em que os orbes dourados de Ekhart brilharam e sua garra caiu.

Canção Impura do Rei da Noite: Tentáculos Sombrios!

Ao seu comando os tentáculos avançaram todos de uma vez contra Balak por todas as direções possíveis, mas o mago não demonstrou a menor preocupação perante a isso. Ele tinha um sorriso no rosto, e esse sorriso se abriu ainda mais quando ele estendeu suas mãos para a direita e esquerda, suas palmas abertas brilhando em uma luz branca que deixava claro que o que estava por vir era mais uma de suas magias sagradas.

Intercessão do Theotokos. — Balak disse o nome de sua técnica com a mais completa calma que o mundo já viu, e prontamente sua postura que parecia preparada para gerar um escudo defensivo ao redor do seu corpo se desfez em um simples cruzar de braços. O brilho morreu de suas mãos e ele permaneceu completamente aberto, e foi exatamente por isso que Ekhart soube que ele tinha alguma carta na manga, embora saber disso não fez com que ele parasse seu ataque.

Seus tentáculos negros foram direto contra Balak, e cada um deles se despedaçou em pedaços no momento em que tocou o corpo do Tecelão. Não houve qualquer confronto real, nem Balak correu risco por um momento sequer; eles simplesmente quebraram como se estivessem podres, deixando que seus pedaços caíssem ao chão e afundassem no meio da escuridão sem que valesse de nada. Tch... eu deveria ter imaginado que ele faria algo assim. Estava ficando cada vez mais difícil causar algum dano a Balak depois que ele havia usado sua Aloeiris. Ele agora estava usando constantemente aquelas magias sagradas, e estava ficando difícil pensar em alguma coisa que pudesse ser pior para dois demônios enfrentarem do que um especialista em magias sagradas. Ele nem precisa usar seu poder total. Sua magia pode não ser uma das mais fortes que as suas simples propriedades serão o suficiente para fazer com que ele seja capaz de nos causar problemas com ela.

— Eu diria que estou surpreso, mas isso seria mentira. Vocês já deixaram bem claro que não são espertos o suficiente para saber que não tem chances de me derrotar, demônios – disse calmamente a voz do Tecelão, sorrindo mesmo enquanto sangue escorria de ambos os seus olhos em um par de rios vermelhos. – Ah, eu gostaria de brincar com vocês agora. Fazê-los sofrer e gritar, mostrar-lhes o poder dos humanos..., mas isso não iria ferir vocês, corações, mas sim os corpos dos que servem como seus hospedeiros. E além do mais, eu não tenho todo o tempo do mundo. Por isso o que eu farei será algo diferente. Ao invés de brincar com vocês, irei acabar logo com essa guerra, de uma vez por todas! — Ambas as mãos de Balak se ergueram aos céus ao soar das suas palavras, com ambos os seus indicadores estendidos, e no espaço entre eles surgiu um orbe branco de pura energia. O brilho dele inicialmente era algo ameno que não incomodava ninguém, mas isso pareceu durar apenas o tempo que levou para que Balak colocasse seu foco naquilo, pois quando isso foi feito o brilho aumentou subitamente de forma inimaginável, ganhando uma força que fez com que Ekhart tivesse de cobrir seus olhos para que não ficasse cego. – Requiem Angeli!

Se havia ainda alguma dúvida, aquela frase deixou claro que o que Balak estava fazendo era lançando um ataque, mas saber disso não foi útil para Ekhart. Por mais que ele soubesse que seu inimigo estava prestes a lançar um ataque poderoso contra ele, o hospedeiro do Coração Negro simplesmente não podia esperar desviar de um golpe que não podia ver. Maldição, isso é péssimo! Suas asas de morcego bateram com força e ele tentou recuar para ter alguma chance de evitar o que quer que estivesse por vir, mas foi inútil. Mal ele havia ganhado o ar quando sentiu algo quente cortar seu ombro, sua barriga e seu peito, deixando uma sensação de ardência tão forte depois que a sensação era como se seu corpo estivesse queimando.

A simples dor causada por essa sensação foi o suficiente para fazer com que ele tivesse de parar de cobrir seus olhos, e a primeira coisa que as órbitas douradas viram com o afastar do seu braço foram figuras humanoides e aladas, com traços e feições que deixavam claro de que se tratavam de homens e mulheres, empunhando armas que, tal como seus corpos, pareciam serem feitas de pura energia sagrado.

Esses são... Anjos?!

— Exatamente – respondeu Balak, sorridente, e mesmo com todo o brilho que vinha do seu orbe, Ekhart ainda pôde de alguma ver o rosto daquele homem, o sorriso em seus lábios. – Sinta-se lisonjeado, demônio. Os emissários celestiais vieram pessoalmente lhe levar ao pior dos infernos.

Tentou falar novamente, mas um dos anjos fechou uma mão ao redor do seu crânio, e sentiu como se estivessem empurrando ferro quente contra ele nesse instante. Para a sua sorte isso não durou muito e logo o anjo arremessou seu corpo para trás, dando a Ekhart o espaço que precisava para girar seu corpo no ar e aterrissar seguramente no chão, usando uma de suas garras como apoio para firmar-se bem. Quando ergueu seu rosto de novo ele viu que os anjos continuavam a avançar contra ele, e foi nesse momento que compreendeu que não estava lidando com apenas um ou dois anjos.

Com sua magia, Balak havia invocado nada menos do que uma legião de anjos guerreiros que parecia simplesmente não ter fim, e todos eles avançavam contra Ekhart com uma sede de sangue incontrolável.

— Heh, suponho que talvez eu deva retificar um pouco a minha frase. Esses que você está enfrentando não são emissários celestiais de verdade, por mais que queira que fosse esse o caso. – A forma tranquila como Balak falava passava uma sensação de calmaria que entrava em choque violento com o fato de que ele estava falando com um homem que estava literalmente lutando pela sua vida naquele momento. Ekhart estava movendo suas garras e usando seus poderes de sombra desesperadamente para tentar segurar o avanço da legião dos anjos; enquanto ele criava uma parede de sombras sólidas a sua esquerda para bloquear os ataques do que vinham por esse franco, uma de suas garras se ocupava em bloquear a espada de um enquanto a outra avançava contra um segundo, tentando abrir suas entranhas. A luta de Ekhart era feroz e o hospedeiro estava claramente se esforçando ao máximo, mas por mais que seus esforços fossem absolutos eles simplesmente não eram o suficiente para parar a onda incessante de inimigos que vinham contra ele, e isso parecia divertir o Tecelão do Tempo. – Esses que você está enfrentando são anjos artificiais, criados pelo meu poder. Claro, eles não são seres com vida real. Eles não sentem dor, ou cansaço, ou qualquer outra coisa que você pode imaginar. Verdade seja dita, eles são poucos mais do que um bocado de energia moldada em uma forma sólida. Mas mesmo sendo apenas isso eles conseguem ser bem úteis, e além do mais... um demônio lendário caindo perante uma hoste angelical. Há algo mais adequado do que isso?

Assim que terminou de dizer aquilo Balak tornou a agir. Já não tinha mais a necessidade de manter o orbe uma vez que já havia criado tudo que queria com ele, e por isso ele não hesitou em colocar suas mãos em uso; enquanto uma delas foi ao seu bolso a outra se estendeu em direção a Ekhart, com seu indicador em particular apontando diretamente para ele. Bastou concentrar um pouco se energia na ponta dele para que disparasse um laser de energia sagrada que, fino como era, conseguiu facilmente passar por entre todos os seus anjos e fazer seu caminho até perfurar o peito de Ekhart, atravessando-o de um lado ao outro e congelando o demônio por um momento com isso – tempo o suficiente para que alguns dos anjos próximos pudessem mover suas armas, criando dois novos cortes no peito dele.

No momento em que os cortes se abriram em seu peito, Ekhart sentiu como se toda a força que lhe restava vazasse para fora do seu corpo. Maldi... maldição... não posso cair agora, não aqui...! Tentou se manter firme, mas foi simplesmente incapaz de se aguentar de pé. Suas pernas fraquejaram e seu corpo caiu de joelhos no chão sem que pudesse fazer nada para impedir isso. Sua respiração descompassada buscava desesperadamente ar como se ele esperasse que respirar o bastante fosse lhe dar forças para reagir, mas então as sombras dos anjos caíram sobre ele no momento em que as criações de Balak ergueram suas armas, e ele então soube que não tinha mais nada que podia fazer.

Mas para a sua sorte, isso não significava que não havia nada que ninguém podia fazer.

Bafo Flamejante do Dragão Demoníaco! — O grito veio acompanhado de um mar de chamas que surgiu do mais completo nada, uma onda fantasma que engoliu os anjos e queimou as próprias criações de Balak em instante até que não restasse mais nada delas. Até mesmo o mago teve que mostrar uma reação decente perante a essas chamas, saltando ao ar e usando da sua magia para criar uma plataforma mágica flutuante que pudesse lhe suportar fora do alcance das chamas.

Tão rápido quanto vieram elas desapareceram, foram simplesmente sumindo sem aviso como se fossem uma miragem. Mas mesmo depois de sumirem elas não deixaram nada para trás; nenhum dos anjos que estavam atacando Ekhart restavam em seu caminho, e tudo que via ainda parecia queimado, meio derretido pelo calor das chamas. E a fragilidade que as coisas ganharam com isso foi ainda mais ampliada quando o Dragão Azul pousou subitamente diante de seus olhos – uma figura imponente com asas abertas e chamas fantasmas queimando ao redor da sua boca.

Você realmente achou que isso seria tão fácil, Hauss? — Questionou a voz de Kastor, furiosa e poderosa, trovejando de forma gutural como era de se esperar de um demônio. – Eu não vou deixar que você faça mal a Ekhart.

— Sim, sim, eu imaginei que você provavelmente iria entrar no meu caminho – respondeu o mago de forma tranquila, se recompondo e passando a bater as calças de seu terno para limpar a poeira delas, ignorando completamente o sangue que escorria em um ritmo cada vez mais acelerado dos seus olhos. – Algo bem problemático, pra ser sincero. Ah, as coisas seriam tão mais simples se vocês demônios apenas tivessem a paciência de esperar calmamente pelo momento em que irei matar cada um de vocês, mas nãããããooo, vocês têm que ser afobados. Bom, não importa. Vocês podem ser quão afobados vocês quiserem... isso não muda o fato de que serão reduzidos ao pó pelas minhas mãos.

Você fala demais! — As chamas azuis ao redor da boca de Kastor ganharam força, e simultaneamente chamas fantasmas surgiram também ao redor de seus braços e pernas do queimando intensamente e dando ao guerreiro um ar sinistro e demoníaco que seria capaz de fazer guerreiros experientes tremerem de medo. – Fale menos, aja mais!

As pernas do Dragão Demoníaco dobraram-se rapidamente e ele disparou contra Balak sem pensar duas vezes. Seus poderes fizeram com que um par de espadas bastardas surgissem em suas mãos no momento em que ele avançou, já revestidas por chamas fantasmas, e essas forma direto contra o Tecelão do Tempo... e em resposta a elas, Balak ergueu o antebraço.

E com seu antebraço nu ele parou o golpe de ambas as espadas de Kastor sem a menor dificuldade.

Mas... impossível! — Mesmo tão gutural que ela soava naquela forma, a surpresa não deixou de ser clara na voz de Kastor, ressoando em cada uma de suas palavras. Ele simplesmente não tinha a menor ideia de como reagir perante àquilo, e isso era natural, porquê o próprio Ekhart também era incapaz de acreditar no que seus olhos viram. – Você... você é um mago! Você não tem um corpo forte o bastante para parar um golpe como esse, quanto menos com essa facilidade!

— ... Heh, será mesmo? Será mesmo que não sou capaz de fazer o que acabei de fazer? – O tom provocante de Balak sugeria que ele estava brincando com o cavaleiro naquele exato momento, e Ekhart não duvidava que fosse exatamente isso. Se havia alguma coisa que era maior do que as habilidades e o talento natural de Balak, era a arrogância do Tecelão. – Não seja ingênuo, Kastor. Você diz que eu não tenho um corpo forte o bastante, e de certa forma você está certo, mas eu não preciso de um corpo forte. Eu tenho magias, eu tenho intelecto, eu tenho mais habilidades do que você pode imaginar... e acima de tudo, eu tenho fé.

A mão livre de Balak se abriu diante do rosto do cavaleiro, e uma intensa luz branca veio da sua palma, acompanhada pela pura força de uma onda de impacto que atingiu o Dragão Demoníaco em cheio, jogando-o para trás e fazendo com que Kastor quicasse no chão por uma ou duas vezes antes que recuperasse controle de si mesmo.

— Você entende o que quero dizer com isso, não é, Demônio? A fé é a maior arma que qualquer um pode ter. O poder da crença é muito maior do que qualquer homem pode tentar compreender, um poder que transcende a lógica e as leis físicas que regem o nosso mundo. Ter fé é o que me fortalece, e é essa fé que me protege. Mesmo que meu corpo não seja forte o bastante ou que a sua força seja ultrajante... se eu manter a fé de que seu ataque não vai me ferir, ele não vai me ferir.

Que monte de besteiras! — Retrucou Kastor imediatamente, batendo um punho fechado com tanta força no chão que uma cratera se formou por debaixo dele, como se uma pequena explosão tivesse acontecido ali. – Você espera realmente que eu acredite nisso tudo? Fé? Uma estúpida crença sem sentido? Acha mesmo que eu vou acreditar nessas bobeiras?!

­- Não – respondeu Balak sem vacilar, abrindo um largo sorriso irônico. – Mas ver você frustradinho assim nunca falha em colocar um sorriso no meu rosto.

A resposta a isso foi um novo avanço de Kastor, acompanhado por um grito furioso que ecoava pelo Quinto Andar. Balak apenas gargalhou perante a isso e permaneceu bem aonde estava, imóvel mesmo enquanto o cavaleiro fazia seu caminho em direção a ele, tão rápido quanto um raio. A espada de Kastor moveu-se contra ele, e por um momento pareceu a Ekhart que o mago iria novamente tentar bloquear o golpe, mas ele continuou a não se mover; a espada cortou facilmente através do seu corpo, partindo-o em dois, mas nenhum sangue veio do golpe, e foi questão de momentos para que o “corpo” se Balak se dissipasse para todos os lados em uma névoa esbranquiçada. Um grunhido de irritação veio da garganta de Kastor, e ainda em meio ar o cavaleiro-demônio abriu ambas as suas armas, batendo-as de forma ritmada para se manter acima do solo enquanto corria os olhos pelas redondezas, tentando ver qualquer coisa que pudesse indicar onde raios Balak estava.

— Mas por mais que eu aprecie te ver frustrado... já não tenho tempo para manter esses joguinhos.

O soar da sua voz revelou a posição de Balak. Em algum momento ele havia cruzado toda a sala para ficar de pé no canto inferior direito dela e assumir ali uma irreconhecível postura mística, com um braço erguido direto para cima, sua mão apontada para o teto, enquanto o outro estava estendido para baixo, com sua mão apontando para o chão – algo que lembrava de certa forma um relógio que marcava seis em ponto. Seis em ponto... Aquele pensamento em particular ficou preso na mente de Ekhart por motivos que o Coração Negro não conseguiu entender de imediato, mas ao continuar olhando para Balak e reparar em alguns detalhes que haviam passado despercebidos – como o sangue que fluía em quantias muito maiores dos seus olhos, as tatuagens e marcas que pareciam mais proeminentes e principalmente o fraco brilho branco que reluzia em cada uma das suas mãos e parecia ganhar mais e mais força a cada momento que passava –, não demorou para que ele compreendesse que exatamente era aquilo, e essa compreensão fez com que seus olhos se arregalassem imediatamente.

Kastor! — Gritou ele, virando seu rosto desesperadamente para o seu companheiro. – Pare-o, AGORA!

Nem havia terminado de gritar e o azul já estava avançando contra Balak, disparando com toda a velocidade e aerodinâmica possível contra seu oponente... mas já era tarde demais. Suas duas espadas rasgavam o próprio ar, deixando uma trilha de chamas azuis por onde passavam enquanto faziam seu caminho em direção a Balak.

Mas já era tarde demais.

Excitare... ad...— A medida que as palavras do seu encantamento iam sendo ditas era possível notar mudanças claras em Balak. Suas calças e cabelos dançaram ao soprar de ventos fortes e antes de muito Ekhart pode ver o mago começar a literalmente flutuar a alguns centímetros do solo, erguido não pelo vento, mas pelo que parecia ser a própria força sagrada que vinha dele. Enquanto ele falava ambas as suas mãos se moviam como que por vida própria, passando as suas posições superiores e inferiores para uma posição central, abertas diante do peito de Balak e estendidas em direção aos céus, com a energia de uma se misturando a da outra. Ele mal havia tido tempo de terminar de assumir essa posição quando Kastor se o alcançou, já movendo sua espada flamejante contra ele... bem no exato momento em que os olhos de Balak brilharam e seu encantamento foi concluído. – LUCEM!

Sempre unidas, as mãos de Balak ergueram-se trazendo consigo uma energia pura que parecia quase uma espécie de água branca, oferecendo-a aos céus como se fosse uma oferenda aos deuses, e isso não foi tudo que seu movimento trouxe. Um movimento tão simples e aparentemente inofensivo como aquele foi capaz de bloquear completamente o golpe de Kastor, repelindo sua espada com tanta força ao se chocar com ela que a mesma foi jogada girando para trás até se cravar na parede, mas essa foi a menor das preocupações. Ao fim do movimento de Balak a “água” em suas mãos foi jogada ao ar, aonde ela brilhou por toda a duração de um segundo, antes que seu brilho se intensificasse ainda mais em um momento e o que até então não era mais do que um monte de líquido espalhado aleatoriamente pelo ar ganhasse solidez na forma de uma dezena e meia de raios de pura energia que pareciam ter vida própria. Eles se contorceram em meio ar numa velocidade que rivalizava com a da própria luz de forma a não só dar a volta por detrás de Balak como também investirem contra o próprio Kastor. Com a velocidade que eles tinham e a situação na qual ele se encontrava, o cavaleiro azul não teve a menor chance de tentar reagir. Os raios brancos o acertaram de baixo para cima, e com cada toque deles uma pequena explosão luminosa se formava, forte o suficiente para causar um dano visível e lançar o corpo de Kastor para cima, fazendo com que ele se afastasse dos raios, o que dava espaço para o processo se repetir.

Empurrado pelos raios brancos, Kastor foi jogado aos seus, empurrado para cima de novo e de novo com cada vez mais força. Um novo buraco foi criado no teto pelo seu corpo enquanto os raios continuavam a empurrá-lo, fazendo uma explosão luminosa ainda maior quando acontecia de todos entrarem em contato com ele simultaneamente. O cavaleiro resistiu bravamente em silêncio perante a esses ataques por algum tempo, mas não demorou para que os seus gritos de dor começassem a ecoar e o seu sangue e pedaços das suas escamas caíssem dos céus.

Kastor! — Gritou Ekhart, afobado. Graças aos golpes Sagrados que havia recebido a sua regeneração natural não havia sido tão útil quanto ela normalmente seria, mas ela ainda foi mais do que o bastante para restaurar seu corpo o suficiente para que ele conseguisse se levantar novamente naquele momento, movido pela sua fúria e determinação. Seus orbes dourados foram imediatamente para Kastor, mas eles logo moveram-se para fitar intensamente Balak Hauss.

Uma máscara furiosa dominou seu corpo ao ver o mago, e ela incentivou Ekhart a partir para o ataque. Seu braço se estendeu, suas garras afiadas apontando diretamente para Balak, e uma dezenas de tentáculos de sombras surgiram a partir do seu braço, avançando contra o Tecelão à uma velocidade inacreditável, como se fossem lanças de arremesso.

— Parece que você está irritado, Coração Negro – comentou Balak, perfeitamente calmo enquanto observava o ataque que vinha em sua direção. Dois dedos e um pouco de energia foi tudo que ele precisou para criar uma barreira mágica invisível que destruiu a maioria dos tentáculos imediatamente assim que eles bateram de frente com ela... por um curto período de tempo. Ekhart foi rápido em entender o que estava acontecendo ao ver aquela barreira em ação, quase tão rápido quanto foi em reagir a isso; um estalar de seus dedos foi todo o necessário para que seus tentáculos girassem rapidamente sobre o seu próprio eixo, enrolando-se enquanto giravam em alta velocidade, fazendo com que eles começassem a parecer mais brocas negras do que tudo. A barreira de Balak não pode parar a investida desses, mas isso não foi o suficiente para representar uma ameaça ao mago, e com uma graça e destreza invejável o Tecelão do Tempo contorceu facilmente seu corpo de forma a evitar cada ataque que quebrava a sua barreira com facilidade. – Compreensível. Parece que até mesmo demônios são capazes de sentir a morte de seus irmãos. Mas... talvez seja melhor se preocupar consigo mesmo.

Foi o tempo dele ouvir aquilo para que um brilho branco resplandecesse sobre o rosto de Ekhart, atraindo o olhar do demônio em sua confusão. O que viu a olhar na direção daquele brilho foi um orbe branco e iluminado, do tamanho de uma cabeça, planando em meio ar como se estivesse ali deste o início de tudo. Oh... ô-oh. Não era preciso um gênio para saber que aquilo não era nada bom, mas quando Ekhart começou a mover sua outra mão para tentar destruir aquilo ele sentiu outros brilhos caírem sobre ele, e a luz deles queimou. Seu corpo entrou em combustão espontânea assim que a luz começou a banhá-lo, ardendo em chamas brancas estranhas – chamas que não pareciam estar causando dano real a ele, mas que doíam como se seus próprios nervos estivessem derretendo. Tentar fazer alguma coisa enquanto sentia tanta dor era praticamente impossível; o máximo que ele pôde fazer foi pegar relances do que a provocava quando moveu seu rosto ao redor e ver mais alguns dos vários orbes que lhe cercavam. Três, quatro, cinco... não sabia mais quantos eram eles, e não conseguia pensar o suficiente com toda aquela dor para tentar raciocinar sobre isso.

— Vocês demônios são oponentes bem problemáticos. Lucem é uma das magias mais fortes do elemento Sagrado que conheço, e mesmo assim duvido que ela será o suficiente para acabar com Kastor; provavelmente terei de executá-lo com alguma outra coisa quando ele voltar ao chão. E você... por mais que a sua defesa e regeneração não sejam tão boas quanto as de Kastor, elas ainda são irritantes o suficiente para ser um empecilho. E como eu já estou farto de lidar com você, convém oblitera-lo com uma de minhas magias mais poderosas. Seja purificado pelas doze estrelas que formam a coroa divina, demônio, e desapareça junto da sua corrupção! — O braço direito de Balak cruzou-se diante dele, com dois de seus dedos apontando para detrás do seu ombro esquerdo, e um segundo depois esses dedos brilhavam com a sua energia. Uma luz branca consumiu seus olhos sangrentos, e de uma só vez ele descruzou rapidamente seu braço, dando com isso a ordem de execução. – Sanctus Corona!

Os doze orbes avançaram de uma vez com o soar da sua ordem, investindo contra Ekhart de todas as direções em uma situação na qual ele simplesmente não tinha condições de tentar se defender. Seu impacto fez com que eles explodissem simultaneamente, e essa explosão foi em uma escala muito maior que as pequenas explosões sucessivas que Kastor estava sofrendo, algo que fez com que uma intensa luz branca engolisse todo o Quinto Andar. O mago teve que cobrir seus olhos com o braço para se proteger dessa luz, mas isso mais do que valeu a pena, pois quando voltou a abri-los ele teve a visão do seu mais triunfo.

Ekhart estava caído sobre seus joelhos, com fumaça subindo de todo o seu corpo. Ele não trazia nenhum ferimento visível, mas era impossível não saber que ele estava à beira da morte pela sua postura. Sua boca aberta tentava balbuciar alguma coisa, mas só conseguia liberar gemidos estranhos e medonhos, e seus olhos, embora ainda estivessem abertos, estavam também completamente esbranquiçados, como se ele já tivesse perdido completamente a consciência. Seu corpo agora era humano, e ao lado do seu corpo estavam vários cacos e destroços negros – o que havia restado do que a Corona havia feito à sua forma demoníaca.

Teve a chance de contemplar essa visão de Ekhart por um segundo ou dois antes que o resto do seu corpo desmoronasse de uma vez ao chão, marcando a sua derrota com seu baque.

Por um momento Balak ainda ficou imóvel, apenas fitando aquilo com incredulidade, sem poder acreditar que havia realmente alcançado seu objetivo. Não demorou muito para que a incredulidade desse lugar a alegria, no entanto, e com um sorriso largo no rosto ele fez seu caminho até o corpo de seu oponente.

— ... Heh. Chega a ser irônico. Por mais que eu tenha lutado por todo esse tempo e dedicado tantos esforços em cima disso, eu ainda me sinto extasiado em ter derrotado um dos hospedeiros. Como um homem que fez o impossível. – Enquanto falava Balak se aproximava, e sua mão direita era progressivamente envolvida em um brilho branco, tão similar ao das várias magias sagradas que ele havia usado naquela batalha. – Essa seria uma chance perfeita para o golpe final... mas eu não posso fazer algo assim, não é mesmo? Se eu te matasse a alma do Coração Negro seria libertada, e ele iria simplesmente tomar algum outro hospedeiro em algum lugar do mundo. Sem uma forma de aniquilar a própria essência da vida de alguém, matar você seria estupidez descomunal, nada mais do que o desperdício de uma vida inutilmente. Então, por mais que eu queira o fim dos demônios, eu vou ter que me contentar em apenas selar o Coração Negro... só que fazer isso implica em ter que arrancar a alma dele do seu corpo, e a alma de um demônio se funde bastante à própria essência do humano que o hospeda no período de um ano após o início dessa hospedagem, o que basicamente significa que eu não tenho como separar um do outro sem causar a sua morte. Não espero que concorde com isso, ou sequer que esteja ouvindo o que estou falando em primeiro lugar, mas... bom, digamos que a sua aprovação nunca foi uma preocupação minha. – Parou bem diante do corpo do demônio derrotado e ergueu sua mão acima dele. O brilho nela se intensificou a medida que Balak ia dedicando seu poder a ela. – Sinto por isso, mas por mais que você esteja derrotado agora, eu não posso correr riscos. Demônios são resistentes, então você deve sobreviver mesmo depois que eu destruir seus braços e pernas. Isso deve te deixar fora de ação por tempo o suficiente para que eu possa realizar o meu ritual.

Os primeiros feixes de luz destrutiva já haviam começado a vir da palma da mão de Balak no momento em que ele ouviu o som de algo vindo em sua direção com uma rapidez tão descomunal que podia sentir como se o próprio ar estivesse sendo cortado pelos seus movimentos. Tentou reagir, mas era tarde demais; uma lâmina desceu sobre ele, abrindo suas costas com um corte profundo que fez com que seu sangue espirasse. Tudo que conseguiu fazer foi ranger seus dentes com força para não gritar de dor e de lançar para frente impulsionado pela energia que disparou das solas dos pés, manobrando-se ainda em meio ar para que aterrissasse já voltado para seu oponente e obtendo com isso uma boa visão do estado dele.

Ao contrário de Ekhart que não tinha marcas de ferimentos pelo seu corpo, Kastor parecia ter acabado de tomar uma surra. Tal como o Demônio Negro, ele havia forçado para fora de sua fora demoníaca pelos ataques, mas não completamente; ele ainda tinha chifres menores, as asas de dragão (embora essas parecessem muito mais esqueléticas agora), e escamas azuis se misturavam a sua pele em certos pontos. Suas presas ainda eram avantajadas, e cada vez que ele respirava pela boca (o que era constante graças a clara exaustão dele), o que escapava dos seus lábios era uma golfada de chamas azuis. Sua armadura havia sido destroçada, deixando apenas retalhos de sua camisa e um par de calças rasgadas para o cavaleiro, e isso tornava algumas das várias feridas que ele tinha espalhadas pelo seu corpo visíveis, embora fosse impossível dizer ao certo se o sangue que via nele era dele ou seu, dado a forma como seu sangue havia espirrado com o último golpe.

O que podia dizer ao certo naquilo era que o olhar de Kastor para ele era o de alguém que estava decidido. Alguém que não iria cair sem lutar primeiro.

— ... Huh. Entendo. Então, mesmo o Lucem não foi o suficiente para te tirar de ação, nem mesmo por alguns minutos. Eu suponho que devia esperar algo assim, ela não é tão forte quanto a Corona e você é claramente o mais resistente dos dois, mas mesmo assim... impressionante. Meus parabéns Kastor, você conseguiu me surpreender com isso. – Bateu palminhas sarcásticas para o cavaleiro enquanto ele continuava a lhe encarar com aquele seu olhar inflexível e fulminante. Não se importava muito com aquele olhar, francamente; o tempo que Kastor gastava dedicando-se a ele era o tempo que Balak aproveitava para curar suas feridas. – Mas... talvez seja cedo demais para lhe parabenizar, cavaleiro. Afinal de contas, por mais que você tenha conseguido sobreviver, você está prestes a morrer. Shell já caiu faz tempo, e Ekhart acabou de ser derrotado pelas minhas mãos. Tristah guarda o Quarto Andar, e Jiazz deve estar esmagando o que restou das forças do Salão Cinzento nesse exato instante. Você não tem amigos, Kastor. Nenhum aliado que possa te proteger. Agora somos só eu e você. Mano-a-mano.



Notas finais do capítulo

Primeiro Andar – O Mundo de Pedra

Ylessa VS Piromaníaco (Vencedora: Ylessa)
Bokuto VS Shiva (Vencedor: Bokuto)
Soulcairn VS Kong (Vencedor: Soulcairn)
Duke VS Bertold (Vencedor: Duke)
Breath, Denis, Zetsuko e Blair VS Alcatraz e Zumbis (Vencedores: Quarteto)
Jane VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Syd VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Bokuto VS Cleus (Luta Interrompida)
Bokuto e Syd VS Ibur (Vencedores: Bokuto e Syd)
Breath, Denis, Zetsuko, Blair, Syd, Coralina e Orochi VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)

Segundo Andar – O Labirinto Eterno

Maoh VS Zaniark e Byron (Vencedor: Maoh)
Kyanna VS Steelex (Vencedora: Kyanna)
Teigra VS Behemoth (Vencedora: Teigra)
Mefisto VS Zumbi de Zephyr (Vencedor: Mefisto)
Hozar VS Reivjak (Vencedor: Hozar)
Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Octo Gall)
Bryen VS Octo Gall (Vencedora: Bryen)
Goa VS Saber (Vencedora: Saber)
Anabeth VS Saber (Vencedora: Saber)
Cleus VS Saber (Em andamento)
Valery e Bryen VS Presas (Interrompida; Valery morta)
Senjur VS Presas (Vencedor: Presas)
Bryen e Enderthorn VS Presas (Vencedores: Bryen e Enderthorn)
Maoh, Enderthorn, Bokuto e Titânia VS Jiazz (Em Andamento)

Terceiro Andar – O Deserto de Ossos

Hozar VS Gunlamar (Luta Interrompida)
Trevor e Marco VS Gunlamar (Vencedores: Trevor e Marco)
Trevor e Marco VS Dokurei (Vencedor: Dokurei)
Ex, Cleus e Ylessa VS Dokurei (Vencedores: Ex, Cleus e Ylessa)
Ex, Cleus e Ylessa VS Jiazz (Vencedores: Ex, Cleus e Ylessa)

Quarto Andar – A Catedral

Hozar VS Tristah (Em Andamento)

Quinto Andar – Elísio

Kastor, Ekhart e Shell VS Balak e o Anjo de Sangue (Fragmentada)
Kastor e Ekhart VS Balak (Fragmentada)
Shell VS Anjo de Sangue (Vencedor: Shell)
Ekhart VS Balak (Vencedor: Balak)
Kastor VS Balak (Em andamento)

Primeiro Andar Subterrâneo – Terra das Bestas

Odin, Soulcairn, Gwynevere e Ezequiel VS Hashmaul (Vencedores: Odin e Soulcairn)

Segundo Andar Subterrâneo – Terras Úmidas

Titânia, Vaen, Chappa e Dayun VS Retalhador (Vencedora: Titânia – Vaen e Chappa mortos, Dayun inconsciente)



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