A Garota Dos Defeitos escrita por Tamires Rodrigues


Capítulo 33
Quebrada


Notas iniciais do capítulo

Oi oi voltei gente :)
Foi bem difícil escrever esses últimos capítulos, bagunçou um pouco comigo, porque me fez lembrar muitas coisas pessoais.Mas espero que gostem



Já havia parado de chover, quando Gabriel estacionou o carro de Phil em frente a minha varanda. Ele rapidamente deslizou para fora, e abriu a porta para mim.

—Obrigada - falei baixinho sem fazer contato visual.

Meus dedos tremiam tanto que eu não consegui inserir as chaves no buraco da porta da casa. Gabriel destrancou-a para mim.

Sorri em agradecimento, mas pareceu tão falso, que se desfez tão rápido quanto surgiu.

Uma vez dentro de casa, eu acendi as luzes da sala de estar, e da cozinha.

Meu telefone tocou no meu bolso-felizmente não danificado pela chuva - o identificador de chamadas mostrava que era Beca, rejeitei a ligação, mas segundos depois foi a vez de Caíque ligar, ignorei novamente, e joguei o celular no sofá.

Minha mente divagou para anos atrás quando vovô morreu. Meu pai recebia ligações de parentes e amigos dando suas condolências, e o quanto isso tornou tudo mais difícil, apesar das pessoas imaginarem estar fazendo justamente o contrário. Eu era muito pequena naquela época para entender a profundidade que a perda de alguém importante pode causar em alguém, mas eu sabia pelo olhar no rosto do meu pai que muitas vezes as ‘’ligações solidárias’’ abriam toda vez uma ferida recém - cicatrizada.

Eu sabia que Beca estava apenas checando se eu estava bem, mas isso não impediu que a vontade de chorar retornasse.

— Por que você não toma um banho quente, enquanto eu preparo algo para você se aquece?- Gabriel sugeriu suavemente tocando meu braço para chamar minha atenção.

Arrastei meu olhar até ele, e balancei a cabeça lentamente. Ele ainda estava um pouco molhado assim como eu.

— Você precisa de um banho quente também, ou vai ficar gripado. -Ele esboçou um leve sorriso, e eu continuei falando querendo me manter ocupada. - Sua roupa está nos fundos na área de serviço.

— Certo, eu estarei nelas, assim que você voltar do seu banho, Ok? – Sua voz era terna, e cautelosa, como se estivesse falando com um animal encurralado. Por algum motivo isso fez com que novas lágrimas surgissem. Eu fitei meus pés para que ele não visse.

— Ok.  

Caminhei para longe, com passos largos, e pesados.

Dentro do banheiro, eu acendi a luz, e coloquei minhas roupas limpas em cima da pia, foi quando enxerguei meu reflexo no espelho.

Um reflexo de uma garota que não era meu.

Durante todo o tempo em que vovó esteve internada eu conscientemente evitei toda e qualquer superfície refletora, com medo de me enxergar exatamente, como eu me sentia agora.

Quebrada.

Eu estava quebrada.

Cada pequena partícula de esperança que eu cuidadosamente mantive inteira ao longo dos dias estava deteriorada, quebrada aos meus pés , como se estivesse zombando de mim , por ser tão estúpida.

Minha vida estava ruindo, e eu só consegui ser capaz de assistir os pedaços se espalharem ao meu redor.

Eu não tentei afastar as lágrimas que caiam, enquanto eu me despia, eu me sentia cansada demais para isso. Como se cada movimento sugasse um pouco de mim. Um pouco de uma energia que eu não tinha.

Abri o chuveiro, e entrei no boxe. Em poucos segundos o banheiro estava envolto em uma densa nuvem de fumaça. A água estava quente, pelando, mas eu continuava com frio. Deixei o jato de água quente cair pelo meu corpo, e deslizei pela parede, quando minhas pernas não sustentaram meu corpo.

Abracei meus joelhos, e cerrei meus olhos.

Eu me escondia na casa dela, quando não queria lidar com ninguém. Nós comíamos biscoitos de chocolates que ela assava, e assistíamos filmes românticos, e clichês.

Uma bola de histérica começou a se formar na minha garganta.

Acho que gritei, mas foi algo tão cru, tão animalesco que eu não tive certeza que realmente pertencia a mim.

—Você está bem?-Gabriel indagou. - Posso entrar?

— Eu estou bem - falei.

— Você precisa de ajuda?

— Não! – Tentei levantar, mas minhas pernas não me obedeceram.

— Por que você gritou? – Nem eu mesma sabia.

— Eu estou bem – repeti sem convicção. -  Saio em um minuto.

— Me deixe entrar.

— Vá embora, por favor- eu tentei soar firme, mas as lágrimas ficaram evidentes na minha voz.

Eu escutei um barulho na porta como se ele estivesse chutando-a, ou a socando.

— Se não abrir-ele ameaçou- eu juro que vou arrombá-la.

— Eu não posso abri-la, está bem? Eu sentei, e agora não consigo me levantar. Por favor, basta ir!

— Estou entrando- avisou

Gritei mais de surpresa do que por qualquer outra coisa, porque ele realmente arrombou a porta.

— Eu estou nua. - O vidro do boxe era fosco, e cobria a maior parte do meu corpo, mas a vergonha fez com que eu me encolhesse ainda mais.

Ele suspirou alto.

— Eu juro que não vou olhar para você, Formiguinha. Só... Deixe-me saber que está bem.

Estiquei meu braço e encerrei o fluxo de água quente.

— Pode me alcançar uma toalha, por favor? – Eu me sentia tão patética, mas meu corpo parecia fraco e mole demais para qualquer coisa.

Eu podia ver o contorno do seu corpo, através do vidro.

Uma toalha rosa caiu por cima do boxe, eu a usei para cobrir o máximo possível de mim.

— Está coberta?

— Sim, mas...

Ele me ignorou, e abriu à porta do boxe, eu odiei parecer tão fraca.

A toalha mal me cobria, mas ele olhou nos meus olhos quando se abaixou e me segurou, me levantando com facilidade, e gentileza. Eu estava molhando-o novamente, e ele nem parecia se importar.

Ele pegou mais uma toalha da bancada da pilha, e começou a secar meu cabelo.

—Obrigada- sussurrei. – Eu tive essa vontade quase infantil, de ter alguém me cuidando de mim então eu cedi.

Ter alguém secando meu cabelo me fez  lembrar da minha infância de quando minha mãe fazia isso para mim. Fazia tanto tempo, que era estranho lembrar.

Quando ele já tinha eliminado o excesso de água do meu cabelo, pendurou a toalha em um dos ganchos da parede, limpou a garganta, e perguntou:

— Será que você consegue se vestir sozinha ou quer...?

Balancei a cabeça, afirmando que eu podia fazer isso sozinha.

— Vou estar do lado de fora, caso precise de mim.

Foi estranho saber que ele estava do outro lado da parede enquanto eu me vestia, me fez mais consciente do meu corpo, acho.

— Pode entrar- eu disse quando vesti meu pijama.

Quando ele passou pela porta, me jogou um breve sorriso de desculpas.

— Lamento pela porta.

Dei de ombros, imaginado a reação do meu pai, e quase sorri.

— Fique a vontade para explicar para os meus pais.

Ele fez uma careta, e sorriu.

— Mal posso esperar-brincou. - Eu fiz torradas, e um pouco de chá para você.

Torradas, e chá, um arranjo estranho para Gabriel.

—Eu estou me sentindo melhor esbocei um meio sorriso. - Vá tomar seu banho.

Ele sustentou meu olhar, como se esperasse que eu fosse cair em prantos novamente.

— Quer que eu mostre a você onde estão suas roupas?

— Não, - ele disse - eu lembro onde estão. Apenas coma alguma coisa antes de ir dormir.

—Eu vou – falei dando as costas para ele, indo em direção à cozinha.

Esperei até ter certeza que o chuveiro estava ligado, para jogar o chá dentro da pia, e esconder as torradas dentro do forno. Eu não estava com fome, mas Gabriel estava querendo ajudar e tinha se preocupado comigo o bastante, para preparar algo especialmente para mim, sendo assim eu não queria que ele se sentisse mal vendo que eu nem tinha tocado em qualquer uma das coisas que ele preparou.

****

Puxei meus cobertores até o queixo, esperando as garras do sono me puxarem.

Eu queria dormir.

Dormir, e acordar em um mundo em que pessoas não morrem de repente.

Você disse para deixarem-na ir – uma voz feia apontou para mim.

Eu me perguntei como meus pais e Katherina estavam se sentindo. Mas por mais egoísta que soe eu estava aliviada por não estar mais no hospital.

Obriguei meus olhos a se fecharem, mas cada vez que isso acontecia, eu a enxergava. E isso era demais. Como se uma nova ferida se abrisse.

Olhos fechados, uma mão pendendo para fora da cama, sem respiração. Morta.

Se você não tivesse dito para pararem...





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