A Garota Dos Defeitos escrita por Tamires Rodrigues


Capítulo 32
Deixe-a ir.


Notas iniciais do capítulo

Lembram que eu disse que mudei algumas coisas da fic? Bem nesse capítulo está um pouco mais nítido... Como o mês em que a fanfic se passa , e o nome da cidade também mudou, desculpa se confundi alguém , mas eu juro que isso não vai atrapalhar. Eu tinha uma ideia quando comecei a escrever a Suzanne e fui mudando conforme postava e escrevia, mas agora eu meio que voltei a me encontrar com a ideia antiga. Bem , era só isso, qualquer coisa me digam, e COMENTEM! Tenho uma surpresinha nesse capítulo hahah



Não deveria estar tão frio, uma vez que ainda estávamos saindo de maio. Entretanto como se fosse inverno, o dia amanheceu nublado.

Passei os braços ao meu redor, tentando conter o frio que eu sentia – que não tinha nada a ver com a temperatura.

Parada diante de uma das janelas, eu observei a chuva cair, fitando as gotas deslizarem pelo vidro colorido da lanchonete, eu quase podia esquecer que Gabriel estava na fila á alguns metros de mim, quase podia me esquecer da conversa com vovó ontem, e do fato de não ter contado a ninguém, quase podia esquecer onde eu estava, e principalmente do por que.

Eu quase podia esquecer tanta coisa, que se tornava tentador realmente esquecer. É engraçado, mas recentemente eu li um livro em que era possível apagar qualquer memória que desejasse. Isso me fez pensar em que lembrança dos últimos dias eu escolheria apagar. A protagonista do livro não conseguiu se desfazer de nenhuma, mesmo as dolorosas.

Qual seria a minha escolha?

Por um segundo eu não ouvi a voz que ressoava nos altos falantes, eu estava absorvida demais nos meus pensamentos para isso , mas então a urgência transmitida pelas caixas de som aumentou, foi tudo em que eu me concentrei.

Dr. Matheus, emergência quarto 108.

Essas palavras repetiram, até que eu soube o que estava acontecendo.

Quarto 108... O quarto da vovó.

Antes que eu pudesse perceber, eu tinha começado a correr. Esbarrei em pessoas, e vagamente notei que falavam comigo, vagamente notei que alguém corria atrás de mim.

Uma equipe médica estava tentando reanimá-la.

Você precisa me deixar ir, quando à hora chegar – ela disse.

Essa é à hora certa?

Vovó estava pronta para ir, mas... Eu estava para deixá-la?

Eu nunca vou estar pronta vó.

— PAREM – eu gritei entoando cada grama do meu desespero, em uma única palavra.

Um dos enfermeiros parou com o desfibrilador olhando incerto para mim.

— Ela precisa ir... Ela está pronta- eu disse, e soei tão baixa, e pequena, que minha voz poderia quebrar ao meio._Por favor... Só deixem que ela vá.

Por uma eternidade de segundos, todos ficaram apenas me olhando, mas depois todos apenas assentiram.

— Hora da morte? – Dr. Matheus perguntou.

—21h15min – alguém respondeu.

E eu desabei.

Braços fortes me seguraram antes que eu atingisse o chão. Um cheiro amadeirado me cercou, e eu tentei me concentrar nisso, ao invés do corpo sem vida da vovó.

O restou foi um borrão.

Eu agarrei o moletom dele, em busca de equilíbrio como uma criança aprendendo a andar, mesmo com seu braço ao redor da minha criança.

As pessoas presentes no elevador permaneceram em silêncio talvez em respeito a mim, mesmo sem ter certeza do porque eu estava chorando, então tudo que eu ouvir eram meus próprios soluços, e sua voz doce, sua voz tão suave me dizendo que iria me levar para casa, que iria cuidar de mim.

Foi Gabriel que deu a noticia a todos, embora eu ache que eles adivinharam quando me viram- de qualquer forma eu não o invejei. Todos pareciam tão perdidos, até mesmo Phil agia como se não soubesse o que fazer.

Katherina me abraçou, ela parecia tão cansada, e triste, lágrimas transbordavam dos seus olhos.

— Você quer ir para casa?- ela perguntou.

Eu não percebi a doença, e então eu a deixei ir.

Eu a deixei ir.

Atrás de nós, nossa mãe chorava baixinho, abraçada ao papai.

Fiz que sim com a cabeça.

Eu não conseguiria lidar com mais nada- eu não queria.

Minha irmã olhou por cima do meu ombro.

— Cuide dela – ela pediu.

A chuva era gelada do lado de fora, mas eu não me importei, apenas deixei que Gabriel me guiasse pelo estacionamento à procura do carro de Phil. Acho que prendi a respiração durante todo o tempo, soltando-a só quando ele começou a dirigir para longe.

Olhei pela janela, resistindo ao impulso de gritar. Eu queria gastar minhas energias, até o esgotamento, e dormir. Dormir, dormir, dormir, dormir.

Dormir, até esquecer.

—Você está bem? – Gabriel indagou hesitante.

Assenti devagar, não confiando na minha voz.

Será que eu soaria tão quebrada, quanto eu me sentia?

— Ela se foi- eu testei as palavras em voz alta, mas elas tinham um gosto ruim, quase azedo na minha boca.

Pressionei meus lábios juntos tentando conter as lágrimas, mas foi inútil, porque um soluço escapou e depois outro, e mais outro.

Gabriel apertou o volante com tanta força, que os nós dos dedos ficaram branco, sem dizer nada, ele parou o carro, desafivelou nossos cintos, e me puxou para o seu colo.

Ás lágrimas queimaram o fundo dos meus olhos com mais força.

— Fale comigo - pediu. Seus olhos brilhando com preocupação.

— Eu sei que ela estava pronta... –gaguejei entre soluços. - Mas eu não estava.

                                                          ***

Gabriel

Eu não acho que já me senti tão inútil na minha vida, vasculhei minha mente em algo que eu pudesse dizer que a confortasse, mas não encontrei nada. Nada além de palavras vazias que tantas outras pessoas já haviam me dito.

— Você está bem? – perguntei por fim.

Suzanne balançou a cabeça devagar, como se não confiasse na própria voz.

— Ela se foi – murmurou devagar. Foi quase como se obrigasse a si mesma a dizer isso.

Apertei o volante com força, lembrando-me do jeito que eu me senti quando minha mãe morreu.

Perdido.

Tão parecido com ela, quando agarrou minha roupa no elevador, tentando se manter em pé. Eu nunca a deixaria cair, e queria que ela soubesse disso.

Pelo canto do olho eu a vi pressionar os lábios juntos, lutando contra as lágrimas.

Ela parecia tão frágil, quanto uma porcelana rara, e eu tive medo que se eu a segurasse do jeito errado eu pudesse quebrá-la.

Sem dizer nada, eu desliguei o carro, desafivelei nossos cintos, e a puxei para o meu colo. Mesmo surpresa, ela não reclamou, então eu a abracei com mais força. Se eu pudesse de algum jeito transferir a dor que ela estava sentindo para mim, eu faria sem hesitar.

—  Fale comigo – pedi procurando seus olhos.

Suzanne escondeu o rosto no meu peito, e quando finalmente falou sua voz era tremula:

— Eu sei que ela estava pronta... -gaguejou. - Mas eu não estava.

Mesmo sem entender o que ela quis dizer, eu conseguia imaginar a confusão de sentimentos invadindo seu sistema.

Eu sei como a perda pode ser destrutiva ás vezes, e eu odiava pensar que ela iria ter que passar por isso. Perguntei-me em que estágio ela estava. Negação? Raiva?

Apertei os braços ao seu redor, e fiquei murmurando baixinho que tudo ficaria bem outra vez. Não iria por um bom tempo, no entanto nós dois sabíamos disso. Mas eu faria de tudo para protegê-la, e fazer a dor ir embora.

 





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