Coração Gelado escrita por Jane Viesseli


Capítulo 3
Acomodando-se





Max observava os corredores enquanto caminhava, acompanhando as explicações claras e rápidas de Alec, que estava a apenas alguns passos a sua frente. Conforme caminhavam, portas e mais portas surgiam, sendo apresentados como os quartos dos integrantes da guarda. Não que eles realmente necessitassem de uma cama, de sono ou de descanso, mas a eternidade os ensinou que a privacidade era muito bem vinda, seja para praticar seus hobbies, para pensar, maquinar o mal ou para aplacar sua luxúria.

E a cada quarto que cruzava seu caminho, Alec voltava seus olhos para trás, retornando-os para frente no mesmo segundo. Ele ainda estava bravo pelas acusações do estranho contra sua irmã e ainda mais pelos ataques que não surtiram efeito no grande salão, mas não podia negar sentir curiosidade quanto aos segredos e poderes que tanto encantaram o seu mestre.

À frente da dupla estava Jane, caminhando com velocidade humana e constante, sua postura era imponente e calma, mas sua mente estava furiosa com as acusações descabidas daquele estranho. Maximilian acompanhava sua presença com atenção, era impossível desviar sua mente de uma criatura tão adorável e ele a admirou até que desaparecesse do corredor, adentrando sua área particular, seu quarto.

O novato cogitou segui-la num primeiro impulso, mas seu guia parou algumas portas antes, chamando sua atenção para o que – dali em diante – seria seu novo quarto... Ele tenta conter um rosnado frustrado e entra no quarto que lhe era indicado rapidamente, antes que Alec resolvesse questionar seu comportamento.

O cômodo era grande e extremamente vazio, com apenas alguns móveis feitos de mogno. Tinha uma estante vazia, um armário, uma escrivaninha com uma cadeira e uma cama larga, com cobertas tão bem esticadas que Max duvidou que um dia fora usada.

― Belo quarto – sussurrou, mais para si mesmo do que para o seu guia.

Havia tanto tempo que ele não dormia num quarto de verdade... Quer dizer, ele tinha uma pequena casa em sua terra natal, que mudava o nome do proprietário uma vez ou outra somente para despistar a sociedade humana, mas que na verdade nunca deixou de ser dele. Mas o vampiro estava tão empenhado e ocupado em procurar por Jane, que nunca dormira em seu interior uma noite sequer!

Alec – depois de fechar a porta atrás de si – observava o rosto passivo do novo Volturi, enquanto ele observava o local com certa admiração. Aquele semblante lhe pareceu familiar por um momento e sem que pudesse controlar a própria língua, ele disse:

― Se precisar de algo para compor o seu quarto, ou para matar o tempo, basta me dizer... Quero dizer, já que estou responsável por lhe mostrar o aposento, não me custará nada conseguir algumas coisas – tenta se explicar.

O vampiro vira-se de costas como se quisesse partir, mas sem realmente sair do lugar. Sua testa se enruga de repente, ao mesmo instante em que se perguntava o que estava fazendo. Desde quanto se tornara tão prestativo? Desde quanto se importava com o conforto dos outros?

― Acho que eu iria gostar de alguns livros – diz Max, rompendo os devaneios de Alec – estas estantes parecem mortas, acho que se preencher este lugar vai parecer mais normal... Mais vivo!

― Mais vivo? – repete o outro vampiro com sarcasmo, voltando-se para encará-lo.

― Acho que poderia preencher esta estante com livros, a mesa com uma luminária, papéis e canetas, o armário com algumas roupas legais, tipo jaquetas de couro ou roupas que me façam parecer um bad boy – continua, sem se deixar interromper – o que acha Alec?

Maximilian estava de costas para o vampiro, apontando para os móveis como se já pudesse ver os objetos de que falava ali, e naquele final, quando fizera a pergunta, sua cabeça tombou levemente na direção do vampiro visivelmente mais novo, dando-lhe um sorriso tão gentil e verdadeiro que fizera o corpo de Alec recuar dois passos.

Novamente uma onda de familiaridade atinge o vampiro... “O que acha Alec?”, a pergunta ecoou em sua mente como uma lembrança a muito esquecida, acompanhado de imagens anuviadas de alguém que conversava com ele, há muito, muito tempo atrás.

O vampiro mais velho desfaz seu sorriso gentil, substituindo-o por um sorriso irônico e sem interromper os devaneios que sabia que Alec estava tendo, começa a utilizar seu dom novamente. O calor característico dos humanos começa a tomar conta de sua pele, enquanto seu cheiro dominava o ar e se alastrava por todo o cômodo.

Alec respira profundamente o cheiro do novo integrante da guarda, aquilo não surtia nele o mesmo efeito que na irmã, mas ainda assim o vampiro levou as mãos à cabeça como se sentisse dor ou tontura. Não se tratava de tentação à fragrância ou de sede, tudo o que ele queria era se livrar daquelas sensações estranhas de familiaridade, de querer acolhe-lo bem, de afeição... Afeição? Não, aquilo era impossível, não era permitido a um Volturi se afeiçoar a alguém, não era permitido criar laços, pois isso resultava em misericórdia e um Volturi não podia ter misericórdia.

― O que foi pequeno Alec? – questiona Max num sussurro, colocando a mão direita nos cabelos do vampiro e os bagunçando como se fosse uma criança – Parece que se lembrou de alguma coisa...

― Não sou pequeno – explode Alec de repente, batendo contra as mãos que lhe acariciavam e encarando-o de maneira raivosa – e pare de bagunçar meus cabelos, levei muito tempo para arrumá-los!

Max sorri, soltando uma leve risada enquanto Alec arregalava os olhos de maneira assustada e tentava se recompor. O gesto, a fala, tudo aquilo desencadeou nele um comportamento que a muito estivera escondido em seu subconsciente... Mas aquela não era uma conduta comum para ele, não pertencia ao Alec imortal, o que estava acontecendo? Será que o vampiro a sua frente tinha algum tipo de magia que não fora descoberta por seu mestre? Será que o estava enfeitiçando?

― Certas coisas nunca mudam – comenta o novato distraidamente, novamente com aquele sorriso gentil – você continua o mesmo Alec que conheci...

Conheceu? O novato realmente o conheceu? Antes mesmo de seu mestre e antes da transformação? Tudo parecia tão confuso, a mente de Alec parecia girar com o cheiro humano que ele exalava, com a maneira de agir, com aquelas frases estranhas e com as influências que ele parecia causar em si... Passos foram recuados lentamente enquanto pensava e somente quando as costas do vampiro tocaram a porta de madeira, foi que ele retornou para o presente.

A esta altura, Max estava recostando ao parapeito da única e imensa janela do quarto, com a testa colada no vidro fumê – que por sinal não condizia com o ambiente rústico do castelo, provavelmente fora colocado ali para que pudessem se aproximar sem que o Sol os denunciasse. Sua mente estava longe, lembrando-se de algo que era desconhecido ao outro vampiro e a camuflagem já havia sido suspensa, permitindo que o cheiro diminuísse e que seu guia colocasse a mente no lugar...

― Você me conheceu quando ainda era humano? – perguntou Alec num sussurro, como se aquele fosse um assunto proibido, como se pudesse esconder tal pergunta dos vampiros nos quartos ao lado.

― Sim – responde, saindo de sua viajem ao passado e retornando ao momento presente – você e Jane... Os gêmeos!

― Eu não me lembro de você – continua – Jane realmente lhe fez alguma promessa? – questiona.

― Sim, ela fez...

Houve um silêncio e nenhum deles se moveu por longos minutos. Alec já se preparava para sair quando se lembrou de algo, de mais uma pergunta.

― Então você é um camaleão... – foi mais uma afirmação do que uma pergunta.

― Sou. Posso sair ao Sol, chorar como humanos e andar ao lado deles sem que notem minha natureza estranha, tornando minhas caçadas ainda mais fáceis.

― E isso aqui? – aponta para própria cabeça, atraindo a atenção do rapaz na janela – É algum tipo de feitiçaria? Essa confusão em minha cabeça faz parte do seu poder? – franze a testa em confusão.

― Não – pausa – acho que você não tem pensado muito no passado ultimamente, não é?

― Pensar no passado é bobagem.

― Isso em sua cabeça, são apenas lembranças de sua vida humana... São nubladas e confusas, mas ainda assim são lembranças do que você um dia já foi. Fazem parte de você, deveria pensar no passado um pouco mais ou acabara se esquecendo dele.

― Pensar no passado é bobagem – repete – humanos são fracos, vermes capazes de trair seus semelhantes... Não tenho que me lembrar de uma vida tão medíocre – sobe o tom de voz, sentindo um forte tom de amargor acompanhar suas palavras.

― Não precisa se lembrar da vida, somente daquilo que lhe foi importante.

― A única coisa importante pra mim, partilha a eternidade ao meu lado e se chama Jane! – rosna – Sou um vampiro, os humanos não passam de refeição para mim e brincar com seus medinhos insignificantes é a minha vingança pelo que me fizeram.

― Alec, saia daí imediatamente e retorne para o seu quarto – ordena Jane do outro lado da porta, seu tom era autoritário, ela realmente não estava gostando da forma com que o estranho estava deixando o irmão.

― Sim Jane! – concorda ele, sempre obediente à irmã mais velha como Max se lembrava, mas ele não se retira prontamente – Você diz que nos conhece – torna a falar para o dono do quarto – e fala sobre lembrar-se de coisas importantes, mas nem eu e muito menos Jane nos lembramos de você – pausa – Isso quer dizer que você não é importante... Para nenhum de nós!

O vampiro se retira do quarto sem reverências ou despedidas, apenas abrindo a porta de madeira quase a arrancando do lugar, e batendo-a atrás de seu corpo gélido. E ali, no silêncio de seu novo quarto, Max voltou a olhar para o lado de fora da janela e retomou sua camuflagem humana, deixando que seu cheiro de quando era mortal impregnasse o cômodo e uma lágrima solitária escorresse por seu rosto agora quente... Pois aquela era a única forma que tinha de colocar para fora a dor que agora o consumia!



Notas finais do capítulo

Oi pessoal, eu sei, eu seeei... Eu realmente mereço ser espancada, fuzilada, decapitada, pisada, amassada e chutada pra latinha de lixo por causa da minha demora T.T
Obrigada as leitoras que esperaram e não abandonaram a fanfic, eu lhes prometi que não abandonaria a história e realmente falei a verdade... Tentei escrever muitas histórias ao mesmo tempo e deu tudo errado, não tinha tempo para todas elas, por isso tive que finalizar Olhos de Vidro primeiro, para depois poder focar na história de Jane, a vampira do Coração Gelado...
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Não fiquem bravas com o Alec, ok!? Muito de sua raiva veio justamente por lembranças de sua vida humana, mas isso será retomado num próximo capitulo...



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