Dilemas escrita por Paige Sullivan


Capítulo 35
Capitulo 35


Notas iniciais do capítulo

Enjoy it!



Capitulo 35

Diana tinha acabado de ter uma reunião com Stolt e alguns sócios da Extreme. Tinham que terminar os prazos, porque daqui um mês as campanhas seriam lançadas semanalmente. Desde comerciais a outros tipos de abordagens. A ideia inicial era que o retorno viria em torno de três meses e se tudo desse certo, seria uma conta, talvez para sempre.

Pegou o telefone animada e pensou logo em ligar para Charles e contar a novidade. Mesmo os dois estando muito afastados e rumores rondando a mídia de que ele estava namorando Monalisa Freire, sabia que tinha que manter o profissional antes de tudo. Que depois daquela briga feia deles no apartamento, não poderia exigir nada dele. Estava confusa com relação a tudo e pediu um tempo até para Marcelo, para que depois ele não confundisse a carência dela com sentimentos e acabasse se apaixonando de novo. Assim como aconteceu na faculdade.

— Alô. – ouviu uma voz feminina e querendo ou não se irritou. Desde quando ele deixa uma mulher atender o celular dele? – Quem é?

— Diana Montenegro. – silencio do outro lado. Ficaram nesse impasse por uns minutos – Posso falar com o Charles?

— Claro. – ouviu um barulho de sapato no assoalho, e deduziu que era o dela – Pra você.

— Ah obrigado. – pegou o celular – Quem é? – falou ao longe.

— Diana.

Charles ficou olhando para Monalisa um tempo. Mesmo os dois não tendo nada sério, percebeu pelo jeito que ela falou, que não tinha gostado dela ligando para o celular dele. Imaginou que talvez ela estivesse começando a se envolver demais, mas depois pensaria a fundo nisso. Estranhou a ligação também e não sabia o que dizer. Ele e Diana não tinham se falado desde aquele dia. No máximo, alguns e-mails que só tinham ligação profissional.

— Diga Diana. – finalmente falou ao telefone – Para me ligar é algo importante.

— Claro que sim Charles. – ela engoliu em seco e deu graças por não estar frente a frente com ele – Você tem algum horário por hoje ou amanha na sua agenda? Acabei de sair da reunião com o Stolt e tenho ótimas noticias sobre o projeto e a fusão.

— Posso ver com minha secretária. Mas acho que tenho sim.

— Que bom. Porque tenho horário amanha depois do almoço. Dá pra reunir todo mundo e ir a empresa dele.

— O escritório dele já está pronto? – ele se surpreendeu. Essas coisas geralmente demoravam.

— Você sabe como é... Quando ele disse que dinheiro não era problema, rapidinho resolveram deixar pronto.

— Imagino. – riram. Pela primeira vez riram. E estacaram. Engoliram em seco ao mesmo tempo e ele olhou para os pés parecendo um adolescente – Eu falo com ela e te dou a resposta depois.

— Ok. – desligou o telefone.

Diana estava dentro do carro da empresa. Parecia segurar o choro e queria se chutar por estar desse jeito só de ouvir a voz de outra mulher no telefone dele. E ele que dizia que a amava. Que a queria... Mas também não podia exigir nada, não era mulher dele e nunca seria. Ele tinha direito de seguir com a vida dele não é?

Charles ficou ainda uns minutos olhando o telefone. Monalisa acabou pegando as roupas que ainda estavam em suas mãos e colocou na máquina. O estado estático dele ainda ali encarando o telefone a fez pensar onde estava se metendo. Não queria, mas era mulher e ele era um homem adorável e esse relacionamento deles estava começando a ficar sério demais. Pelo menos pra ela.

— Um dia eu ainda converso com ela sabia? – tirou-o dos devaneios – Porque se com tudo o que aconteceu, só o fato de ouvir a voz dela te deixou desse jeito...

— Monalisa...

— Charles... – ela chegou perto dele sorrindo e passou as mãos em seu rosto – Eu sei que você a ama. Não fica preocupado comigo não.

— Você é uma mulher tão especial sabia? – encostou sua testa na dela – Queria mesmo ter a capacidade de esquecer a Diana e te amar do jeito que merece.

— Mas não nos amamos. – ele riu e ela também – Somos apenas bons amigos que se entendem muito bem na cama.

— Não é só isso.

— É sim. – ela passou as mãos em seus cabelos e lhe deu selinhos – E quero continuar pensando assim. Não quero me apaixonar por você. É masoquismo demais. – mesmo achando que já estava apaixonada. Ele apenas a levou com calma para a sala. Beijaram-se devagar e aproveitando cada momento daquele beijo.

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Tiago e Dennis tinham acabado de sair de uma reunião com um cliente e com a equipe de mídia. Estavam exaustos e foram informados pela secretária que Charles não iria a empresa no dia, mas que já tinham uma reunião marcada com a Extreme no outro dia. Olharam um para cara do outro e antes que arrancassem os cabelos, resolveram sair pra almoçar.

— Leticia? Não ia almoçar com ela? – Dennis perguntou.

— Ela ia passar no hospital para ver a Nique, mas parece que ela vai receber alta daqui a pouco. Ela e Aline resolveram ficar sem almoçar para saírem mais cedo.

— Entendi. Vamos logo que hoje aqui está uma loucura.

Aline e Leticia também estavam ocupadas. Foram para copa depois que o almoço delas chegou e resolveram comer um pouco para enfrentarem a maratona que viria a seguir. Conversaram amenidades até que Leticia tocou num ponto importante que elas tinham esquecido ou se feito de idiotas.

— Eu tava pensando... – Aline parou de comer e a encarou – Não contei para o Tiago que fiz o teste.

— Lembrou disso só agora? Um mês depois praticamente? Se não for mais. – Aline deu de ombros.

— Você pelo visto também não falou nada.

— Isso era pra ficar entre nós duas. – ela olhou séria.

— Não combinamos nada. – ela riu e viu Aline nervosa – Não tinha contrato nem pacto de sangue.

— Engraçadinha. – parou e pensou um pouco – Vai lá e conta. Vamos ver no que vai dar.

— Se você contar eu conto! – ela riu.

— Eu não sei de nada. E deixa de implicância, esquece isso.

SÃO LUCAS

Dominique já estava arrumando suas coisas. Finalmente sairia daquele hospital. E depois do sonho que teve, só pensaria em voltar quando estivesse dando a luz.

Bruno tinha deixado um bilhete dizendo que teve que ir ao trabalho e a pegaria na hora da alta. Como ninguém no escritório dele sabia do que estava acontecendo, ele teve que explicar.

Foi parabenizado por todos, e sentiu uma alegria tremenda quando seu chefe disse que a melhor coisa do mundo era um filho. Só ai que ele finalmente deixou a ficha cair. Ele teria um filho. Independente de tudo que estava acontecendo simultaneamente, ele seria pai. Tudo o que ele sempre quis na vida.

Dominique estava vendo TV sentada na poltrona ao lado do leito. Parecia entediada quando ele chegou para pegá-la.

— E então? Dormiu melhor? – chegou perto e lhe beijou a testa. Ela agradeceu por agora ele estar calmo e com o ar mais relaxado do que do dia anterior.

— Você não ficou aqui a noite toda não? – falou ainda um pouco cansada. Ele a olhou, mas não sorriu.

— Eu disse que ia passar a noite aqui, principalmente depois do pesadelo que você teve.

— Foi horrível. – ela se encolheu e esfregou os braços – Não gosto nem de lembrar.

— E nem precisa. – ele chegou perto da janela – O dia está bom, pelo menos. Não vai chover, e o transito também está bom. Vamos chegar ao apartamento rápido.

— Quanto ao que você falou... – ela lembrou-se do que ele disse – Que história é essa de que eu vou morar com você? – se ela não estivesse com a voz tão cansada e fraca, juraria que aquele tom seria outro. O da Dominique que ele sempre conheceu.

— Porque você está carregando um filho meu. – sentou na cadeira ali em frente a ela e um pouco afastada até – Acho justo acompanhar essa gravidez de perto.

— Mas eu tenho meu apartamento, minha vida... – parou um pouco para pensar no que ia dizer – Não tem como eu largar tudo para morar com você. E até onde eu sei, você não me quer mais. – engoliu em seco. Ele também pensou em tudo o que tinha dito e se chutou mentalmente por ter sido tão grosso.

— Desculpa por ontem. – ele parecia sincero – Mesmo achando que você merecia ouvir cada palavra do que eu disse, não deveria ter sido daquele jeito.

— Tudo bem. – ela previu um sorriso, e abaixou a cabeça – Você está certo.

— Eu não quero que você modifique sua vida. É só o tempo da gravidez. – ela o encarou e engoliu em seco – Vamos ter tempo pra ver como vamos ficar. E eu quero estar perto. É meu filho também, no apartamento tem mais espaço e você vai poder ter uma tranquilidade até o médico dizer que você está bem.

— Leticia trouxe algumas coisas, mas eu preciso buscar mais então. – ela levantou e ele foi ajudá-la – Estou bem. Não preciso de ajuda. – falou serena. Ele tentou se conter, porque queria rir.

— Vai ceder assim sem falar nada? – os dois estavam bem próximos, quando ela só abaixou a cabeça e encostou-se a seu corpo, abraçou-o pela cintura e se aconchegou. Ficaram assim por alguns segundos e ela respirava fundo para não chorar – Dominique...

— Não me chama assim, por favor. – ouviu a voz embargada e tentou empurrá-la para ver seu rosto, mas ela se apertou mais a ele.

— É seu nome. – ele esfregava suas costas – Olha pra mim.

— Não. – negou veemente – Não quero que me veja assim.

— Fragilidade não é fraqueza. – empurrou-a delicadamente e a fez sentar na cama. Ela ainda estava de cabeça baixa – Olha, se você acha que não vai se sentir bem, vai pro seu apartamento e eu vou me virando com o tempo.

— Não é isso Bruno. – secou algumas lágrimas que teimaram em cair – É que eu não vou aguentar você me chamando pelo nome todo, esse seu olhar indiferente... É demais pra mim. Eu to errada e não nego, mas não preciso ser lembrada todo dia disso.

— Primeiro você reclama que eu não posso te chamar pelo apelido, e agora reclama que não posso te chamar pelo nome todo? – ele cruzou os braços – Você é muito complicada.

— Você me conheceu e gostou de mim assim. – olhou para as mãos – Mas é que eu sei que você só me chama pelo nome todo quando está com raiva de mim. – lá estava o ponto. Raiva. Ela se sentia mal por ele ainda estar com raiva dela. Ele respirou fundo e pensou por um segundo.

— Olha... – sentou ao lado dela e pegou suas mãos na dele – Não estou com raiva de você, não mais. Acho que extravazei ontem tudo que eu sentia, mas ainda estou chateado.

— Pior ainda. – fungou e depois riu. Ele a olhou sem entender nada – Mas está no seu direito, não vou protestar. – levantou e antes que pudesse pegar a mala, ele foi mais rápido.

— Não precisa ir pro meu apartamento. – ele ia acabar cedendo só pra não vê-la daquele jeito.

— Mas eu vou. – já estava limpando o rosto, prendendo o cabelo em um coque e sorrindo – Eu quero ir.

— Você quer? – ficou confuso.

— Mesmo que não voltemos mais, o fato de morarmos um tempo juntos, nem que seja por esse pouco espaço de tempo... – ia falar, mas se retesou. Ele chegou mais perto esperando ela terminar, mas ela se privou mesmo.

— O que?

— Nada. Vamos.

Ela queria dizer que seriam a família que sempre quis que fossem. Mas não poderia dizer isso a ele. Principalmente depois de o próprio ter-lhe dito que não queria mais.  Doía. Só de repensar todas as burradas e erros, sentia uma dor profunda no peito. Sabia que tinha que acertar tudo para que fosse mais feliz. Ana teria um irmão ou irmã e ela tinha o direito de saber disso. Teria que contar a verdade para a mãe dela, mesmo que isso fosse forte demais e ela ficasse mais doente do que já estava.

***

Ao chegarem ao apartamento dele, as poucas lembranças que ela tinha da noite que tiveram ali, deixou-a ainda mais nervosa e triste. Bruno foi até a cozinha e viu que precisava abastecê-la. Agora eram dois, e ela provavelmente ia ficar mais tempo ali do que ele.

— Por que você não pede uma folga a Diana? – ele disse de lá de dentro e ela foi ao seu encontro.

— Como assim?

— Já que ainda está um pouco fraca, não é melhor ficar descansando? – ela cruzou os braços e se encostou na parede.

— Não. Muito obrigada, prefiro trabalhar. Só assim consigo espairecer melhor a cabeça.

— Mas eu... – ela o parou com a mão.

— Bruno, já estou fazendo tudo certo. Vou tomar cuidado, tenho o telefone de todos os médicos e o seu. Vou morar aqui... Preciso trabalhar. Não vou conseguir ficar trancafiada em um apartamento o dia todo. Ainda mais não sendo o meu.

— Ok. – concordou finalmente – Mas eu vou te levar todos os dias pro trabalho e vou te buscar. Quando não puder, vou falar com a Letícia e com a Aline.

— Só estou grávida Bruno. – ela sorriu da preocupação dele – Não estou doente.

— Está sim. – ele discordou – Está fraca. Não chega a ser doença, mas não é bom ficar andando assim sozinha.

— Tá. Tá. – ela foi andando para a sala e pegou sua mala – Você venceu. Onde eu vou ficar?

Esse era um detalhe que ele ainda não tinha pensado. Levou-a ao outro quarto do apartamento e assim que deixou a mala, mostrou todas as dependências. Contou que a diarista ia duas vezes por semana e que o apartamento tinha sido dado pela empresa. Essa parte ela não sabia e ficou surpresa. Mostrava que ele tinha se dado bem mesmo no trabalho.

Conversaram mais um pouco e tentaram começar um acordo que iria durar para sempre na vida deles.

NO OUTRO DIA

Diana estava em seu escritório conversando com Aline e terminando de arrumarem as coisas para a reunião. Charles havia ligado, e elas teriam que ir para lá. Como era algo definitivo, apenas ela e Aline iriam. Como Dominique estava dentro do escritório resolvendo todas as pendências que ficaram do dia anterior, deixariam ela e Leticia coordenando as coisas. Principalmente Letícia, que estava atolada com todas as ligações que recebia na empresa.

— Leticia, qualquer coisa, liga pra Aline.

— Pode deixar.

Entraram no carro e o motorista foi levá-las a PP. Enquanto conversavam amenidades, o celular de Aline tocou.

— Mãe? – sorriu ao atender – Saudades!

— Eu também minha filha! – Tereza Resende, mãe de Aline, estava do outro lado da linha – Acredita que só agora conseguimos um local que tenha cobertura? Porque nem telefone nós tínhamos por perto.

— Imagino. – ela sorriu – E onde a senhora está?

— Agora eu vim em Moçambique. Seu pai precisa comprar uns suprimentos e depois voltamos para o Congo.

— Congo mãe? – ela chiou – Dizem que lá é muito perigoso.

— Todos os lugares são Aline. Não fica preocupada, está tudo bem, e andamos com guardas o tempo todo.

— Ah é claro, eu não podia sair a noite porque eu poderia ser assaltada, mas a senhora pode andar pelo Congo como se estivesse andando dentro de casa. – Diana se conteve para não gargalhar com o comentário e Aline revirou os olhos – Eu sei que a senhora é minha mãe e que se preocupa... Mãe... Olha só, eu também tenho o direito de me preocupar.

— Claro, minha filha. Mas vai ficar tudo bem. Olha só. E os namorados? – Aline viu que elas chegaram ao prédio da PP e foi saindo do carro.

— Estou namorando mãe. – respondeu toda feliz – Mas não posso falar agora, porque estou entrando em uma reunião.

— Ah que pena!— elas já entravam no elevador – Agora só vou poder te ligar daqui a duas semanas. E você me conta todas as fofocas.

— Vou mandar por e-mail pra senhora. – ela gargalhou – Ah é, esqueci que onde a senhora está não tem telefone.

— Empolgação, eu sei.  Bom filha, to indo, e espero que esse namorado seja lindo de morrer e muito carinhoso.— elas chegaram ao andar dos meninos, e Dennis já a esperava com um sorriso em cada canto do rosto.

— Pode ter certeza, que ele é tudo isso e mais um pouco. – Diana sorriu quando viu que os dois chegaram perto do outro como que por atracção*. Aline desligou o telefone e ele lhe deu um beijo na bochecha já que estavam em ambiente de trabalho.

— Vamos? – ele apontou a sala de reunião. Assim que chegaram, Tiago e Charles já estavam sentados e conversando.

Assim que as viram ficaram estáticos. Charles, por seus motivos óbvios e Tiago porque percebeu que Aline estava se arrumando ainda mais ultimamente. Em relacionamentos, principalmente no início, mulheres tendem a se arrumar mais, mas ela estava exagerando. Não no sentido ruim pra ela e sim pra ele. Se pudesse ficara admirando-a ali o dia todo.

— Podemos começar a reunião? – Dennis percebeu a tensão no ambiente e resolveu quebrar o clima. Todos assentiram e elas se sentaram.

Depois de duas horas conversando e definindo os projetos finais, tudo ia muito bem esquematizado. Charles e Diana esperavam ansiosos para que os primeiros anúncios fossem de sucesso e que repercutissem bem. Assim os do hotel dariam ao Stolt a certeza de que tudo daria certo.

— Pois bem, agora só nos resta esperar os resultados. – Diana comenta e Charles assente.

— Pena que esse ano não vamos poder participar do premio de propaganda por esses projetos. – Tiago fala – Só ano que vem.

— Mas de qualquer forma nós vamos. – Charles pegou os convites dentro de sua pasta – Diana, a editora me enviou os convites e pediram para eu te entregar.

— Ah sim. – ela os pegou e entregou-os a Aline – Nem tive tempo de passar pra falar com ela.

— Como o Dennis e o Tiago vão levar as meninas, entreguei apenas mais um para a Dominique ir com um acompanhante.

— Ok. – Aline conferiu e os colocou na bolsa – É sexta feira agora?

— Sim. Eles adiantaram. Ia ser na semana que vem.

— Entendi.

Depois de conversarem mais um pouco, Aline e Diana voltaram para MP. Tiago foi para sua sala e assim que sentou, viu seu convite na mesa. Dava direito a um acompanhante. E no fundo ele queria que fosse Aline. Bateram a sua porta e viu seu pai entrando com algumas pastas na mão.

— Filho, está ocupado? – ele negou – Que bom! Preciso de sua ajuda.

Sentou de frente pra ele e lhe mostrou as ideias das pastas. Tiago até tinha gostado dos clientes novos que seu pai estava lhe entregando, mas não entendia onde ele queria chegar.

— Pai...

— Eu sei que você deve estar estranhando. São campanhas que você ainda não trabalhou.

— Não mesmo. – ele sorriu ao pegar alguns papeis com as mãos – Por que não entrega ao Dennis?

— Porque ele está tão atolado quanto o Charles. E eu preciso que você tenha tanto conhecimento na área quanto ele.

— No caso de termos que assumir a empresa... – ele assentiu – Eu até entendo. Mas não achei que o senhor me achasse responsável para tudo isso.

— E continuo não achando muito. – ele se espanta com a sinceridade do pai – Eu sei que você é tão bom quanto seu irmão no que fazem, mas ele mesmo já admitiu que você é muito mais criativo que ele. – Tiago encostou-se em sua cadeira sem acreditar que o irmão estava o elogiando daquela maneira para o pai – E acho que só enfeitar a nossa capa mensal e alguns anúncios relacionados a empresa não seja o que você planeja do futuro.

— Não é.

— Que bom. – ele se levantou – Espero algumas ideias para o fim da semana. Pode levar pra mim em Ponta Negra, ou se quiser, entregar para o Charles para ele analisar.

— Pai. – Tiago se levantou e foi atrás do pai antes que saísse – Eu sei que eu posso melhorar, mas não acha que está se arriscando muito?

— Não se subestima Tiago. – ele pegou o rosto do filho com as mãos – Você me lembra muito sua mãe. É impulsivo, mas quando para pra pensar com a cabeça ao invés de com a emoção, tudo flui.

— E se eu não for bom o suficiente?

— Acredite, você é. – eles sorriram – E eu tenho certeza de que você não vai querer me decepcionar.

— Nunca! – ele afirmou contente – Pode deixar, se eu precisar de ajuda, eu falo com meu irmão.

— Ou comigo e com o Charles. – eles se abraçaram – Agora eu vou na sala do Charles, preciso resolver algumas coisas com ele e pegar meu convite da festa.

— Ok.

Assim que Manoel saiu da sala e Tiago se deparou com aqueles montes de pasta, suspirou. Era trabalho até não querer mais, e juntando com o projeto do Stolt... Ele estava acabado. Não sabia como Dennis conseguia conciliar tudo aquilo, mas precisava ser forte e inteligente para se organizar. Se seu pai estava lhe dando um voto de confiança, ele teria que cumpri-lo até o fim.

Sentou e começou a ler os documentos. Alguns pareciam ser mais fáceis do que os outros, e respirou fundo varias vezes para não entrar em parafuso. Estava respondendo alguns e-mails quando viu seu telefone tocar e viu que era Leticia.

— Oi amor. – ela falou do outro lado. Ele colocou o telefone encostado no ombro e continuou digitando – Muito ocupado?

— Você não tem ideia. – eles sorriram – Mas diga.

— Queria saber se você não quer sair comigo hoje. Tem uns dois dias que a gente não se vê direito.

— Eu sei, desculpa, o trabalho está me atolando muito.

— Não tem problema. – ela sorria boba do outro lado. Dominique chegou perto dela e encostou-se a mesa esperando a ligação terminar – Que tal?

— Hoje vou ter que furar de novo com você. – ela chiou do outro lado – Eu sei amor, é que meu pai me pediu pra ver tanta coisa, que eu vou ter que fazer hora extra de novo. Podemos ver pra amanha.

— Amanha não posso, eu tenho prova na faculdade. E depois de amanha também.

— Entao, nesse final de semana tem o evento de publicidade, nós vamos juntos e matamos a saudade.

— Não tem nem como você vir almoçar comigo? – ela parecia manhosa e Dominique revirou os olhos.

— Infelizmente não dá. Eu queria muito te ver também. Mas a gente vai se falando ao telefone.

— Ok né? Não posso fazer muita coisa mesmo. Te amo.

— Também.

Assim que desligou o telefone, Tiago balançou a cabeça. Por que ele não dizia logo "eu te amo" também? Será que tinha algo tão errado com ele que não conseguia dizer essas três palavras tão simples? Levantou e pegou um café para relaxar. Parou perto da janela para admirar a vista e pensou mais um pouco no seu relacionamento com ela. Letícia era de fato uma boa garota, tudo bem que era um pouco mimada e muita coisa tinha que ser do jeito dela, mas nada que ele não pudesse levar na boa. Será que o encanto por ela tinha acabado?

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Letícia largou o telefone na mesa e não estava com a cara muito boa. Olhou para Dominique que mais parecia uma estatua parada na sua frente, e a olhou de rabo de olho.

— Que foi? – perguntou ríspida.

— Patético hein! – ela desencostou e viu Aline chegando perto delas – Patético.

— Que houve? – Aline perguntou.

— Não foi nada. – Leticia respondeu grossa.

— Ela tomou bolo do namorado. – Dominique riu e a deixou ainda mais possessa.

— Dá licença. – Leticia levantou e empurrou Dominique. Saiu andando a passos pesados e se trancou dentro da copa.

— Nem respeita uma mulher grávida. – ela reclamou – E se eu caio?

— Sem dramas. – Aline esticou a mão – Trouxe o que eu te pedi?

— Trouxe. – Aline pegou o documento dela e saiu andando. Ela a acompanhou até a sua mesa – Não quer saber por que ela ficou irritada?

— Você não já disse que ela tomou bolo? – Aline desconsiderou a fofoca embutida – Mulher nenhuma gosta de tomar bolo.

— Aline... – ela cruzou os braços na sua frente – Até parece que você não quer saber.

— Nique... – ela encostou-se a cadeira – Eu to tentando me desligar dessa historia dela com o Tiago. Será que da pra não encher?

— Que horror! – ela exclamou chocada. Depois se recompôs e chegou perto dela – Como se eu não soubesse que se fosse com você, rapidinho ele arrumava tempo para vir te ver.

— Nique! – foi mais incisiva e ela gargalhou – Não fala isso aqui dentro.

— Como se tivesse alguém aqui por perto da sua mesa. – elas olharam em volta – Não é porque ela é irmã do Bruno que eu vou aliviar. Ele mesmo me disse que esse namoro deles não vai dar certo...

— Eu sei. – ela a cortou – Mas todo mundo merece uma chance. E eles estão se dando.

— Você o esqueceu por acaso para falar isso?

— Eu o que? – ela parecia estarrecida – Sério que você tá me perguntando isso?

— Sério que tem cinco ligações perdidas do Dennis e você não atendeu? – ela pegou o celular de Aline e apontou na cara dela – Não é porque ele te ama, que vai esperar um milagre cair do céu. Para de pensar naquela anta e começa a pensar em vocês dois.

— Mas eu já penso. – ela olhou para a amiga – Só não consigo pensar direito quando ele me olha do mesmo jeito quando nos vimos em São Paulo.

— Eu ficaria muito feliz que o Bruno me olhasse do mesmo jeito que o Dennis olha pra você. – soltou sem querer e Aline desconfiou – Eu sei, ainda não tivemos tempo de conversar não é? Eu vou te contar tudo, senão eu entro em parafuso.

— Acho bom mesmo. Porque eu não entendi nada dessa historia de psicóloga. De tratamento...

— Eu vou te contar. – pegou o celular de novo e deu na mão dela – E você. Da prioridade pro seu namorado. Eu sei que no fundo você já se apaixonou por ele também.

— Ah é senhorita adivinha? Posso estar apaixonada por dois?

— Falou bem, apaixonada pode. Você pode até amar os dois. Mas um sempre vai superar o outro. E vou te dizer... – ela chegou perto de novo – Com todas as opções que a vida está te dando, acho que você já sabe quem encabeça a lista. – piscou e a deixou sozinha.

Por um momento Aline cogitou a possibilidade de estar amando Tiago. Mas tirou isso rapidamente da cabeça. E ai pensou em Dennis... Era o primeiro namorado que ela teria tanto orgulho de apresentar para os pais, que só isso já era pista o suficiente de que estava no caminho certo. Assim que desbloqueou o telefone e viu uma foto deles dois como seu papel de parede, sorriu involuntariamente.

— Alô.— ele atendeu.

— Oi. – falou mais sensual e sorrindo – Eu sei que você deve estar ocupado.

— Estou. Mas só de saber que é você, eu paro o que eu to fazendo. – riram ao mesmo tempo — Desculpa se liguei muito, mas é que eu tinha marcado com você de sair mais tarde, só que não vou poder.

— Poderia ter mandado uma mensagem, eu entenderia.

— Prefiro muito mais ouvir sua voz. – arrepiou-se toda por ter entendido toda e qualquer conotação que aquela voz tinha lhe passado.

— Assim eu vou ficar mal acostumada. Mas não tem problema não. A gente marca alguma coisa depois.

— Então, meu pai tem sérios problemas e mesmo com a campanha do Stolt, ele trouxe alguns clientes novos pra mim. Acho que vou ficar bem preso essa semana no trabalho.

— Ah... – pelo visto Leticia não seria a única a levar bolo – Que pena. Só vamos nos ver então no evento do fim de semana?

— Acho que sim.— ele parecia sorrir do outro lado – Mas eu prometo te recompensar.

— Vou cobrar juros e mora diária.

— Pode cobrar o que quiser...— ficaram uns segundos em silencio — Preciso desligar. Beijo.

— Dennis... – ela se alertou – Te amo. – Dennis ficou estático do outro lado da linha. Ela tinha dito aquilo mesmo? Ficou tentando processar aquela frase e Aline chutou-se mentalmente por ter dito tão rápido – Olha, esquece o que eu falei. Eu sei que me precipitei...

— Aline...

— Eu vou pensar nisso direito... Pode ter sido só saudade... Eu sei...

— Aline!— ele a cortou – Não sabe como eu fico feliz em saber isso, meu amor. — ele sorria que nem um bobo do outro lado da linha — Eu queria muito poder ter dito isso antes, mas fiquei com medo de te assustar...

— Quer dizer que... – ok, ele tinha dito antes que estava apaixonado por ela. Mas ai chegar a amar...

— Eu te amo também.— ela quase desfaleceu na cadeira — E só por causa disso, vou te buscar na sua casa hoje.

— Mas amanha a gente vai trabalhar. E você disse que tem trabalho.

— O trabalho que espere.— falou sério e depois riu – Eu me viro aqui. Mais tarde eu te pego.

— Ok então. Te amo. – falou de novo e sorriu boba.

— Eu também te amo.

Assim que desligaram a ligação, os dois ficaram olhando para os telefones ainda nauseados pela noticia boa. Era como se novos ares estivessem chegando e tudo parecesse mais claro do que nunca.





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