A Herança do Tempo escrita por Monção


Capítulo 2
Salvo quem veio me salvar





Lá estava eu, caído, sem forças. Conseguia ver a pessoa que saiu do nada para salvar-me da morte. Era uma garota, com cabelos longos e lisos, castanhos escuros, com uma trança única no cabelo para trás, e parecia ter quase a mesma idade que a minha, só um pouco mais velha, pois ela era um pouco maior que eu. Mas ela estava de costas para mim, por isso não dava para vê-la totalmente. Via também que ela tinha armas na cintura, facas, bem mais curtas que uma espada, e eram duas. Era visível que ela conhecia o "cara pálida", o cara que estava tentando me matar. Eles falavam algo, mas eu estava ocupado de mais sentindo minhas dores, por isso não consegui ouvir. Talvez ela pedisse alguma explicação do por que de ele estar tentando me matar, ou fazendo intimidações a ele. Era muito difícil escutar uma conversa quando você está morrendo.

Meu bastão de baseball estava próximo de mim, mas mal conseguia me mover, e ele não iria ajudar muito naquele momento, já que não conseguia me levantar.

O sangue ainda saía do lugar onde fui ferido, óbvio. Jorrou tanto que fez uma enorme poça de sangue ao meu redor. A dor era tanta, que eu gemia de dor, mas não vou descrever isso, para o bem da minha sanidade mental, e da de vocês. Outra coisa que é difícil fazer quando você está morrendo: exatamente tudo. Não deve ser difícil de imaginar isso.

Eu via a luta sem poder fazer nada. Nem ao mesmo falar eu conseguia. Eu falava sim, guinchos de dor, se é que isso é considerado fala. Eram como: "Ai!, argh!" e palavrões que não vou descrever aqui.

Na batalha deles dois, ela estava em uma clara desvantagem, mesmo com duas armas. É claro que quem tem uma mulher-morcego satânica ao seu lado está em clara vantagem, por isso deixava o "cara pálida" bem na frente. Mesmo assim, ela não desistia. Lutava arduamente, tentando tirar o máximo de atenção deles de mim, para não acabarem comigo, e me defendendo. Sabia disso mesmo não podendo vê-la totalmente, porque ela estava meio de costas para mim, como já disse.

O garoto investiu com sua espada, com um golpe rápido de cima-para-baixo. Ela, a menina, cruzou rapidamente suas duas facas, em um movimento de defesa, aí pude ver a diferença entre as duas facas. As lâminas tinham quase o mesmo tamanho, e acabamentos parecidos, mas o material era diferente... Uma era de um material igual ao meu bastão, Bronze reluzente. Mas a outra era de ouro, ouro maciço e de verdade. As duas eram médias, com quase o mesmo tamanho, mas com formatos diferentes. A de bronze era com uma lâmina com um formato quase de uma folha, com a base larga, e afinava até a ponta. A outra, a de ouro, é reta, com a ponta triangular.

Voltando a luta, a menina cruzou as facas para defender o ataque, e a mulher-morcego voo para dar um "ataque aéreo" nela, mas ela rolou para trás. Ela estava muito cansada, o que era bem visível. Já o menino não parecia tanto, e sempre dava um sorrisinho do tipo: "Eu avisei para não ficar no meu caminho”, o que me dava raiva. A menina olhou para uns canos e para uma caixa d'água em cima de um prédio. Ela fechou os olhos e se concentrou, e, magicamente, fez todos os canos e a caixa explodir. Não foi mera obra do acaso, foi ela quem fez isso. Para mim, invocar mulheres-morcegos do Submundo já era impressionante o bastante para um dia só. Aí vem uma garota que explode canos e caixas d'águas! Imagino se sua mãe deva ter um encanador em casa para quando isso acontecer...

Sim, a caixa d'água explodiu e os canos, mas não "simplesmente" explodiu ela também controlava a água! Então, ela fez jorrar toda a água no "cara pálida", fazendo-o voar com o impacto, o que foi bem divertido para mim, mas não pude rir, por que não estava numa situação melhor que ele.

Porém, ela gastou tanta energia, que estava quase tonta, o que também era bem visível. Então, a mulher-morcego atacou novamente. Ela foi prega desprevenida, então ela caiu, e a mulher-morcego ficou com as garras em seu pescoço. A menina conseguiu se safar, pois ela afastou a mulher-morcego com seus pés, chutando-a para longe. O "cara pálida" ja tinha se recuperado do golpe "aquático" e estava encharcado, mas agora não com seu sorrisinho tosco, mas sim com uma expressão raivosa. Ele com certeza iria matá-la, e eu não poderia deixar isso acontecer. Cadê o agradecimento de ela salvar minha vida?! Percebi que ela estava em sérios perigos. Tentei alcançar meu taco, e rastejei até ele para pegá-lo (não estava longe, mas eu estava morrendo, e sem forças!). Então, juntei todas as minhas forças, que não eram muitas, e tentei levantar, cambaleante. A dor era insuportável, e cai na primeira vez. Depois tentei de novo, e consegui levantar meio sem forças. Apoiei-me no meu bastão.

Finalmente, consegui levantar, e olhei para a luta de relance, e pude ver que ela se afastou um pouco do cara pálida. Ela tinha uma camisa azul, com uma estampa de peixinho dourado, o que era engraçado. Então, ela finalmente olhou para mim e pude ver seu rosto. Ela era linda... Tinha olhos verde-mar, pele bronzeada, como se passasse uma boa parte do dia na praia, e traços amigáveis. Gostaria de ficar ali parado, babando por causa dela, e admirando sua beleza para sempre, sem dizer uma palavra, mas não podia. Então, peguei o bastão com atitude, e me senti mais confiante. Gritei alto, muito alto, não por dor, mais para eu parecer mais confiante, o que não era minha situação momentânea. A Menina Maravilhosa olhava para mim, surpresa, talvez pensando que estava fraco de mais para isso. Então ela me deu um sorriso amigável, que era lindo como ela. E então disse:

— Fuja! Antes que ele te mate! Eu ficarei bem, então vá! Corra!

Sua voz era doce, mesmo do jeito que ela estava irritada e cansada. Ignorei o que ela disse, porque sabia que se eu fugisse, ela morria.

Pensei, e estabeleci prioridades: Se você está morrendo, sem forças, você fica para morrer ou foge? Eu, como sou um poço de inteligência, escolhi ficar para tentar ajudá-la, mas sabia que tinha escolhido certo, mesmo não sendo a opção mais sensata.

Como se pessoas explodindo canos, e invocando demônios, meu bastão se transformou, magicamente, numa fração de segundos, em uma espada afiada de um bronze reluzente, de aproximadamente de 1,40m de lâmina. Pude ver rapidamente as engrenagens mágicas funcionando para isso.

A mulher-morcego exclamou, com medo, e com uma voz... Bem, de um monstro:

— Por Hades! Isso é Bronze celestial?!

Não sabia o que significava, mas acho que isso era bom para mim.

Já sentia disposição novamente, como se não tivesse ferido, mas a dor do ferimento continuava, óbvio. Minha mente reagiu como a dor fosse algo dispensável ao pensar em ajudar a menina que veio me salvar.

Investi contra a ultima mulher-morcego, e dessa vez a decapitei, fazendo-a evaporar em pó dourado.

Me virei ao cara pálida. Já sentia o poder em minhas veias. Então investi contra ele. O mais estranho foi que, de repente, era como se tudo estivesse parado, menos eu. Os movimentos dele eram lerdos, como uma câmera lenta, e eu me movia normalmente, o que era incrível. Era como se eu tivesse parado o tempo, e eu sentia isso. Não achei uma explicação para isso naquele momento.

Nunca toquei numa espada antes, mas me movia com habilidade. Consegui, em um movimento veloz, desarmá-lo. Eu coloquei minha lâmina abaixo da dele, girei em seu punho e joguei sua espada longe.

Sentia também uma força incomum. Eu era forte, mas não se igualava a isso. Eu também evitava ficar longe de brigas, em qualquer lugar. Como disse, eu sou um pouco mais temperamental que devia (eu acho), por isso evito brigas. Eu também já tinha problemas o bastante, e não queria arranjar mais. É como se eu tivesse sempre preparado para explodir com essa força quando precisasse, desde sempre.

Desarmado, cara pálida estava sem defesas, e continuava lerdo. Então, dei um golpe em sua perna, na coxa, girei, e golpeei ele novamente, num lado de sua face, quase decapitando-o (que, na verdade, era minha intenção). O tempo pareceu que voltou ao normal. Ele levou a mão à coxa, no lugar ferido, que foi um corte bem profundo, que estava jorrando sangue; mas não chegava nem perto do ferimento que seu "monstrinho de estimação" fez em mim, que ainda sangrava. Depois, chutei forte seu peito, fazendo-o cair no chão. Sua expressão era de surpresa, uma surpresa nada boa: Talvez eu não fosse o inimigo fácil de enfrentar que ele pensara. Ele disse abobalhado:

—Você... Como?!

Eu não respondi.

Ele estava caído, com as mãos se apoiando atrás dele mesmo. Eu estava com a minha espada em seu pescoço, pronto para decapitá-lo a qualquer momento. Estava com raiva, furioso, com sede de vingança, por ele tentar me matar por nada, ou pelo menos motivos que eu não conhecia. Ele me pegou totalmente desprevenido, totalmente sem defesas! Mas o pior... Eu gostava disso. Gostava de ver meu inimigo sofrer, de vê-lo morrer lentamente, em submissão a mim, pedindo a mim, silenciosamente: "Não me mate, por favor. Tenha piedade..." com lágrimas nos olhos, só para matá-lo depois e sentir prazer com isso... Nesse momento percebi que tinha um espírito de assassino, um extinto mortífero sedento por sangue, mas não podia alimentá-lo. Eu tinha que me conter, eu não queria ser cara perverso, sem coração. Eu me tornaria pior que ele...

Ele continuava chegando para trás, se arrastando, como se fosse um ratinho com medo do gato caçador come-lo. E eu continuava com a espada em seu pescoço. Então, eu consegui me conter, e não o matei. Eu o deixei ir. Mas o estranho foi que ele foi a uma sombra, se arrastando, e simplesmente desapareceu, como se ele fizesse parte dela. As feridas que lhe forneci foram um pouco sérias, principalmente a da coxa, e a do rosto foi mais branda, mas com certeza lhe renderia boas cicatrizes.

A sua espada estava caída no chão. Ele não a recuperou quando saiu, até porque ele não era idiota o bastante para isso, ainda mais com as suas forças. Peguei-a para mim, como uma conquista de batalha, mas ainda tinha medo dela. Ela parecia que consumia toda a vida em seu redor, com sua lâmina negra mortífera, que parecia que podia me cortar a alma facilmente, como uma brincadeira. Eu não sabia se ainda iria usá-la um dia...

Depois que tudo isso acabou, olhei para "a garota dos sonhos", pois acho que ela só existe em sonhos, de tão linda que é. Ela sorriu para mim, e eu correspondi, mesmo quase sem forças para isso.

Eu estava encharcado de suor, e com manchas de sangue em minha roupa toda suja de diversas coisas. A dor que antes era imperceptível na batalha, agora estava forte e aguda. Estava tonto, mal e fraco... Acho que ela percebeu, pois sua expressão mudou, a uma de preocupação ao me ver naquele estado. E, então, simplesmente cai e apaguei, e não pude ver mais nada do que aconteceu comigo...




Notas finais do capítulo

Obrigado por ler minha fic!



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