Daisuki escrita por AC3


Capítulo 35
O Segredo de Meiko-san


Notas iniciais do capítulo

SIM! É o momento que o plano de Meiko se revela!!!




Acordar é algo engraçado. Às vezes você está sonhando tranquilamente e, de repente, tudo que você viveu ali nos sonhos era mentira.

Às vezes, durante alguns segundos, ficamos na dúvida esperando algum indício que nos revele qual mundo era verdade e qual era ficção. Foi exatamente assim que me senti naquela nova manhã.

Por incrível que pareça, essa dúvida não tinha qualquer relação com o que eu tinha sonhado durante a noite, até porque não sonhei. A apreensão vinha pela própria dúvida se algo tinha acontecido na realidade ou se era sonho... Não demorou muito para eu descobrir que Gakupo tinha de fato contado para todo mundo a verdade - com uma pequena ajuda da Hatsune-san, tenho que pontuar - e agora eu esta lá, sem saber o que fazer.

Levantei-me, tentando não acordar ninguém. O sol já brilhava forte, mas isso não queria dizer absolutamente nada porque estávamos no solstício de verão. Poderia ser tanto oito horas quanto meio-dia, e, do jeito que todo mundo tinha ido dormir tarde ontem à noite, a sonolência coletiva também não poderia dizer nada.

Entrando na cozinha, encontrei Meiko-san, fazendo o café. O primeiro pensamento que tive foi o quanto de disposição que ela tinha por já estar levantada depois de todo o estresse que deve ter passado ontem. Afinal, foi ela que pegou para si a tarefa de conversar e acalmar Kaito.

— Bom dia - disse, com uma voz rouca que tive vergonha. Naquele momento percebi que não tinha nem escovado meus dentes... Espero que meu hálito não esteja muito forte...

— Bom dia - respondeu Meiko, com uma animação que me desanimou - Dormiu bem?

Ela tinha se virado para mim, sorrindo. Eu devia estar em um estado lamentável, já que nem no espelho me olhei. Sentei na cadeira mais próxima e respondi:

— Dormi sim... E você? Dormiu bem?

— Aham - ela respondeu, prontamente.

O café estava sendo coado. O silencio na cozinha era tão palpável que começou a me incomodar. Quando Meiko colocou o coador na pia, não consegui mais me conter:

— E como foi ontem com o Kaito-kun?

Ela fechou a garrafa de café antes de responder. Depois, pegou duas xícaras pequenas e colocou na mesa junto da garrafa para nos servimos.

— A gente conversa sobre isso na praia - foi o que ela disse.

Ela deveria estar com receio de alguém ouvir por trás das paredes, o que nem me espantou muito, visto que a Hatsune só fez toda aquela algazarra porque ouviu e viu coisas pela metade.

Bebi o café lentamente, comendo uma bolacha do pacote que estava em cima da mesa. Nunca gostei de comer muito de manhã, me enjoava.

— Quando você diz praia - comecei, para preencher aquele silêncio que queria retornar com tudo - você quer dizer quando?

— Ah - ela comia um pedaço de pão com manteiga - assim que terminarmos de tomar café, a gente dá uma volta na praia - ela deu uma mordida no pão e depois completou, de boca cheia mesmo: - só nós duas.

Assenti silenciosamente.

Meu café-da-manhã já tinha terminado quando o café da minha xícara e a bolacha em minhas mãos desapareceu com minhas mordidas. Percebendo que a Meiko ainda ia demorar no café, e tentando achar uma boa desculpa pra sair dali e escovar os dentes, levantei-me, dizendo:

— Vou me arrumar e a gente já sai, ok? - ela concordou.

Fui com a maior calma do mundo até o banheiro. A apreensão começou a tomar conta de mim, comigo querendo encontrar motivos ocultos e danosos para Meiko querer conversar comigo só na praia. Repreendi-me olhando para o espelho.

Calma, Luka... Você só tá tensa porque ele saiu do armário, ontem, só isso... Logo tudo volta ao normal...

Mas não iria voltar ao “normal”. Só o fato de não termos mais de fingir que somos namorados vai fazer tudo ser diferente. Agora ele não vai mais ter de vir no meu apartamento quase sempre. Também não vai conversar comigo por longas ligações pra disfarçar. Droga! Mesmo depois de todo esse tempo você só consegue pensar nele?!

E você, Luka?! Como VOCÊ fica com tudo isso?! Não em relação a ele, mas em relação a si mesma?!

Repreendi-me mais forte olhando pro espelho. Não era a hora de ficar enchendo minha cabeça com essas coisas! Tinha de me preparar, só a conversa da Meiko, pelo jeito que ela falou, ia ser longa, e também tinha o Kagamine... Eu tenho que dar uns conselhos para aquele menino...

Como se você pudesse dar conselho a alguém, né, Luka?

Nem me olhei no espelho de novo, não queria me ver brava comigo mesma pela terceira vez antes mesmo de fazer meia hora desde que acordei. Prendi o cabelo de qualquer jeito e cacei uma roupa silenciosamente no quarto, pra não acordar ninguém. Foi só quando voltei ao banheiro que percebi que peguei uma camiseta do Gakupo sem querer...

Dane-se! O MADE IN TOKYO escrito na regata preta rasgada parecia brilhar no meu peito, mas esse era um passo para superar tudo isso, então eu ia cumpri-lo e deixar Gakupo de uma vez por todas!

Foram muitas emoções para uma arrumação, confesso...

Quando voltei à cozinha, Meiko não estava lá. Até fiquei confusa achando que tinha sonhando com ela, quase começando a dar uma de Hatsune-san. A Meiko me chamou da sala:

— Vamos, Megurine! – devia ser difícil para ela manter o tom de voz mais baixo... – Antes que o povo acorde...

Ela se levantou do sofá, já com a chave na mão. Ou melhor, as chaves. Parecia que ela levava as três chaves da casa no mesmo chaveiro, mas não... Ela não faria isso... E, também, o que seria tão sério para ela fazer algo assim? Francamente Luka...

Saímos da casa em um sol ameno da manhã. Meiko guardou as chaves no bolso do shorts e, ao fitar meu rosto, claramente ficou alguns segundos perdida na minha camiseta.

— Pode falar! – eu já retruquei, me antecipando – Essa camiseta é do Gakupo sim!

— Calma, calma – foi tudo que ela respondeu, confesso que era bem esquisito ouvir essa palavra sair dos lábios dela – vamos nos afastar da casa antes de conversar...

Meu deus! O que seria tão importante ao ponto dela manter esse mistério?! A apreensão começou a me dominar de novo. Pensei em diversos assuntos para puxar conversa, mas nada tomava forma quando eu abria a boca.

No fim, o silêncio do café da manhã retornou entre nós e permaneceu por umas duas quadras. Mais duas chegaríamos de fato na praia e Meiko finalmente começaria a falar alguma coisa.

— Olha, Luka – começou ela, assustando-me, pois eu já estava ficando acostumada ao silêncio – antes de qualquer coisa, eu queria te contar os motivos que me levaram a reaproximar de vocês e vir aqui pra praia...

— T-tá... – não tinha muito mais o que responder, né?

— Muito bem... – ela estava relutante e esfregava excessivamente as mãos enquanto falava, esse era um estilo que definitivamente não combinava com Meiko... Alguma coisa estava bem errada – Eu não sei como dizer isso ou dar o contexto certo para você não ficar me julgando eternamente e nunca mais falar comigo, então eu vou tentar jogar tudo de uma vez... – ela fez uma pequena pausa e continuou: - por favor, antes de falar qualquer coisa, deixa eu terminar...

Eu acenei com a cabeça. Estava ao mesmo tempo preocupada, como se todas as suspeitas que tive enquanto me arrumava – que eu nem sabia o que eram direito – estivessem se confirmando, e curiosa, porque realmente nunca tinha visto Meiko daquele jeito. Nunca mesmo.

— Então... Eu sou culpada por você e Gakupo terem começado a namorar! – e daí? O que aquilo tinha haver? – Só que eu sabia que ele era gay!

O QUÊ?!

— Luka, eu fui a primeira pessoa para quem ele contou, quando vocês ainda eram meus calouros. Eu não soube direito como reagir, porque ele era tão triste e tão sozinho! A única coisa que consegui pensar foi em incentivá-lo a te convidar pra sair... Nessa época você já tinha me contado que tinha um crush nele e eu imaginei, bem, eu imaginei que assim ele ficaria mais próximo de você e acabaria se apaixonando! Eu sei que é bem estúpido, mas foi o que achei na hora!

“Mas calma, tem mais... Ele foi super contra a ideia no começo, que ele via como começar a namorar de mentira com você, óbvio... E eu era tão cega! Tão cega! Achei que estava te fazendo um bem! Juro! Só que não... Eu só te prendi a um cara que nunca ia te largar por ter medo do mundo, mas nunca ia conseguir retribuir seus sentimentos por ele! Eu atrasei sua vida nesse ponto e fiquei super orgulhosa do que tinha feito...”

“Não vou dizer que não percebi a burrada depois, mas, não sei se você sabe... A vida de atriz iniciante é uma bosta... Eu não consigo nenhum papel, os produtores falam no celular, pedem almoço e até conversam entre si enquanto você tá lá, explodindo em emoções... E eles nem prestam atenção! Claro que resolvi deixar isso pra lá... Eu usei meu descontentamento como desculpa pra ignorar o que eu tinha feito e na situação que tinha te colocado, e agora...”

“Bem, agora eu estou projetando minha própria peça com o Kimura, é pequena sabe? Conheci ele numa das festas que tem entre o pessoal novato no cinema... Ele é aspirante a roteirista. Ele escreveu o roteiro e eu atuo, daqueles tipos de peça só de uma pessoa, sabe? Enfim, isso gastou quase todas as minhas economias e é tudo ou nada... A peça vai estrear assim que a gente voltar, e nem quero pensar no que vou fazer se der errado...”

“Aí eu me peguei lembrando dos tempos com vocês e como era tudo mais simples e mais mágico. Como se eu me afastando acabei sem a magia, ali, cheia de contas pra pagar. Foi aí que soube que você e o Gakupo tinham trocado anéis... Anéis! Eu  não podia deixar essa situação continuar! Estava sendo egoísta! Como poderia sentir falta dos velhos tempos se traía você dessa forma?!”

“Esperei o momento certo para poder criar uma situação onde eu conversaria com Gakupo para ele sair do armário, ou pelo menos terminar esse namoro de fachada contigo... Aí vieram as férias de verão, o que foi perfeito pra eu e o Kimura esfriarmos um pouco a cabeça para estrear a peça mais tranquilos... Só que aí chegando aqui tinha a mãe da Miku vigilante em todo lugar... E depois teve a treta do Jogo do Rei... E aí o Kimura ficou bêbado e beijou o Gakupo...”

“Eu confesso que armei a saída do armário de ontem... Descobri que a Miku estava com umas ideias meio absurdas e manipulei ela para forçar Gakupo a contar tudo... Desculpa Luka... Desculpa mesmo... Eu queria tanto consertar o que tinha feito antes... Queria tanto te libertar dessa bolha! Você tem o direito de ficar com alguém que te deseje e que se apaixone por você!”

Eu só conseguia olhar para Meiko, incrédula. A essa altura, já tínhamos chegado a praia e nossos chinelos tocavam a areia. Era muita informação para processar. Eu não sabia como deveria reagir, o que ela esperava que eu falasse ou fizesse... Então me deixei levar pelo impulso: abracei-la.

— Hã?! – ela exclamou.

— Meiko – eu comecei, não fazendo ideia do que de fato iria sair da minha boca – não precisa se desculpar... Eu já era bem grandinha naquela época e sou agora... Se fiquei nessa situação foi porque quis, de uma forma ou de outra, e você foi na melhor das intenções... Na verdade, eu deveria é estar agradecida por tudo que você chegou aqui! Poxa, você alugou uma casa por mim!

Ainda abraçada com Meiko, sentia sua apreensão se diluir em felicidade por eu compreender. E, apenas neste momento, eu percebi que compreendia mesmo. Não foram apenas palavras. Eu tinha que agradecer ela, por me fazer crescer de toda essa situação. Talvez se fosse antes ou Gakupo ainda estivesse no armário, eu tivesse ficado mais brava, mas agora... Nem tinha sentido essa hipótese...

Desfizemos o abraço e não me espantei em não ver uma única gota de lágrima nos olhos de Meiko. Era visível que ela estava abalada, mas não era de chorar... Ficaria ainda mais estranha toda aquela situação...

— Ah! – lembrei-me – Isso me lembra...

Puxei o anel de Gakupo do meu anelar. Aquele era um símbolo daquela fase. Daquela Luka que pensava demais no amigo/namorado falso ao invés de si mesma. Ao exagero.

Tilintando em minhas mãos, juntei o máximo de força que tive para jogá-lo para longe. Estávamos ainda no começo da praia, então com certeza iria cair na areia e ser o anel misterioso encontrado perdido na praia por alguma criança no futuro.

— Nossa! – exclamou Meiko.

— Eu sei que isso não vai mudar nada, que ainda vou pensar bastante em Gakupo e em como poderíamos ter de fato ficado juntos... – eu olhava para o horizonte, era como uma cena de filme bem feita – Mas é um começo...

Meiko voltou a me abraçar, gritando o quanto estava orgulhosa e feliz por não ter ficado brava com ela. Eu sorria, pela primeira vez em muito tempo, Gakupo estava bem longe dos meus pensamentos. Depois que ela me soltou, eu disse:

— Olha, não posso imaginar o quanto a vida de atriz seja difícil... E realmente espero que sua peça com o Kimura-kun seja um sucesso... – eu olhava fundo nos olhos dela, como ela fazia quando escutava minhas lamúrias na adolescência – Não se esquece de avisar onde é pra eu e todo mundo podermos prestigiar a estreia! Vai dar tudo certo, você vai ver!

E essa foi a preliminar para o terceiro abraço daquela manhã. Meiko não dizia nada, mas seu sorriso no rosto falava por si só. Bastaram alguns segundos para toda a carga pesada e o silêncio entre nós desaparecesse, e todos os problemas que ela falou há poucos minutos tornassem simples ao ponto de não precisarmos conversar sobre eles... Pelo menos não naquele momento.

— Mas, então, como foi ontem com o Kaito-kun? – acabei perguntando quando começamos a andar descalças pela areia.

Ela sorriu. Não era o sorriso de segundos atrás. Era aquele sorriso brincalhão de sempre. Aquilo pareceu tão acolhedor, tão nostálgico. Era como se eu ficasse feliz por mim mesma por ser madura o suficiente para entender o lado da Meiko sem uma grande discussão ou briga em relação a tudo isso... Hum... Quem sabe era algo assim mesmo...?

— Isso – ela começou, em ar conspiratório – a gente vai descobrir quando voltar para Blue Star... Daqui uma hora!

Ela tirara as três chaves da casa do bolso e as girava as com o dedo. Não demorou muito para eu reparar que ela de fato trancou todo mundo lá... Meus deus! Será que iriam se resolver?

— Mas isso é assunto pra depois...  – ela disse, antes que eu pudesse falar qualquer outra coisa – Agora, me conta, como tá a faculdade?

Aquela pergunta super natural logo levaria a outra que levaria a outra que levaria a outra. Fazia muito tempo que não conversava assim, com uma amiga tão próxima quanto Meiko, sobre a vida, os sonhos e tudo mais... Era como se voltássemos no tempo para as férias de verão quando ela ainda estudava conosco no colégio e estava sempre lá pra nos salvar de todas as encrencas que a gente – ela inclusa – se metia...



Notas finais do capítulo

Oi, gente, como estão??
Finalmente o segredo e o plano da Meiko foi revelado!!! O que acharam?? Confesso que essa não foi a ideia desde o começo, mas logo que tive o lampejo de retratar um pouco de sororidade entre a Meiko e a Luka não arredei o pé até conseguir escrever um capítulo como este kkk Sem contar que é meu primeiro capítulo em muito tempo que a narração fica com um personagem só... Gostaram??
Agora falta pouco para o final... No próximo capítulo temos mais confusões com todos os homens do rolê (e a Miku) envolvendo o Kaito-kun e tudo mais... Estão preparados?? xD
Muito obrigado por lerem e comentarem ^^ Até mais o/
PS: A camiseta MADE IN TOKYO, lembram-se dela?? Puxei lá do começo da fic, como uma forma de encerramento da luta de Luka e Gakupo contra si mesmos... Não que seja algo automático para eles este tipo de mudança, mas, como a própria Luka disse na fic, é um começo :)



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