A Hospedeira - Coração Deserto escrita por Laís, Rain


Capítulo 14
Maldito Ganso




It's been a long time since I rock and roll
It's been a long time since I did the stroll
Let me get it back, let me get it back
Let me get it back, baby, where I came from
It's been a long time, been a long time
Been a long lonely
Lonely, lonely, lonely
Lonely time
(Rock and Roll - Led Zeppelin)

 

POV – Jeb

Sempre achei curioso como uma paisagem pode às vezes refletir quem somos. Sentado aqui, protegido pela parca sombra de um rochedo, eu apreciava a imensidão árida e quente que falava ao meu coração deserto.

O silêncio era a parte que eu mais gostava neste lugar. Nada, a não ser o som de meus próprios pensamentos para me aporrinhar. E eu gostava de estar em minha própria companhia. Sempre me achei um cara legal, com pensamentos interessantes e uma perspicácia inigualável. As pessoas “normais” podiam ser meio entediantes às vezes. Ou quase sempre.

Maggie, minha irmã, que sempre foi considerada quase tão maluca quanto eu, gostava de me provocar dizendo que eu gostava do silêncio do deserto porque isso permitia que eu finalmente pudesse ouvir as vozes em minha cabeça. Sim, Maggie podia ser engraçadinha, pena que nunca teve meu charme. Mas, apesar de feita com a intenção de provocar, a brincadeira passava perto da verdade. Havia sim uma voz alta e clara que eu conseguia ouvir aqui: a minha própria.

O mundo de antes era um lugar barulhento que nunca me acolheu bem. Como eu também nunca gostei muito dele, considerava-nos quites, porém um homem podia realmente se encher de ficar sendo chamado de louco o tempo todo. Bem, pessoas normais, quem era o louco agora? Aposto que vocês gostariam de ter me dado mais crédito, não é?

Mas aqui as coisas eram diferentes. Ser quem eu era tinha salvado vidas inúmeras vezes. Eu nasci para este lugar, para esta vida. Conhecia cada palmo do deserto, podia me mover aqui silenciosa e rapidamente como um lagarto. E podia liderar esta gente, tomar decisões por eles. É só que algumas vezes não conseguia aguentá-los.

E depois que Peg partiu, as coisas ficaram bem piores. Todos ficavam se lamentado, reclamando de tudo e pressionando Sunny para que ela fizesse coisas para as quais a pobre não se sentia preparada. Ela estava até disposta, mas Kyle se opunha ferrenhamente e muitas vezes o clima esquentava entre ele e os mais ansiosos. Fora a tristeza profunda que fazia muitos andarem pelos cantos como uns farrapos humanos. Ian, Melanie, Jamie, Jared, Doc, Sunny, e até Kyle, não me permitiam nem por um momento esquecer o que tínhamos perdido. Era realmente insuportável.

Eu a amava também. É claro que a amava. Fui o primeiro a conseguir lhe estender a mão e ela fez com que esse gesto tivesse valido a pena por cada segundo em que esteve em minha vida. Aquela simples garota, aquela Alma, minha amiga, entrou em nossos corações e mudou nosso mundo. E ficar sem ela era... Bem, me faltavam palavras pra dizer o quão terrível. Mas o mundo continuava girando e precisávamos viver. Sobreviventes, era isso que nós éramos. Sobreviventes sobrevivem, não é? E aquelas cavernas estavam parecendo mais com um cemitério.

Por isso precisei sair de lá. E estava aqui, realmente apreciando a paz, a solidão e o silêncio, quando o mundo resolveu dar outra reviravolta. Nem me avisaram que eu tinha comprado ingresso para uma montanha-russa assim que botei a cara pra fora da barriga de minha mãe!

— AQUI ESTÁ ELA, HUMANOS! ELA PRECISA DE VOCÊS! — Foram os gritos desesperados que cortaram o deserto e me deram um susto dos diabos. Em seguida, uma buzina soou de forma frenética, quase ininterruptamente.

Mas que merda é essa?

Esgueirei-me pelas colinas de rochas para poder ver melhor à distância e a visão me atingiu como um raio. Vestido com suas indefectíveis e ridículas roupas pretas, lá estava um maldito Buscador.

Droga!

Eu devia ter imaginado que estas pestes não desistiriam. O ponto na estrada em que a incursão fatídica tinha sido interceptada era longe, mas não o suficiente. Eu só não entendia por que agora.

Mas também não importava. Ele ainda não tinha me visto e eu podia atirar nele antes que isso acontecesse. Será que havia outros? Olhei melhor, recalculando a distância, meus olhos não eram mais os mesmos. Percebi que estava muito longe para arriscar um tiro. O maldito carregava outra pessoa, uma mulher ao que parecia. Provavelmente outra Buscadora, mas ela não parecia em condições de ajudá-lo. Que estranho! As pestes usavam truques assim agora?

Meus olhos podiam não ser mais os mesmos, mas os do Buscador pareciam perfeitos, porque enquanto se movia com certa ansiedade, andando de um lado para o outro com a companheira nos braços, ele pareceu captar meus movimentos.

Ele a colocou no chão e estacou em frente a ela. Vi sua mão alcançar o coldre e uma forma conhecida se materializou ali. Uma Glock. Mas ele não a apontou para mim, no entanto. Apenas a manteve apontada para baixo. Ele parecia não querer me machucar, mas Jeb Stryder nasceria de novo no corpo de um maldito ganso antes de confiar em um Buscador. Então eu me aproximei um pouco mais, mas meu rifle manteve-se apontado para a cara dele o tempo todo.

— Por favor... – ele disse. E sua voz soou um pouco mais baixa, mas não menos desesperada do que minutos atrás. – Ela precisa de ajuda. Insolação – ele completou, apontando ligeiramente com a cabeça para a moça deitada a seus pés.

— E por que eu ajudaria um de vocês, Buscador?

— Se você for quem eu estou pensando, você a ajudaria. Olhe pra ela. Você não a reconhece?

Olhei a moça melhor. Ela estava meio encolhida sobre si mesma, mas dava pra perceber que era bem pequena. Não dava pra ver seu rosto, em parte escondido embaixo de seus cabelos suados, longos cachos dourados, de um louro arruivado. Ela começou a balbuciar coisas incompreensíveis de repente e sua voz era extremamente familiar.

— PEG!!! – gritei e, por um segundo, esqueci que havia um Buscador entre nós. Quase fui até ela, mas ele deslocou o peso do corpo postando-se ainda mais protetoramente na frente dela. Isso deixou claro que não seria fácil recuperá-la.

Ficamos alguns segundos nos encarando e, depois que o choque inicial passou, comecei a me questionar sobre o que estava acontecendo. Se Peg estava viva, por que não tinha dado um jeito de voltar para nós? E se eles a capturaram, e por isso ela ficou tanto tempo longe, será que tinham implantado outra Alma nesse corpo pra descobrir onde estávamos? Meu dedo coçou o gatilho quando pensei nisso, mas, se era esse o caso, porque demoraram tanto?

— Não estou entendendo seu jogo, Buscador. A Alminha aí não te deu as coordenadas exatas de nosso esconderijo? Há mais de vocês indo pra lá agora, enquanto você fica aqui me fazendo perder tempo?

— O nome dela é Estrelas Refletidas no Gelo. E não, ela não nos disse o local de seu esconderijo. Ela protegeu vocês durante todo esse tempo e precisa de vocês agora.

— Mesmo que eu acredite nisso. Para poder ajuda-la eu teria que levá-la até lá. E, se eu estou te entendendo corretamente, você iria querer estar perto dela, não é? Lá, na minha casa?

— Sim, você entendeu corretamente. Ela não vai a lugar nenhum sem mim.

— Entendo. Sabe, Buscador, de onde eu vejo esta questão, eu não ganho nada em ajudar essa moça. Mesmo que eu possa realmente confiar nela, não posso confiar em você. Coloque-a nesse seu carrão aí e resolva seus próprios problemas.

— Por favor – ele pediu mais humildemente desta vez. – A febre dela está muito alta e ela já tem a saúde fraca. Há... complicações. Vocês têm um Curandeiro, não tem? Ela disse o nome dele enquanto delirava. Doc, eu acho. Leve-a até ele.

— Sinto muito, mas não posso colocar os outros em risco por causa dela.

— Mas há um de vocês aqui.

— Não, não há. Ela não é Peg, Buscador. Não tente me enrolar.

— Eu não me referia a ela – disse ele, abaixando-se devagar, apontando a mão que segurava a arma para cima. – Eu me referia a ele. — Então, com a outra mão, ele puxou um pouco a blusa dela, deixando à mostra uma barriga ligeiramente protuberante, tão pouco que eu podia achar que era apenas minha imaginação. Mas o gesto dele era inequívoco, só podia significar que...

Oh, merda! Grávida? Será que tinha um jeito de as coisas ficarem mais malucas?

— Entenda uma coisa, Buscador. Isso muda tudo. Esse bebê é nosso e eu vou levá-la comigo agora. E sem você – eu disse, decidindo que o mataria antes mesmo de poder pensar em mais alguma coisa. Se houvesse outros esperando para me emboscar, eu teria que arriscar. Não poderia deixar que eles ficassem com o filho de Peg e Ian.

O rifle já estava engatilhado e eu estava esperando poder acertá-lo de primeira, mesmo que minha mira nunca tivesse sido das melhores, quando ele apontou a arma dele para mim, entendendo um segundo antes da hora qual era minha intenção:

— Eu estou com Peg, humano – ele declarou, para minha surpresa. — Ela está segura num tanque criogênico e só eu sei onde ela está. Você pode tentar atirar em mim, mas vou te avisando, meu hospedeiro era um excelente atirador, eu não vou errar. Você pode até me acertar, mas eu apostaria na minha habilidade e na minha arma contra você com seu velho rifle.

— Não me subestime, Buscador.

— Nem você a mim, humano. Se eu sair daqui, vou sair levando minha amiga, o bebê dela e um criotanque vazio, porque antes de ir embora vou abri-lo e deixar Peg fritar na areia do deserto.

Um arrepio passou pelo meu corpo imaginando a cena. O desgraçado parecia mesmo ameaçador, mas eu queria apostar que ele estava blefando.

— Você não faria isso. Você é uma Alma, como Peg. Vocês não podem ser tão diferentes.

— Deixa eu te ajudar a entender as coisas, humano. Esta moça que está aqui, eu a amo. Faria qualquer coisa por ela e por este bebê. Eu não pedi por estes sentimentos humanos, mas agora que eles despertaram em mim, sei que posso odiar tanto quanto posso amar. E Peg tem sempre estado no meu caminho.

Sim, tinha um jeito de as coisas ficarem piores! Sempre tinha! Uma droga de um Buscador apaixonado. Isso mesmo. Era como ver um Dragão de Komodo pedindo colo.

— E o que você pretende fazer com Peg se eu ajudar vocês? – perguntei, dando-me quase por vencido.

— Quando Estrela estiver segura e eu tiver certeza de que nada de mau vai acontecer com ela, eu entrego o tanque a você.

— E como vou saber se você realmente está com ela?

— Acho que você não tem outra opção, não é? Mas saiba que sou um homem de palavra. E uma coisa eu te prometo, humano, e esta vai de graça: não vou nunca revelar o esconderijo de vocês. Por John, eu juro.

— Por John? — perguntei confuso.

— É o nome do bebê. Eu não destruiria a casa dele, posso garantir.

— Mas a mãe dele sim? – ironizei.

— Se eu tiver que escolher entre uma mãe e outra...

— Você não poderá entrar — decretei, cedendo por fim. — Terá que esperar do lado de fora. Somos muitos e temos armas. Se você entrar, não poderei garantir sua segurança.

— E como posso acreditar que ninguém fará mal a ela se eu não estiver por perto?

— Acho que você não tem outra opção, não é? – devolvi.

Ele pensou por um segundo e ergueu o corpo dela do chão, depois de recolocar a arma no coldre.

— Então eu acho que vou ter que confiar em você, humano. Vamos no meu carro.

— É, teremos que confiar um no outro e eu terei que voltar à vida na forma de um maldito ganso.

— Quê?

— Nada não. Todos os Buscadores andam em carros assim?

— Não. Eu sempre ando em carros assim – ele disse com um sorriso malicioso demais para uma Alma. – Meu nome é Logan, aliás.

— Jeb – respondi. – O maldito ganso— pensei.