Santuário escrita por Mallagueta Pepper


Capítulo 17
Anjos também choram... e amam




Apesar de a noite estar fria, Ângelo não se incomodou nem um pouco. Ele seguia D. Morte, voando pelo céu sem se importar com o vento gelado e não conseguia conter a curiosidade.

Quando os dois passaram por cima do Santuário, seu rosto se entristeceu. Nina devia estar lá em baixo, talvez dormindo para se recuperar de um dia duro de trabalho. E ele não podia sequer lhe dar um beijo de boa noite. A visão das máquinas que estavam nas imediações do parque também o preocupava. Dentro de pouco tempo, o lar dela seria destruído e aquilo também partia seu coração.

- Os humanos parecem que não tem consciência. O sujeito que está por detrás disso tudo não passa de um cego idiota. Quando ele se der conta, já será muito tarde.

- Eu estou preocupado com os habitantes desse lugar... como eles vão fazer se tudo for destruído?

- Será muito difícil para todos eles e isso poderá trazer grandes problemas para as pessoas também. Engraçado... estou com a ligeira impressão de que existe algo mais aí que te incomoda. Estou errada?

O rosto dele ficou vermelho e D. Morte começou a perceber qual era o problema daquele anjo. Pobre rapaz...

Quando chegaram ao centro da cidade, ela pousou no topo de um prédio e sentou-se na beirada, deixando a foice do seu lado. O rapaz, já com suas roupas normais, sentou-se do lado dela.

Após um tempo sem trocarem nenhuma palavra, ele perguntou.

- D. Morte, anjos choram ou não choram?

- Por que não chorariam? Vocês têm sentimentos com qualquer ser desse universo.

- Mas eu... quer dizer... sempre aprendi que anjos não podem ter emoções humanas...

- Quem foi que decidiu quais sentimentos são humanos e quais são de anjos? Sentimentos são sentimentos, não importando o ser onde eles habitam.

- Não, isso não pode ser...

- Por que não?

Ele respirou fundo e contou todo seu caso para ela, falou do seu amor pela Nina e de como tinha quase se tornado humano por causa daquele sentimento. Ângelo desabafou sua tristeza, suas dúvidas e também sua revolta por causa daquela limitação. D. Morte ouvia tudo sem dizer nenhuma palavra, deixando que o rapaz se desabafasse a vontade.

À medida que falava, Ângelo foi sentindo sua revolta aumentar a ponto de fazê-lo se levantar e andar de um lado para o outro enquanto falava com a voz alterada.

- Por que os humanos podem ter esse sentimento e os anjos não? Por que fomos criados tão limitados? Por que não podemos ter o direito de escolha? Que Deus é esse que favorece uns e não outros?

Ela não respondeu, deixando que ele extravasasse sua revolta.

- Eu cumpro meu trabalho com toda dedicação, dou o meu melhor e gosto de proteger as pessoas! Jamais deixaria de cumprir o meu dever e nada disso parece ter valor! Quando chega a hora de eu ter algo especial, isso me é tirado só porque anjos não podem ter emoções humanas? Isso não é justo! Não é mesmo! Por que eu fui criado com essa limitação? Por que eu não posso amar?

Ele sentia algo dentro de si querendo irromper para fora, como se quisesse desabafar ou gritar toda sua tristeza e revolta.

- Deixe vir, Ângelo. Você precisa disso.

- Mas eu não posso!

- Já está acontecendo.

- O quê?

Ao passar a mão em seu rosto, Ângelo viu que estava molhado e percebeu que várias lágrimas caíam dos seus olhos, deixando-o apavorado.

-N-não! E-eu não posso!

- E por que não?

- Se fizer isso, me tornarei humano!

Por mais que ele tentasse se segurar, as lágrimas teimavam em cair e por fim ele desistiu de lutar, sentou-se no chão e deixou o pranto vir com toda força. E ele chorou toda sua tristeza, frustração e raiva por se sentir tão injustiçado e oprimido, forçado a viver uma vida sem amor apenas porque foi determinado que anjos não podiam ter sentimentos. Chorou porque não agüentava mais ter aquele sentimento dentro de si e não poder expressá-lo. Ele também chorava por medo de perder sua imortalidade e se tornar humano, tornando-se incapaz de proteger as pessoas.

- E agora, D. Morte, o que eu faço? Isso não é justo, que droga! Por que fui criado assim? Por que um anjo não pode amar e ao mesmo tempo ser anjo? Por que só os humanos podem ter esse sentimento e nós não?

Levou vários minutos até que ele se acalmasse e D. Morte pudesse falar, finalmente.

- Parece que você está numa luta contra o Criador.

- Estou sim e isso é ruim! Eu não devia estar questionando as vontades de quem me criou, deveria estar aceitando meu destino sem reclamar e sem questionar. Mas não dá, D. Morte, não dá! Eu não estou conseguindo mais! Droga, acho que foi péssima idéia eu ter provado esse sentimento!

- Por quê? O amor é sempre uma coisa boa!

- Antes de amar, eu vivia tranqüilo. Fazia meu trabalho todos os dias e não esperava nada mais do que a alegria de desempenhar meu dever. Agora eu não consigo lidar com essa frustração, sinto esse vazio no peito, essa coisa desagradável de não poder expressar o que eu sinto! E agora eu estou aqui brigando com Deus, brigando com quem me criou porque já não consigo mais aceitar esse meu destino!

- E qual é o problema disso?

- O problema é que eu deveria aceitar tudo sem questionar. Afinal, estamos falando daquele que criou tudo o que existe, não estamos?

D. Morte levantou e virou-se de costas para ele, contemplando a paisagem urbana. Sem tirar os olhos da paisagem, ela falou para ele.

- “Durante aquela noite, um homem entrou na tenda de Jacó, e lutou com ele até nascer o dia. Vendo que não podia vencê-lo, disse-lhe: ‘deixa-me ir’.
Respondeu Jacó: ‘não te deixarei ir, se não me abençoares.’
Então o homem lhe disse: 'como príncipe, lutaste com Deus. Como te chamas?'
Jacó disse o seu nome, e o homem respondeu: 'doravante te chamarás Israel'.”

Ângelo ficou escutando sem entender nada, embora conhecesse aquela parábola.

- E o que isso quer dizer?

- Às vezes obstáculos e problemas são colocados em nosso caminho. As pessoas não sabem, mas esses obstáculos são na verdade um desafio de Deus para que o enfrentemos.

- Hã? Isso não faz sentido! Por que Ele iria querer isso?

- Porque é a forma dele de nos tirar da inércia, de nos fazer refletir por que nos agarramos a uma vida incompleta, vazia e muitas vezes medíocre. Uns se conformam com essa vida medíocre e seguem do jeito que podem. Já outros, os mais valentes, desafiam esse destino. Então é nesse momento que vem a mudança, como o fogo que não destrói e sim elimina o velho para dar lugar ao novo. Os covardes não deixam que seu coração seja queimado por esse fogo. A única coisa que desejam é que tudo volte a ser como antes.

- Eu já desejei isso algumas vezes... – ele falou isso mais para si mesmo.

- Os valentes, por outro lado, deixam que esse fogo queime aquilo era velho, mesmo que isso cause dor e sofrimento. Eles deixam de lado antigas crenças, hábitos, apegos e formas erradas de pensar nem que isso custe grande sofrimento e uma grande luta contra Deus.

- Mas lutar contra Deus não é errado?

- Não. É basicamente isso que Ele quer: que cada um assuma a responsabilidade pela própria vida, experimente e aprenda por si mesmo ao invés de apenas aceitar tudo sem questionar. É isso que você vem fazendo, não é?

- Eu...

- Quando as pessoas assumem a responsabilidade por suas vidas, aprendem a seguir sua consciência ao invés de trilhar apenas caminhos pré-determinados, é nesse momento que elas voltam para Ele, porque entenderam finalmente que os obstáculos são um desafio, não uma punição.

- E o que isso tem a ver com o meu amor por Nina?

Ela respondeu com outra pergunta.

- Por que você protege as pessoas? O que te motiva a acordar todas as manhãs para fazer seu trabalho?

- Eu sou um anjo, ué! Não foi pra isso que me criaram?

- Apenas isso? Você só protege as pessoas porque é o seu trabalho?

- Mas é a minha missão!

- Missão que você aceitou sem questionar e sem discutir. Missão que agora você desempenha achando que a vida é somente isso, que é o seu único propósito e que nada mais pode ser esperado.

O rapaz abriu a boca e fechou de novo. De onde ela tirava aquelas idéias? Ele nunca tinha ouvido falar de nada parecido. Ainda assim ele tentou se justificar.

- Mas eu gosto de proteger as pessoas!

- Se pudesse realmente escolher, se fosse livre para seguir o que o seu coração deseja de verdade, você ainda faria isso?

Ele ficou pensativo por um tempo. Até então aquilo nunca tinha lhe ocorrido antes.

- Mesmo gostando do que faz, você aceitou sem questionar e faz apenas por achar que esse é seu destino. Só que algo dentro de você parecer se revoltar contra isso.

- Tudo começou desde que comecei a gostar de Nina!

- Porque o sentimento que você teve te despertou, abriu novos horizontes e fez com que sua alma ansiasse por algo a mais. Ao se sentir impedido por suas antigas crenças, você se rebelou achando que estava sendo injustiçado. Mas acontece que não existem injustiças nesse universo. As limitações vêm de dentro de nós, Ângelo. Não de fora.

- Então por que eu quase virei humano?

- Porque quando amamos alguém, às vezes cometemos o erro de perder nossa identidade. Foi o que te aconteceu.

- E o que você sabe sobre o amor? – ele perguntou desconfiado, tentando imaginar como ela sabia daquelas coisas.

Ela virou-se para ele novamente, com um sorriso meio sem jeito.

- Porque eu já gostei de alguém certa vez. Digamos que não foi exatamente amor e sim paixão, mas foi um sentimento.

Mais uma vez ele não conseguiu acreditar.

- Você já gostou de alguém? Como? Quem?

- Já ouviu falar de Cecil B. Desmaio?

- Aquele cineasta que só faz filme sangrento? Sério que você apaixonou por ele?

- Sim. Isso porque eu pensei que ele fosse de um jeito e depois descobri que ele era um babaca que adorava flores, natureza e coisinhas frufrus... blé! Nada a ver comigo!

Apesar do absurdo da situação, ele acabou dando uma risada.

- Eu cheguei a deixar de fazer meu trabalho, fiquei abobalhada e paguei altos micos. Ainda assim foi bom, não me arrependo. Depois eu pequei uma apaixonite pela Cegonha, mas isso não vem ao caso.

Quando se recuperou do susto e conseguiu voltar a falar, ele quis saber.

- E você não virou humana?

- Não, mas acredito que teria virado caso aquilo se prolongasse.

- Porque você se apaixonou...

- Porque, mesmo que por um instante, eu me esqueci de quem sou, perdi um pouco minha identidade. Foi o que te aconteceu.

- Não entendo! Me falaram que foi por causa do sentimento que eu tive por ela... que ao ter esse sentimento eu incorporei matéria e...

- Quem te falou isso?

- Primeiro eu pensei que foi minha consciência, depois eu descobri que foi o Gabriel...

- Afe! Tinha que ser!

- ???

- Deixa eu te contar uma coisa: certa vez, ele falou para o Astronauta que Deus estava insatisfeito com o que o homem fazia com a terra e por isso decidiu criar um universo novo e destruir esse.

- Mas heim? Que absurdo!

- Sim, mas acontece que não era esse o recado que Deus queria que ele desse ao Astronauta.

- Então por que ele falou isso?

- Digamos que Gabriel tem a mania de distorcer um pouco as coisas sob o pretexto de falar de uma forma que as pessoas entendam. Foi o que te aconteceu. Ao invés de gastar tempo com explicações longas, ele deve ter achado mais fácil falar que foi por causa do sentimento. Ou quem sabe... talvez tenha feito com o propósito de colocar esse desafio em seu caminho para te fazer despertar, não sei dizer.

Ângelo levantou-se num pulo só e ficou andando de um lado para outro, tentando entender tudo aquilo. Então ele tinha sido enganado? Não eram seus sentimentos que o faziam deixar de ser anjo?

- Isso ainda não faz sentido! Depois que ele me falou isso, eu recuperei meus poderes!

- Você se lembra de como aconteceu?

- Claro!

- Em algum momento você renunciou o sentimento que tem por ela? Foi nisso que você estava pensando quando recuperou sua forma de anjo?

Ele relembrou aquele dia e as coisas então começaram a fazer sentido.

“Passei todo esse tempo tentando restaurar a memória de Nina... fazer ela lembrar de quem era e quase esqueci de quem eu sou. Um anjo da guarda!” foi o que aconteceu naquele dia e Ângelo entendeu que não tinha se recuperado por ter renunciado do seu sentimento e sim porque recuperou sua identidade. Em momento algum ele tinha escolhido deixar de amá-la.

Ela observava as reações dele com um sorriso maroto. Sim, ele tinha entendido.

- Quer dizer que eu só perdi meus poderes porque tinha esquecido de quem sou e não porque estava amando?

- Exato. Quando esquecemos de quem somos, perdemos nossa força e nos tornamos fracos. E isso acontece com qualquer criatura desse universo não importando sua origem. Pode acontecer com você, comigo e com qualquer outro ser.

O rapaz levou as mãos a cabeça e começou a rir histericamente, como se estivesse colocando para fora toda tensão acumulada por meses.

- Quer dizer que eu posso amar? Eu sou livre para amar? Posso ficar com Nina? Você tem certeza disso?

- O amor é o sentimento que move todo o universo e envolve a todos que vivem nele. Por que uns podem enquanto outros seriam privados?

- E meu dever de anjo da guarda?

- Você quer abrir mão desses deveres?

- Não, eu gosto de proteger as pessoas! Isso faz parte de quem eu sou.

- Você diz isso apenas por achar que foi criado com essa finalidade?

- Agora não! Eu não faço só porque é o meu dever, faço porque gosto! Eu me importo com as pessoas!

- Então você já sente amor, apenas não sabe disso.

O choque foi total.

- Eeeeeu?

- Sim. É o sentimento de amor que te motiva a proteger e guiar as pessoas. Você faz porque se importa com elas. Não é apenas cumprimento do dever, embora você pensasse assim. É algo que faz parte da sua identidade.

- Então...

- Mas nossa identidade não se resume a uma única coisa. Você pode amar uma pessoa em especial sem abrir mão da sua missão de proteger. Contanto que você não deixe que esse sentimento te anule, poderá viver seu amor com essa moça. Não há nada de errado em amar.

- E eu não vou virar humano por causa disso?

- Não. Todos são capazes de amar. Por que o criador privaria os anjos de ter esse sentimento? Acha mesmo que ele criaria seres incompletos e limitados que nunca teriam a chance de provarem esse sentimento?

- Do jeito que você fala, isso realmente não faria sentido! Só não entendo como... er...

- Como a Morte pode saber dessas coisas não é?

- Eu não quero ofender, acontece que...

- A morte, como fim de tudo, não existe. Como eu falei antes, apenas faço a transição das pessoas de uma fase para outra. Nada se acaba, apenas se transforma. Apesar da minha missão e dessa aparência nada amigável, eu tenho sentimentos também, como qualquer ser desse universo.

Ele deu um longo suspiro, sentindo-se mais leve do que uma pluma. Todo o peso do seu coração tinha ido embora, dando lugar a uma sensação gostosa de leveza e liberdade. Pela primeira vez, ele se sentia dono do seu destino, responsável pela sua própria felicidade. E mesmo assim, ele ainda amava o que fazia, queria proteger e servir as pessoas. Só que daquela vez era diferente. Era um desejo real do seu coração, não algo feito só porque era obrigado.

- Nina... eu posso amar Nina!

- Sim. Você pode. Então, o que espera? Vá viver esse amor e seja feliz!

- Eu vou sim!

Antes de alçar vôo, ele ficou um tanto hesitante, pensando se devia ou não fazer aquilo.

- O que foi, Ângelo? Algum problema?

Ao invés de responder, ele foi até ela e lhe deu um grande abraço, deixando-a sem jeito.

- Obrigado, D. Morte! Você é mesmo uma amigona!

Ela acabou relaxando e correspondendo ao abraço, embora aquilo não fizesse seu estilo. De qualquer forma, não tinha mais ninguém olhando.

- De nada, rapaz. Agora vá ser feliz.

- Sem sombra de dúvidas!



Notas finais do capítulo

Digamos que eu tive um certo trabalho para justificar aquela voz que falou com Ângelo na Ed. 46. Não podia deixar aquele fio solto. Espero que tenha conseguido arrumar uma explicação decente para aquela passagem.
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Em parte, esse capítulo foi um pouco baseado no livro O Monte Cinco, de Paulo Coelho. Talvez não seja exatamente um autor que todos admirem, muitos fazem pouco caso, mas tem coisas interessantes nos livros dele. E a passagem desse livro de que eu mais gostei foi quando o personagem principal, que é o profeta Elias, refletiu sobre sua missão e entendeu que temos de ser responsáveis por nossas vidas, fazendo as coisas porque é um desejo real nosso e não porque foi imposto de fora para dentro.
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Digamos que o Ângelo precisava um pouco dessa reflexão.
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Ah, e houve mesmo uma história onde D. Morte se apaixonou por um cineasta chamado Cecil B. Desmaio, que na história era um cineasta que fazia filmes sangrentos e sempre com o nome da Morte no meio. Ela ficou abobalhada, parou de fazer seu trabalho e só ficava suspirando por ele.
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Um dia, ela resolveu se declarar e quando revelou sua verdadeira identidade, o sujeito se borrou todo falando que amava a vida, as criancinhas, pássaros, etc deixando D. Morte muito decepcionada. No fim, enquanto Penadinho tentava consolá-la, ela acabou se apaixonando pela Cegonha.
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Houve também uma história onde o anjo Gabriel fala para o Astronauta que um universo perfeito estava sendo criado e quando isso acontecesse, o universo antigo seria destruído a não ser que os seres humanos mudassem sua forma de tratar o planeta.
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Quando Deus perguntou se ele tinha dado o recado, o anjo respondeu que tinha falado de um jeito que eles entendiam. Aí Deus falou algo mais ou menos assim: Olha lá, Gabriel! Da última vez que eu te pedi para dar um pito no Adão e na Eva, você os expulsou do paraíso!